A importância dos espaços públicos

A sensação de insegurança, o medo de sermos assaltados ou sofrermos algum outro tipo de mal, faz com que nos fechemos para o outro. Apostamos cada vez mais em espaços privados. Condomínios, clubes, associações etc. são algumas das estratégias que criamos e utilizamos para conviver com pessoas, mas evitar os desconhecidos.

Acontece que esse tipo de atitude, embora justificada, leva-nos a conviver apenas com iguais. Ou pelo menos, com pessoas mais parecidas conosco – principalmente no que diz respeito à classe social.

Hoje, as cidades limitam os espaços usados pelas pessoas e as separam, inclusive excluindo algumas delas. 

O movimento de restringir os espaços, torná-los privativos – ainda que se justifique, como eu disse -, traz alguns problemas.

A sociedade contemporânea precisa redescobrir o valor dos espaços públicos. Notamos, hoje, que as cidades de médio e grande portes pouco investem em praças, centros de convivência, áreas públicas de lazer, parquinhos etc.

Os espaços são públicos são lugares de convivência com pessoas diferentes, de classes sociais distintas, de orientações sexuais variadas, outras religiões… Ainda que estar com estranhos possa ser um tanto assustador, esses locais permitem que a diversidade seja valorizada. As diferenças ganhem visibilidade e sejam respeitadas.

É fundamental redescobrirmos quem são os outros. Num tempo em que nos ilhamos em espaços privados e as redes sociais na internet, por meio de seus algoritmos, criam tribos virtuais, os espaços públicos urbanos podem permitir o contato e o aprendizado com o diferente, e essencialmente desenvolver em nós a capacidade de nos sensibilizarmos com as desigualdades e até mesmo com as necessidades do próximo.

Ps. A praça da Catedral, em Maringá, é um exemplo de como os espaços públicos podem ser importantes para as pessoas. 

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Compartilhar o carro: muito mais que uma carona

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Amsterdã incentiva o uso de bicicletas. Outras cidades começam educar os motoristas a dividir espaço no carro com outras pessoas

Quando o Protocolo de Kyoto foi assinado em 1997, havia expectativa de que muita coisa mudasse… Que fossem reduzidas as emissões de gases de efeito estufa, que medidas concretas fossem tomadas pelos governos e que afetariam, inclusive, os hábitos de vida da população. Entretanto, desde então, pouca coisa mudou. Na verdade, alguns problemas se acentuaram, principalmente em função do rápido desenvolvimento e industrialização de economias emergentes, como é o caso da China.

Consequência disso? Hoje, precisaríamos de 1,5 planetas para dar conta de cobrir todos recursos naturais que usamos e resíduos que geramos. O dado é da Global Footprint Network.

De forma prática, algumas cidades têm se esforçado para reduzir a poluição ambiental, o tráfego e congestionamento de veículos. Isso, principalmente nos Estados Unidos, Canadá, Austrália e alguns países da Europa. São casos pontuais, é verdade. Porém, servem de referência por seus projetos de mobilidade mais eficientes.

Amsterdã, na Holanda, talvez seja o exemplo mais conhecido. Por lá, o uso diário de bicicletas é uma realidade para parte significativa da população. Outras cidades também têm feito o mesmo, inclusive com serviços de aluguel de bicicletas. Em Londres, anos atrás foi instituída uma taxa de congestionamento. Uma espécie de pedágio urbano. Em todos esses lugares, o trânsito está fluindo mais e o, que realmente importa, melhorou a qualidade do ar.

Na Europa, há cerca de 20 anos, crescem os investimentos no transporte público. Por lá, há nítida percepção que a população deixa o carro em casa quando tem um serviço de transporte público que respeita o usuário. Isso inclui bons ônibus, também agilidade no atendimento, rapidez nos trajetos e tarifas populares.

Mas uma medida que tem sido bastante incentivada, e que ainda não havia destacado aqui no blog, é o uso compartilhado dos veículos. Deixa eu explicar… Quando o trânsito está lento ou há  congestionamento, observe!!! Olhe para os carros. O que você vê? O tráfego intenso que desgasta, cansa é também lugar do individualismo. A maioria dos carros parados no trânsito tem apenas um passageiro, o condutor.

Por isso mesmo, governos, empresas e instituições têm orientado à população a compartilhar assentos dos automóveis. A ênfase é nas vantagens: economia de combustível, transporte mais eficiente (em função da redução de carros nas ruas) e os benefícios ambientais. Como nem sempre só o discurso educativo é capaz de mudar hábitos, algumas cidades estabeleceram restrições, por outro lado, compensando quem leva pelo menos três passageiros – até com a criação de faixas exclusivas para esses veículos em determinados horários do dia.

Na verdade, nesse momento da história em que as tecnologias digitais estão a disposição de todos nós, há possibilidade de se apropriar e até criar ferramentas que viabilizem um sistema mais eficaz de transporte, inclusive com serviços que permitam a criação de comunidades online para o uso compartilhado dos veículos.

Na Europa, por exemplo, já existem plataformas nas quais as pessoas podem se cadastrar e, a partir disso, dividir trajetos com outras pessoas. Ali é possível ofertar assentos vazios, informando a hora da “viagem”, o custo etc. E por meio de pontuações e histórico de comentários, dá para identificar quem é confiável e quem não é. Assim, na hora de ir para o trabalho, para a universidade e até para o médico, a pessoa divide o carro, paga menos e contribui para um trânsito melhor.

Bem, lá fora essas coisas começam a funcionar. E por aqui quando vai acontecer?

Um futuro sem carros?

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Como serão nossas cidades daqui dez ou quinze anos? Na Europa, já há quem aposte que a circulação de carros estará proibida nos centros das cidades. Acredita-se que serão permitidos apenas o transporte público, os veículos elétricos, as bicicletas e, claro, andar a pé.

Na verdade, nos centros mais desenvolvidos, já existe o reconhecimento de que o problema não é apenas o tráfego intenso que estressa, irrita e causa tantos transtornos. Entende-se que o problema vai além disso. A questão está no ar que respiramos. A quantidade de carros em circulação tem comprometido a qualidade do ar.

Contribuímos impunemente todos os dias para tornar o ar irrespirável. Alguns estudos já apontam que em países como a Espanha 95% da população respiram ar contaminado. Anualmente, cerca de 20 mil pessoas têm morte prematura em função da contaminação atmosférica.

O que dizer do aquecimento global? O mês de setembro, por exemplo, foi o mais quente desde 1880. O planeta está pedindo socorro. Ah… e o uso de carros contribui para o aumento das temperaturas.

E os avanços são tímidos, porque nem mesmo o pedágio urbano de Londres, as ciclovias ou as ruas exclusivas para pedestres são suficientes para conscientizar-nos das consequências do uso diário do carro. A gente senta atrás do volante e não quer saber de mais nada. Não está interessado em nada além do nosso conforto.

Isso mostra que há necessidade de radicalizar as propostas. Hamburgo é a primeira cidade que está levando o assunto a sério. Por lá, o plano é tirar todos os carros das ruas em 20 anos. Já a cidade de Tallinn, capital da Estônia, oferece transporte público de graça para a população.

Entretanto, pelo menos no Brasil, deve demorar um pouco mais para serem tomadas medidas enérgicas a fim de melhorar o trânsito e, principalmente, a qualidade do ar. Nossos políticos seguem apegados ao atraso. E as motivações políticas ainda falam mais alto. Eles não têm a determinação necessária para enfrentar questões como essas. Quanto a nós, ainda não estamos maduros para reconhecer que o conforto do carro mascara nosso egoísmo. Falta comprometimento com o bem comum.

De volta pro meu aconchego…

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Eu sempre me encanto com gente que tenta fazer diferente, viver de uma forma nova, ousada… Gente que contraria os padrões atuais. Na verdade, quando falo em “padrões atuais”, me refiro a um modo de vida. E, pelo menos no ocidente, pensamos a vida a partir de algumas premissas básicas. Entre elas, ter um bom emprego, um bom carro, casa boa, equipamentos elétricos e eletrônicos que minimizem nossos esforços…

Também somos facilmente pegos pelo discurso da qualidade de vida. Mas uma qualidade de vida que se confunde com a ideia de possibilidades de consumo. Ter qualidade de vida parece ser o mesmo que ter poder de compra. Então quem pode comprar o que deseja, vive bem e é feliz.

Dias atrás, inclusive, discutia com meu filho sobre esse assunto e ele sustentava a tese de que o desejo por ter coisas foi criado pelo capitalismo e não há como escapar disso. Nos argumentos dele, não dá para se sentir bem nessa sociedade se a gente não possui coisas, não goza a vida a partir de coisas que o dinheiro pode comprar.

E imagine a situação: se alguém conhecido troca de emprego para trabalhar menos horas por dia, mas ganhando metade do que ganha, o que dizemos dessa pessoa?

E se a pessoa deixa a cidade, o emprego, a casa boa e vai morar no campo? Sim, numa pequena propriedade, sem moradia, sem estrutura alguma?

Pois é. Pouca gente teria disposição de fazer isso. Parece loucura, né? Na cidade, trabalhar menos ganhando menos, parece coisa de quem é folgado. Deixar a cidade pra viver “no mato”, seria coisa de doido.

Entretanto, tem uns “doidos” por aí que estão abrindo mão da vida da cidade pela simplicidade do campo. Mais que isso, ao saírem do “conforto” da cidade estão ganhando saúde, paz, alegria.

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O espanhol Lucho Iglesias é uma dessas figuras. Há quase 15 anos, achou um cantinho perdido na beira de um rio, um pedaço de terra praticamente abandonado, tomado por laranjeiras e cana, e transformou esse espaço em um lar. Sem nenhum luxo. Tem construído tudo com as próprias mãos. Trabalha doze, treze horas por dia. Vive a utopia de uma harmonia com a natureza. E não troca seu cantinho por nada nesse mundo.

As cidades têm nos consumido, roubado nosso tempo, tirado nossa saúde, nos afastado das pessoas. Por isso, com 44 anos, Lucho diz que reúne ali na sua pequena propriedade todas as ferramentas para construir o seu paraíso. O espanhol e a esposa plantam a própria comida. Da terra, eles tiram amêndoas, damascos, peras, figos, azeitonas… Tem as laranjeiras, a cana…

Longe da loucura da cidade grande, o casal tem o que precisa para viver. E, firme em sua utopia, acredita que a busca por esse modo de vida deve crescer ao longo dos próximos anos. Para ele, esse é o jeito do homem viver de bem com a natureza e consigo mesmo. Estar na terra, portanto, seria uma forma do humano reencontrar suas origens.

PS – Lucho Iglesias produziu anos atrás um documentário no qual propõe uma reflexão sobre esse modo de vida.

Sustentabilidade: o Brasil precisa passar do discurso à prática

FOTO: LAURENT REBOURS (AP) - REPRODUÇÃO DE EL PAÍS
FOTO: LAURENT REBOURS (AP) – REPRODUÇÃO DE EL PAÍS

Quando o assunto é mobilidade urbana, o Brasil segue muito atrasado. O incentivo ao uso dos carros passa, inclusive, pelo próprio poder público. As cidades são pensadas para privilegiar os veículos. E, recentemente, durante a política de redução de impostos promovida pelo governo para não permitir o desaquecimento da economia, o setor automobilístico foi um dos mais beneficiados.

Enquanto isso, na Europa, os carros ganham status de vilões do meio ambiente. Todo projeto de sustentabilidade que se discute por lá prevê menos veículos nas ruas (por aqui, o povo briga quando são reduzidas vagas de estacionamento pra carro e ninguém luta por bicicletários). A França, por exemplo, está muito empenhada em fazer uma transição energética. Não se tratam de projetos pontuais, mas sim para toda a nação. O governo de François Hollande está determinado em viabilizar a proposta e já recebeu sinal verde do Legislativo francês para promover uma grande mudança no país.

A lei em discussão prevê medidas de curto, médio e longo prazo. A meta é tornar a França campeã ecológica na Europa até 2050. Entre as principais medidas estão incentivos para as empresas que motivarem os funcionários a usar bicicletas. Cada quilômetro rodado de magrela vira dinheiro no bolso do trabalhador. E a empresa ganha benefícios fiscais.

Além disso, as companhias com mais de 100 funcionários deverão apresentar um plano de transporte para sua equipe envolvendo transporte coletivo, carros compartilhados e uso das bicicletas.

Paris é a cidade mais empenhada no projeto. A capital ganha cada vez mais espaços para os veículos de duas rodas. Também estão sendo instaladas milhares de “tomadas” para atender veículos elétricos.

O francês que for trocar o carro a diesel por um elétrico também ganha uma espécie de prêmio – bônus. E o poder público também faz sua parte. Na renovação da frota, para cada dois veículos comprados, um deve ser elétrico.

Entretanto, o “pacote ecológico” não tem apenas medidas visando reduzir a poluição e melhorar o trânsito. Também saem de cena as sacolas plásticas descartáveis, os pratos e talheres do mesmo material. E como o objetivo é promover uma transição na matriz energética, edifícios devem ser reformados visando reduzir o consumo de energia de lâmpadas e equipamentos de ar condicionado. Quem for fazer a reforma, recebe incentivos fiscais e pode fazer empréstimos com juros subsidiados.

Coisa boa, né? Pois bem… É desse tipo de avanço que a gente precisa. No Brasil, um debate político sério também deveria contemplar projetos ambiciosos dessa natureza. Entretanto, por aqui, nossos supostos representantes ainda carecem de maturidade para fazer o enfrentamento de temas mais complexos. E a sociedade, por sua vez, está acomodada e é só quer saber de mudanças que, na verdade, não mudam nada.

É preciso mostrar que é feliz

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Não basta ser feliz; é preciso ser feliz na internet. As pessoas precisam mostrar que estão felizes. Publicizar a felicidade.

Ganhou flores do namorado? Publica no Facebook.
Tirou 10 na faculdade? Publica no Facebook.
Terminou o mestrado? Publica no Facebook.
O marido fez o almoço de domingo? Publica no Facebook.
Saiu para uma festa? Publica no Facebook.

A rede é mesmo pra socializar, mas será que não estamos exagerando um pouco?

Não existe mais vida privada. Tudo virou notícia. Dia desses, vi uma pessoa escrevendo “a rede social é minha, publico o que eu quiser”. Ela tem razão. Mas o que explica isso? Por que as pessoas estão agindo assim? Pra mim, só tem uma explicação: carência! Necessidade de se mostrar feliz.

As pessoas querem as curtidas, os comentários…

Em tempos de internet, redes sociais e programas do tipo Big Brother, a carência é tanta que tudo se tornou público. Pior, exige-se a publicação. O marido não pode mais dizer pra esposa “te amo”. Ela quer que ele publique a declaração na rede social. Todo mundo tem que ver que ela é amada. Falar pessoalmente, olho no olho, parece não ter muita graça. E se o marido da amiga fez mais bonito, conquistou mais curtidas… o coitado está enrolado. A atitude dele perde valor… A esposa fica frustrada.

No passado, a gente fazia fotos… Guardava pra gente e pra família, algumas poucas pessoas próximas que gozavam de nossa intimidade. Havia frustração sim, carência… Mas havia a capacidade de sublimar as faltas e celebrar a vida com as pessoas que realmente se importavam com a gente. A gente se sentia realizado com a própria dinâmica da vida. Tinha a família por perto, amigos com quem dividir momentos felizes e tristes. Os abraços tocavam de verdade, os beijos eram sentidos…

Parece-me que cada vez que essas pessoas contam suas intimidades na rede estão dizendo:

– Não tenho com quem conversar.

Estão falando:

– Ei, você aí… pode me dar sua atenção?

Sabe, cada pessoa tem direito de administrar o Facebook (e demais redes pessoais) da forma que quiser. No entanto, é um sentimento pequeno demais tornar-se dependente de exibir na rede os movimentos da própria vida para se sentir gente. Talvez seja necessário redescobrirmos as relações reais – aquelas com toque, gosto, cheiro… sorrisos e lágrimas, que não são apenas “caretinhas” criadas pela combinação de códigos de uma máquina.

Brasil mata ecologistas

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Este é o número: 448. Entre 2002 e 2013, 448 ecologistas foram assassinados no Brasil. Esse dado assustador está no relatório da ONG Global Witness que, parece, foi ignorado pela grande imprensa nacional. E também pelos políticos – inclusive de oposição (pelo menos até o momento, né).

Preocupados em falar dos “erros” da equipe econômica do governo petista, dos problemas da Petrobras e do deputado André Vargas, assuntos tão ou mais relevantes são silenciados. Talvez porque a morte de ecologistas não importe. Afinal, o Brasil amazônico nem parece coisa nossa. Ou quem sabe, falar de ecologistas mortos não atraia leitores. Nem votos.

O número se torna ainda mais expressivo quando a gente descobre que, nesse mesmo período, morreram 908 ecologistas no mundo. Isso significa que nosso país responde por quase metade dos assassinatos. E, no Brasil, quase sempre morrem nas mãos de grileiros e de poderosos que querem se apropriar de terras, de recursos naturais. As vítimas são defensores dos direitos humanos, gente que defende o direito à terra. Tudo que querem é deter o avanço de megaprojetos que destroem o meio ambiente e roubam suas fontes de sobrevivência. Conforme aponta a Global Witness, quase sempre pertencem às populações indígenas ou minorias que vivem em cidadelas ou aldeias no meio da mata.

Por acontecer em regiões esquecidas, longe do olhar das autoridades, a violência segue a escalada e nada se faz. A impunidade se perpetua. Desse universo de 908 mortes, apenas dez pessoas foram julgadas e condenadas. E as outras? Seguem livres. Muitas vezes prestigiadas como “pessoas de bem”.

Segundo a ONG, os assassinatos são apenas a ponta do iceberg. Há muita violência. Desde violência física até psicológica – com ameaças, terror contra famílias… Isso não aparece nos dados oficiais fornecidos pelos governos para a Global Witness. Os papeis silenciam o medo, a insegurança das vítimas. Mesmo as autoridades sabendo que os assassinatos quase sempre caminhem juntos com a devastação da floresta. Onde há luta por recursos naturais, há mortes. Pena que quase ninguém se importe.

PS- Vale acrescentar que, após quatro anos de queda, o desmatamento voltou a aumentar em 2013. O crescimento foi de 28%.

Cidades sustentáveis

As ruas do centro de Estrasburgo (França) funcionam como um calçadão; não há espaço para carros
As ruas centrais de Estrasburgo funcionam como calçadões. Não há lugar para os carros

Imagine o seguinte quadro… Você sai de casa de bicicleta. Percorre algumas quadras. Não precisa disputar espaço com carros, caminhões ou motocicletas. Chega num bicicletário, guarda a magrela. Logo ali tem um ponto de ônibus. O ônibus tem ar condicionado, é confortável e, o melhor de tudo, é rápido. Deixa você a três quadras do trabalho em dez minutos. Você desce, caminha por uma calçada ampla. Não há carros por ali. Apenas pedestres. Embora more a cerca de dez quilômetros do emprego, você usou três sistemas de transporte, mas não demorou mais que 30 minutos.

O quadro acima não é utopia. Já é uma realidade em várias cidades do mundo. Por exemplo, nesta semana (dia 28/3), em Bruxelas, três cidades europeias – Vitoria e Rivas-Vaciamadrid (Espanha), e Estrasburgo (França) – disputam o prêmio de melhor plano de intermobilidade. Elas possuem modelos que integram diferentes sistemas de transporte. E o foco é um só: sustentabilidade. (Veja o vídeo abaixo).

A palavra que está na moda, inclusive aqui no Brasil, por lá representa uma prática. As pessoas são desestimuladas a usar o carro. Não vale a pena. Os governos apertam o cerco contra quem quer circular de carro, mas oferecem contrapartida (não apenas eliminam estacionamentos e saem alardeando a necessidade de se usar ônibus sem oferecer nenhuma melhora no sistema).

Em Rivas (Espanha), a prefeitura acertou com o consórcio regional de transportes uma mudança significativa no sistema. Hoje, existem menos pontos de ônibus. As pessoas precisam andar mais, é verdade. Entretanto, com menos paradas, o transporte ganhou agilidade. Para garantir que os usuários não tivessem que andar tanto a pé, foi criado um sistema público de aluguel de bicicletas. Há vários pontos para locação. E a cidade apostou numa rede de vias para pedestres. O veículo é desestimulado. A lógica que norteia as ações do município é uma só: gastar com ruas e avenidas para circulação de carros é insustentável; beneficia poucos e custa caro. Ou seja, não vale a pena.

Em Vitória (Espanha), a administração municipal tem uma meta: garantir que o espaço público seja ocupado pelos pedestres, não por carros. O plano é ousado. Muito. Permitir que as vias públicas sejam ocupadas, no máximo, em 20% por carros (até 2050, esse índice é de 10%). Para isso, os estacionamentos ficaram muito mais caros. A velocidade máxima permitida é de 30km/h. Como contrapartida, o poder público já construiu 120 quilômetros de ciclovias (a proposta é chegar aos 150). O sistema de transporte coletivo também foi otimizado. Há menos linhas, mas ganhou em agilidade. Em cerca de 10 minutos é possível atravessar a cidade. Curiosamente, até a bicicleta sofre restrições. Certos pontos permitem apenas a circulação de pedestres.

No transporte coletivo de Estrasburgo, há lugar para bicicletas. É a integração plena

Sobre Estrasburgo, outra finalista do prêmio de mobilidade, nem é preciso falar. Há anos é uma referência mundial. Os espaços são muito bem definidos para pedestres (ruas e avenidas que servem apenas como passeio público), bicicletas, carros e tram (um veículo leve que funciona sobre trilhos – uma espécie de substituto do bonde). Para se ter uma ideia, o incentivo aos modelos alternativos é tanto que são quatro vagas de estacionamento para bicicleta para cada vaga de estacionamento para carro.

Num dos meus textos anteriores, ao falar sobre nossa mentalidade provinciana, ressaltei que antes do desenvolvimento econômico, a mudança começa pelo nosso jeito de ser e pensar. Nós, brasileiros, queremos carro, andar de carro. O carro é quase uma extensão nossa. Brigamos por mais investimentos nas vias públicas a fim de contemplar a fluidez e vagas de estacionamento para carros. Em Maringá, por exemplo, os comerciantes criaram uma celeuma em função de uma pobre ciclovia que seria construída no canteiro da principal avenida da cidade. A prefeitura fez um projeto porco, questionável… tudo às pressas (neste momento, tudo empacado).

Nas cidades-modelo em sistemas sustentáveis de transportes, planejamento é palavra de ordem (mas não demora décadas para sair). Nada é feito por acaso. E na medida que se restringe o carro, outros serviços são implantados, melhorados. Claro, quem promove mudanças, enfrenta resistências iniciais. Existem hábitos, costumes arraigados. Por isso, há necessidade de um amplo programa educativo. É preciso mudar a cultura. Pode parecer utópico, mas quando os objetivos são claros (e nobres), as ações transparentes, é possível construir uma nova realidade.