A sociedade está menos tolerante à corrupção

Uma pesquisa realizada pelo Ibope em São Paulo mostrou que oito em cada dez paulistanos consideram inadmissível um político envolvido com corrupção. Só esse número renderia uma série de reflexões. E embora eu não vá discutir todos os pontos aqui, já menciono um primeiro aspecto que a gente costuma ignorar: ainda que 8 de cada 10 paulistanos considerem inadmissível um político envolvido com corrupção, vale dizer que 2 de cada 10 parecem não se importar muito com isso. Teoricamente, uma sociedade pautada pela ética, não deveria tolerar a corrupção em hipótese alguma.

A pesquisa mostra que, se levarmos em conta essa minoria, os dois que faltam para o 10 da “tolerância zero” contra a corrupção, dá para eleger muitos corruptos ainda não julgados, né? E basta dar uma olhadinha no noticiário para notar que políticos suspeitos de corrupção seguem sendo eleitos.

Vejamos… Tendo Brasília como referência, o número de políticos envolvidos com corrupção tem diminuído. Para se ter uma ideia, até 2018, dos 81 senadores brasileiros, 42 eram investigados e respondiam a acusações criminais no Supremo Tribunal Federal, o STF. Com a eleição, em 2019, esse número caiu para 25. Entretanto, isso significa que temos quase um terço do Senado sob a mira da Justiça.

Na Câmara Federal, a situação é semelhante. Dos 513 parlamentares, 93 são suspeitos de crime. Porém, na Legislatura que encerrou em 2018, 178 deputados eram investigados pela Justiça.

Ou seja, o Brasil tem avançado no combate à corrupção. E a eleição tem sido um instrumento importante para tirar os corruptos da política. Porém, ainda existe certa tolerância de parte da população brasileira. Como mencionei, os números mostram isso. E a pesquisa realizada em São Paulo também.

O que a pesquisa não mostra é que, mesmo entre esses 8 que não aceitam políticos envolvidos com a corrupção, quando se trata daquele político de estimação, daquele que o cidadão cultua, os crimes são ignorados. Temos visto isso se repetir no Congresso Nacional, como mencionei, e também nas legislaturas estaduais, municipais e na composição dos quadros do executivo municipal, estadual e federal – até membros da família presidencial são investigados.

Concluo dizendo que há motivos para comemorar: estamos avançando no combate à corrupção. Isso é positivo. Mas ainda há muito por fazer. Se desejamos mudar de fato o Brasil, não pode haver margem para tolerância.

O STF e a liberdade religiosa

Ouça o podcast!

O Supremo Tribunal Federal fez justiça ao julgar os casos que envolvendo dois adventistas. E digo isso não apenas como cristão adventista que sou, mas como um pesquisador que defende a liberdade dos cidadãos em suas mais diferentes vertentes. A liberdade é uma premissa bíblica. E um país que respeita seu povo é um país que respeita liberdade de expressão, a liberdade de manifestação, a liberdade de culto, a liberdade da prática religiosa. E a guarda específica de um dia da semana é parte dessas liberdades…

Ao longo dos últimos anos, o STF tem dado exemplo ao proteger as liberdades dos cidadãos . E confirmou isso no julgamento desta semana que fez valer o direito de adventistas não trabalharem no sábado e realizarem concurso público em dias alternativos ao sábado.

Na verdade, esse cuidado com os cidadãos sequer deveria ter chegado ao STF. Bastaria que o discurso de respeito ao outro, as diversidades, às minorias fosse, de fato, praticado em todas as instâncias públicas privadas e em nossas relações.

Curiosamente, muita gente ataca os direitos dados as minorias até que se descobre também parte do que, conceitualmente, chamamos de minorias. Cristãos ou outros religiosos que possuem um dia de guarda, por exemplo, também são minorias. E o STF cumpriu seu papel de respeitar um público que age e tem hábitos diferentes de boa parte da sociedade.

A corrupção é exaltada entre os homens

O que você sente quando olha para os homens que estão no poder? Os homens que comandam prefeituras, câmaras de vereadores, governos estaduais, o congresso nacional, o governo federal… ministros do Supremo… O que você sente? 

Preciso confessar que me sinto incomodado. Parece que nada atinge essa gente. Eles continuam desfilando poderosos, mesmo com denúncias que se acumulam ou até provas que são reveladas diante das câmeras. É currículo mentiroso, mas mesmo assim a pessoa ganha uma vaga de ministro; é dinheiro na cueca, mas mesmo assim o sujeito não perde o mandato… E, claro, estou aqui citando apenas alguns fatos recentes, midiáticos, que todo mundo lembra. Porém, o histórico de muitos desses homens que está no poder é sujo ou, no mínimo, questionável. Mas essas pessoas seguem tranquilas. Até sofrem denúncias, às vezes, mas nada acontece com elas. 

No Salmo 12, verso 8, nós lemos: “Os ímpios andam altivos por toda parte, quando a corrupção é exaltada entre os homens”. 

Sabe qual é o grande problema da impunidade em relação aos homens que estão no poder? É que toda a sociedade passa a ter a sensação de que a corrupção vale a pena, de que fazer o errado é a melhor estratégia. Ficamos com a impressão que não vale a pena ser honesto. Isso faz, como diz o salmista, os ímpios andarem altivos por toda a parte. Os homens ímpios sentem-se garantidos, seguros, intocáveis… E olham para as pessoas honestas como se os honestos não passassem de bobos, de tolos. 

Mas a Bíblia traz uma palavra de esperança: os olhos do Senhor observam tudo e Ele fará justiça! Hoje, eu e você, talvez nos sintamos mal com tudo que vemos. E, por isso, sentimos vontade de gritar, despejar nossa raiva nas redes sociais. Mas me parece que a melhor estratégia ainda é a ensinada por Davi nos Salmos: quando vemos os ímpios altivos, quando notamos a corrupção sendo exaltada pelos homens, devemos falar com Deus. É com Ele que desabafamos.

Lembre-se, nossos gritos para o mundo devem ser para apontar que a salvação vem apenas do Senhor. 

Isso não significa passividade. Devemos nos manter alertas e, principalmente, também sustentarmos uma conduta ética, honesta em nossas práticas cotidianas – inclusive escolhendo como nossos representantes políticos aquelas pessoas que possuem as credenciais necessárias para nos representar de maneira digna no Legislativo e no Executivo.

O incendiário Donald Trump e o líder pacificador

A reta final das eleições nos Estados Unidos mostra as consequências de uma liderança que se vale da truculência, da agressividade verbal e das acusações sem provas para se manter no poder. O efeito é visto nas ruas. Milhares de pessoas duvidam do processo eleitoral e, sem (re)conhecerem o inimigo, elegem como adversário qualquer um que não esteja ao lado delas.

O líder deve compreender que influencia as pessoas. Aquilo que o líder fala mobiliza, motiva! O líder lidera. Por isso, líderes devem ser homens que compreendem a influência que possuem e agem de acordo com o lugar que ocupam.

Desde a filosofia clássica grega até os livros contemporâneos sobre liderança, notamos que espera-se do líder comportamentos e atitudes que inspirem, tendo como referência o bom senso, a ponderação, a flexibilidade, a habilidade de agregar.

Desde 2016, Donald Trump tem optado por dividir, separar, polarizar. Ao esbravejar, denunciar sem provas, se dizer roubado nas eleições, Trump incendeia o país. Ele mobiliza seus seguidores mais radicais e coloca a nação em risco. Coloca a democracia em risco.

O que homens como Trump parecem desconsiderar é que enquanto esbravejam na segurança de seus palácios, pessoas vão para as ruas e colocam suas vidas em risco. Pessoas inocentes podem ser feridas, mortas.

Ressalto, ainda que houvesse de fato uma conspiração contra Trump, tanto ele quanto os supostos conspiradores estão protegidos. As únicas pessoas reais que se machucam, que se ferem, são as pessoas comuns, os cidadãos que trabalham, que têm suas famílias em casa, que colocam a vida em risco para brigar por algo que talvez não passe de uma mentira elaborada por alguém que não quer abrir mão do poder.

Nas ruas (e até nas redes sociais), onde os embates acontecem, não existem “nós e eles”; existe apenas o “nós”, um mesmo povo – que se divide apenas pela linha imaginária criada por um discurso que promove a polarização e incita o ódio.

Há um princípio bíblico que os líderes não poderiam perder de vista – tampouco as pessoas, quando escolhem seus representantes. Cristo diz: bem-aventurado são os pacificadores. Cristo também fala da mansidão e da humildade.

O mundo precisa de homens pacificadores, mansos, humildes. Homens que inspirem atitudes que tornem a convivência melhor, que respeitem as pessoas que são diferentes, que amem seus inimigos… O mundo não precisa apenas de líderes que falem em nome de Cristo. O mundo precisa de líderes que vivam os ensinamentos do Cristo.

Quais contradições as aulas online revelam?

A pandemia mudou a rotina de alunos e professores. Escolas, colégios e faculdades abandonaram suas práticas tradicionais e tiveram que adotar tecnologias digitais para manter a rotina do ensino e da aprendizagem. Tenho defendido esse modelo e entendo que, apesar de inúmeras falhas, trata-se de uma oportunidade de crescimento para alunos, professores e para todo o sistema educacional brasileiro – que é arcaico, devemos reconhecer.

Por outro lado, a experiência do ensino remoto tem revelado pelo menos dois graves problemas: a estrutura deficiente da oferta de internet banda larga e a ausência de acesso – que podemos chamar de exclusão digital – por milhares de crianças, jovens e adultos.

Os serviços de internet no Brasil são horríveis. Paga-se caro para ter pouco, muito pouco. Compra-se um determinado pacote de serviços e recebe-se outro. Chega a ser ridículo. E criminoso. Se o país fosse realmente sério, todas as operadoras de telefonia seriam constantemente punidas.

Em cinco meses de aulas online, não tive um único aluno que, em algum momento, não sofreu com a instabilidade da internet, conexão lenta ou a interrupção do serviço. Eu já tive aulas comprometidas pela falta de internet. A velocidade raramente chega próxima do que foi contratado e é pago pelo usuário. E essa é a realidade que as pessoas que têm experimentado no ensino online ou trabalhando em home office. O Brasil carece de investimentos volumosos para dar conta da demanda de serviços de internet. Esse problema estrutural compromete o desenvolvimento do país e o impede de competir com as principais potências econômicas. Ou seja, o gargalo da internet não afeta apenas a educação; vai muito além de falhas de conexão, aulas interrompidas, imagens e áudios travados etc. Curiosamente, não recordo de algum governo ter apresentado um plano, alguma política pública para mudar esse cenário.

Quanto à exclusão digital, o que nota-se é o aprofundamento das desigualdades. E estas se revelam de diferentes formas. Ainda esta semana, conversando com uma aluna que havia se ausentado nas duas últimas aulas, soube que está sem internet. Para ter acesso a alguns conteúdos, ela sai de casa, vai até um mercadinho do bairro, “rouba” o sinal de internet para baixar alguns textos, vídeos etc. Como faz isso de forma improvisada, nem sempre tem sucesso em todos os downloads.

Mas essa aluna não é a única que sofre os efeitos desse tipo de exclusão. Mesmo sendo professor de uma faculdade particular, poderia relatar casos de acadêmicos que foram obrigados a trancar os cursos por não possuírem um computador ou pelo menos um smartphone de qualidade razoável que permitisse acompanhar as aulas e fazer as atividades propostas pelos professores. Agora, pense, como um aluno faz uma resenha ou resumo de três ou quatro páginas digitando no celular? É possível? Sim. Mas a tarefa se torna extremamente pesarosa, desgastante.

Num Brasil de outras tantas contradições, o ensino remoto confirma e reproduz as exclusões e aponta para carências de investimento que o Estado parece incapaz de responder. Em algum momento será diferente? Talvez, mas não durante a pandemia. Sobre o depois, espero que os desafios enfrentados neste período sirvam de lição e nos motivem a discutir os problemas reais do país; que sejamos capazes de deixar em segundo plano bandeiras vazias e olhemos para o que, de fato, impede o desenvolvimento e a justiça social.

O que Deus diria ao povo hoje?

Sempre que posso, começo o dia refletindo em algum trecho bíblico. Hoje, me deparei com Isaías, capítulo 1, versos 15-17. Diz assim:

“Quando vocês estenderem as mãos em oração, esconderei de vocês os meus olhos; mesmo que multipliquem as suas orações, não as escutarei! As suas mãos estão cheias de sangue! Lavem-se! Limpem-se” Removam suas mãos obras para longe da minha vista! Parem de fazer o mal, aprendam a fazer o bem! Busquem a justiça, acabem com a opressão. Lutem pelos direitos do órfão, defendam a causa da viúva”.

Eu não sei o efeito que esses versos têm sobre você. Tampouco o que podem significar pra você. Entretanto, eles são as palavras do próprio Deus reproduzidas pelo profeta Isaías.

Nesses versos, Deus fala sobre seu desagrado com as pessoas. Ele é categórico: não vou ouvir a oração de vocês; podem orar mais, falar mais, mas não vou ouvir e nem ver vocês. E qual a razão? As mãos do povo estão cheias de sangue.

Do que Deus estaria falando? Quando conhecemos o contexto do capítulo 1, compreendemos que o povo estava agindo mal, era negligente com os pobres, desprezava os mais fracos, era insensível com o sofrimento dos humildes. Porém, esse mesmo povo mantinha uma prática religiosa exuberante. Ia ao templo, fazia sacrifícios, orava com as mãos estendidas… Ou seja, parecia um povo devoto a Deus, porém, tinha um coração impiedoso. Tinha sangue nas mãos.
Ler esses versos me faz olhar para o mundo em que vivemos…

Quem seriam os órfãos e as viúvas do século 21?

Olho para mim e ao meu redor e observo uma sociedade que também é insensível, cruel com as minorias, com fracos e oprimidos. Uma sociedade em que poderosos gritam, ofendem, enquanto anônimos morrem. Eles têm sangue nas mãos.

Muitas dessas pessoas falam o nome de Deus, e dizem falar em nome de Deus, que dizem colocar Deus acima de tudo, mas têm nas mãos o sangue de pessoas inocentes, vítimas de doenças, vítimas de fome, vítimas do preconceito…

Parece-me que para elas Deus segue dizendo: “Quando vocês estenderem as mãos em oração, esconderei de vocês os meus olhos; mesmo que multipliquem as suas orações, não as escutarei! As suas mãos estão cheias de sangue”.

O que alimenta minha esperança, é que esse Deus ainda é misericordioso. Ele segue alertando: “Lavem-se” Limpem-se!”.

Estaremos atentos para ouvi-Lo?

Paulo Freire é inimigo do Brasil?

Pelo menos para parcela da elite política brasileira, Paulo Freire é sim um inimigo do Brasil. O autor deveria ser banido nas salas de aula. Não poderia ser utilizado em hipótese alguma como inspiração de práticas educacionais. Mas por que isso acontece?

Falo sobre isso neste vídeo!

Apresento algumas ideias do autor e, em seguida, listo as três principais razões que motivam a perseguição a Paulo Freire.