De que lado você está?

Chega a ser admirável a postura de algumas pessoas que assumem a defesa de políticos. Agem como advogados, tomando as dores e atacando quem questiona o governante.

Quase todos os dias, recebo textos, vídeos e mensagens de outros gêneros que têm como objetivo tentar desconstruir as críticas recebidas pelo seu político favorito. Confesso que essas mensagens me irritam. Não pelo político, mas pela ingenuidade das pessoas.

Já disse aqui e volto a repetir, político nenhum está do nosso lado. Eles fazem parte de outro mundo. Possuem dezenas de assessores, ganham milhares de reais, recebem dinheiro nosso para ter e usar o telefone, andar de avião, possuem carros oficiais, motoristas, não enfrentam fila nos postos de saúde, os filhos frequentam as melhores escolas e, em alguns casos, têm até carreira política garantida pelo pai… Enfim, político tem casa, comida e roupa lavada. Eles estão num universo paralelo. Não são gente como a gente.

Todo o cidadão deveria estar sempre no campo oposto ao dos políticos. A gente escolhe o menos pior, vota e assume o papel que nos cabe: fiscalizadores críticos.

Político que tem defensores entre o próprio povo usa isso para fazer jogo de cena, separando os grupos – como se existisse gente do bem e gente do mal. E ao separar as pessoas, tira do povo a sua única força – a de pressionar o governante.

Numa sociedade, os grupos que existem são outros: os que estão no poder e os que estão fora do poder.

Como povo, eu estou fora do poder. Então não importa a cor do político, o partido do político. Ele está no poder. Eu não. Eu sou afetado pelas decisões dele. Então estarei sempre do lado oposto, questionando, reclamando, criticando. Este é meu papel.

Torço para o governo do sujeito dar certo. Mas não faço o papel de defensor dele.

Para isso, o político tem a máquina pública nas mãos, tem dinheiro nosso, pode gastar milhões em publicidade e até contratar gente pra falar bem dele.

Quem está fora do poder só pode fazer uma coisa: questionar sempre. Só somos donos de uma coisa: a nossa consciência. E possuímos apenas uma arma: o voto.

Por isso, quando gente que está fora do poder assume a defesa de quem tem o poder, sem perceber, pode estar traindo suas próprias origens.

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O injusto processo para tirar a Carteira de Habilitação no Brasil

Para tirar a carteira de habilitação, o Brasil, que é um país de gente pobre, tem um sistema injusto e que sacaneia o cidadão. Tirar a CNH por aqui custa muito caro. E não há justificativa alguma para o modelo que temos.

Ao falar sobre isso com algumas pessoas, já ouvi coisas do tipo: “se o cara não tem dinheiro pra tirar carteira, não dirige, ué? Não vai ter dinheiro pra comprar carro mesmo”. Acontece que fazer a CNH não significa, necessariamente, ter carro; milhares de pessoas dirigem para ganhar a vida – seja como motoristas de empresas ou particulares.

O argumento para o processo atual foram os inúmeros acidentes de trânsito. Alegava-se que o condutor precisava ser melhor preparado. Então “inventaram” um sistema burocrático, moroso e que, atualmente, se não houver reprovações, custa, à vista, mais de R$ 2,5 mil. Detalhe, não faz muito tempo, inventaram o tal do simulador, que, na prática, só onera ainda mais os custos. E sem resultados práticos.

Dirigir bem, ter responsabilidade no trânsito, ser cuidadoso, respeitar as leis, nada tem a ver com autoescola. A autoescola pode existir. Deve existir. Mas, em hipótese alguma, deveria ser obrigatória.

Quem tem mais de 40 anos, provavelmente tirou a carteira de habilitação de um jeito bem diferente. Eu, por exemplo, aprendi a dirigir com um tio. Motorista experiente, cuidadoso e muito generoso, em cerca de uma semana, me ensinou tudo que eu precisava.

Quando chegou o momento de tirar a CNH, procurei uma autoescola para cuidar da documentação. Recebi algumas orientações, fiz o psicotécnico, estudei sozinho para legislação e, antes do teste prático, contratei três aulas para pegar os macetes da prova de rua e da baliza. Pedi para usar o carro da autoescola na prova. Fui aprovado.

Tudo muito simples e rápido.

Entretanto, as regras mudaram. Hoje, são inúmeras aulas de legislação, outras tantas no simulador e, por fim, as aulas práticas.

Na teoria, isso pode ser lindo. Mas é totalmente desnecessário e não tem melhorado o trânsito das nossas cidades. O candidato faz todo esse longo percurso e, quando encara o trânsito do dia a dia, parece ser obrigado a aprender tudo de novo.

Numa época em que aceita-se que engenheiros, professores e até profissionais da gastronomia sejam formados na modalidade de educação a distância, nada justifica a obrigatoriedade de fazer todo o processo para tirar a CNH numa autoescola.

Só existe uma razão (não admitida pelas autoridades): o sistema foi feito para custar caro e beneficiar um setor econômico.

Para aqueles que gostam de comparar o Brasil com os Estados Unidos, vale dizer que, por lá, embora cada estado tenha suas próprias regras, é possível estudar a legislação de trânsito em casa, pegando as informações na internet, e não é necessário fazer aulas práticas. Além disso, todos os testes – teórico, de visão e direção – podem ser feitos num único dia. Ou seja, você entra no departamento de trânsito cedo e, no mesmo dia, está habilitado. Não passou? Pode tentar no dia seguinte e, se passar, a CNH fica pronta na hora. Custo baixo – cerca de 50 dólares.

E então? Nosso sistema é melhor que o deles?

Todo jovem precisa fazer uma faculdade?

Na minha opinião, não! Existe uma diferença entre assegurar que todas as pessoas tenham direito de acesso à universidade e ter a obrigação de fazer uma faculdade para “ser alguém na vida”.

O modelo educacional brasileiro é falho em vários aspectos. Uma das falhas é sustentar-se num modelo de pirâmide que culmina com o ensino superior. Cursar uma faculdade se tornou uma espécie de obrigação. E vários estudos mostrar que, após o diploma, as possibilidades de renda aumentam.

Esse modelo precisa ser corrigido. Todas as pessoas, que sonham com o ensino superior, precisam ter o direito de fazer o curso que desejarem. A universidade deve ser para todosdiferente do discurso do senhor ministro da Educação. Mas deve ser para todos que quiserem.

Por outro lado, também é preciso assegurar ao jovem o direito de optar por uma carreira profissional, rentável, sem a necessidade de ficar quatro, cinco anos no ensino superior. Nem todo mundo gosta de debruçar-se sobre livros, teorias… Não há motivos para rotulá-las como preguiçosas, burras ou fracassadas por não fazerem uma faculdade.

Na Finlândia, desde muito cedo, as crianças já vislumbram qual caminho seguir. E, após completarem três anos de orientação, aos 14 de idade, podem optar por um programa técnico voltado diretamente para um bom trabalho ou ao mundo acadêmico. Mas, detalhe, é possível fazer um curso técnico e, logo em seguida, cursar uma faculdade.

No Brasil, se o jovem escolher um curso técnico, tudo fica mais difícil. Ele segue um “zé ninguém”, porque, pode até ter um bom salário, mas não tem o status do diploma e, se quiser fazer uma faculdade pública, terá que enfrentar o famigerado vestibular, que privilegia aqueles que tiveram uma formação conteudista, pouco relevante, porém, absurda do ponto de vista quantitativo. E aí, como não é competitivo no vestibular, restam-lhe duas alternativas: fazer cursinho por meses, tornando o processo de formação ainda mais longo, ou cursar uma faculdade particular.

Quem tem direito de frequentar uma universidade?

Para o atual ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodrigues, apenas um grupo muito seleto deveria ter direito de acesso ao ensino superior. Nas palavras dele, as universidades devem ficar reservadas para uma elite intelectual. Ele também afirmou, em entrevista ao Valor Econômico, que a ideia da universidade para todos não existe.

Embora sustente que existe uma diferença entre a elite intelectual e a elite econômica, o que o ministro parece ignorar é que, no Brasil, a elite econômica é também aquela que reúne as condições de se tornar a elite intelectual do país. Logo, se passar a vigorar a lógica do ministro, o país vai excluir ainda mais os jovens pobres, empurrando-os para serem tão somente mão-de-obra especializada.

Para justificar sua ideia, o ministro ressalta que, na Alemanha, funciona assim: nem todos chegam à universidade. O ensino técnico é o meio de profissionalização para uma parcela considerável da população alemã.

De novo, o ministro silencia um fato: as crianças têm ensino de qualidade na Alemanha e conseguem, mesmo sendo pobres, candidatarem-se às universidades – caso queiram se dedicar ao universo intelectual. Não é o ocorre no Brasil. Por aqui, se as vagas não forem asseguradas para todos, ainda menos gente frequentará o ensino superior. Vale lembrar que cerca de 80% dos jovens brasileiros estão fora das faculdades e universidades. Ou seja, fazer uma faculdade, no Brasil, já é um privilégio de poucos.

Tenho sustentado que o nosso país precisa de uma ampla mudança na educação. Os indicadores mostram que nossa gente não sabe o mínimo necessário de Matemática e tampouco dá conta de ler e interpretar adequadamente um texto. É necessário mudar, inclusive com a valorização do ensino técnico – que é o caminho mais rápido para a profissionalização.

Entretanto, falas como a do ministro refletem um pensamento mesquinho, excludente, preconceituoso.

Entendo que nem todos queiram frequentar a universidade. Também defendo que este espaço não seja para a formação técnica e profissionalizante; universidade é um ambiente para o desenvolvimento intelectual. Contudo, a escola pública de hoje não assegura formação para que um aluno possa fazer parte da elite intelectual. E as vagas já são mínimas diante da demanda. É justamente por isso que defender tal ideia é, no mínimo, um desrespeito com a maioria do nosso povo.

Na política, eleitor não pode agir como torcedor

O exercício da cidadania implica na escolha consciente dos representantes políticos, daqueles que vão legislar e administrar o país – teoricamente, com o objetivo de promover o bem de todas as pessoas.

Isto significa que, embora a gente não escolha necessariamente quem seja o melhor, vota-se na pessoa que parece mais adequada para a função, dentre aquelas que estão concorrendo ao cargo.

O processo requer muita responsabilidade, mas é relativamente simples. Ou, deveria ser simples. Porque, semelhante a um produto, que consideramos o custo-benefício, a escolha do político também deveria ser bastante prática, racional.

Entretanto, este não parece ser o comportamento de uma parcela significativa da população. Muita gente tem agido como torcedor.

O que faz o torcedor? O torcedor age de maneira apaixonada. Ele vê pênalti, mesmo que nada tenha acontecido; vê injustiça do juiz; acha que o time está sendo prejudicado… Que tudo conspira a favor do adversário.

O torcedor é torcedor na vitória e na derrota. Na boa e na má fase.

O eleitor não pode ser assim. No jogo da política, não há espaço para, na tentativa de defender o nosso político, desqualificar o adversário. Se o cara em quem votei pisou na bola, azar dele… Segue o jogo e vou escolher alguém que faça melhor. Simples assim.

Não dá para assumir a defesa do político. Quem defende político é o próprio político e o grupo dele.

Como cidadãos, nós estamos do outro lado do espectro político. Somos aqueles que sofrem o efeito dos atos deles. Para o político, somos apenas votos. Nada mais. Por isso, não dá para comprar briga por eles.

No futebol, se o atacante do nosso time faz bobagem e algum torcedor de outro time vem tirar sarro, a gente aproveita pra desqualificar o atacante e a equipe toda do adversário.

Na política, não é porque votamos numa pessoa que devemos nos manter fieis a ela. A gente torce para dar certo. Mas nosso compromisso é com o bem de todos. O foco não pode ser defender um para derrotar outro político; o objetivo é a coletividade, o povo é que precisa vencer. Políticos são descartáveis!

Alunos são ignorados em decisões que envolvem a Educação

Os alunos têm sido incluídos nas discussões a respeito da educação? Posso estar errado, mas até onde se estende meu olhar como professor e pesquisador em Educação, percebo que uma das partes mais interessadas é justamente uma das que menos tem sido ouvida.

Eu entendo que mudanças são necessárias. Penso que precisamos de um grande pacto, que envolveria toda a sociedade brasileira, para que ocorra um salto de qualidade no ensino. Entretanto, frequentemente, os debates em torno do assunto ignoram alunos e alunas. Eles geralmente são “esquecidos”.

Os processos de mudanças nas matrizes curriculares e até coisas mais simples – a troca de horário de um professor, por exemplo – são conduzidos por adultos que pensam saber o que os estudantes necessitam. E eu concordo que, em certa medida, a experiência, os anos de vida, as pesquisas realizadas garantem domínio técnico e teórico para discutir o tema e tomar decisões.

Entretanto, nós pouco entendemos a cabeça dos jovens e adolescentes. E, diferente de tempos passados, a moçada hoje, inclusive pelo domínio tecnológico que possui e habilidades múltiplas no uso e aplicação das tecnologias da informação e comunicação, tem perspectivas distintas da nossa a respeito do que aprender e até do como aprender.

Em comparação com os alunos de hoje, somos dinossauros. Dinossauros que ainda insistem em fazer as coisas do mesmo jeito. E até a ensinar do mesmo jeito.

Tenho comigo que duração das aulas, composição de livros e apostilas, atividades para fixação dos conteúdos, temas a serem estudados, processos disciplinares… Sofreriam alterações profundas e ganhariam novos sentidos se a moçada fosse ouvida.

Curiosamente, ouvir alunos e alunas é algo que o mestre Paulo Freire nos ensinou há muito tempo. Em Pedagogia da Autonomia, há um tópico que gosto muito: “ensinar exige saber escutar”. E ele afirma: “somente quem escuta pacientemente e criticamente com o outro, fala com ele”.

Quando a gente se dispõe a ouvir, a gente convida o outro a participar da solução do problema. Ele se torna também responsável pela solução. E se compromete em fazer dar certo.

Portanto, parece-me que, se ouvíssemos mais nossos alunos, seríamos mais eficazes no ato de ensinar. E os resultados, muito melhores.

Polêmicas não resolvem problemas

Não gosto de polêmicas. Procuro ficar longe delas. E faço isso porque entendo que são improdutivas. Elas impedem a reflexão, distanciam as pessoas, distorcem a realidade.

Ninguém dá conta de refletir a respeito de um problema em meio a tanto barulho. A polêmica gera uma cortina de fumaça. Passa a valer apenas o enfrentamento, o confronto, a vontade de ganhar – ou de lacrar, que é o que está na moda. Não se produz uma reflexão de verdade. Toma-se partido a favor ou contra e pouca gente dá conta de notar que os dois lados têm suas razões e os dois lados também falham na leitura da realidade.

A polêmica também faz mal porque, quem participa da confusão, ao tomar partido, se coloca como opositor de alguém. E, se as pessoas estão em campos diferentes, não dialogam. Passam a ser adversárias. Mas existe ainda um outro grupo: daquele que não quer se meter na confusão. E a tendência é que essas pessoas deixem o cenário e sequer queiram compreender o que está acontecendo. Ou seja, a polêmica impede que as pessoas se busquem uma solução que beneficie a coletividade.

Por fim, a polêmica distorce a realidade. Na tentativa de ganhar no grito, as variáveis de um problema não são analisadas. Simplifica-se o discurso. Desqualifica-se a outra parte. O embate passa a ser entre pessoas, grupos políticos, ideologias. Deixa-se de pensar em soluções efetivas. Amplia-se o desconhecimento, a ignorância se instala e a tendência é que as propostas que porventura venham a ser apresentadas não contemplem a realidade de fato. Passa-se a combater fantasmas. E os problemas tendem a continuar sem respostas efetivas.

As bibliotecas deixarão de existir?

Amo as bibliotecas. Não necessariamente as que temos… Cheias de mofo. Ou em locais improvisados. Essas daí precisam ser modernizadas. Mas ninguém parece muito interessado em fazer isso.

Apenas universidades e grandes centros de ensino recebem investimentos nesses espaços de conhecimento.

As bibliotecas da cidade geralmente mal são contempladas por recursos para compra de livros.

As instituições de ensino gastam com infraestrutura e obras porque as bibliotecas fazem parte dos critérios de avaliação feita Ministério da Educação. Além disso, não se faz educação sem livros.

Mas o povo não é contemplado por bibliotecas modernas, equipadas e com bom acervo. E isso não acontece basicamente por um motivo: as pessoas não se interessam por elas.

Em 2012, a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil revelou que mais de 70% da população sabe onde estão localizadas, mas não frequenta as bibliotecas.

Como os programas eleitorais apresentados pelos nossos governantes levam em conta o imaginário popular, os supostos desejos da população, as bibliotecas raramente são ou serão contempladas.

Mas, até em função das novas tecnologias, as bibliotecas estão condenadas?

Cá com meus botões, entendo que bibliotecas não são depósitos de livros. Nunca foram.

Biblioteca é um local de promoção do saber. O livro não é a finalidade da biblioteca, mas sim o conhecimento. E este é o fundamento da construção de uma vida melhor, como disse Thomas Jefferson:

Encaro a difusão da luz e da educação como o recurso mais confiável para melhorar as condições que promovem a virtude e aumentam a felicidade do homem.

As palavras do ex-presidente dos Estados Unidos estão gravadas em letras douradas na parede da Trustees’ Room da Biblioteca Pública de Nova York. Elas servem até hoje de inspiração.

E apontam para o futuro: a gente se desenvolve, cresce à medida que tem acesso ao conhecimento. Por isso, livros e bibliotecas não podem morrer. Se deixarem de existir, morreremos juntos.