Na política, eleitor não pode agir como torcedor

O exercício da cidadania implica na escolha consciente dos representantes políticos, daqueles que vão legislar e administrar o país – teoricamente, com o objetivo de promover o bem de todas as pessoas.

Isto significa que, embora a gente não escolha necessariamente quem seja o melhor, vota-se na pessoa que parece mais adequada para a função, dentre aquelas que estão concorrendo ao cargo.

O processo requer muita responsabilidade, mas é relativamente simples. Ou, deveria ser simples. Porque, semelhante a um produto, que consideramos o custo-benefício, a escolha do político também deveria ser bastante prática, racional.

Entretanto, este não parece ser o comportamento de uma parcela significativa da população. Muita gente tem agido como torcedor.

O que faz o torcedor? O torcedor age de maneira apaixonada. Ele vê pênalti, mesmo que nada tenha acontecido; vê injustiça do juiz; acha que o time está sendo prejudicado… Que tudo conspira a favor do adversário.

O torcedor é torcedor na vitória e na derrota. Na boa e na má fase.

O eleitor não pode ser assim. No jogo da política, não há espaço para, na tentativa de defender o nosso político, desqualificar o adversário. Se o cara em quem votei pisou na bola, azar dele… Segue o jogo e vou escolher alguém que faça melhor. Simples assim.

Não dá para assumir a defesa do político. Quem defende político é o próprio político e o grupo dele.

Como cidadãos, nós estamos do outro lado do espectro político. Somos aqueles que sofrem o efeito dos atos deles. Para o político, somos apenas votos. Nada mais. Por isso, não dá para comprar briga por eles.

No futebol, se o atacante do nosso time faz bobagem e algum torcedor de outro time vem tirar sarro, a gente aproveita pra desqualificar o atacante e a equipe toda do adversário.

Na política, não é porque votamos numa pessoa que devemos nos manter fieis a ela. A gente torce para dar certo. Mas nosso compromisso é com o bem de todos. O foco não pode ser defender um para derrotar outro político; o objetivo é a coletividade, o povo é que precisa vencer. Políticos são descartáveis!

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Alunos são ignorados em decisões que envolvem a Educação

Os alunos têm sido incluídos nas discussões a respeito da educação? Posso estar errado, mas até onde se estende meu olhar como professor e pesquisador em Educação, percebo que uma das partes mais interessadas é justamente uma das que menos tem sido ouvida.

Eu entendo que mudanças são necessárias. Penso que precisamos de um grande pacto, que envolveria toda a sociedade brasileira, para que ocorra um salto de qualidade no ensino. Entretanto, frequentemente, os debates em torno do assunto ignoram alunos e alunas. Eles geralmente são “esquecidos”.

Os processos de mudanças nas matrizes curriculares e até coisas mais simples – a troca de horário de um professor, por exemplo – são conduzidos por adultos que pensam saber o que os estudantes necessitam. E eu concordo que, em certa medida, a experiência, os anos de vida, as pesquisas realizadas garantem domínio técnico e teórico para discutir o tema e tomar decisões.

Entretanto, nós pouco entendemos a cabeça dos jovens e adolescentes. E, diferente de tempos passados, a moçada hoje, inclusive pelo domínio tecnológico que possui e habilidades múltiplas no uso e aplicação das tecnologias da informação e comunicação, tem perspectivas distintas da nossa a respeito do que aprender e até do como aprender.

Em comparação com os alunos de hoje, somos dinossauros. Dinossauros que ainda insistem em fazer as coisas do mesmo jeito. E até a ensinar do mesmo jeito.

Tenho comigo que duração das aulas, composição de livros e apostilas, atividades para fixação dos conteúdos, temas a serem estudados, processos disciplinares… Sofreriam alterações profundas e ganhariam novos sentidos se a moçada fosse ouvida.

Curiosamente, ouvir alunos e alunas é algo que o mestre Paulo Freire nos ensinou há muito tempo. Em Pedagogia da Autonomia, há um tópico que gosto muito: “ensinar exige saber escutar”. E ele afirma: “somente quem escuta pacientemente e criticamente com o outro, fala com ele”.

Quando a gente se dispõe a ouvir, a gente convida o outro a participar da solução do problema. Ele se torna também responsável pela solução. E se compromete em fazer dar certo.

Portanto, parece-me que, se ouvíssemos mais nossos alunos, seríamos mais eficazes no ato de ensinar. E os resultados, muito melhores.

Polêmicas não resolvem problemas

Não gosto de polêmicas. Procuro ficar longe delas. E faço isso porque entendo que são improdutivas. Elas impedem a reflexão, distanciam as pessoas, distorcem a realidade.

Ninguém dá conta de refletir a respeito de um problema em meio a tanto barulho. A polêmica gera uma cortina de fumaça. Passa a valer apenas o enfrentamento, o confronto, a vontade de ganhar – ou de lacrar, que é o que está na moda. Não se produz uma reflexão de verdade. Toma-se partido a favor ou contra e pouca gente dá conta de notar que os dois lados têm suas razões e os dois lados também falham na leitura da realidade.

A polêmica também faz mal porque, quem participa da confusão, ao tomar partido, se coloca como opositor de alguém. E, se as pessoas estão em campos diferentes, não dialogam. Passam a ser adversárias. Mas existe ainda um outro grupo: daquele que não quer se meter na confusão. E a tendência é que essas pessoas deixem o cenário e sequer queiram compreender o que está acontecendo. Ou seja, a polêmica impede que as pessoas se busquem uma solução que beneficie a coletividade.

Por fim, a polêmica distorce a realidade. Na tentativa de ganhar no grito, as variáveis de um problema não são analisadas. Simplifica-se o discurso. Desqualifica-se a outra parte. O embate passa a ser entre pessoas, grupos políticos, ideologias. Deixa-se de pensar em soluções efetivas. Amplia-se o desconhecimento, a ignorância se instala e a tendência é que as propostas que porventura venham a ser apresentadas não contemplem a realidade de fato. Passa-se a combater fantasmas. E os problemas tendem a continuar sem respostas efetivas.

As bibliotecas deixarão de existir?

Amo as bibliotecas. Não necessariamente as que temos… Cheias de mofo. Ou em locais improvisados. Essas daí precisam ser modernizadas. Mas ninguém parece muito interessado em fazer isso.

Apenas universidades e grandes centros de ensino recebem investimentos nesses espaços de conhecimento.

As bibliotecas da cidade geralmente mal são contempladas por recursos para compra de livros.

As instituições de ensino gastam com infraestrutura e obras porque as bibliotecas fazem parte dos critérios de avaliação feita Ministério da Educação. Além disso, não se faz educação sem livros.

Mas o povo não é contemplado por bibliotecas modernas, equipadas e com bom acervo. E isso não acontece basicamente por um motivo: as pessoas não se interessam por elas.

Em 2012, a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil revelou que mais de 70% da população sabe onde estão localizadas, mas não frequenta as bibliotecas.

Como os programas eleitorais apresentados pelos nossos governantes levam em conta o imaginário popular, os supostos desejos da população, as bibliotecas raramente são ou serão contempladas.

Mas, até em função das novas tecnologias, as bibliotecas estão condenadas?

Cá com meus botões, entendo que bibliotecas não são depósitos de livros. Nunca foram.

Biblioteca é um local de promoção do saber. O livro não é a finalidade da biblioteca, mas sim o conhecimento. E este é o fundamento da construção de uma vida melhor, como disse Thomas Jefferson:

Encaro a difusão da luz e da educação como o recurso mais confiável para melhorar as condições que promovem a virtude e aumentam a felicidade do homem.

As palavras do ex-presidente dos Estados Unidos estão gravadas em letras douradas na parede da Trustees’ Room da Biblioteca Pública de Nova York. Elas servem até hoje de inspiração.

E apontam para o futuro: a gente se desenvolve, cresce à medida que tem acesso ao conhecimento. Por isso, livros e bibliotecas não podem morrer. Se deixarem de existir, morreremos juntos.

A economia do medo

O medo da violência urbana, a insegurança nas cidades são dispositivos relevantes na sociedade capitalista.

Existe toda uma economia que funciona em função do medo.

Milhões de reais são gastos anualmente pela população (no mundo, falamos de bilhões de dólares). Milhares de empregos são gerados.

Gastamos com seguro de carro, blindagem de veículo, seguro de imóvel… Instalamos câmeras de segurança em vários ambientes, colocamos cerca elétrica nas casas, reforçamos grades, contratamos empresas de segurança e monitoramento…

Há toda uma série de produtos e serviços que só existem por causa do medo.

A economia do medo também criou uma arquitetura própria. Nas médias e grandes cidades, temos o registro crescente de imóveis verticais e, para quem tem mais dinheiro, condomínios fechados… Muros e grades, janelas reforçadas, também atendem o desejo de mais segurança.

A arquitetura das grandes empresas é pensada não apenas para garantir funcionalidade aos serviços; busca-se também a segurança dos trabalhadores e, principalmente, proteção do patrimônio.

Todo esse investimento milionário deixaria de existir se as pessoas tivessem segurança. Mas a economia do medo não alimenta apenas diferentes setores de produtos e serviços; é fundamental a manutenção de todo um aparato policial e judiciário.

Muito dinheiro é gasto com carros, armamento, policiais, advogados, promotores, juízes, além de uma enorme estrutura burocrática de cartórios e até o sistema prisional… Tudo em função da economia do medo, que existe em virtude da criminalidade – uma criminalidade, que como é possível notar, faz muito bem à economia.

O Brasil sem os cubanos…

O governo de Havana já decidiu: os médicos que atendem deixarão o Brasil. A medida é uma espécie de retaliação, em virtude das declarações recentes do presidente eleito Jair Bolsonaro.

Bolsonaro, ao que parece, sofre de sincericídio – um comportamento inadequado para um político, especialmente para um presidente da República. O eleitorado de Bolsonaro pode até admirá-lo por ele falar o que vem à cabeça. Porém, para ser bem sucedido, um governante nunca diz tudo que pensa e nem faz tudo que deseja.

O Programa Mais Médicos é totalmente dependente dos cubanos. E, por mais que isso seja um problema – e seja injusto principalmente com esses profissionais de saúde -, principalmente em virtude do modelo de convênio firmado pelo governo brasileiro com Cuba, o Brasil, hoje, precisa dos médicos cubanos.

São cerca de 8 mil médicos vindos de lá e que estão trabalhando em mais de 2 mil cidades – principalmente pequenas cidades, municípios pobres e até aldeias indígenas.

E por que eles são imprescindíveis? Porque, nesta quantidade, não existem médicos brasileiros dispostos a trabalharem na rede pública de saúde. De fora do Brasil, também são poucos os profissionais interessados em migrarem para cá a fim de atender ao programa.

Cuba, pelo investimento histórico feito na educação e na saúde, tem excedente dessa mão-de-obra. E, diferente do que muita gente pensa, os cubanos são muito bem formados, são excelentes profissionais.

Basta notar os índices de satisfação do público atendido, no Brasil, pelos médicos cubanos. Além de capacitados, possuem outra qualidade: atendem de forma humana, atenciosa, respeitosa – algo que falta a muitos médicos brasileiros, que atendem no SUS.

Jair Bolsonaro ainda não tomou posse. E o nosso desejo é que seja um presidente muito bem sucedido. Porém, a sua visão estreita, a inexperiência administrativa e o pouco tato com as palavras, podem comprometer o sucesso de seu governo.

Se a saída dos cubanos se concretizar, o Brasil começará 2019 numa situação muito delicada. A saúde é um dos maiores dramas de nosso país. O Mais Médicos foi um dos maiores acertos do governo Dilma Rousseff.

Milhões de brasileiros têm sido atendidos pelos profissionais contratados por meio desse programa.

Michel Temer, quando assumiu a presidência, chegou a colocar em dúvida a manutenção do contrato com os cubanos. Porém, o Ministério da Saúde, sob o comando do maringaense Ricardo Barros, agiu de forma pragmática: renovou o contrato.

E por que Ricardo Barros fez isso? Porque, mesmo não sendo médico, é um homem inteligente. Só um tolo colocaria em risco a continuidade do Mais Médicos.

O então ministro afirmou o desejo de reduzir a presença dos cubanos, mas reconheceu que, sem esses médicos, o atendimento da população mais pobre estaria em risco.

Bolsonaro, ao que parece, ainda desconhece a extensão da responsabilidade dele. Nem dos estragos que pode causar se continuar falando o que quer.

Que conteúdos informativos você consome?

Esta é uma pergunta que vez ou outra algumas pessoas fazem pra mim.

Eu tenho critérios muito claros. Primeiro, não consumo nada que seja encaminhado pelo messenger, whatsapp e que não tenha origem conhecida. Segundo, não leio informações divulgadas com frases do tipo “repasse”, “não se omita”, “vamos compartilhar”… Muito menos aquelas fotos cheias de texto, com frases de efeito. Terceiro, nada de canais que se dizem informativos, mas não seguem as regras do jornalismo. Quarto, não leio e nem assisto canais de pessoas que não tenham formação acadêmica sólida e não sejam moderadas na escrita ou na fala.

E meu principal critério é: duvidar sempre, questionar e comparar. O Google existe pra isso.

Meus critérios não são os critérios da maioria das pessoas.

O presidente eleito, por exemplo, divulgou uma lista de canais no Youtube que ele sugere aos seus eleitores e seguidores. E, da lista de Bolsonaro, não há nada que seja realmente aproveitável. Até dá para assistir uma coisa ou outra, mas só se a pessoa tiver uma visão muito ampla de mundo para saber filtrar o que é divulgado nesses canais.

A internet possibilitou o surgimento de todos esses espaços que, hoje, contribuem para a formação do universo informativo. A proliferação desses canais é algo altamente positivo. Rompeu com o monopólio informativo dos meios de comunicação tradicionais e, ao desestabilizá-los, tem obrigado a imprensa a se especializar ainda mais.

Entretanto, a população não foi educada para saber como consumir esse conteúdo. Não há formação de leitura crítica. Somado ao assustador analfabetismo funcional, que é uma realidade no país, a ignorância do nosso povo tem se aprofundado – uma ignorância agora sustentada não pela ausência de informação, mas por pseudoverdades que circulam na rede.

Governo Bolsonaro terá mais de 6 mil cargos para nomear, sem concurso

O Estado brasileiro – representado pelos três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário – é uma máquina de consumir dinheiro. Ainda ontem, falei aqui sobre o tamanho do estrago que vai causar o aumento de salário dos ministros do Supremo Tribunal Federal.

Porém, o quadro é muito mais complexo.

O Estado brasileiro é grande. Grande de uma forma que a maioria das pessoas não tem a menor a ideia.

E até quem se candidata a governá-lo, com frequência, também desconhece o tamanho dessa estrutura.

Para se ter uma ideia, o governo Bolsonaro terá exatamente 6.099 cargos vagos para nomear, sem concurso público, a partir de janeiro de 2019. Sim, são mais de seis mil pessoas que poderão ser indicadas pelo presidente e sua equipe.

Existem outras 26.490 vagas para servidores de carreira, que poderão ocupá-las em cargos especiais – ou seja, em funções comissionadas, ganhando mais que a remuneração para a qual foram aprovados em concurso.

Com isso, somando todas as pessoas que terão status de cargo de confiança, o governo terá mais de 32 mil. É muita gente. É mais que a população de centenas de municípios brasileiros.

Eu confesso que sempre me assusto com os números. E fico intrigado imaginando os critérios de seleção dessas pessoas.

Só de nomeações diretas, sem concurso, como eu disse, são mais de 6 mil. Você conhece 6 mil pessoas para dar emprego a elas? Eu teria muita dificuldade para escolher 50. Como então escolher 6 mil?

Nenhum presidente tem condição de indicar só as pessoas que ele confia, e justamente por conta dos números. Ninguém dá conta de conhecer todas as funções, tampouco quem poderia ocupá-las.

São situações como essa que fazem com o que o sistema seja todo viciado. E aí o presidente acaba criando vínculos com um monte de gente que apenas tem interesse em usar essas vagas para favorecer apadrinhados políticos.

É triste, mas é a realidade. Ah… E esses cargos disponíveis no governo têm remunerações entre R$ 2,5 mil e R$ 16,2 mil.