O desprezo às ciências e a fuga de cérebros

A maior riqueza de um país é o seu povo. São as pessoas que tornam uma nação grande, rica, próspera. É a capacidade de um povo de encontrar soluções para seus problemas e promover o desenvolvimento que determina o crescimento de um país ou seu fracasso.

Parte desse processo é capitaneado pelos homens e mulheres que dedicam a vida deles para a ciência. Por meio da pesquisa, essas pessoas, silenciosamente, buscam entender os mais diferentes fenômenos e pesquisam soluções para os desafios enfrentados pela sociedade.

Quando um país não incentiva a sua ciência, de certo modo, abre mão do desenvolvimento, aceita ser coadjuvante no cenário mundial.

E é isso que o Brasil tem feito ao longo de sua história.

A falta de insumos, equipamentos e incentivos públicos à pesquisa científica está gerando uma “fuga de cérebros” – gente que deixa o Brasil para fazer ciência noutros países . Cada vez mais doutores têm abandonado suas funções para trabalhar em países como Austrália, Holanda e Portugal.

Lamentavelmente, essa migração sempre existiu. O Brasil nunca valorizou de fato a sua inteligência. Para se ter uma ideia, uma bolsa de iniciação científica na graduação era de 400 reais. No doutorado, não passava de 2.500 reais. Uso os verbos no passado porque até essas migalhas estão deixando de ser pagas.

Os repasses de recursos para pesquisa sempre foram ínfimos.

Neste ano, porém, o cenário piorou profundamente. As medidas e até mesmo o discurso do governo são de total desprezo à ciência. As poucas bolsas de estudo desaparecendo, o repasse de verbas para as universidades caiu e, o que é mais grave, o atual presidente da República não tem nenhum pudor em colocar em dúvida pesquisas científicas. Basta notar que, mesmo contrariando todas as evidências, recentemente, questionou os dados de desmatamento da Amazônia e demitiu o diretor do Inpe, responsável por um dos principais centros de pesquisa do país.

Quem quer fazer pesquisa no Brasil tem se sentido desprestigiado. Pior, mestres e doutores, gente que dedica a vida aos estudos, vê seus saberes questionado por pessoas que desconhecem por completo o rigoroso processo de desenvolvimento de uma pesquisa científica . Gente, como o presidente, que jamais passou pela experiência de esboçar um projeto de pesquisa … Gente que é incapaz de ler e entender um parágrafo de um livro produzido com o rigor das ciências e que prefere os argumentos vazios e mentirosos de posts que circulam nas redes sociais ou em mensagens do whatsapp para desacreditar estudiosos.

Faço aqui uma observação, antes que alguém diga que estou sendo agressivo com quem nunca teve a chance de estudar e tampouco chegou à universidade. Minha crítica se dirige apenas – e tão somente – àquelas pessoas que questionam o saber científico sem nunca terem feito ciência, sem conhecerem o trabalho sério produzido pelos pesquisadores.

Enfim, o cenário é desestimulante. Por isso, a inteligência do país deixa nossas universidades para produzir ciência em nações que já são ricas, desenvolvidas, poderosas. Enquanto isso, o país segue por aqui menosprezando o conhecimento e tendo orgulho de sua ignorância.

Ps. Neste ano, o contingenciamento de recursos já chegou a 30% no Ministério da Educação e 42% na pasta de Ciência e Tecnologia.

Anúncios

Os efeitos nocivos da desigualdade social

​A desigualdade é uma das características das sociedades capitalistas. Ela funciona, inclusive, como uma espécie de mecanismo motivador da busca por condições de vida melhores. Justamente por alguns conquistarem condições privilegiadas, toda uma sociedade se move na tentativa de chegar a esse lugar privilegiado.

Em diferentes momentos históricos, houve tentativas de pôr fim às desigualdades. Porém, todas fracassaram. As políticas de igualdade produziram uma igualdade artificial, mentirosa e que, na prática, empobreceu a população. Também parece ser da natureza humana o desejo da conquista, a competitividade, a insatisfação que faz com que queiramos sempre mais e mais. As experiências têm provado que isso não é ruim. Afinal, na busca por ganhar mais, acumular mais e viver melhor, as nações se desenvolvem, tecnologias são criadas e até mesmo as condições de saúde e bem-estar das pessoas têm melhorado ao longo da história.

Entretanto, o conceito de desigualdade social transcende a ideia de uma sociedade em que as condições de riqueza são desiguais. O conceito retrata o abismo que pode existir entre quem tem mais e quem tem menos. E essa distância, quanto maior é, mais problemas traz.

Estudos têm provado que sociedades desiguais são mais violentas, têm mais gente nas prisões, maiores níveis de obesidade e de doenças mentais, mais pessoas infelizes, menores expectativas de vida e baixos níveis de confiança. Além disso, pesquisadores descobriram que a desigualdade social aumenta a segregação e os resultados educacionais de crianças, jovens e adultos são piores.

Por outro lado, a existência de políticas de promoção humana com a finalidade de reduzir a desigualdade social, além de garantirem rendimentos maiores para os trabalhadores, ainda asseguram bem-estar para as crianças, diminuição da mortalidade infantil, menores níveis de estresse, menos consumo de drogas, mais qualidade de vida para a população.

Ou seja, ainda que seja desejável assegurar que as pessoas tenham a liberdade de lutar por condições de vida e riqueza distintas, algumas tenham mais e outras menos, está provado que nenhuma sociedade pode permitir que se crie um abismo entre os mais ricos e os mais pobres. A crescente desigualdade social não é apenas injusta; ela é nociva para a população, pois piora as condições de vida de todo o conjunto da sociedade. Até mesmo os privilegiados se tornam reféns em suas próprias casas, tendo que viver trancados para evitar os efeitos de uma sociedade profundamente desigual.

Ps. Para quem quer entender mais os efeitos nocivos da desigualdade, sugiro a leitura de “The Spirit Level: Why Greater Equality Makes Societies Stronger”, dos britânicos Richard Wilkinson e Kate Pickett.

Trump e os efeitos do discurso de ódio

Não é novidade que desde a campanha de 2016, Donald Trump, em nome da defesa de uma América grande, tem acendido o ódio a estrangeiros e às minorias.

Dias atrás, no Twitter, o presidente norte-americano atacou quatro parlamentares de origem estrangeira e sugeriu que deixassem os Estados Unidos. Curiosamente, das quatro, três nasceram nos Estados Unidos. Apenas uma delas, que nasceu na Somália, chegou ao país quando criança.

Nesta semana, num comício, Donald Trump voltou a atacar as parlamentares. Criticou as quatro durante 20 minutos, mas dedicou especial atenção à muçulmana Ilhan Omar. Fez acusações sem fundamentos contra a deputada. E a resposta foi um coro de milhares de pessoas: “mande-a embora; mande-a embora!”.

O racismo, o preconceito e, a agressão contra pessoas de origem étnica diferente não são exclusividade dos americanos. Na verdade, a essência da constituição norte-americana é do respeito às diferenças. Os Estados Unidos foram construídos com a força, a inteligência e a beleza da diversidade de povos.

Contudo, entre as pessoas – seja nos Estados Unidos, na Europa ou aqui no Brasil -, esses sentimentos mesquinhos, de ódio àquele que é diferente de mim, sempre existiram.

Por meio da força da lei e do discurso de grandes lideranças que comandam as nações, o desejo de expulsar o outro de diante de mim era silenciado. Havia certo pudor de expor esse lado sujo que há na alma de muitos de nós. Além disso, tornava-se crime agredir a outra pessoa em função de sua etnia, gênero, orientação sexual ou classe social.

Entretanto, com a ascensão de homens como Trump ao poder, o ódio emergiu. O que era silenciado atrás das máscaras da convivência social agora é alardeado à luz do dia. Isso é assustador!!

A existência de governantes como Trump coloca em risco estrangeiros e minorias não por que eles necessariamente farão algo contra essas pessoas. Trump ataca as quatro parlamentares, mas não creio que fará com elas nada mais que isso. As palavras de Trump são retórica. Ele joga para a platéia. Trump não vai mandar nenhuma delas embora. Entretanto, as palavras do presidente americano são um problema porque possuem o efeito de liberar o ódio.

Se a deputada Ilhan Omar passasse perto do comício de Trump nesta semana, ela poderia ser apedrejada.

Este é o risco real de ter homens como Trump no poder.

Governantes como ele, que estão chegando ao poder em diversos países, abrem as portas do que há de pior em cada povo, em cada ser humano. Os discursos inflamados deles ganham votos e, ao mesmo tempo, liberam a perversidade que há em nós.

Como garantir a minha aposentadoria?

​As mudanças nas regras de aposentaria trazem certa insegurança para uma parcela significativa da população – principalmente a mais pobre, que é a grande massa populacional do Brasil. É fato que muita gente encontrará mais dificuldade para se aposentar no futuro.

Justamente por isso entendo que deveríamos ampliar nossas discussões e criar outros cenários sobre a garantia de renda futura.

É verdade que o sistema público de aposentadoria é necessário e justo. Afinal, os trabalhadores, independente do recolhimento previdenciário, pagam muitos impostos e sustentam o Estado. Isso, por si só, deveria ser suficiente para que cada pessoa tive o benefício de se aposentar na velhice.

Mas, na lógica econômica predominante, não dá para contar com o Estado que cuida de seus cidadãos. Com o passar dos anos, o Estado inchou, os gastos dispararam e não dá para esperar que seja o protetor de todos os cidadãos. Afinal, na prática, o Estado nunca existiu para proteger as pessoas; ele existe para assegurar o funcionamento e dar garantias ao sistema econômico dominante.

Quanto às pessoas, é urgente que possamos aprender a depender cada vez menos do Estado. É urgente planejarmos a própria aposentadoria, sem contar com o benefício do Estado.

Isso pode parecer um contrassenso, mas antes de 1880 o mundo não conhecia nenhum sistema público de previdência. A Alemanha criou o primeiro naquele ano. No Brasil, só em 1923 foi criado o benefício; e atendia apenas os ferroviários.

Pra muita gente, minha fala também pode soar como uma espécie de defesa de uma ideologia de direita. Posso assegurar que não é este o propósito. O objetivo aqui é bem simples: não podemos contar com coisas sobre as quais não temos controle.

Hoje, tenho 44 anos e vou completar 31 anos de trabalho. Neste período, as regras de aposentadoria já mudaram três vezes e sofrerá a quarta mudança agora. Não há garantia alguma que não voltem a ser alteradas antes de me aposentar (já vi analistas projetando uma nova reforma para daqui a 10 anos).

Ou seja, não tenho nenhuma garantia de que vou ter a aposentadoria daqui 21 anos.

Só existe uma coisa que depende exclusivamente de mim: desenvolver hábitos de poupança, hábitos de investimento. Hábitos que podem ser até restritivos do meu modo de vida, mas que permitam ter as minhas próprias estratégias para ter uma segurança financeira mínima quando eu não puder mais trabalhar.

De que lado você está?

Chega a ser admirável a postura de algumas pessoas que assumem a defesa de políticos. Agem como advogados, tomando as dores e atacando quem questiona o governante.

Quase todos os dias, recebo textos, vídeos e mensagens de outros gêneros que têm como objetivo tentar desconstruir as críticas recebidas pelo seu político favorito. Confesso que essas mensagens me irritam. Não pelo político, mas pela ingenuidade das pessoas.

Já disse aqui e volto a repetir, político nenhum está do nosso lado. Eles fazem parte de outro mundo. Possuem dezenas de assessores, ganham milhares de reais, recebem dinheiro nosso para ter e usar o telefone, andar de avião, possuem carros oficiais, motoristas, não enfrentam fila nos postos de saúde, os filhos frequentam as melhores escolas e, em alguns casos, têm até carreira política garantida pelo pai… Enfim, político tem casa, comida e roupa lavada. Eles estão num universo paralelo. Não são gente como a gente.

Todo o cidadão deveria estar sempre no campo oposto ao dos políticos. A gente escolhe o menos pior, vota e assume o papel que nos cabe: fiscalizadores críticos.

Político que tem defensores entre o próprio povo usa isso para fazer jogo de cena, separando os grupos – como se existisse gente do bem e gente do mal. E ao separar as pessoas, tira do povo a sua única força – a de pressionar o governante.

Numa sociedade, os grupos que existem são outros: os que estão no poder e os que estão fora do poder.

Como povo, eu estou fora do poder. Então não importa a cor do político, o partido do político. Ele está no poder. Eu não. Eu sou afetado pelas decisões dele. Então estarei sempre do lado oposto, questionando, reclamando, criticando. Este é meu papel.

Torço para o governo do sujeito dar certo. Mas não faço o papel de defensor dele.

Para isso, o político tem a máquina pública nas mãos, tem dinheiro nosso, pode gastar milhões em publicidade e até contratar gente pra falar bem dele.

Quem está fora do poder só pode fazer uma coisa: questionar sempre. Só somos donos de uma coisa: a nossa consciência. E possuímos apenas uma arma: o voto.

Por isso, quando gente que está fora do poder assume a defesa de quem tem o poder, sem perceber, pode estar traindo suas próprias origens.

O injusto processo para tirar a Carteira de Habilitação no Brasil

Para tirar a carteira de habilitação, o Brasil, que é um país de gente pobre, tem um sistema injusto e que sacaneia o cidadão. Tirar a CNH por aqui custa muito caro. E não há justificativa alguma para o modelo que temos.

Ao falar sobre isso com algumas pessoas, já ouvi coisas do tipo: “se o cara não tem dinheiro pra tirar carteira, não dirige, ué? Não vai ter dinheiro pra comprar carro mesmo”. Acontece que fazer a CNH não significa, necessariamente, ter carro; milhares de pessoas dirigem para ganhar a vida – seja como motoristas de empresas ou particulares.

O argumento para o processo atual foram os inúmeros acidentes de trânsito. Alegava-se que o condutor precisava ser melhor preparado. Então “inventaram” um sistema burocrático, moroso e que, atualmente, se não houver reprovações, custa, à vista, mais de R$ 2,5 mil. Detalhe, não faz muito tempo, inventaram o tal do simulador, que, na prática, só onera ainda mais os custos. E sem resultados práticos.

Dirigir bem, ter responsabilidade no trânsito, ser cuidadoso, respeitar as leis, nada tem a ver com autoescola. A autoescola pode existir. Deve existir. Mas, em hipótese alguma, deveria ser obrigatória.

Quem tem mais de 40 anos, provavelmente tirou a carteira de habilitação de um jeito bem diferente. Eu, por exemplo, aprendi a dirigir com um tio. Motorista experiente, cuidadoso e muito generoso, em cerca de uma semana, me ensinou tudo que eu precisava.

Quando chegou o momento de tirar a CNH, procurei uma autoescola para cuidar da documentação. Recebi algumas orientações, fiz o psicotécnico, estudei sozinho para legislação e, antes do teste prático, contratei três aulas para pegar os macetes da prova de rua e da baliza. Pedi para usar o carro da autoescola na prova. Fui aprovado.

Tudo muito simples e rápido.

Entretanto, as regras mudaram. Hoje, são inúmeras aulas de legislação, outras tantas no simulador e, por fim, as aulas práticas.

Na teoria, isso pode ser lindo. Mas é totalmente desnecessário e não tem melhorado o trânsito das nossas cidades. O candidato faz todo esse longo percurso e, quando encara o trânsito do dia a dia, parece ser obrigado a aprender tudo de novo.

Numa época em que aceita-se que engenheiros, professores e até profissionais da gastronomia sejam formados na modalidade de educação a distância, nada justifica a obrigatoriedade de fazer todo o processo para tirar a CNH numa autoescola.

Só existe uma razão (não admitida pelas autoridades): o sistema foi feito para custar caro e beneficiar um setor econômico.

Para aqueles que gostam de comparar o Brasil com os Estados Unidos, vale dizer que, por lá, embora cada estado tenha suas próprias regras, é possível estudar a legislação de trânsito em casa, pegando as informações na internet, e não é necessário fazer aulas práticas. Além disso, todos os testes – teórico, de visão e direção – podem ser feitos num único dia. Ou seja, você entra no departamento de trânsito cedo e, no mesmo dia, está habilitado. Não passou? Pode tentar no dia seguinte e, se passar, a CNH fica pronta na hora. Custo baixo – cerca de 50 dólares.

E então? Nosso sistema é melhor que o deles?

Todo jovem precisa fazer uma faculdade?

Na minha opinião, não! Existe uma diferença entre assegurar que todas as pessoas tenham direito de acesso à universidade e ter a obrigação de fazer uma faculdade para “ser alguém na vida”.

O modelo educacional brasileiro é falho em vários aspectos. Uma das falhas é sustentar-se num modelo de pirâmide que culmina com o ensino superior. Cursar uma faculdade se tornou uma espécie de obrigação. E vários estudos mostrar que, após o diploma, as possibilidades de renda aumentam.

Esse modelo precisa ser corrigido. Todas as pessoas, que sonham com o ensino superior, precisam ter o direito de fazer o curso que desejarem. A universidade deve ser para todosdiferente do discurso do senhor ministro da Educação. Mas deve ser para todos que quiserem.

Por outro lado, também é preciso assegurar ao jovem o direito de optar por uma carreira profissional, rentável, sem a necessidade de ficar quatro, cinco anos no ensino superior. Nem todo mundo gosta de debruçar-se sobre livros, teorias… Não há motivos para rotulá-las como preguiçosas, burras ou fracassadas por não fazerem uma faculdade.

Na Finlândia, desde muito cedo, as crianças já vislumbram qual caminho seguir. E, após completarem três anos de orientação, aos 14 de idade, podem optar por um programa técnico voltado diretamente para um bom trabalho ou ao mundo acadêmico. Mas, detalhe, é possível fazer um curso técnico e, logo em seguida, cursar uma faculdade.

No Brasil, se o jovem escolher um curso técnico, tudo fica mais difícil. Ele segue um “zé ninguém”, porque, pode até ter um bom salário, mas não tem o status do diploma e, se quiser fazer uma faculdade pública, terá que enfrentar o famigerado vestibular, que privilegia aqueles que tiveram uma formação conteudista, pouco relevante, porém, absurda do ponto de vista quantitativo. E aí, como não é competitivo no vestibular, restam-lhe duas alternativas: fazer cursinho por meses, tornando o processo de formação ainda mais longo, ou cursar uma faculdade particular.

Quem tem direito de frequentar uma universidade?

Para o atual ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodrigues, apenas um grupo muito seleto deveria ter direito de acesso ao ensino superior. Nas palavras dele, as universidades devem ficar reservadas para uma elite intelectual. Ele também afirmou, em entrevista ao Valor Econômico, que a ideia da universidade para todos não existe.

Embora sustente que existe uma diferença entre a elite intelectual e a elite econômica, o que o ministro parece ignorar é que, no Brasil, a elite econômica é também aquela que reúne as condições de se tornar a elite intelectual do país. Logo, se passar a vigorar a lógica do ministro, o país vai excluir ainda mais os jovens pobres, empurrando-os para serem tão somente mão-de-obra especializada.

Para justificar sua ideia, o ministro ressalta que, na Alemanha, funciona assim: nem todos chegam à universidade. O ensino técnico é o meio de profissionalização para uma parcela considerável da população alemã.

De novo, o ministro silencia um fato: as crianças têm ensino de qualidade na Alemanha e conseguem, mesmo sendo pobres, candidatarem-se às universidades – caso queiram se dedicar ao universo intelectual. Não é o ocorre no Brasil. Por aqui, se as vagas não forem asseguradas para todos, ainda menos gente frequentará o ensino superior. Vale lembrar que cerca de 80% dos jovens brasileiros estão fora das faculdades e universidades. Ou seja, fazer uma faculdade, no Brasil, já é um privilégio de poucos.

Tenho sustentado que o nosso país precisa de uma ampla mudança na educação. Os indicadores mostram que nossa gente não sabe o mínimo necessário de Matemática e tampouco dá conta de ler e interpretar adequadamente um texto. É necessário mudar, inclusive com a valorização do ensino técnico – que é o caminho mais rápido para a profissionalização.

Entretanto, falas como a do ministro refletem um pensamento mesquinho, excludente, preconceituoso.

Entendo que nem todos queiram frequentar a universidade. Também defendo que este espaço não seja para a formação técnica e profissionalizante; universidade é um ambiente para o desenvolvimento intelectual. Contudo, a escola pública de hoje não assegura formação para que um aluno possa fazer parte da elite intelectual. E as vagas já são mínimas diante da demanda. É justamente por isso que defender tal ideia é, no mínimo, um desrespeito com a maioria do nosso povo.