Ricos mais ricos; pobres mais pobres

Me entristeço ao ver as condições de desigualdade de nosso povo. O último dado que li a respeito do tema aponta que os ricos estão mais ricos e os pobres estão cada vez mais pobres. E embora essa seja a ideia principal de uma música lançada no final dos anos 1990 pelo grupo “As meninas”, a frase está longe de ser um mero clichê.

Uma pesquisa encomendada pelo jornal Valor Econômico ao IBGE mostrou que as pessoas mais ricas ficaram 11% mais ricas no último ano enquanto as mais pobres ficaram 5% mais pobres. Em números, a renda média dos 20% mais vulneráveis da população caiu de R$ 400 para R$ 380. E a renda média dos 20% mais ricos subiu de R$ 5.579 para R$ 6.131.

O jornal ainda apontou que os 40% mais pobres perderam renda. Apenas as classes intermediárias e mais altas conseguiram aumentar os ganhos. E, segundo os analistas, a economia do país não apresenta indicadores de retomada sustentável do crescimento que permita ampliar a oferta de trabalho para a grande massa trabalhadora.

A consequência disso é o distanciamento cada vez maior entre ricos e pobres. E o aumento da desigualdade revela que está cada vez mais difícil revertê-la no curto prazo.

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Aumento da população de rua é uma das causas da crescente insegurança

Dados oficiais apontam que a população de rua não para de crescer no Brasil. Estima-se que só em São Paulo são aproximadamente 20 mil pessoas. Em Maringá, o volume de gente que vive nas ruas também é significativo. A gente não precisa de um estudo para deduzir que tem mais pessoas morando nas ruas a cada dia. O fenômeno é facilmente observável. E uma das consequências disso é o aumento da violência.

Quem mora na rua não é necessariamente bandido. O último estudo desenvolvido sobre a população de rua, no Brasil, foi realizado há cerca de 10 anos. Na ocasião, observou-se três grandes fatores que levam essas pessoas a viver nessas condições: dependência química, perda de emprego e conflitos familiares.

Acontece que, dos três, a dependência química é o principal – mais de 35% dos casos. E aqui está também um dos grandes motivos da violência. Gente na rua, sem trabalho, sem dinheiro, gente que precisa de drogas, é gente que se submete ao crime para manter o vício.

Por isso, quando o poder público se ausenta, a insegurança aumenta. O combate à violência passa pela atuação do Estado no controle da população de rua. Não se trata de obrigar essas pessoas a saírem das ruas e nem de prender todo mundo. Trata-se de pensar políticas que funcionem no tratamento da dependência química e, posterior, inserção no mercado de trabalho.

Deixar essa gente toda na rua é se omitir. É aceitar o risco e permitir que a população se torne vítima da violência.

É preciso ter a atuação ostensiva da polícia, mas também identificar quem é dependente químico (logo, mais suscetível ao mundo do crime) e criar mecanismos de tratamento. Do contrário, não seremos bem sucedidos no combate a violência.

Sobram imóveis desocupados; faltam moradias para os mais pobres

Ninguém tem obrigação de saber sobre tudo. E isso nem é possível. Contudo, ter uma noção da realidade brasileira ajudaria nossa gente a pensar melhor em suas escolhas eleitorais, por exemplo.

Dias atrás, descobri, por exemplo, que estima-se que o Brasil tenha cerca de 6,9 milhões de famílias sem moradia – gente que mora de favor, em casas emprestadas, barracos, junto com outros familiares ou simplesmente se abriga em prédios como o que pegou fogo e desabou em São Paulo.

Por outro lado, o país tem aproximadamente 6 milhões de imóveis desocupados. Alguns deles há muitos anos.

Enorme contradição, né?

Afinal, se a gente pegasse esses imóveis desocupados e colocasse as pessoas que não têm casa para morar neles, o problema de habitação estaria praticamente resolvido.

Evidentemente, isso não é tão simples. E nem é possível numa cultura capitalista, que preserva a propriedade privada e prevê que cada pessoa conquiste a própria casa – mesmo que seja por meio de algum programa de incentivo federal.

E por falar em programa federal, o que dizer dos projetos desenvolvidos para contemplar os mais pobres em suas necessidades?

Bom, a coisa não funciona tanto quanto gostaríamos. São as pessoas mais pobres que mais sofrem com a ausência de moradias. E, pior, programas como o Minha Casa Minha Vida contemplam uma parcela muito pequena da população que ganha até três salários mínimos – justamente os mais carentes.

Na prática, os mais pobres são excluídos inclusive daquilo que deveria ser um direito básico: ter onde morar.

Joaquim Barbosa fará falta nas eleições

Eu queria que Joaquim Barbosa disputasse a presidência. Não por que votaria nele. Na verdade, depois de 20 anos sem votar, ainda estou em dúvida se, em outubro, escolherei alguém para o Planalto e para qualquer outro cargo. Contudo, o ex-ministro do Supremo, de alguma maneira, representava uma novidade na corrida eleitoral. E uma boa novidade. Penso que seria bom para o debate eleitoral. Uma opção diferente.

Joaquim Barbosa tem uma história bonita. História de luta pessoal, de muito esforço para chegar onde chegou. Também foi um excelente ministro do Supremo e manteve uma postura elogiável durante todo o processo do Mensalão no STF. A postura em favor dos mais pobres e das minorias também indicava que poderia ser um bom presidente da República.

Contudo, Joaquim disse ao Valor Econômico que prefere ficar de fora da briga eleitoral. Justificou que o sistema político está amarrado, que não privilegia a mudança e que não tem apego ao poder a ponto de aceitar fazer os jogos necessários para chegar à Presidência.

Sinceramente, entendo a escolha. Acho que é uma atitude coerente com a de todo cidadão que está bastante cansado das estruturas brasileiras e prefere não ser incomodado. Prefere não se expor para não se indispor. Trata-se da percepção de que o Brasil tem dono e qualquer um que tente fazer algo diferente do que tem sido feito não ficará ileso.

Gastos com funcionalismo superam 50% da receita líquida dos Estados

Num ano eleitoral, você tem ideia do que compromete as contas públicas e impede que sejam feitos investimentos básicos – como, por exemplo, a manutenção de estradas ou a reforma de escolas?

A Secretaria do Tesouro Nacional divulgou os gastos dos estados com as folhas de pagamentos e também com os pagamentos das aposentadorias. Os números são assustadores. Quase todos os Estados brasileiros gastam mais da metade de toda a receita líquida com os servidores públicos ativos e inativos, os aposentados.

Esse assunto é sério demais. Mas quase ninguém se toca do problema. A população, de um modo geral, ignora o tamanho do problema. Os servidores públicos, do Executivo, Legislativo e Judiciário, precisam ser bem remunerados. Merecem se aposentar.

Porém, se não houver uma reforma administrativa severa, se o tamanho do funcionalismo não for revisto, se o sistema de aposentadoria dos servidores não passar por mudanças, não restará outra alternativa a não ser aumentar ainda mais os impostos sobre a população.

Hoje, já se gasta mais de 50% da receita líquida em 24 Estados. E com um volume desse de despesas com o funcionalismo, não sobra dinheiro pra mais nada.

Um estudo divulgado no final do ano passado mostrou que os investimentos públicos em obras pra população está caindo para o patamar dos anos 1990. Ainda em abril, o jornal O Estado de São Paulo mostrou que apenas 1,17% do PIB brasileiro foi aplicado em investimentos. Isso significa que, se nada for feito imediatamente, o futuro estará comprometido.

Primeiro de Maio, Dia do Trabalhador: algo a comemorar?

Com cinco dados de estatísticas diferentes, mostro que não temos nada para celebrar. O Brasil é um país desigual, injusto e que sacrifica sua gente.

Temos mais de 13 milhões de desempregados, cerca de 34 milhões de pessoas na informalidade, pelo menos metade dos trabalhadores ganhando menos de um salário mínimo… É simplesmente assustador.

A importância dos espaços públicos

A sensação de insegurança, o medo de sermos assaltados ou sofrermos algum outro tipo de mal, faz com que nos fechemos para o outro. Apostamos cada vez mais em espaços privados. Condomínios, clubes, associações etc. são algumas das estratégias que criamos e utilizamos para conviver com pessoas, mas evitar os desconhecidos.

Acontece que esse tipo de atitude, embora justificada, leva-nos a conviver apenas com iguais. Ou pelo menos, com pessoas mais parecidas conosco – principalmente no que diz respeito à classe social.

Hoje, as cidades limitam os espaços usados pelas pessoas e as separam, inclusive excluindo algumas delas. 

O movimento de restringir os espaços, torná-los privativos – ainda que se justifique, como eu disse -, traz alguns problemas.

A sociedade contemporânea precisa redescobrir o valor dos espaços públicos. Notamos, hoje, que as cidades de médio e grande portes pouco investem em praças, centros de convivência, áreas públicas de lazer, parquinhos etc.

Os espaços são públicos são lugares de convivência com pessoas diferentes, de classes sociais distintas, de orientações sexuais variadas, outras religiões… Ainda que estar com estranhos possa ser um tanto assustador, esses locais permitem que a diversidade seja valorizada. As diferenças ganhem visibilidade e sejam respeitadas.

É fundamental redescobrirmos quem são os outros. Num tempo em que nos ilhamos em espaços privados e as redes sociais na internet, por meio de seus algoritmos, criam tribos virtuais, os espaços públicos urbanos podem permitir o contato e o aprendizado com o diferente, e essencialmente desenvolver em nós a capacidade de nos sensibilizarmos com as desigualdades e até mesmo com as necessidades do próximo.

Ps. A praça da Catedral, em Maringá, é um exemplo de como os espaços públicos podem ser importantes para as pessoas.