Não perturbe o coração

paz

Hoje pela manhã, enquanto folheava a Bíblia, encontrei um verso bem conhecido. Na minha versão, diz:

Não se perturbe o coração de vocês. Creiam em Deus; creiam também em mim. (João 14:1)

O texto é bastante conhecido. Principalmente no meio cristão. Trata-se de uma passagem que tem como cenário um diálogo de Cristo com os discípulos. Ele alerta que vai deixá-los, tenta confortá-los diante das dificuldades, dá várias orientações e os lembra que um dia todos voltariam a estar juntos.

Entretanto, o que me chama atenção nesse verso são quatro mensagens que nos ensinam muito. A primeira delas é a de que, por vezes, nosso coração será perturbado. Sim, porque tem gente que acredita que a vida é cor-de-rosa e não admite a existência de problemas. Mas não é isso que o próprio Cristo diz. Quando fala “não se perturbe o coração de vocês”, Cristo deixa claro que de vez em quando “a casa cai”. Ninguém gosta de passar dificuldades, de ficar triste, ansioso… Mas isso acontece sim. E com todo mundo.

A segunda lição é de que os problemas não podem tirar nosso prazer de viver. Numa outra versão da Bíblia, a gente lê (ao invés de “não se perturbe o coração”): “não se turbe o vosso coração”. Embora o verbo seja pouco usado em nossa linguagem cotidiana, “turbar” é o mesmo que escurecer, tornar-se sombrio. Portanto, mesmo em meio ao sofrimento, nosso coração não pode se fechar para a vida. Tem gente que em meio aos problemas parece alimentar ainda mais a alma com coisas ruins.

A terceira mensagem não é literal, mas está no discurso de Jesus. Quando Ele diz “não se perturbe (ou turbe) o coração de vocês”, há uma indicação clara de que temos a opção por afundar de vez nos problemas ou caminhar pela vida com esperança. Eu sempre digo que o sofrimento chega, não dá para negá-lo. A gente sofre sim. Porém, o texto bíblico sugere que se afogar com os problemas é uma escolha nossa. Nós temos a chance de, mesmo em meio às lágrimas, olhar para a situação e dizer: vai passar!

E a última coisa que o verso me faz pensar é na importância da fé. Ter em quê confiar faz muita diferença. E nem estou fazendo aqui apologia religiosa. Na verdade, nem é essa a minha proposta. O que estou dizendo é que ter esperança de dias melhores, de que o sofrimento vai passar, de que dias melhores virão, nos ajuda a suportar a dor. Na verdade, a gente nunca sabe o que vai acontecer daqui um mês, um ano… ou dez anos. Por isso se torna difícil acreditar que as perdas de hoje serão sublimadas por conquistas que teremos ao longo da vida. Ainda assim, confiar nos conforta, nos acalma… E faz nossos olhos não se fixarem apenas na dor.

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Pastor ou político? Nunca as duas coisas

pastor

O Tribunal Superior Eleitoral registrou, em comparação a 2010, um aumento de 40% no registro de candidaturas de pastores para as eleições deste ano. Pois é… Pelo menos, 270 pastores estão na disputa. Um deles, inclusive, o pastor Everaldo, concorre à presidência da República.

Sabe, talvez eu esteja errado. Talvez eu até mude de ideia com algum comentário… Ou, com o passar dos anos. Entretanto, embora seja cristão, eu não voto em pastor. Não concordo com a participação deles na política. Muito menos na disputa por cargos. Acho que membros de igreja, e até alguns líderes, podem participar do pleito, mobilizar-se por candidatos etc. Mas pastor, não dá.

Algo que me incomoda profundamente é o uso da condição de pastor na disputa. O sujeito tem uma relação de autoridade junto aos fieis. É respeitado, querido… Visto como uma pessoa de Deus. Muitas vezes, trata-se de alguém que mobiliza milhares de pessoas. Tem sob sua administração dezenas de outros pastores, presbíteros, diáconos etc. Toda essa estrutura acaba perdendo seu principal objetivo e servindo a um propósito político-eleitoral.

Para mim, igreja é igreja. É para tratar da espiritualidade das pessoas. É para cuidar das fragilidades, das dificuldades – inclusive emocionais. Pastor que se torna político rompe com os princípios bíblicos. A política pode ser um espaço para servir ao próximo, mas em nada se parece com o serviço pastoral. Os papéis são outros. Por isso, penso que o pastor que deseja ser político deveria renunciar a função de líder religioso.

E o pior problema, na minha opinião, é que pastor, quando eleito, torna a igreja um espaço político de mobilização de interesses que nem sempre são espirituais. Há pastores que manipulam os fieis, direcionando-os em defesa ou em oposição a determinadas ideologias políticas. E não é isso que a Bíblia apresenta como papel do cristão. Além disso, na política, alguns desses pastores passam a atuar em defesa de bandeiras moralistas, ignorando o bom senso e contrariando o que é de fato a real função do Estado (veja o caso de gente como o deputado Marco Feliciano).

Por fim, a maioria deles envergonha as religiões cristãs, cria uma imagem estereotipada do que é ser crente… Sem contar que contribui para a manutenção da ideia de que “crente é tudo igual”.

PS, Também há bispos e padres na disputa eleitoral. Mas, em comparação à última eleição, houve uma redução de 25% e 30%, respectivamente. Embora a igreja Católica seja muito maior no país, o número de bispos e padres candidatos, somados, não representa 30% dos pastores que estão na disputa. Ainda assim, penso que a reflexão sobre pastores-candidatos também é válida para o caso de bispos e padres que se rendem à sedução da política.

Viver em paz

harmonia

Tem comentários cotidianos cheios de verdade, mas que, por vezes, ignoramos. Um que gosto bastante é sobre nossa condição anatômica: temos dois ouvidos e apenas uma boca. Isso sugere que deveríamos ouvir mais e falar menos.

Com frequência, a gente faz justamente o contrário: fala mais e ouve menos. E mesmo quando silencia, não ouve. Tem uma passagem bíblica na carta de Tiago que é traz um conselho precioso.

– Lembrem disto, meus queridos irmãos: cada um esteja pronto para ouvir, mas demore para falar e ficar com raiva (Tiago 1:19).

Consegue perceber a dimensão da orientação? Primeiro, a gente deve ouvir mais que falar. Segundo, a gente deve ter disposição para ouvir. Terceiro, a gente deve refletir antes de falar. Por fim, a gente deve ter controle das emoções.

Quando eu era garoto, meu avô usava uma expressão que eu achava o máximo. Ele dizia “quem fala demais, dá bom dia a cavalo”. Bom, não sei bem o que significa dar bom dia a um cavalo, mas sei o que ele queria dizer. Seo Américo sustentava – e praticava – a tese que é mais prudente falar pouco. E, ao recordar dele, posso assegurar que a “regra” funciona. Meu avô era um homem que tinha autoridade e era respeitado. Justamente por falar pouco, geralmente não magoava as pessoas. O que ele verbaliza parecia ser estudado, resultado de uma reflexão. Por isso, quando abria a boca, a gente sabia que era algo importante; deveríamos ouvi-lo.

Na verdade, esse também é um dos problemas de falar demais: as palavras se tornam banais, vazias. Perdem força. Há pressa, ansiedade em falar, falar e falar.

Entretanto, mais que ter cuidado com o que se fala, é desafiador se manter disposto a ouvir. A gente tem fôlego pra falar, mas pouca paciência em ouvir. E estar pronto para ouvir é estar preparado para ser ofendido, inclusive. Ou para escutar coisas que desagradam, que não nos interessam. Num momento de intolerância e egoísmo, quem se prontifica a ouvir? E nem digo de ouvir num confronto; falo, por exemplo, do ato de ouvir alguém que precisa desabafar. Na verdade, as pessoas hoje parecem não se importar uma com as outras. No confronto, a situação tende a ser muito pior.

O que me parece ainda mais difícil é controlar as emoções. Como não ficar com raiva se aquilo que ouvi me ofende ou agride pessoas que amo? Como ter disposição para ouvir, demorar-se pra responder e pra ficar com raiva? Posso garantir que sou um sujeito bastante controlado. Contudo, estou distante demais de combinar essas “habilidades” do conselho do apóstolo Tiago. Parece quase uma utopia. Como viver dessa maneira? Sinceramente, não sei. Ainda assim, para além de uma crença religiosa ou de ser um ensino bíblico, sei que se trata do jeito certo de viver. Se praticássemos o que está nesse texto, viveríamos bem melhor, faríamos bem às pessoas com as quais nos relacionamos e certamente a convivência com os outros se tornaria mais prazerosa.

Quem quer ser importante?

servir

Certa ocasião, a mãe de dois discípulos de Jesus chegou até Ele e fez um pedido inusitado. Ela reivindicou que, quando Jesus se tornasse rei, os seus filhos pudessem se assentar ao lado do trono dEle. Um ao lado direito; outro, ao esquerdo. Ela queria um lugar privilegiado para os filhos. Era uma mãe preocupada. Desejava o melhor para seus “meninos”.

A situação deu uma confusão danada. Os outros 10 discípulos acharam aquilo um absurdo. Onde já se viu tal privilégio? Como podia dois deles terem uma posição melhor, de maior destaque no novo reino?

Os discípulos achavam que Jesus estabeleceria um reino aqui na Terra. Se tornaria um homem poderoso. Quem sabe pudesse livrá-los da servidão a Roma. E se Jesus se tornasse rei, queriam ser beneficiados pelo seu governo.

Por sinal, naquela época, havia um costume em Roma que deu origem inclusive a um termo bastante conhecido hoje: clientelismo. A gente usa esse termo para falar sobre situações em que uma pessoa se beneficia do poder de outra. Na Roma antiga, cliente era o homem livre, mas sem terras e demais propriedades. O cliente se tornava dependente de um patrício (patrono), geralmente da aristocracia. Esse atuava como uma espécie de padrinho e auxiliava financeiramente, garantia proteção social. Ou seja, o cliente gravitava em torno de um poderoso.

Esse costume não se restringiu a Roma. Outras culturas adotaram o “modelo”. E, de certa forma, a mãe dos dois discípulos queria alguma coisa parecida. Só que foi mais ousada: pediu um privilégio ainda maior.

Jesus resolveu o impasse ensinando uma grande lição. Ele falou da sua morte e sustentou uma das teses mais lindas da Bíblia: Ele veio à Terra para servir e não para ser servido.

– Quem quiser ser importante, que sirva os outros.

Como a gente vive numa sociedade tida como predominante cristã, eu fico pensando na contradição entre o que Jesus disse e o que se pratica. As disputas de poder acontecem até mesmo na esfera familiar. Na dinâmica do trabalho, todo mundo quer o melhor cargo. Numa discussão, todo mundo quer ter razão. Nas relações, pedir desculpas parece um ato de humilhação. A gente luta para estar no topo. Precisa se sentir importante. A gente quer gente servindo a gente. Olhamos primeiro para nossas necessidades. Nosso ego é nossa referência. E os ensinos de Jesus se tornam apenas textos que servem de pretexto para uma religiosidade vazia e quase nada cristã.

PS- A passagem bíblica está no livro de Mateus, capítulo 20, a partir do verso 20.

Quando se confunde o Estado com a igreja

igrejaQue homem tem direito de interferir na escolha de outro homem? O Estado tem o direito de proibir uma pessoa de fazer algo que não prejudica a ninguém?

Vamos ao ponto: o Estado tem o direito de me proibir de me casar, no papel, com outra pessoa do mesmo sexo? Essa união não deveria ser um problema meu?

Sou hétero. E nenhum pouco interessado em relações homossexuais. Mais que isso, tenho uma história religiosa cristã. No entanto, para mim, as coisas são muito claras: as pessoas escolhem o que querem viver. Só existe uma lei: liberdade com responsabilidade. Somos livres para agir dentro dos limites da responsabilidade. Se minha ação não afeta a coletividade, não deveria ser regulada pelo Estado. O Estado tem o dever de preservar o equilíbrio entre as relações, o respeito. O Estado tem a obrigação de proteger, não de coibir ou interferir na vida privada.

Como cidadão, fico constrangido ao notar que a sociedade ainda media suas leis com base nas crenças religiosas. Acho que o próprio Deus se sentiria constrangido. Ele, que deixou-nos a liberdade como princípio norteador da existência, não me parece que aprovaria muitos dos debates que hoje a sociedade faz. A prática religiosa e o respeito às leis divinas são uma escolha do próprio homem. Um ato de fé e amor. Entretanto, não é porque acredito em algo que isso serve de regra de vida para o outro. Posso até tentar convencê-lo dos meus valores, mas não posso obrigá-lo a viver como eu vivo.

Portanto, se a pessoa quer casar com alguém do mesmo sexo, esse não é um problema meu. Mesmo do ponto de vista religioso cristão, trata-se de uma escolha da pessoa. E, segundo a Bíblia, cada um prestará contas de seus atos a Deus. Então por que o Estado tem que proibir?

Ou, como quer a  Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados, por que fazer um plebiscito para tratar disso?

É ridículo.

A CDHM também se presta a ações injustas. Um projeto de lei, prevendo que companheiros homossexuais de funcionários públicos e beneficiários do INSS fossem considerados dependentes destes, foi rejeitado. O texto garantiria, por exemplo, que recebessem pensão.

Como disse, as motivações que resultam nessas ações políticas são quase sempre baseadas em valores religiosos. Marco Feliciano e cia confundem Estado com igreja, confundem a individualidade com o que pensam sobre salvação (céu). Lamentável!

Eu e o Papa

papaNão sou católico. Nunca fui. No meu universo religioso, quando há algum movimento no Vaticano, alguns costumam sair alardeando o apocalipse. Ainda assim, olho com curiosidade o momento histórico da escolha do Papa. E torci por um brasileiro. Não deu. A escolha recaiu sobre um argentino.

Cá com meus botões, pensei:

– Ferrou-se!

Desculpem-me os católicos. Papa argentino é complicado, né? Podia ser canadense, italiano, alemão, americano, jamaico, africano. Mas argentino? Poxa!!!

Já estão até brincando:

– Deus é brasileiro. Porém, o Papa é argentino.

Francisco. Este será o nome usado pelo cardeal Jorge Mario Bergoglio. Para muitos, a escolha foi uma surpresa. Para nós brasileiros, ficou um gostinho de decepção. Talvez, mais que isso. Afinal, a rivalidade com os nossos vizinhos é grande. Eles agora têm até um Papa (Só falta o Messi superar o Pelé).

Não sendo católico, sou apenas um torcedor. Entretanto, sei que, para além da nacionalidade, existem ideologias, posições políticas, comprometimento, habilidades sociais e evangelizadoras etc. Tudo isso certamente conta na escolha do líder religioso. E certamente os católicos brasileiros aprenderão a amar seu novo Papa. No entanto, aqui na minha insignificância, ainda acho que sempre ficará entre nós uma pontinha de inveja.

Ana Paula Valadão e os pastores “barrigudos”

Esbarrei hoje com essa notícia:

Cantora gospel diz que ‘pastores barrigudos’ deveriam jejuar mais

Impossível não rir.

A cantora/pastora é Ana Paula Valadão, líder do Diante do Trono. E a declaração dela gerou polêmica. E não é para menos. Afinal, ela sustenta a necessidade de os pastores perderam a barriga e ainda dispara contra as mulheres gordas.

Achei graça – e gostei, confesso – de a declaração ter virado notícia. Embora possa parecer uma fala preconceituosa, penso que líderes religiosos têm o dever de influenciar positivamente as pessoas. Não como fez Silas Malafaia durante a campanha eleitoral.

E apontar pra barriga dos pastores e obesidade das mulheres pode parecer uma atitude agressiva, mas deve ser entendida como um alerta. Pastores, padres, artistas, autoridades etc são referência. Em todos os sentidos. Para o bem e para o mal.

No caso da religião, não se deve apenas apontar o Céu. Ou pregar prosperidade, como fazem alguns. É fundamental discutir saúde, qualidade de vida. E como fazer isso se, para alguns, a barriga mal cabe dentro da camisa?

Algumas igrejas, inclusive, têm orientações específicas sobre saúde. Recomendações sobre o cuidado com a ingestão de alimentos, bebidas, quantidade etc. Os próprios escritos sagrados são bastante específicos sobre a necessidade de moderação à mesa. Salomão chega a dizer que, quando vamos comer na casa de alguém, devemos colocar uma faca atravessada na garganta. A metáfora é clara: coma menos! Controle-se.

Entre os chamados pecados capitais está a gula. O que é isso? O desejo desenfreado de comer. Então, que sentido faz um líder obeso? A Ana Paula até pode ter errado no tom. Mas refletir sobre a necessidade de cuidar do corpo e ter uma atitude para perder o excesso de gordura são boas sugestões.

Malafaia, religião e a manipulação eleitoral

Tem atitudes que fazem a gente sentir vergonha. Hoje, senti vergonha ao ler o que disse o pastor Silas Malafaia sobre a disputa de segundo turno em São Paulo. Como cristão que sou, não consigo conceber que um líder religioso seja capaz de comprar uma briga política. Muito menos de, usando seu prestígio, se prestar a esse tipo de serviço sujo.

Líder evangélico diz que vai ‘arrebentar’ candidato petista

Arrebentar??? Socorro, né!!

A fala despropositada de Malafaia virou manchete. E esta daí é a que aparece na edição online da Folha.

Sabe, não gosto de pastores, padres etc etc se envolvendo com campanhas políticas. Entendo que a igreja (todas) tem um papel político. No sentido de politizar, conscientizar, educar. Mas não de orientar o voto.

É ridículo quando uma igreja se posiciona a favor de um candidato. Isso é manipulação. Manipulação desavergonhada.

Fiéis geralmente confiam em seus líderes. E, por vezes, cegamente. Por isso, são presas fáceis. Votam porque o pastor mandou. Votam porque o pastor pediu. Votam porque o padre orientou. Votam porque o líder religioso falou que fulano é isso ou aquilo…

Caríssimos, isso não pode. Ou, pelo menos, não deveria ser assim.

Quando gente como Malafaia se presta a esse tipo de serviço, rompe com o processo democrático. Desrespeita a individualidade das pessoas. E o próprio equilíbrio da disputa eleitoral. Fiéis viram, de fato, um “rebanho” – uma manada de tolos conduzidos pelo caminho escolhido por seu “pastor”.

Líderes religiosos têm sim função social. Mas não papel político eleitoral. Um povo educado deveria rejeitar atitudes como a de Malafaia. Pessoas que usam o púlpito e o prestígio religioso para empreenderem campanhas desse tipo não merecem o lugar que ocupam.