Ricos mais ricos; pobres mais pobres

Me entristeço ao ver as condições de desigualdade de nosso povo. O último dado que li a respeito do tema aponta que os ricos estão mais ricos e os pobres estão cada vez mais pobres. E embora essa seja a ideia principal de uma música lançada no final dos anos 1990 pelo grupo “As meninas”, a frase está longe de ser um mero clichê.

Uma pesquisa encomendada pelo jornal Valor Econômico ao IBGE mostrou que as pessoas mais ricas ficaram 11% mais ricas no último ano enquanto as mais pobres ficaram 5% mais pobres. Em números, a renda média dos 20% mais vulneráveis da população caiu de R$ 400 para R$ 380. E a renda média dos 20% mais ricos subiu de R$ 5.579 para R$ 6.131.

O jornal ainda apontou que os 40% mais pobres perderam renda. Apenas as classes intermediárias e mais altas conseguiram aumentar os ganhos. E, segundo os analistas, a economia do país não apresenta indicadores de retomada sustentável do crescimento que permita ampliar a oferta de trabalho para a grande massa trabalhadora.

A consequência disso é o distanciamento cada vez maior entre ricos e pobres. E o aumento da desigualdade revela que está cada vez mais difícil revertê-la no curto prazo.

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Qual é o perfil do leitor de hoje?

O maior filósofo vivo da atualidade, o alemão Jürgen Habermas, disse, em recente entrevista ao jornal El Pais, que o leitor de hoje está muito distante do que desejado. Afinal, quando a gente escreve por aqui, por exemplo, tudo que deseja é que exista alguém que compreenda de maneira plena a reflexão proposta.

Habermas afirmou que “não pode haver intelectuais se não há leitores”.

Acontece que esse tipo de texto, ou de vídeo com conteúdo um pouco mais elaborado (ou intelectual intelectual, digamos) atinge pouca gente. As pessoas, acostumadas com o universo das redes, gostam mesmo é das frases feitas, dos clichês, dos gritos, das agressões, xingamentos… Nada muito elaborado. Apenas um texto de efeito, não de conteúdo complexo.

Eu confesso que as observações do filósofo Habermas me entristeceram um pouco. Eu não gostaria de acreditar que as pessoas preferem consumir conteúdos do estilo que elegeram Donald Trump, nos Estados Unidos. Afinal, não acho que em pleno século 21 a gente mereça uma sociedade de pensamento tão simplista.

Aumento da população de rua é uma das causas da crescente insegurança

Dados oficiais apontam que a população de rua não para de crescer no Brasil. Estima-se que só em São Paulo são aproximadamente 20 mil pessoas. Em Maringá, o volume de gente que vive nas ruas também é significativo. A gente não precisa de um estudo para deduzir que tem mais pessoas morando nas ruas a cada dia. O fenômeno é facilmente observável. E uma das consequências disso é o aumento da violência.

Quem mora na rua não é necessariamente bandido. O último estudo desenvolvido sobre a população de rua, no Brasil, foi realizado há cerca de 10 anos. Na ocasião, observou-se três grandes fatores que levam essas pessoas a viver nessas condições: dependência química, perda de emprego e conflitos familiares.

Acontece que, dos três, a dependência química é o principal – mais de 35% dos casos. E aqui está também um dos grandes motivos da violência. Gente na rua, sem trabalho, sem dinheiro, gente que precisa de drogas, é gente que se submete ao crime para manter o vício.

Por isso, quando o poder público se ausenta, a insegurança aumenta. O combate à violência passa pela atuação do Estado no controle da população de rua. Não se trata de obrigar essas pessoas a saírem das ruas e nem de prender todo mundo. Trata-se de pensar políticas que funcionem no tratamento da dependência química e, posterior, inserção no mercado de trabalho.

Deixar essa gente toda na rua é se omitir. É aceitar o risco e permitir que a população se torne vítima da violência.

É preciso ter a atuação ostensiva da polícia, mas também identificar quem é dependente químico (logo, mais suscetível ao mundo do crime) e criar mecanismos de tratamento. Do contrário, não seremos bem sucedidos no combate a violência.

Sobram imóveis desocupados; faltam moradias para os mais pobres

Ninguém tem obrigação de saber sobre tudo. E isso nem é possível. Contudo, ter uma noção da realidade brasileira ajudaria nossa gente a pensar melhor em suas escolhas eleitorais, por exemplo.

Dias atrás, descobri, por exemplo, que estima-se que o Brasil tenha cerca de 6,9 milhões de famílias sem moradia – gente que mora de favor, em casas emprestadas, barracos, junto com outros familiares ou simplesmente se abriga em prédios como o que pegou fogo e desabou em São Paulo.

Por outro lado, o país tem aproximadamente 6 milhões de imóveis desocupados. Alguns deles há muitos anos.

Enorme contradição, né?

Afinal, se a gente pegasse esses imóveis desocupados e colocasse as pessoas que não têm casa para morar neles, o problema de habitação estaria praticamente resolvido.

Evidentemente, isso não é tão simples. E nem é possível numa cultura capitalista, que preserva a propriedade privada e prevê que cada pessoa conquiste a própria casa – mesmo que seja por meio de algum programa de incentivo federal.

E por falar em programa federal, o que dizer dos projetos desenvolvidos para contemplar os mais pobres em suas necessidades?

Bom, a coisa não funciona tanto quanto gostaríamos. São as pessoas mais pobres que mais sofrem com a ausência de moradias. E, pior, programas como o Minha Casa Minha Vida contemplam uma parcela muito pequena da população que ganha até três salários mínimos – justamente os mais carentes.

Na prática, os mais pobres são excluídos inclusive daquilo que deveria ser um direito básico: ter onde morar.

A importância dos espaços públicos

A sensação de insegurança, o medo de sermos assaltados ou sofrermos algum outro tipo de mal, faz com que nos fechemos para o outro. Apostamos cada vez mais em espaços privados. Condomínios, clubes, associações etc. são algumas das estratégias que criamos e utilizamos para conviver com pessoas, mas evitar os desconhecidos.

Acontece que esse tipo de atitude, embora justificada, leva-nos a conviver apenas com iguais. Ou pelo menos, com pessoas mais parecidas conosco – principalmente no que diz respeito à classe social.

Hoje, as cidades limitam os espaços usados pelas pessoas e as separam, inclusive excluindo algumas delas. 

O movimento de restringir os espaços, torná-los privativos – ainda que se justifique, como eu disse -, traz alguns problemas.

A sociedade contemporânea precisa redescobrir o valor dos espaços públicos. Notamos, hoje, que as cidades de médio e grande portes pouco investem em praças, centros de convivência, áreas públicas de lazer, parquinhos etc.

Os espaços são públicos são lugares de convivência com pessoas diferentes, de classes sociais distintas, de orientações sexuais variadas, outras religiões… Ainda que estar com estranhos possa ser um tanto assustador, esses locais permitem que a diversidade seja valorizada. As diferenças ganhem visibilidade e sejam respeitadas.

É fundamental redescobrirmos quem são os outros. Num tempo em que nos ilhamos em espaços privados e as redes sociais na internet, por meio de seus algoritmos, criam tribos virtuais, os espaços públicos urbanos podem permitir o contato e o aprendizado com o diferente, e essencialmente desenvolver em nós a capacidade de nos sensibilizarmos com as desigualdades e até mesmo com as necessidades do próximo.

Ps. A praça da Catedral, em Maringá, é um exemplo de como os espaços públicos podem ser importantes para as pessoas. 

A sedutora Black Friday

A Black Friday é uma grande celebração do consumo. Consumo que há muito tempo deixou de ser a concretização de uma necessidade. Hoje, é a satisfação de desejos. Desejos que são estimulados por diferentes estratégias de comunicação e marketing.

Um dia de promoções em toda a rede lojista do país é apenas mais uma das estratégias de mercado. Na prática, temos promoções o ano todo. E, com frequência, os preços praticados estão muito próximos dos que podemos conseguir num dia qualquer (se for feita uma pesquisa razoável em diferentes empresas).

Ou seja, a compra de um produto sempre pode ser adiada. Não é, quase sempre, porque a ansiedade é grande… É “preciso” realizar o desejo de ter aqui e agora o objeto desejado.

E o que é adquirido logo perde a graça. Em pouco tempo, outro produto terá de ser comprado.

Na verdade, como diz o sociólogo Zigmunt Bauman, o mercado não sobreviveria se as pessoas se apegassem às coisas. Estas logo devem ser descartadas…

A arte do marketing está voltada para evitar a limitação de opções. Quando se abre o site de uma loja virtual, as possibilidades são tantas que, por vezes, ficamos tontos, indecisos.

Não compramos apenas o necessário; compramos o que salta aos olhos. Afinal, a sociedade de consumo funciona sob a lógica do desejo, do despertar e do realizar os desejos por meio das compras.

Os desejos são cultivados de forma cuidadosa. E frequentemente são caros. Não poucas vezes, causam endividamento e comprometimento da renda e até de compras futuras, inclusive de objetos e/ou serviços realmente necessários.

Porém, poucas pessoas dão conta de passar “em branco” numa Black Friday. Já estamos condicionados. A sociedade moderna-líquida é destinada e feita para o consumo.

Quem quer sentir-se seguro?

Queremos segurança, mas o que temos? Apenas vislumbres, ilusões de segurança. Na prática, experimentamos crises e tensões contínuas, não temos controle algum do meio em que vivemos… O cenário é caótico. E em todos os setores.

Esse grau de insegurança é tão grande que atinge inclusive pontos fundamentais da nossa existência. Por exemplo, eu trabalho há 29 anos. No entanto, não tenho a menor ideia se vou me aposentar daqui 20, 25, 30 anos.

É difícil prever o que vai acontecer conosco em alguns poucos meses; mais difícil ainda é traçar expectativas de médio e longo prazos.

Sem controle algum da situação, temos tentado calcular e minimizar os riscos. Por isso, investimos em planos de saúde, fazemos poupança, pagamos previdência privada, compramos imóveis… Instalamos softwares em computadores, smartphones para que dados não sejam roubados… São estratégias nossas, numa busca quase desesperada para sobreviver a esse cenário.

Investimos nossos ganhos para reduzir as incertezas. E, ao fazermos isso, alimentamos um mercado que se sustenta justamente com o nosso medo.

Bauman avalia esse cenário falando da existência de um “capital do medo”. Ele não fala de um lugar, de uma cidade… Faz referência ao lucro. É como se dissesse que existe uma indústria do medo.

Existem vários segmentos que lucram milhões de dólares em virtude do nosso medo. Eu já mencionei alguns… Porém, o segmento de segurança é talvez o exemplo mais visível. Gastamos com seguros residenciais, de automóveis… Colocamos grades em nossas casas, cerca elétrica, câmeras de vigilância, blindamos veículos, instalamos alarmes… Empresas contratam seguranças…

A arquitetura é guiada pelo medo. As residências e edifícios são projetados para criar a falsa sensação de segurança. Temos criado fortalezas urbanas. Cada vez mais, surgem condomínios fechados.

Há milhares de tecnologias voltadas para a segurança – inclusive com o uso de inteligência artificial. A promessa de sempre é proteger os usuários em todos os campos – patrimonial, pessoal, dados etc.

A insegurança alimenta o mercado. Mas também a política se beneficia do medo. O discurso político geralmente transita por esse campo prometendo mais policiamento, viaturas, monitoramento das cidades por meio de câmeras… Prometem mudança nas leis… E quem parece ter a melhor proposta, ganha a simpatia do eleitorado. Tudo jogo de cena.

Diante disso que mencionei, alguém ainda acha que teremos respostas efetivas para pôr fim as causas de nossas inseguranças, de nossos medos?