Apenas 8% dos brasileiros sabem ler

Levantamento realizado pelo Instituto Paulo Montenegro trouxe alguns dados assustadores sobre as condições de leitura do brasileiro.

De acordo com a pesquisa, realizada em parceria com a ONG Ação Educativa, apenas 8% das pessoas entre 15 e 64 anos são proficientes em leitura. Ou seja, sabem ler e interpretar textos, tabelas, dados estatísticos etc. Em contrapartida, o percentual dos analfabetos funcionais é de 27% da população. Quem são os analfabetos funcionais? Aqueles incapazes de compreender, de interpretar textos simples.

Fiquei extremamente incomodado quando vi os dados da pesquisa. Afinal, na prática, apenas oito de cada 100 pessoas são plenamente capazes de ler, fazer inferências, contextualizações… As demais, em graus variados, possuem algum tipo de limitação na leitura – mesmo tendo sido alfabetizadas.

E o que isso acaba resultando na prática? Incapacidade de leitura do mundo. Sim, porque o grande problema não é ter dificuldade para compreender um texto escrito. O desastre é maior porque as pessoas significam o mundo de forma distorcida. Pior: acham que estão certas.

Gente com dificuldade de leitura é gente que ignora e que tem potencial de se tornar ignorante, no sentido pejorativo da palavra.

Responsabilidade da escola? Também! Mas não apenas da escola. Na verdade, a escola quase sempre é tão vítima quanto as pessoas que não dominam a leitura. Políticas públicas inadequadas criam um ambiente ruim para o desenvolvimento de boas práticas educacionais. E fazem mais: colaboram para manutenção de uma cultura presunçosa e preguiçosa, que leva as pessoas a não terem prazer no conhecimento. O efeito prático é a ausência de esforço na busca pelo saber.

Ps. Certamente, a pesquisa ajuda a explicar inclusive o que acontece no Facebook e demais redes sociais: esse universo de desencontro de ideias, ódio, agressões…

Ps2. A pesquisa foi divulgada em fevereiro de 2016.

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Escolhi ser professor

Dia do professor… Muita gente felicita professores e professoras… Outras pessoas mencionam a necessidade de reconhecimento profissional… Em meio a tudo isso, fico pensando: será que tenho algo a contribuir com o que está sendo dito? Cheguei a pensar em nada escrever. Porém, este é o primeiro ano que dedico exclusivamente à educação. Desde fevereiro, das 7h às 23h, sou professor e coordenador em instituições de ensino. Acho que preciso falar pelo menos da minha felicidade em ser educador.

Sim, sou feliz com o que faço. Brinco que o Jornalismo é acidente de percurso; ser professor é minha escolha. E tenho muito orgulho disso.

A docência é um trabalho árduo, difícil, cansativo. Hoje, por exemplo, desde que acordei, só parei de trabalhar para fazer as refeições e, agora, para escrever este texto. Há doze anos, essa é minha rotina aos domingos e feriados. Algo a reclamar? Não. Escolhi ser professor. E toda escolha implica perdas e ganhos. Alguém talvez diga: mas não se ganha suficiente para isso. Acontece que, quando escolhi ser professor, eu sabia qual era a remuneração e todo o empenho que seria necessário para fazer meu trabalho de maneira digna.

Talvez alguns falem: falta reconhecimento! Respondo: o que é reconhecimento? Dinheiro? Status? Fama? Se este for o reconhecimento desejado, a maioria dos profissionais brasileiros (e em todo planeta) está em condições semelhantes. Reconhecimento, para mim, são situações como a que aconteceu comigo na última sexta-feira. Cheguei ao caixa do supermercado, uma ex-aluna, da qual nem lembrava mais e que já estava saindo, retornou com um sorriso no rosto, me deu um abraço e, ali em frente à mulher do caixa, fez vários comentários positivos sobre o quanto fui importante na sua formação. Me contou histórias da vida dela, da gravidez, do que está fazendo… Mostrava-se contente por ter me reencontrado. Cá com meus botões, acredito que, durante os dois anos que fui professor dela, se eu estivesse reclamando das condições de trabalho, do salário, das horas dedicadas à preparação das aulas, das provas e textos que tenho para corrigir, não ouviria os elogios que ouvi. Não teria os sorrisos e as histórias dela.

Entendo sim que deveríamos ganhar mais. Enfermeiros também, fisioterapeutas, farmacêuticos, contadores, jornalistas… Também entendo que existam injustiças, desigualdades e tratamentos diferenciados. Mas também penso que muitos de nós temos assumido um discurso de vitimização. Isso nos apequena. Na sociedade do espetáculo (aparência), colocar-se como vítima é tornar-se efetivamente vítima e perder o respeito das pessoas. Hoje, muitos docentes sequer são respeitados pelos alunos e pelos pais de alunos – o que é lamentável. Que investimentos, porém, estão fazendo em si mesmos para se assumirem como autoridade no que fazem e dizer: “disso daqui eu entendo”?

Eu escolhi ser professor. Preferi o saber a fama, ao status, ao dinheiro. Sinto prazer no conhecimento. Gosto de pensar para além do senso-comum. Me faz bem oferecer olhares provocativos, amplos e plurais aos meus alunos e alunas. Isso me realiza. É isso que quero fazer até o fim dos meus dias: ser professor!

Somos seres inacabados

Somos condicionados pelo meio em que estamos. Ninguém é totalmente livre. Nossos pensamentos e desejos não brotam livremente em nossa mente. Quando nos movemos para fazer algo que supostamente queremos, esse desejo é condicionado pela história – nossa família, religião, mídia.

Ninguém compra um roupa simplesmente porque quer aquela roupa. Ainda que de forma inconsciente, nosso gosto é condicionado. Vale o mesmo para as escolhas políticas, amizades etc.

O mestre Paulo Freire foi um dos pensadores que discutiu essa tese. E, por isso, apontava que todo professor/a deve considerar a história do aluno, pois ela afeta a aprendizagem.
Entretanto, Freire também dizia que somos seres inacabados.

O que isso significa? Que sempre há espaço em nós para aprendermos mais, ressignificarmos nossas ações, revermos hábitos e até formas de pensar. Em outras palavras, ninguém precisa ser para sempre a mesma pessoa. É possível crescer como humano.

E essa consciência de que somos seres inacabados (de que não sabemos tudo e de que não possuímos todas as verdades) pode motivar-nos à busca constante de conhecimento. Não sei música? Mas posso saber. Não sei pintar? Posso aprender. Não sei cuidar da terra? Ainda é possível descobrir seus segredos…

É na inconclusão do ser, que se sabe como tal, que se funda a educação como processo permanente. Mulheres e homens se tornaram educáveis na medida em que se reconheceram inacabados” (Paulo Freire, Pedagogia da Autonomia).

O mundo não é só meu

O que acontece quando duas pessoas estão gritando? Elas se ouvem? Conseguem se comunicar? Esses gritos permitem alguma negociação, algum acordo?

Sabe qual é a sensação que tenho quando olho muitas publicações que estão aqui na rede? A sensação que tenho é que as pessoas estão gritando. É tanta raiva, tanto ódio… São tantos ataques que ninguém ouve ninguém. E semelhante ao que acontece com duas pessoas que estão brigando, gritando uma com a outra, o resultado é só ofensa, mágoa e mais ódio.

Quando alguém grita com você, te ataca e não te dá a chance de se explicar… Quando esse alguém não parece disposto a te ouvir, dá vontade de bater nessa pessoa, socá-la.

É exatamente isso que vejo na internet. As pessoas estão agredindo verbalmente umas às outras. O outro é sempre um doente, um idiota, uma porcaria de pessoa que precisa ser eliminada da face da terra.

Confesso que isso tudo tem me entristecido. Sei que muito do que falo/escrevo aqui também não é ouvido. Principalmente por aquelas pessoas que não querem enxergar que o mundo não é binário, não é feito apenas de pessoas que concordam comigo e daquelas que discordam – logo, são imbecis, ignorantes.

Eu tenho insistido que o mundo não é feito de um “nós e eles”. O mundo é rico, é plural. É feito por pessoas diferentes, que têm gostos diferentes, vontades distintas da minha. O que eu gosto, o que eu sei, o que eu penso, o que eu sou, o que faço da minha vida e do meu sexo não é melhor que o gosto, que o pensamento, que o jeito de ser e viver do outro.

Mesmo nas discussões políticas, são apenas posicionamentos, ideologias distintas, formas diferentes de organizar a sociedade – que para uns pode ser melhor, para outros, pode ser pior. Mas essas formas de ver o mundo não são e nunca serão a única maneira de viver. São apenas leituras, posicionamentos… Talvez me desagradem. Mas o mundo não é só meu. O mundo não tem que ter meu jeito, minha cara. O mundo não tem que combinar comigo. O mundo é de todos. E precisa respeitar a todos. Permitindo que todos vivam com dignidade, tenham acesso a todos os espaços e sejam tratados como pessoas.

Sobreviveremos aos robôs?

Um estudo realizado pela Consultoria McKinsey apontou que pelo menos 50% dos postos de trabalho no Brasil poderiam ser automatizados. Em outras palavras, metade dos atuais trabalhadores brasileiros seriam substituídos por máquinas. Na prática, isso significa que quase 54 milhões de pessoas perderiam seus empregos.

Claro, esse volume todo não é pra amanhã. Mas é um processo que começou há bastante tempo, tem ocorrido de maneira significativa e vai ser cada vez mais sentido. O estudo projeta que a automatização vai acontecer de maneira mais acentuada entre os anos de 2036 e 2066. Metade dessas substituições deve ocorrer nesse intervalo de 30 anos.

O fenômeno não acontece apenas no Brasil. Trata-se de uma tendência mundial. Porém, em países em que a mão de obra é menos qualificada, a troca de trabalhadores por robôs é mais expressiva (China, Índia e Brasil, por exemplo). Países europeus, por exemplo, sofrerão (e sofrem) menos.

No Brasil, o setor mais afetado é o da indústria. Sete de cada 10 empregos na indústria deverão deixar de existir. Mas a automatização também vai alcançar o comércio, cargos administrativos, a construção civil, agricultura, transporte, saúde etc. Provavelmente, vão se salvar legisladores, psiquiatras…

No mundo, a automatização deverá atingir 1 bilhão e 200 milhões de empregos. Isso significa metade de todos os postos de trabalho do planeta.

Substituir gente por robôs representa basicamente duas coisas: redução de custos de produção e aumento do volume de produção.

A gente pode espernear, reclamar, mas essa é uma situação inevitável.

E o que serão dos trabalhadores? Não sei! Estudiosos apontam que as tecnologias que fecham postos de trabalho abrem outros. Sinceramente, tenho dúvidas. Até acredito que novos empregos serão gerados – isso já tem acontecido. Porém, sei também que essas vagas não são suficientes para atender todo esse contingente de pessoas que ficarão sem emprego.

Tenho ainda outra dúvida: se as pessoas perderem seus empregos por causa das máquinas, como consumirão os produtos produzidos pelos robôs? Ou seja, de que adianta as máquinas produzirem mais se há risco de termos menos consumidores?

Duas coisas são certas: primeira, a desigualdade social tende a se acentuar (afinal, trabalhadores especializados, em setores estratégicos, dificilmente serão substituídos e, consequentemente, terão rendimentos maiores – enquanto isso, muita gente terá que sobreviver com trabalhos precários). Segunda, há urgente necessidade de os países mais pobres se preocuparem com a educação da população para fazer frente a automatização (só gente qualificada, preparada para o “novo mundo” dará conta de sobreviver às máquinas).