Fake news: as pessoas acreditam no que querem acreditar

Nos últimos meses, várias agências de checagem de notícias foram criadas. Ainda hoje pela manhã, li sobre o lançamento de uma nova agência, ligada a um dos maiores grupos de comunicação do país. A proposta é investigar se são fatos ou fakes algumas notícias que circulam na rede.

Esse movimento me parece bastante relevante. A quantidade de notícias falsas é assustadora. Mas o que mais me preocupa é o comportamento das pessoas.

Ainda dias atrás, uma jovem que conheço, pessoa que considero, debateu comigo a respeito de uma informação que outra colega havia compartilhado. Eu argumentei, com base numa agência de checagem de informações, que a notícia era falsa. Ela rebateu questionando os interesses da agência. Em outras palavras, colocou em dúvida a agência e, de alguma forma, sustentou que a notícia, que eu entendo como falsa, era verdadeira.

Enfim… É justamente isso que me preocupa. Tenho a impressão que, quando algumas pessoas tomam um conteúdo como verdadeiro, nem mesmo a checagem de sua veracidade é suficiente para desmenti-lo. As pessoas acreditam no que querem acreditar. E aí usam como argumento qualquer coisa, inclusive ideias de conspiração.

Alguns candidatos e políticos fazem isso (Donald Trump é um “belo” exemplo). Movimentos como o MBL, idem. Quando são confrontados, quando a gente diz: “é mentira o que vocês estão dizendo”, preferem desqualificar as fontes de informação e até rebatem dizendo que a checagem é que é falsa.

Isso só reforça a certeza que o problema na qualidade da informação na rede, nos grupos de whatsapp, vai para além dos interesses envolvidos, da superficialidade ou mesmo da pressa em passar uma informação adiante; o problema está na qualidade da formação cultural das pessoas ou, em alguns casos, até mesmo na ausência de ética e caráter.

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Facebook desativa páginas de fake news

O Facebook retirou do ar quase 200 páginas e 87 contas foram desativadas. Muitas delas estavam ligadas ao MBL, Movimento Brasil Livre.

Essas páginas saíram do ar porque, segundo o Facebook, tratava-se de uma rede coordenada que se ocultava com o uso de contas falsas no Facebook, e escondia das pessoas a natureza e a origem de seu conteúdo com o propósito de gerar divisão e espalhar desinformação. Ou seja, essas páginas espalhavam fake news.

Assim que li a notícia completa, comemorei. Comemorei porque as redes sociais têm servido de suporte para a divulgação de conteúdo duvidoso e muita gente tem formado opinião e até tomado decisões tendo como base mentiras espalhadas na internet.

Foi assim no Reino Unido, que culminou com a saída da União Europeia; foi assim com a eleição de Donald Trump, ele mesmo um especialista em mentiras no Twitter.

O MBL não gostou nenhum pouco da ação do Facebook. Alegou que se trata de censura. Vi várias pessoas comentando na rede e concordando com essa tese.

Não, gente, não se trata de censura.

Censura é um ato de repressão, de impedimento na divulgação de fatos concretos. Quando alguém tem uma informação e é proibida de divulgá-la, temos censura. Mentiras ou conteúdos duvidosos, se são impedidos de serem divulgados, o que temos efetivamente é prudência, cautela. Poderíamos até dizer que se trata de um ato ético, responsável.

Pense comigo: se você ouviu dizer algo ruim sobre uma pessoa, mas não tem certeza daquilo, qual é a atitude correta? Espalhar o que ouviu ou silenciar-se para não ser injusto?

Tirar do ar páginas que constantemente divulgavam notícias falsas é sim um ato de prudência, de respeito ao público, que nem sempre tem condições de checar a veracidade do conteúdo.

E, por fim, há um outro aspecto que o MBL e seus apoiadores parecem ignorar: o Facebook não é um órgão de comunicação, não é imprensa. O Facebook é um site que permite o relacionamento entre pessoas, e entre pessoas e empresas. O Facebook não produz conteúdo. O negócio do Facebook não é produção ou divulgação de notícias.

O Facebook não foi criado com o propósito de que as pessoas entrassem ali para consumir notícias. Isso a gente faz num site de notícias, ouvindo rádio, assistindo televisão… Então quando o relacionamento é prejudicado por conta do mau uso da rede, o Facebook tem todo direito de disciplinar o processo, de punir e até banir.

Ou seja, se pessoas ou alguns grupos usam esse espaço de forma questionável, inclusive por motivações políticas, a empresa pode e deve intervir a fim de assegurar que os usuários não sejam afetados negativamente e o negócio dela, da empresa, não seja prejudicado.

Gente que ignora a própria ignorância

Parte significativa da população sofre de um mal grave: a ignorância. E mais, essas pessoas ignoram a própria ignorância. Acho impressionante como opinam, discutem, reverberam os mais diferentes temas, mas com total ausência de noção real sobre o que estão falando.

Pessoas falam sobre política, mas desconhecem o funcionamento das diversas estruturas políticas;
Falam sobre educação, mas não têm a menor noção sobre a dinâmica de uma escola e muito menos sobre as diferentes práticas pedagógicas possíveis;
Falam a respeito de segurança, mas nem entendem a respeito das responsabilidades de cada ente público – município, estado e união…

E a lista das bobagens que aparecem principalmente nas redes sociais é muito maior.

Eu tenho dito, não é vergonha não saber sobre tudo. Muito menos não ter opinião a respeito de tudo.

Na verdade, é muito melhor aceitar que ignora – porque isso pode significar abertura para o aprendizado – que posicionar-se com pseudo-verdades que não passam de inutilidades, por vezes, palavras ao vento, mas que provocam, agridem e até causam empatias e antipatias.

Ps. Adoro a foto que ilustra esse texto. Algumas pessoas deveriam ser impedidas de usar as redes. 

Um país gigante, mas insignificante em conhecimento, inovação

Relatório do Índice Global de Inovação, divulgado esta semana, mostra que o Brasil é apenas o 64º país no ranking de inovação. Somos a oitava economia do planeta, o quinto maior em extensão territorial, somos um dos maiores produtores de alimentos do planeta, mas somos insignificantes quando o assunto é inovação.

No ranking de inovação, o melhor país da América é o Chile; aparece na 47º posição. O índice é publicado anualmente pela Universidade Cornell, Insead e Organização Mundial de Propriedade Intelectual.

Quando terminaram as quartas de final, muita gente lamentou o fato de não ter restado nenhum dos países da América entre os quatro melhores da Copa. Os três gigantes da América, com nove títulos mundiais – Argentina, Uruguai e Brasil – foram eliminados no mata-mata.

Na elite do futebol, ficaram apenas os europeus.

Algumas pessoas se dedicaram a tentar explicar o fato. Mas há algo que nem todo mundo tem observado: o mundo de hoje é da competência, da organização, da especialização, da profissionalização. Não há espaço para amadores.

E por que falo de Copa do Mundo, quando o assunto principal é a pequenez do Brasil no ranking de inovação? Porque o futebol é espelho da cultura de um país de gente que quer dinheiro, mas tem pouca disposição em experimentar coisas novas, buscar o conhecimento, investir em formação ampla – que vai para além da mera qualificação para uma única atividade.

No futebol ou em qualquer outra área, não há mais espaço apenas para o talento. O talento precisa ser lapidado. E isso só acontece em espaços que privilegiam a inovação. 

Ao longo de sua história, o Brasil do futebol, da política, da ciência e dos negócios tem se contentado com pouco. Basta os poderosos ganharem dinheiro e está tudo certo. Não existem políticas de longo prazo, não se fazem reformas estruturais e nem há preocupação de fato em fazer investimentos em infraestrutura, tecnologia e muito menos contemplar o desenvolvimento de todas as pessoas.

O ranking inovação, hoje, é liderado pela Suíça. Depois, temos os chamados Países Baixos, Suécia, Reino Unido, Cingapura, Estados Unidos, Finlândia, Dinamarca, Alemanha e Irlanda.

Lideram o ranking porque têm altas taxas de depósito de pedidos de propriedade intelectual, criação de aplicativos, gastos com educação, publicações científicas e técnicas. Ou seja, há um investimento real na promoção do conhecimento e este conhecimento se espalha por diferentes setores. A condição de vida das pessoas melhora, a economia cresce e tudo mais se moderniza.

Podcast da Band News. 

Crescem casos de cyberbullyng no Brasil

A internet me encanta. Desde a década de 1990, quando a conexão ainda era discada, eu já achava tudo incrível. E não é diferente hoje.

A possibilidade de, num clique, ter acesso a um universo de informações, é demais!

Entretanto, a mesma rede que possibilita aprender sobre tudo, interagir com gente do mundo inteiro, produzir conteúdo rompendo com o monopólio da imprensa… Essa mesma internet também potencializa a agressão. E o Brasil tem se tornado uma referência negativa quando o assunto é cyberbullyng.

De acordo com um levantamento realizado pelo Instituto Ipsos, 29% dos pais entrevistados relataram que os filhos já sofreram algum tipo de violência online.

O que é pior é que esse número não para de crescer. Em 2016, a mesma pesquisa trazia um índice de 19%. Ou seja, aumentaram as situações de violência virtual contra crianças, adolescentes e jovens.

Atualmente, o Brasil só fica atrás da Índia no ranking de cyberbullyng. A média mundial é de 16%. Na prática, a violência online por aqui é quase duas vezes maior que a média global.

O levantamento mostra que algumas ações precisam ser tomadas por todos nós. A primeira delas: é fundamental denunciar. O silêncio perpetua o problema.

A segunda medida cabe aos pais: monitorem o que seus filhos fazem na rede. Eles podem ser vítimas ou até mesmo agressores. O que talvez pareça brincadeira de criança, na verdade, pode estar magoando, ferindo o colega.

A terceira medida envolve educadores, escola: temos que insistir em práticas educativas de orientação. É fundamental que nossos alunos saibam usar a rede de maneira produtiva.

Ouça o podcast da Band News. 

Operadoras querem acabar com internet ilimitada

As operadoras de telecomunicações seguem empenhadas em mudar o sistema de cobrança pelos serviços de internet. Atualmente, na casa da gente – ou na empresa -, a gente paga pela velocidade. Você pode ter uma banda larga de 15GB de velocidade, de 30GB, 50GB, 100GB… Isso não limita a quantidade de dados usados. Você pode acordar pela manhã, ligar a televisão no Netflix e passar o dia vendo séries e filmes. Seu filho pode abrir o Youtube e assistir quantos vídeos quiser…

As operadoras querem acabar com isso. Insistem em pôr fim à internet ilimitada. Desejam um modelo semelhante ao que temos nos celulares. Passaríamos a comprar um pacote de dados. Na prática, dependendo do uso, podemos ficar sem internet na metade do mês.

A alegação das operadoras é que uma internet sem limite de dados causa algum tipo de escassez na rede.

O argumento é uma enganação. Na prática, as operadoras querem um sistema que permita cobrar mais dos usuários e ter um controle no fluxo de dados, pois quanto mais usamos a internet, mais investimentos são necessários para manter o funcionamento estável da rede.

A internet tem uma lógica diferente de outros serviços que compramos. Por exemplo, a água tratada é um bem limitado. Quanto mais usamos, mais problemas de abastecimento podemos ter, pois há um limite no fornecimento de água.

Veja o que acontece com a internet… Quando você assiste um vídeo no Youtube, você esgota o vídeo? Faz diferença uma pessoa assistir ou 100 milhões assistirem? Não. O vídeo continuará na rede.

O que faz diferença então?

Se você tem 10GB de internet em casa e uma só pessoa está usando a rede, a qualidade de conexão é uma… Se dez pessoas usam simultaneamente seu wifi, a qualidade de conexão cai. Mas o que está no Netflix, no Facebook… as informações não deixam de existir na rede por conta do número de pessoas que acessa.

Ou seja, o que faz diferença é o número de pessoas que assiste simultaneamente. Isso pode afetar a velocidade de reprodução. Por isso, não faz sentido as operadoras limitarem o uso de dados. O sistema precisa permanecer sendo o controle da velocidade.

E por que trato disso por aqui? Porque estamos em ano eleitoral. E este é um assunto que PRECISA estar na pauta dos candidatos. A gente tem que saber o que eles pensam a respeito da legislação que trata da internet. Nos Estados Unidos, a vitória do Donald Trump significou o fim da chamada neutralidade da rede. Quer dizer, quem a gente eleger pode ter um projeto diferente do que gostaríamos para a internet.

Este assunto não é de menor importância. Faz parte do nosso cotidiano, das nossas necessidades diárias. Deve estar na pauta de nossas preocupações.

Quem quer sentir-se seguro?

Queremos segurança, mas o que temos? Apenas vislumbres, ilusões de segurança. Na prática, experimentamos crises e tensões contínuas, não temos controle algum do meio em que vivemos… O cenário é caótico. E em todos os setores.

Esse grau de insegurança é tão grande que atinge inclusive pontos fundamentais da nossa existência. Por exemplo, eu trabalho há 29 anos. No entanto, não tenho a menor ideia se vou me aposentar daqui 20, 25, 30 anos.

É difícil prever o que vai acontecer conosco em alguns poucos meses; mais difícil ainda é traçar expectativas de médio e longo prazos.

Sem controle algum da situação, temos tentado calcular e minimizar os riscos. Por isso, investimos em planos de saúde, fazemos poupança, pagamos previdência privada, compramos imóveis… Instalamos softwares em computadores, smartphones para que dados não sejam roubados… São estratégias nossas, numa busca quase desesperada para sobreviver a esse cenário.

Investimos nossos ganhos para reduzir as incertezas. E, ao fazermos isso, alimentamos um mercado que se sustenta justamente com o nosso medo.

Bauman avalia esse cenário falando da existência de um “capital do medo”. Ele não fala de um lugar, de uma cidade… Faz referência ao lucro. É como se dissesse que existe uma indústria do medo.

Existem vários segmentos que lucram milhões de dólares em virtude do nosso medo. Eu já mencionei alguns… Porém, o segmento de segurança é talvez o exemplo mais visível. Gastamos com seguros residenciais, de automóveis… Colocamos grades em nossas casas, cerca elétrica, câmeras de vigilância, blindamos veículos, instalamos alarmes… Empresas contratam seguranças…

A arquitetura é guiada pelo medo. As residências e edifícios são projetados para criar a falsa sensação de segurança. Temos criado fortalezas urbanas. Cada vez mais, surgem condomínios fechados.

Há milhares de tecnologias voltadas para a segurança – inclusive com o uso de inteligência artificial. A promessa de sempre é proteger os usuários em todos os campos – patrimonial, pessoal, dados etc.

A insegurança alimenta o mercado. Mas também a política se beneficia do medo. O discurso político geralmente transita por esse campo prometendo mais policiamento, viaturas, monitoramento das cidades por meio de câmeras… Prometem mudança nas leis… E quem parece ter a melhor proposta, ganha a simpatia do eleitorado. Tudo jogo de cena.

Diante disso que mencionei, alguém ainda acha que teremos respostas efetivas para pôr fim as causas de nossas inseguranças, de nossos medos?

Como ensinar os filhos sobre a internet

Não dá para negar: nossos filhos sabem usar a internet muito melhor do que nós. Mas esse “sabem mais que nós” tem a ver com domínio técnico. Apenas isso. Cabe a nós orientarmos a mocadinha sobre o uso correto da rede. É sobre isso que falo neste novo vídeo.