O noticiário que faz mal

Distanciar-se do noticiário a fim de manter certa sanidade mental pode ser a escolha de algumas pessoas. Eu, por vezes, faço isso. Mesmo sendo jornalista, sendo professor de jornalismo, admito que, em vários momentos, procuro não acompanhar tudo que é noticiado. E isso não tem nada a ver com a qualidade do conteúdo informativo; tem a ver com minha busca pessoal por não me irritar com determinadas notícias, evitar perder a esperança no país e, principalmente, minha fé nas pessoas.

Esse tipo de atitude não representa alienação. Também não significa ignorar os acontecimentos. Muito menos se trata de um desconhecimento do que está acontecendo. Trata-se apenas de uma escolha para não alimentar sentimentos negativos que podem fazer mal.

Quando a gente acompanha o noticiário, é possível ver repetidas vezes o mesmo assunto. E abordado de diferentes maneiras, com inúmeros comentários e repercussões do fato.

É como um pênalti não marcado pelo juiz num jogo de futebol. Você viu o que aconteceu… Ouviu a versão do juiz e dos jogadores. Mas o jogo já acabou.

O que você pode fazer? Ver e rever o lance por horas, ouvir diferentes comentaristas especularem sobre o que ocorreu e até começar a semana discutindo o assunto com os amigos – inclusive no grupo do whatsapp. Ou pode simplesmente ir fazer outra coisa, ignorar os programas esportivos, silenciar os comentários que são publicados nas redes sociais. Enfim, seguir a vida.

De certa maneira, todo fato impactante produz efeito semelhante: ele é repercutido por horas, dias… Narrado de inúmeras maneiras. E, dependendo do acontecimento, pode fazer com que a gente fique pensando naquilo, se aborrecendo, se entristecendo e até brigando com pessoas em função de algo que a pessoa disse, ou de como reagiu.

Com frequência, as pessoas são passionais. Tomam partido. As redes sociais, em função da lógica dos algoritmos, potencializou a repetição de temas e versões que se assemelham; por outro lado, promoveu o silenciamento da diversidade. Isso faz com que o consumo de informação, ao invés de esclarecer, cegue as pessoas.

Por isso, certo distanciamento é produtivo: mantém a sanidade mental e a isenção para um julgamento mais equilibrado do que ocorre no cotidiano. Torna-se possível pautar nossa vida sem a lente do exagero, da repetição enganosa e das inúmeras versões que, na prática, são apenas isso: versões.

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Como ser um profissional indispensável com o advento da inteligência artificial?

A substituição de trabalhadores por máquinas é uma realidade há muitos anos. A indústria vivencia o fenômeno da automação desde meados do século 18. Entretanto, a criação dos computadores acelerou o processo.

Mais recentemente, com o desenvolvimento da inteligência artificial, estima-se que, nos próximos anos, milhões de postos de trabalho serão fechados.

Alguns falam em pelo menos 1 bilhão de vagas fechadas. Outros dizem que 3 em cada 10 empregos deixarão de existir. Seja como for, trata-se de uma realidade que se impõe e que deve fazer com que a gente se mexa e procure compreender que profissional vai sobreviver a isso tudo.

Muitas pessoas estão alheias. Acomodadas, diria. Noto, principalmente entre os jovens, que serão os mais afetados, certa displicência com a formação. Até valorizam a busca de um diploma, mas nem todos se importam com a busca de um conhecimento que poderá diferenciá-los no mercado.

E ser diferenciado é o que vai determinar a sobrevivência profissional. A inteligência artificial é capaz de pensar 5 mil vezes mais rápido que nós. Como competir com isso?

Não somos tão bons… Também falhamos na execução de tarefas. Já os robôs são precisos.

O diferencial humano está em habilidades que a inteligência artificial não possui. Por exemplo, a criatividade, a imaginação, a intuição, a inteligência emocional e a curiosidade.

Mas quem de nós hoje reúne essas habilidades?

Por exemplo, como anda nossa imaginação? Nós que já passamos dos 40 anos… Quando éramos crianças, um cabo de vassoura poderia se tornar um cavalo, com o qual brincávamos por horas.

Recordo que eu subia no tronco de uma mangueira e ali eu me tornava o comandante de uma grande nave espacial. Ficava sentado ali por horas… Quietinho. As viagens aconteciam na minha mente.

Isso se chama imaginação.

Robôs não podem imaginar. Robôs não são criativos. Robôs não possuem curiosidade. Nem inteligência emocional e intuição.

Porém, essas habilidades humanas não são desenvolvidas apenas com esforço repetitivo ou conteúdos das disciplinas básicas da escola. Nem mesmo com livros de autoajuda ou palestras de motivação.

Essas habilidades são desenvolvidas em experiências estéticas plenas. Precisamos da literatura, do cinema, das artes plásticas, da música… Necessitamos viajar… E, principalmente, ter tempo pra viver.

O estresse, as rotinas, o esgotamento mental, que se tenta compensar com happy hour ou a balada com os amigos, embotam nossa capacidade de pensar criatividade, imaginar, intuir… Tornam nossa curiosidade uma curiosidade restrita às fofocas dos amigos e silenciam a inteligência emocional.

As coisas não são feitas pra durar

Talvez em algum momento você já entrou nesta discussão. E por mais que isso não pareça correto, é um fato. Os objetos que usamos no dia-a-dia são feitos para deixar de funcionarem num tempo inferior ao que seria normal.

Especialistas afirmam que um celular, por exemplo, teria vida útil de 12 anos. Entretanto, com dois anos de uso, começa a se tornar obsoleto. Isso acontece porque ele foi feito para ser rapidamente substituído. Você sabe… Geralmente, em dois anos, o smartphone fica lento, desempenho comprometido, alguns aplicativos não rodam…

Vale o mesmo para máquinas de lavar, liquidificadores, chuveiros, aparelhos de televisão, computadores, geladeiras… E até bens de muito maior valor, como um carro, por exemplo, ou itens básicos do dia a dia, como uma lâmpada elétrica. Afinal, existe tecnologia para que a lâmpada nunca queime. Mas qual a vantagem de vender uma lâmpada que nunca precisará ser substituída?

Para que a gente esteja sempre consumindo, duas grandes estratégias são utilizadas: a primeira, é estimular o desejo. Somos o tempo todo incentivados a consumir. De certo modo, o mercado promete que os produtos são capazes de nos satisfazer. São alegradores.

E quando compramos, isso realmente acontece. Por meio da publicidade, é despertado o nosso desejo de comprar. Às vezes, ficamos até impacientes para adquirir um determinado produto. Ao comprá-lo, a sensação inicial é indescritível. O prazer é muito grande. Isso passa logo, claro.

A outra estratégia para promover o consumo é justamente tornar os produtos obsoletos em pouco tempo. A durabilidade é bem menor do que poderia ser… E os dispositivos também se tornam antiquados em muito pouco tempo – um televisor com mais de 10 anos, ainda que esteja funcionando bem, não é um item que te orgulha de deixá-lo na sala de casa, né?

Embora as indústrias nem sempre admitam que encurtam a vida útil dos produtos, nós consumidores precisamos ter consciência de que vivemos numa sociedade que se sustenta pelo nosso consumo. A lógica para isso nem sempre é moral e ética. E, no final, nós é que somos as mercadorias que fazem a máquina girar.

Que conteúdos informativos você consome?

Esta é uma pergunta que vez ou outra algumas pessoas fazem pra mim.

Eu tenho critérios muito claros. Primeiro, não consumo nada que seja encaminhado pelo messenger, whatsapp e que não tenha origem conhecida. Segundo, não leio informações divulgadas com frases do tipo “repasse”, “não se omita”, “vamos compartilhar”… Muito menos aquelas fotos cheias de texto, com frases de efeito. Terceiro, nada de canais que se dizem informativos, mas não seguem as regras do jornalismo. Quarto, não leio e nem assisto canais de pessoas que não tenham formação acadêmica sólida e não sejam moderadas na escrita ou na fala.

E meu principal critério é: duvidar sempre, questionar e comparar. O Google existe pra isso.

Meus critérios não são os critérios da maioria das pessoas.

O presidente eleito, por exemplo, divulgou uma lista de canais no Youtube que ele sugere aos seus eleitores e seguidores. E, da lista de Bolsonaro, não há nada que seja realmente aproveitável. Até dá para assistir uma coisa ou outra, mas só se a pessoa tiver uma visão muito ampla de mundo para saber filtrar o que é divulgado nesses canais.

A internet possibilitou o surgimento de todos esses espaços que, hoje, contribuem para a formação do universo informativo. A proliferação desses canais é algo altamente positivo. Rompeu com o monopólio informativo dos meios de comunicação tradicionais e, ao desestabilizá-los, tem obrigado a imprensa a se especializar ainda mais.

Entretanto, a população não foi educada para saber como consumir esse conteúdo. Não há formação de leitura crítica. Somado ao assustador analfabetismo funcional, que é uma realidade no país, a ignorância do nosso povo tem se aprofundado – uma ignorância agora sustentada não pela ausência de informação, mas por pseudoverdades que circulam na rede.

O conforto das mentiras nas redes pessoais

Diariamente, recebo nas minhas redes pessoais inúmeros textos, vídeos, áudios com conteúdos políticos. Não abro nenhum. Quer dizer, em alguns casos, até espio pra ver a fonte, de onde veio, quem produziu… Se trata-se de um material informativo elaborado por empresas sérias, idôneas, e o tema me interessa, até dou uma espiada. Mas, como regra, descarto o material que vem pelo whatsapp, messenger, email, vídeos do Youtube…

E faço isso por uma razão: o conteúdo que circula inbox nas redes pessoais frequentemente sofreu algum tipo distorção. Pode até ser humorístico – um meme, por exemplo -, mas a chance de apresentar uma versão verossímil é quase nula.

Infelizmente, eu sou a exceção. A regra, hoje, é o consumo de conteúdos pelos aplicativos. Com isso, as pessoas pautam seus argumentos e decisões baseadas em conteúdos duvidosos. E é impressionante como algumas dessas pseudo-informações são capazes de fazer com que a gente duvide até do que assiste ou vê num canal sério.

Ainda ontem, tive que assistir de novo a sabatina feita pela equipe da Isto É com a então pré-candidata à presidência, Manuela D´Avila, em junho deste ano. O que ela falou na entrevista não repercutiu na época. Porém, há cerca de 30 dias, um trecho editado de uma fala da Manuela circula nas redes para sustentar a tese de que a agora candidata a vice na chapa do PT se declara não cristã.

Eu precisei assistir de novo porque até eu estava duvidando do que tinha entendido. Quase comprei a versão editada e mentirosa. Assisti duas vezes para ter a certeza que minhas conclusões não estavam erradas e a fala da candidata, de fato, havia sido distorcida.

Pois é… O fenômeno que vem sendo chamado de pós-verdade tem esse efeito: relativiza a verdade e banaliza a mentira. Esses conteúdos em vídeo, texto ou memes provocam uma desordem na opinião pública. A objetividade dos fatos se perde em meio ao discurso emocional, que nos pega em nossas fragilidades. O medo, o preconceito, a vitimização, a hostilidade são técnicas eficazes de persuasão.

Afetados por esse universo pseudo-informativo, perdemos o rigor, a capacidade de racionalizarmos, ficamos cegos. Chegamos ao ponto de, mesmo diante dos fatos, preferirmos acreditar na versão distorcida. Parece que ela é mais confortável, melhor que a própria verdade.

Lamentável que seja assim.

A destruição agora é criativa…

Repetidas vezes afirmei que tenho medo de pessoas que dizem: “eu sou sempre assim”. Tenho medo porque gente que não muda é gente que não acompanha os movimentos da própria vida. E a vida é movimento.

Também me incomodo com pessoas saudosistas, gente que achava o passado melhor e luta para trazer o passado de volta.

Acontece que o passado pode até trazer lembranças e boas lições de vida. Porém, se não gostamos do presente, a culpa é justamente da história que foi escrita anteriormente. O que se vive hoje é fruto do que foi plantado.

Portanto, precisamos ter a flexibilidade necessária para viver o presente, construindo e reconstruindo nossos hábitos, saberes e práticas.

E este é um ponto fundamental e que talvez seja um tanto agressivo para quase todos nós: devemos ter disposição de aprender sempre, abrindo mão de tudo que aprendemos – e esse fluxo em intervalos cada vez mais curtos.

Sim, o que eu sei agora poderá não ter valor algum no final da tarde. Devo estar aberto para abrir mão do que sei e começar tudo de novo logo na sequência.

O sociólogo Zygmund Baumand, ao analisar o tempo presente, afirmou que a vida hoje é de constantes reinícios – um período no qual não há certezas e que toda ênfase está justamente em esquecer o sabe, apagar, desistir e substituir.

A destruição funciona de maneira criativa. Destruímos para começarmos de novo. Destruímos um modo de vida, um modo de trabalharmos, um modo de aprendermos, um modo de nos relacionarmos…

Claro, toda destruição é também a destruição um pouco do que somos, da nossa existência. E nem sempre damos conta de acompanharmos o ritmo frenético das mudanças.

Mas, gostemos ou não, esta é a condição essencial para sobrevivermos no momento presente.

Quem é favorecido por uma notícia falsa?

As notícias falsas geralmente atendem dois objetivos básicos: prejudicar uma pessoa ou grupo e, por outro lado, favorecer uma pessoa ou grupo.

A distorção dos fatos, para disseminação principalmente nas redes sociais e whatsapp, ocorre para atender esses dois objetivos primários.

Não existem notícias falsas inocentes. As chamadas fake news estão em circulação para prejudicar pessoas e beneficiar pessoas.

Por isso, quando um conteúdo dessa natureza chega até você é preciso se perguntar: quem perde com essa informação? E ainda: quem ganha com essa notícia?

Na campanha eleitoral deste ano, as fake news transcendem o mero conteúdo informativo midiático. Elas estão presentes em áudios manipulados, capas de revistas falsas, cartilhas falsas, fotos falsas…

Ainda ontem recebi duas capas de revistas, uma da Veja e outra da Exame, com uma suposta denúncia envolvendo um partido político e tratando de fraude em urnas eletrônicas.

Apesar das imagens parecerem perfeitas, minha capacidade de pensar ainda não foi afetada pelas bobagens que circulam na rede. Entrei rapidamente no site das revistas, consultei as capas dos últimos anos e comprovei: Veja e Exame nunca publicaram nada a respeito do assunto. Muito menos fizeram capas de revista com um suposto personagem denunciando um partido por supostas fraudes em urnas.

As capas que estão circulando no whatsapp são fakes.

Em todos esses casos, uma pessoa ou candidato é alvo do conteúdo falso. E, quando isso acontece, outra pessoa ou candidato é, direta ou indiretamente favorecido.

Os dois candidatos que lideram a corrida presidencial têm sido constantemente alvo de fake news. Quase sempre, um é atacado por mentiras e o outro, obviamente, tenta ser favorecido.

Como muitos eleitores são ingênuos – ou agem de má fé -, contribuem para disseminação desses conteúdos em suas redes pessoais. Não há um dia sequer que a gente não esbarre com esse tipo de material. E o que é pior: as pessoas estão pautando suas escolhas eleitorais – e até mesmo sua rejeição a determinadas candidaturas – em virtude das fake news.

Quando devo dar um celular ao meu filho?

Sou bastante conservador neste aspecto. Mas até o momento, não fui convencido que estou errado… Entendo que é necessário retardar ao máximo. Quanto mais tarde, melhor. Não há justificativa racional para uma criança ter um celular. Penso que o aparelho só deve chegar às mãos de nossos filhos na adolescência. Ainda assim, sem nenhuma pressa.

Mas aqui estão algumas outras recomendações…

Dar um celular ao seu adolescente não significa deixá-lo à vontade com o dispositivo. Depois que possuem um celular, com frequência, os adolescentes leem menos, estudam menos, focam menos nas tarefas, interagem menos com as pessoas próximas e se envolvem em mais confusões.

Por isso, os pais precisam estabelecer um limite no tempo de uso. Também é fundamental monitorar o que os filhos fazem ao celular.

O tempo de uso deve ser negociado, com bom senso. Entendo que o aparelho não deve estar nas mãos da garotada na hora das refeições, nas horas de estudo e muito menos durante à noite. Com frequência, vejo adolescentes que dormem mal, porque ficam no whatsapp e outras redes sociais até muito tarde. Isso prejudica o desempenho escolar e até mesmo o desenvolvimento físico e emocional. Dormir bem é uma necessidade de qualquer adolescente.

Mas, além de controlar o tempo de uso, é dever dos pais monitorar o que os filhos fazem com o celular. Enquanto os filhos estão em casa, não há nada de invasivo em acompanhar o que a garotada faz com o aparelho. Não são raros os casos de meninos e meninas que acessam conteúdos indevidos sem que a família saiba o que está acontecendo. Pior que isso, praticam bullying na rede, enviam nudes e se envolvem em problemas.

Por isso, educar também é ter controle da vida digital de seu filho.