Tempo para não fazer nada

A gente vive numa cultura em que estar desocupado, não ter nada pra fazer, é sinônimo de tédio, e até de preguiça. Precisamos nos manter 100% ativos. E o tempo todo.

Porém, existe uma diferença entre ter momentos em que não fazemos nada e sermos improdutivos.

O não fazer nada é, na prática, o lugar da criatividade, da imaginação, da curiosidade, da reflexão.

Se estamos o tempo todo ocupados, falta-nos o tempo para elaborar os conflitos do dia a dia, falta-nos tempo para descobrir quem somos, o que gostamos e, principalmente, para as grandes ideias.

Não é por acaso que resolvemos algumas coisas na nossa cabeça justamente quando estamos tomando banho.

Gente, ninguém tem uma ideia nova se passa o dia todo atarefado, sem tempo para si mesmo.

Pesquisadores da Spanish Resting State Network descobriram que os momentos vagos, aqueles em que não fazemos nada, despertam uma área importante do nosso cérebro, uma região responsável pela introspecção e pela autodescoberta. Até mesmo as soluções para os nossos principais problemas surgem nesses momentos em que estamos ociosos.

O que é mais curioso é que, conforme os pesquisadores notaram, quando estamos ativos, essa região do cérebro não funciona; outras estão em funcionamento para nos manter ativos.

Mas esse “não fazer nada” só funciona de verdade se a gente não está com um smartphone nas mãos, se não estamos assistindo TV, jogando…

Por isso, se você deseja ser uma pessoa melhor, um profissional mais criativo, alguém capaz de ter boas ideias,não ocupe todo o seu tempo. E nem se culpe por em alguns momentos ficar totalmente ocioso, com a mente vagando, meio que no “modo avião”, sem uma tarefa definida. Precisamos disso!!! Então… permita-se não fazer nada. 

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O desafio de aprender durante toda a vida

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman, após analisar o momento em que vivemos, concluiu que uma das características mais significativas da chamada sociedade líquido-moderna é a fluidez. E esta fluidez afeta diretamente a educação e o trabalho.

É fundamental compreendermos que tudo que aprendemos e tudo que fazemos têm prazo de validade. Um prazo de validade desconhecido. Afinal, viver sob constante incerteza é também uma das marcas da sociedade atual.

Justamente por isso, o mundo do trabalho, hoje, é o mundo do aprendizado ao longo de toda a vida. Devemos desenvolver a disposição para o aprendizado constante. Por isso, carecemos ser flexíveis e resilientes.

O futuro não pode ser previsto. Os movimentos da sociedade podem até dar algumas pistas sobre o que vai acontecer, mas ninguém projetará o futuro de maneira assertiva. Podemos detectar sinais, mas se alguém diz que sabe o que vai acontecer, esse alguém mente.

O que sabemos é que o futuro será daqueles que estão/estarão abertos a mudarem constantemente. As pessoas mudarão de empresa muitas vezes, muitos negócios bem-sucedidos deixarão de existir e, se você ainda estiver na mesma empresa, certamente estará fazendo coisas completamente diferentes no futuro.

Isso significa flexibilidade.

A característica provavelmente mais importante de um trabalhador é sua capacidade de ser flexível e resiliente. E é a capacidade não só para aprender; porque quando falamos de aprendizagem parece que estamos nos referindo ao conhecimento de português, matemática, história, física, filosofia…

Embora esses saberes sejam muito importantes, a capacidade de aprender a qual me refiro diz respeito ao conhecimento que temos para nos reinventarmos como profissionais, como pessoas… Capacidade para assumir novos papeis e até mudar de carreira mais de uma vez ao longo da vida.

Hoje, a aprendizagem constante já faz parte da vida. Mas se tornará ainda mais presente no mundo do trabalho. Por isso também é necessário desenvolver a resiliência – essa habilidade de lidar com momentos de dor, de dificuldade, de mudanças de forma serena, tranquila, sem esbravejar, sem reclamar.

Isso não é tarefa fácil. Ao longo do tempo, aprendemos que chegaria um momento da vida que faríamos um determinado curso – uma faculdade, uma pós-graduação ou mesmo um curso técnico – e teríamos uma profissão para a vida toda.

Essa segurança – a segurança da previsibilidade – está deixando de existir.

A educação contínua, para a vida toda, não diz respeito a treinamentos frequentes, cursos rápidos para situações específicas. Muito menos treinamentos motivacionais.

O novo papel que se cobra que as pessoas assumam é de preparar-se constantemente para o desconhecido. O mundo hoje se assemelha a uma montanha-russa. Não há tempo apreciar a paisagem. É necessário estar pronto para o desconhecido: uma grande queda, uma longa subida, uma curva acentuada… E, quem sabe, alguns breves períodos de calmaria.

Como ser um profissional indispensável com o advento da inteligência artificial?

A substituição de trabalhadores por máquinas é uma realidade há muitos anos. A indústria vivencia o fenômeno da automação desde meados do século 18. Entretanto, a criação dos computadores acelerou o processo.

Mais recentemente, com o desenvolvimento da inteligência artificial, estima-se que, nos próximos anos, milhões de postos de trabalho serão fechados.

Alguns falam em pelo menos 1 bilhão de vagas fechadas. Outros dizem que 3 em cada 10 empregos deixarão de existir. Seja como for, trata-se de uma realidade que se impõe e que deve fazer com que a gente se mexa e procure compreender que profissional vai sobreviver a isso tudo.

Muitas pessoas estão alheias. Acomodadas, diria. Noto, principalmente entre os jovens, que serão os mais afetados, certa displicência com a formação. Até valorizam a busca de um diploma, mas nem todos se importam com a busca de um conhecimento que poderá diferenciá-los no mercado.

E ser diferenciado é o que vai determinar a sobrevivência profissional. A inteligência artificial é capaz de pensar 5 mil vezes mais rápido que nós. Como competir com isso?

Não somos tão bons… Também falhamos na execução de tarefas. Já os robôs são precisos.

O diferencial humano está em habilidades que a inteligência artificial não possui. Por exemplo, a criatividade, a imaginação, a intuição, a inteligência emocional e a curiosidade.

Mas quem de nós hoje reúne essas habilidades?

Por exemplo, como anda nossa imaginação? Nós que já passamos dos 40 anos… Quando éramos crianças, um cabo de vassoura poderia se tornar um cavalo, com o qual brincávamos por horas.

Recordo que eu subia no tronco de uma mangueira e ali eu me tornava o comandante de uma grande nave espacial. Ficava sentado ali por horas… Quietinho. As viagens aconteciam na minha mente.

Isso se chama imaginação.

Robôs não podem imaginar. Robôs não são criativos. Robôs não possuem curiosidade. Nem inteligência emocional e intuição.

Porém, essas habilidades humanas não são desenvolvidas apenas com esforço repetitivo ou conteúdos das disciplinas básicas da escola. Nem mesmo com livros de autoajuda ou palestras de motivação.

Essas habilidades são desenvolvidas em experiências estéticas plenas. Precisamos da literatura, do cinema, das artes plásticas, da música… Necessitamos viajar… E, principalmente, ter tempo pra viver.

O estresse, as rotinas, o esgotamento mental, que se tenta compensar com happy hour ou a balada com os amigos, embotam nossa capacidade de pensar criatividade, imaginar, intuir… Tornam nossa curiosidade uma curiosidade restrita às fofocas dos amigos e silenciam a inteligência emocional.

Universidades influenciam qualidade do Ensino Médio

A proposta de alguns colégios de focarem apenas na preparação para o vestibular é nociva para a formação dos alunos. Um adolescente é, antes de ser aluno, um ser humano, que carece ser visto em toda sua potencialidade. Entender a escola apenas como espaço para a oferta de conteúdos é reduzir o processo educacional.

Contudo, parte do problema tem origem no conteúdo programático do Ensino Médio brasileiro. Mas vai além disso, pois as universidades ditam, por meio dos processos de seleção para o ensino superior, o que deve ser trabalhado em sala com os alunos do Médio.

O Ensino Médio carece de uma nova proposta… Também é fato que muitas escolas precisam repensar as práticas desenvolvidas, mas as universidades cometem um crime com a educação dos adolescentes quando listam um extenso e irrelevante programa de conteúdos que será cobrado nos vestibulares e nos demais processos de seleção.

Sim, os programas de seleção são extensos e irrelevantes. Extensos, porque fazem os professores de Ensino Médio despejarem conteúdos em sala de aula, sem tempo para fazer com que os assuntos tenham algum sentido para os alunos.

E são irrelevantes, porque parte significativa do que se estuda não será apreendido e, principalmente, por não contribuir com a formação intelectual dos adolescentes.

Eu sou contra a ideia de que tudo que se estuda precisa ter uma aplicação prática. Esse é um discurso vazio e que ignora a necessidade de conhecermos os mais diferentes processos matemáticos, físicos, biológicos, históricos, geográficos, entre outros, inclusive para o desenvolvimento das nossas habilidades cognitivas.

Entretanto, o que se ensina, justamente por nem sempre ser aplicado no dia a dia das pessoas, tem que fazer sentido. O aluno precisa entender como aquele saber reproduz algum fenômeno já pesquisado. Isso requer tempo. O professor necessita contextualizar, exemplificar… E, por vezes, desenvolver práticas laboratoriais.

Não é isso que acontece em sala de aula. Cobram-se nos vestibulares bem mais do que os conhecimentos fundamentais. Muito do que está nos livros e apostilas do Ensino Médio não é usado nem mesmo pelos especialistas no assunto, graduados ou pós-graduados.

Um exemplo, as disciplinas específicas de quem faz Medicina são Biologia e Química. Para ser aprovado no vestibular, a moçada precisa ter grande domínio dessas matérias. Mas elas têm relevância no curso de Medicina? Não, a relevância é pequena.

Concluindo, eu defendo que as universidades repensem as exigências de conteúdos nos processos de seleção. Certamente, o efeito vai aparecer no Ensino Médio, pois este, principalmente em regiões universitárias, reflete diretamente as demandas dos vestibulares.

Qual formação dar aos filhos?

Ontem, enquanto esperava minha filha pegar o gabarito da prova do PAS, observava outros alunos e alunas que deixavam o local das provas. Vi muitos deles com lágrimas nos olhos, bastante abatidos. Pelo semblante, demonstravam tristeza, frustração… Pareciam derrotados.

O PAS, Processo de Avaliação Seriada, da UEM é um mecanismo de avaliação que ocorre desde o primeiro ano do Ensino Médio – uma espécie de vestibular em três etapas, uma a cada ano. Trata-se de um modelo bastante interessante e que permite uma avaliação mais justa, assegurando uma vaga na universidade para os candidatos que tiverem as melhores médias ao final de três anos.

Embora o PAS seja mais um instrumento de avaliação, que permite o acesso à universidade, e talvez o mais justo dos sistemas, particularmente, ainda penso que os modelos de seleção no Brasil estão distantes de serem os melhores. O que mais me incomoda é a pressão sobre meninos e meninas, ainda imaturos, e que faz muitos deles abdicarem de inúmeras práticas que são fundamentais para a formação.

Em cidades de médio e grande portes, espaços tipicamente universitários, as próprias escolas estão se transformando. Muitas delas têm se especializado em transformar adolescentes em máquinas de passar em vestibulares. Esses garotos e garotas, desde os 14 anos de idade, e às vezes até mais cedo, vivem a escola apenas para receberem conteúdos e mais conteúdos… E para serem treinados para os processos de seleção das universidades.

Essa garotada não vive mais nada na escola. E a própria escola se torna um espaço frio, mecânico, que só fala em aprovação.

Me assusta ainda mais o fato de muitos pais embarcarem nessa aventura com seus filhos. Repetem um discurso tolo do tipo “meus filhos só precisam disso”, “o foco agora é se preparar para o vestibular”. Esses pais parecem esquecer que um filho não é apenas um boletim escolar. Tampouco é apenas o domínio de conteúdos de Biologia, Química, Matemática, Português…

O ser humano é muito mais que isso. Somos dotados de habilidades múltiplas, que precisam ser desenvolvidas.

Formação completa precisa assegurar amadurecimento emocional e outras habilidades, como liderança, autonomia, resiliência, empatia…

Ninguém quer ser atendido por um médico sem empatia, que saiba muito sobre doenças, mas não sinta a dor das pessoas…

Ninguém quer um chefe que domine todos cálculos matemáticos, mas não seja uma liderança, um sujeito motivador…

Esses conhecimentos não são assegurados apenas com a aquisição de conteúdos das matérias tradicionais, muito menos de fórmulas e macetes para responder as questões das provas.

Pois é, amigos… Os pais precisam definir que tipo de formação desejam para os filhos. Apostar tudo apenas na preparação para garantir uma vaga na universidade é optar por um modelo reducionista e limitador das potencialidades de seus filhos.

As coisas não são feitas pra durar

Talvez em algum momento você já entrou nesta discussão. E por mais que isso não pareça correto, é um fato. Os objetos que usamos no dia-a-dia são feitos para deixar de funcionarem num tempo inferior ao que seria normal.

Especialistas afirmam que um celular, por exemplo, teria vida útil de 12 anos. Entretanto, com dois anos de uso, começa a se tornar obsoleto. Isso acontece porque ele foi feito para ser rapidamente substituído. Você sabe… Geralmente, em dois anos, o smartphone fica lento, desempenho comprometido, alguns aplicativos não rodam…

Vale o mesmo para máquinas de lavar, liquidificadores, chuveiros, aparelhos de televisão, computadores, geladeiras… E até bens de muito maior valor, como um carro, por exemplo, ou itens básicos do dia a dia, como uma lâmpada elétrica. Afinal, existe tecnologia para que a lâmpada nunca queime. Mas qual a vantagem de vender uma lâmpada que nunca precisará ser substituída?

Para que a gente esteja sempre consumindo, duas grandes estratégias são utilizadas: a primeira, é estimular o desejo. Somos o tempo todo incentivados a consumir. De certo modo, o mercado promete que os produtos são capazes de nos satisfazer. São alegradores.

E quando compramos, isso realmente acontece. Por meio da publicidade, é despertado o nosso desejo de comprar. Às vezes, ficamos até impacientes para adquirir um determinado produto. Ao comprá-lo, a sensação inicial é indescritível. O prazer é muito grande. Isso passa logo, claro.

A outra estratégia para promover o consumo é justamente tornar os produtos obsoletos em pouco tempo. A durabilidade é bem menor do que poderia ser… E os dispositivos também se tornam antiquados em muito pouco tempo – um televisor com mais de 10 anos, ainda que esteja funcionando bem, não é um item que te orgulha de deixá-lo na sala de casa, né?

Embora as indústrias nem sempre admitam que encurtam a vida útil dos produtos, nós consumidores precisamos ter consciência de que vivemos numa sociedade que se sustenta pelo nosso consumo. A lógica para isso nem sempre é moral e ética. E, no final, nós é que somos as mercadorias que fazem a máquina girar.

Somos livres?

A liberdade talvez seja um dos nossos maiores valores. Mas somos livres?

Ainda ontem vi uma postagem feita por uma amiga com o seguinte questionamento: “se sou livre, por que tantas amarras?”.

Não, nós não somos livres. Nós gozamos de uma liberdade limitada. E vigiada.

Desejamos a liberdade, mas ela não é plena.

Para viver em segurança, é necessário abrir mão da liberdade.

Se queremos um trabalho, não podemos fazer tudo que desejamos. Ainda que nosso emprego seja o emprego dos sonhos, temos responsabilidades. E as responsabilidades limitam nosso ir e vir, condicionam o uso do tempo…

Se queremos uma moradia, assumimos o cuidado com esse espaço. Cuidamos da limpeza, pagamento de impostos, tarifas de serviços como água, luz, internet… Não podemos simplesmente morar. Nem mesmo fazer tudo que desejamos na casa. Afinal, existem vizinhos e impedimentos que tratam de ruídos, cuidado com o ambiente…

Se queremos o desenvolvimento pessoal, necessitamos investir anos e anos nos estudos. Isso significa ler o que não desejaríamos ler, manter uma rotina diária escolar, universitária… Nosso tempo é consumido. E se queremos fazer apenas as coisas que gostamos, somos punidos. Punidos com uma nota ruim, punidos com uma reprovação…

Porém, o condicionamento da liberdade não diz respeito apenas às formalidades da vida. Diz respeito também à convivência. Relacionamentos impõem limitações à liberdade. O convívio com outras pessoas exige o estabelecimento de regras. Isso se chama civilização.

Pra eu conviver com você, são necessários certos limites. Do contrário, eu invadiria sua individualidade. Além disso, também deixamos de viver livremente em função das expectativas alheias.

O olhar do outro é julgador, até mesmo punitivo. Se eu não entender isso, terei problemas nos relacionamentos, serei impedido de viver algumas coisas, de estar em determinados ambientes.

Esses condicionamentos da liberdade, por vezes, incomodam. Entretanto, não há outra maneira de ser gente. A nossa liberdade não é incondicional; é apenas uma utopia.

Educar pelo exemplo

Não há nada mais poderoso no processo de educação que o exemplo – educar pelo exemplo.

As palavras são importantes. A disciplina é fundamental.

No entanto, é muito mais eficaz ensinar por meio das práticas de vida.

Quando orientamos uma criança, damos parâmetros sobre como agir. Mas o tempo todo somos observados por ela. Aquilo que fazemos molda de forma muito mais eficaz a conduta da criança.

Isto também acontece na escola.

O professor ensina os conteúdos dos livros, mas é por meio de seus exemplos que inspira a maneira da criança ver o mundo.

Qualquer um de nós terá dificuldade para lembrar de conteúdos específicos trabalhados em sala de aula. Mas certamente recordamos com facilidade de professores que tinham um jeito especial de falar, amor pelo que faziam, um cuidado natural com seus alunos.

Anos atrás, ao entrevistar um velho especialista em didática, ouvi dele uma frase que me fez compreender que a melhor pedagogia não é aquela ensinada nos livros; é aquela vivida nas práticas do professor em sala de aula e na relação com seus alunos.

Durante minha trajetória acadêmica, alguns professores foram fundamentais pra mim. Não pelo que falaram, mas pelo que demonstravam como seres humanos.

Por compreender isso, tenho defendido cada vez mais que tenhamos coerência entre aquilo que falamos e aquilo que fazemos. Afinal, aprende-se muito mais com o que é vivido do que com aquilo que é apenas falado.