Serenidade tornou-se verbo

O tipo de acidente que sofri traz um custo bastante específico: a mobilidade é completamente comprometida.

A combinação fratura na tíbia + fratura no ombro não me permite andar e nem me deixa usar a força dos braços. Na prática, tenho uma perna e um braço para realizar as principais atividades do dia.

É evidente que não funciona bem. Fica desequilibrado. Não dá para se atrever a usar muletas, por exemplo.

E morando num prédio que possui degraus, tudo que me resta é ficar quietinho dentro de casa com minha cadeira de rodas.

Nesta semana, tive que sair um dia para fazer a primeira revisão da fratura perna. A saída foi um acontecimento. Por sorte, encontramos um maluco gente boa demais, o Oscar, que topou me tirar de casa, com apoio da Rute. Desceram-me na cadeira de rodas até a rua. Depois da visita ao médico, subiram com ela (e comigo, claro) novamente pelos degraus.

Foi bem difícil. E se não fosse o humor do Oscar, eu teria ficado mais tenso.

Na semana que vem, teremos que repetir a dose. Já tenho calafrios.

Sei que ainda há muito por vivenciar. O médico que fez a última cirurgia da minha perna já sugeriu que eu esteja preparado para pelo menos 120 dias de recuperação. E mais todo o trabalho que seguirá após os quatro meses de consolidação do osso da tíbia.

Vendo tudo que preciso fazer e tudo que não tenho conseguido fazer, principalmente das atividades cotidianas da casa (providenciar o almoço, por exemplo), sinto certa ansiedade.

É fato que tenho mantido o equilíbrio. Na verdade, acho que a palavra é serenidade. Desde o acidente, a serenidade tem se tornado um verbo, algo a praticar.

Quase sempre dá certo, mas, vez ou outra, a sensação de impotência quer dominar.

Os livros, meus eternos companheiros, é meu trabalho com a faculdade, auxiliam a recuperar o ânimo e viver um novo dia, sem muitas preocupações.

Afinal, como disse o Cristo, basta a cada dia o seu mal.

Meu acidente: quando um segundo muda uma vida

Hoje, faz duas semanas que sofri um acidente de moto e, desde então, tenho tentado administrar coisas completamente desconhecidas pra mim.

O acidente foi uma daquelas coisas estúpidas que a gente não consegue entender.

Eu havia ido buscar duas marmitas para o almoço e, às 11h30, retornava para casa numa biz que tenho há mais de 20 anos. Não estava com pressa, tinha controle do horário, estava numa via tranquila…

Na avenida Rio Branco, vi quando o motorista chegava para atravessar a pista. Notei que ele olhou para a primeira pista; não havia ninguém. Atravessou e parou rapidamente no canteiro.

Esse foi o momento crucial! O motorista deveria me aguardar. Indicava que faria isso. Ele estava parado. Teoricamente, tudo normal. Mas, do nada, ele acelerou e veio contra mim. Freei forte, mas era tarde.

A pancada foi violenta na minha perna esquerda. Foi esmagada entre o carro e a carenagem da moto.

Gritei e caí. A mão tentou evitar um choque maior no asfalto. Ganhei alguns ralados profundos na palma da mão esquerda.

No chão, lembro de insistir: peça socorro, peça ajuda!

Arranquei o capacete. Estava consciente, precisava respirar melhor.

Estendi a mão para a perna e vi que o pé estava “solto”. Havia um rasgo na minha pele e osso para fora. A fratura estava exposta. Procurei colocar a perna fraturada sobre a outra perna como forma de sustentar meu pé e fiquei de lado.

Tentar revisitar este momento ainda me tira o fôlego… Dói. Dói a alma.

Não sei quanto tempo demorou entre minha queda e a chegada de uma amiga que passava pelo local. A Liliane foi o anjo de Deus para mim naquele momento.

Ela tentava me acalmar e ser prática. Colocou o filho dela em contato com a Rute e ainda passaram o telefone pra mim. A Rute achava que era tentativa de golpe, pegadinha…

Disse a Rute que estava bem. Não corria riscos.

Enquanto a Rute e o Samu não chegavam, pessoas se revezavam tentando me ajudar. Apareceu até um pequeno travesseiro para deixar minha cabeça mais confortável no asfalto quente.

Apesar da gravidade do acidente, ainda hoje, não tenho dimensão da dor. Sei apenas que procurava manter a calma… Meu coração doía pelo acidente. Era difícil acreditar (ainda é) que eu estava ali, no chão, e não podia fazer nada para mudar o que acabara de acontecer. Mas também sabia que tudo iria passar. E isso me dava força.

Um dos momentos mais difíceis foi ver a Rute. Sei o quanto ela se preocupa com os riscos numa motocicleta. Ela estava em choque.

Procurei acalmá-la e pedi que retornasse para casa para buscar os celulares e documentos. Também tinha o almoço no baú da biz. Era preciso levar. E insisti: não cancele seus clientes. Eu vou para o hospital e te mando notícias de lá.

Os profissionais do Samu foram eficientes nos atendimentos emergenciais. Estabilizaram a fratura, me deram morfina, fizeram os primeiros procedimentos na ambulância na ambulância. De lá, comecei a avisar algumas pessoas sobre o acidente e pedi ajuda com a programação da rádio durante a tarde e minhas aulas.

Feitos os primeiros procedimentos, me encaminharam para o Hospital Metropolitano de Sarandi.

Todo esse processo parecia demorar uma eternidade.

Eu só queria chegar ao hospital logo.

O atendimento inicial no Pronto Socorro foi rápido. Havia uma boa equipe. Ninguém especializado nas fraturas, mas o pessoal me auxiliou no que foi preciso e já encaminhou para o raio-x.

Com os raio-x em mãos, soube que passaria por uma cirurgia ainda naquele dia e faria outras duas na sequência.

Com o celular nas mãos, procurei organizar minha ausência falando com pessoas fundamentais na minha vida. O susto de todas era grande. Mas o acolhimento, ainda maior.

Não havia muitas informações sobre o que aconteceria comigo. Segui sendo medicado por um tempo que não sei quanto durou. Sei apenas que houve um momento que foi me agonizando… Fui me sentindo sufocado, suando frio… Achei que iria morrer. Pedi ajuda. Os minutos de espera foram aterrorizantes. Descobriram que minha pressão estava em 9 por 3.

Quando estava sendo levado para o raio-x ou centro cirúrgico (não lembro mais) , meu amigo e companheiro de rádio, o Moura Netto, estava no corredor. Foi bom ver ali um rosto conhecido. Me sentia sozinho. Os poucos minutos com ele foram especiais. Faz bem se sentir querido, acolhido.

Graças a Deus, aos poucos, as coisas foram normalizando e, por volta das quatro ou cinco horas da tarde, entrei no centro cirúrgico.

Eu estava em paz. Sabia que aquele era o primeiro passo para (re)início da minha vida normal.

A equipe do centro cirúrgico brincou: você está mais calmo do que a gente.

Olhando em perspectiva para o cenário, acho que essa calma é resultado dos anos de investimento no cuidado das minhas emoções. E a transformação da teoria/conhecimento em prática é a ação de Deus em mim.

Aquela era a minha primeira cirurgia. Só havia estado num ambiente como aquele num momento alegre: o nascimento da Duda, minha filha linda, que hoje tem 20 anos.

Tudo, porém, foi muito abençoado. Nem apaguei. Permaneci acordado e interagindo com a equipe médica.

Ao final, saí do centro cirúrgico com um fixador de ossos na perna. Horrível olhar para a perna e ver aqueles ferros.

Pouco depois das 19h, retornei para o Pronto Socorro. Não havia quartos disponíveis. Fiquei melhor assim. No PS, tinha uma equipe super eficiente e atenta. Me deixaram muito tranquilo e ainda permitiram que a Rute e a Duda fossem me visitar. Só não podia comer…

Bom, vou registrar outros capítulos desta história por aqui. Mas, por ora, estou cansado…

Na contramão…

Tenho a felicidade de há muitos anos não me envolver em acidente de trânsito. Entretanto, hoje pela manhã, ao estacionar o carro em frente à escola de meus filhos, fui surpreendido por um aluno de bicicleta. Quando fui abrir a porta, o garoto esbarrou no carro. Não aconteceu nada com ele. Mas a porta não saiu ilesa. Deixei o estudante seguir adiante, mas, cá com meus botões, ainda estou lamentando o prejuízo e o fato de o garoto transitar por entre os carros na contramão.

PS- Campanhas educativas voltadas aos pedestres e ciclistas seriam bem-vindas em Maringá. O hábito de ciclistas transitarem por sobre as calçadas, na contramão e até furar os sinais deveria ganhar atenção das autoridades de trânsito.