Aprendendo com Paulo Freire: ser aceito como sou

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Sermos aceitos do jeito que somos tem um efeito poderoso em nossa vida. Por que muitas pessoas sofrem? Porque notam que não são aceitas do jeito que são.

Talvez este seja um dos assuntos mais urgentes da atualidade. Trata-se do que chamamos de identidade.

E embora o assunto seja complexo e mereça a atenção de inúmeros teóricos, na vivência prática, o que nos afeta de maneira direta é a imagem que temos de nós mesmos e como esta pessoa que somos é aceita pelas outras pessoas.

O educador Paulo Freire trouxe uma importante contribuição ao discutir a respeito disso. Segundo ele, o professor tem papel fundamental em acolher o aluno, respeitando a identidade cultural dele. E isso é maravilhoso no pensamento de Paulo Freire.

O que acontece na infância e na adolescência? A descoberta da identidade, a descoberta de quem sou. Este processo é intenso e, por vezes, marcado por confrontos até mesmo com a família.

Entretanto, tudo fica ainda mais difícil por que a sociedade possui modelos, padrões. Até mesmo os pais idealizam um tipo de filho, de filha. Na escola, apenas certos perfis de alunos são bem aceitos, conseguem ter amigos… Há outros tantos que são rejeitados ou ignorados.

Você que me lê talvez não tenha tido problemas com a sua identidade durante a adolescência. Mas é provável que conheça alguém que não era bem aceito no grupo porque era gordinho, ou porque demorava mais para aprender. Quem sabe o motivo da rejeição era a condição social, ou talvez a religião?

As características estéticas são outro referencial de definição do acolhimento ou da rejeição, principalmente, na adolescência. Frequentemente, meninos e meninas tidos como bonitos são os mais populares.

Tem também aqueles que parecem ter um jeito desengonçado de andar, são magros demais, às vezes, até meio corcundas… Tudo isso motiva julgamentos e atribuição de valores enviesados que machucam as pessoas, mexem com suas emoções.

Paulo Freire lembra que na adolescência era um desses garotos muito pobres, magro, desajeitado… Sentia-se deslocado na escola, tinha dificuldade em se relacionar, sentia-se pequeno diante dos colegas ricos. Foi justamente um olhar respeitoso de um professor experiente, durante a avaliação de um texto, que motivou o adolescente Paulo Freire a acreditar em si mesmo.

Sejamos sinceros: você gostaria de uma escola assim para seu filho, para sua filha? Gostaria que a escola respeitasse seu filho como ele é, fizesse com que ele ou ela se sentisse amado, respeitado como ser humano?

Muitos de nossos meninos e meninas vivem ansiosos, depressivos, precisam inclusive de terapia, porque não são respeitados como eles são. Eles se veem diferentes e, por se verem diferentes, se sentem anormais. Passam a brigar com a balança, com os cabelos… Às vezes, entram no mundo das drogas, do crime para viverem experiências que os façam ser notados, admirados, aceitos.

Uma escola que adotasse a pedagogia de Paulo Freire seria um ambiente de bons afetos, de respeito às identidades e de promoção das potencialidades humanas.

Quem é você para julgar?

Nossa primeira atitude deveria ser acolher, ajudar
Nossa primeira atitude deveria ser acolher, ajudar

Ainda ontem, enquanto lia antes de dormir, encontrei uma frase que ficou em minha mente.

– Quem é você para julgar o seu próximo?

O autor continuava a reflexão e dizia que, quando julgamos, nos colocamos no lugar de juiz.

Sabe, além de falar mal do outro, muitos de nós temos o péssimo hábito de julgar. Apontamos os erros, as falhas… Pior, não procuramos a pessoa que é alvo de nossos comentários. Não falamos com ela. Não a orientamos. Falamos para os outros. Espalhamos maldade.

O autor, ao alertar que assumimos a função de juiz, mostra que, se julgamos, fazemos isso porque nos colocamos numa posição superior. Olhamos para o outro como se ele fosse réu, indigno. E nós estaríamos “sem pecado”. Nos achamos melhores que o outro.

A adolescente ficou grávida do namoradinho? Que vagabunda!
O rapaz bebeu demais e bateu o carro do pai? Que irresponsável!
A moça foi reprovada na faculdade? Ela nunca estudava mesmo!
A mulher traiu o marido? Ela nunca prestou mesmo.
A amiga fez um aborto? Criminosa!
O homem pegou 50 reais do caixa da empresa? Bandido!

Sem conhecer os motivos, julgamos. Sem saber por que, rotulamos. Mais que isso… Muitas dessas pessoas terão que pagar por seus erros por anos e anos. Ficarão marcadas por muito tempo.

Por isso, o autor pergunta:

– Quem é você para julgar o seu próximo?

Eu gosto daquela história bíblica da mulher adúltera. Ela foi flagrada e seria apedrejada. Na tentativa de pegarem Cristo numa contradição, os judeus levaram a mulher até ele. Jesus olha para aqueles hipócritas e diz:

– Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra.

Ele deixava claro que ninguém é perfeito. Porém, também mostrava como deveríamos agir com as pessoas que erram. Acolher, aceitar, amar são os verbos que teriam que ser praticados. Preferimos, porém, afastar, distanciar…

Sabe, não somos melhores que ninguém. Muito menos quando apontamos o erro do outro. Ao julgarmos, nos mostramos egoístas, pequenos, maus. Ainda que não tenhamos na nossa lista de “pecados” o erro cometido pelo próximo, isso não nos coloca numa posição superior. Somos humanos, imperfeitos, iguais. Talvez nossas falhas de caráter não sejam demonstradas em práticas rituais, mas estejam ocultas no coração. 

É cruel ter prazer no pecado alheio. Deveríamos olhar mais para nós mesmos, cuidar da nossa vida. E, quando tratarmos do outro, estabelecermos uma relação de acolhimento, de tolerância, de perdão e até de auxílio. Quem cai pode até carecer de alguém que lhe mostre o erro, mas necessita muito mais de uma mão amiga disposta a levantá-lo. 

No relacionamento, não deve haver lugar para sermões

A molecada está acostumada com o que vou falar aqui. Sou pai, então sei bem o que é isso. Afinal, mais que dar bronca, vez ou outra, rola um “sermão” lá em casa. O meu mais velho escuta sem escutar. Já a menor pede:

– Para, pai.

Faz parte, né? Pai que é pai dá sermão.

Entretanto, sei também o quanto isso é chato. Irritante, diria. Minha filha expressa esse sentimento quando pede para eu parar. Ela demonstra que já entendeu, sabe que errou… E ouvir tudo de novo incomoda demais.

Por isso mesmo, o que dizer dos sermões dentro dos relacionamentos?

Sim, talvez você não tenha se dado conta, mas tem parceiro que adora passar “sermão”. É impressionante. O sujeito está ali e começa a “dar de dedos”. Pode até não apontá-los, mas adota aquela postura indigesta, típica dos que “sabem mais”.

Gente, está aí um negócio que acaba com qualquer tesão no relacionamento. O parceiro – namorado, namorada, marido ou mulher – assume um papel meio de pai, de mãe… e passa a corrigir o outro. É de lascar.

Não estou dizendo que parceiros não devam aconselhar, orientar… Nada disso. Isso é saudável. Entretanto, depois que o problema aconteceu, não existe nada pior que alguém olhar pra você e apontar seu erro. E a pessoinha ainda começa o discurso típico:

– Eu te avisei!!!

Quem fez a bobagem já está com o coração na mão, chateado, decepcionado, frustrado… E de quem esperava acolhimento, vem um sermão.

Caramba! Judia, hein?

Pode ser em função de um negócio mal feito – venda do carro, compra de um celular, empréstimo de dinheiro pra um colega etc. Pode ser por causa de uma briga com colega, com pai, sogra… Pode ser pela correção inadequada de um filho. Pelo esquecimento de algo. Enfim, na dinâmica do relacionamento, erros são cometidos. Não faltam motivos para um lembrar o outro que aquilo não se faz, que não devia ter feito…

Acontece que o erro do outro parece despertar em nós o sentimento de superioridade. Levantamos o queixo, estufamos o peito e, dedo em riste, fica fácil despejar todas as nossas frustrações sobre quem falhou. Há um misto de raiva e de prazer. Raiva pela falha alheia. Prazer porque você disse que ia dar errado. O tom que impera no discurso é sempre o mesmo:

– Eu tinha razão. Está vendo?

Pais fazem isso. Não é a medida mais acertada. Mas não é o fim do mundo quando um pai ou uma mãe assumem essa postura. Entretanto, no relacionamento, isso machuca. Quem errou já estava se sentindo inferior, culpado. Quando o parceiro o acusa, julga, a ferida aumenta. E duas reações geralmente ocorrem: a primeira, acreditar ser a pior pessoa do mundo (a autoestima vai definitivamente “pro ralo”). A segunda, odiar o parceiro. Todas as lembranças das acusações sofridas na infância, das correções de pais, professores e até amigos… tudo desfila no inconsciente, revivendo as piores sensações. E o parceiro, o do sermão, passa a ser odiado – pelo menos, naquele momento.

A vítima do sermão sabe do erro. Poucos são tão negligentes a ponto de não perceberem quando falharam. A maioria sabe. E, por isso, na mente, já está se martirizando. Provavelmente, repetindo dezenas de vezes a mesma pergunta:

– Por que fiz isso? Por que não fiz de tal jeito? Por que não ouvi fulano.

Tem até vergonha de ter de encarar o outro.

Quando o parceiro começa a desfilar frases acusatórias, relembrando o erro, a pessoa nota que o outro não acredita nela. Não confia em sua capacidade de julgar e agir. E uma das coisas que fazem a diferença num relacionamento é a admiração. O sermão evidencia a falta de admiração. A ideia que fica é muito simples:

– Ela me acha um péssimo homem.
– Ele me acha uma mulher incapaz…
Ou… uma péssima mãe etc etc.
– Está comigo por pena. Se pudesse, me descartava.

Não sei qual a dinâmica do seu relacionamento. Não sei como você é. Sei, porém, que é fácil demais a gente cair na tentação de dizer pro outro que ele falhou. É fácil demais acusar. E, no calor do momento, encontramos argumentos para discursar por minutos a fio – relembrando, inclusive, outros fracassos. No entanto, quando a gente quer preservar o relacionamento, aceitar que todos nós falhamos e acolher a pessoa amada é a melhor forma de dizer que se importa com o outro.

Costumo brincar que a regrinha é muito simples: se fosse você, o que gostaria que o outro fizesse? Adoraria o sermão? Pense nisto!