Alunos são ignorados em decisões que envolvem a Educação

Os alunos têm sido incluídos nas discussões a respeito da educação? Posso estar errado, mas até onde se estende meu olhar como professor e pesquisador em Educação, percebo que uma das partes mais interessadas é justamente uma das que menos tem sido ouvida.

Eu entendo que mudanças são necessárias. Penso que precisamos de um grande pacto, que envolveria toda a sociedade brasileira, para que ocorra um salto de qualidade no ensino. Entretanto, frequentemente, os debates em torno do assunto ignoram alunos e alunas. Eles geralmente são “esquecidos”.

Os processos de mudanças nas matrizes curriculares e até coisas mais simples – a troca de horário de um professor, por exemplo – são conduzidos por adultos que pensam saber o que os estudantes necessitam. E eu concordo que, em certa medida, a experiência, os anos de vida, as pesquisas realizadas garantem domínio técnico e teórico para discutir o tema e tomar decisões.

Entretanto, nós pouco entendemos a cabeça dos jovens e adolescentes. E, diferente de tempos passados, a moçada hoje, inclusive pelo domínio tecnológico que possui e habilidades múltiplas no uso e aplicação das tecnologias da informação e comunicação, tem perspectivas distintas da nossa a respeito do que aprender e até do como aprender.

Em comparação com os alunos de hoje, somos dinossauros. Dinossauros que ainda insistem em fazer as coisas do mesmo jeito. E até a ensinar do mesmo jeito.

Tenho comigo que duração das aulas, composição de livros e apostilas, atividades para fixação dos conteúdos, temas a serem estudados, processos disciplinares… Sofreriam alterações profundas e ganhariam novos sentidos se a moçada fosse ouvida.

Curiosamente, ouvir alunos e alunas é algo que o mestre Paulo Freire nos ensinou há muito tempo. Em Pedagogia da Autonomia, há um tópico que gosto muito: “ensinar exige saber escutar”. E ele afirma: “somente quem escuta pacientemente e criticamente com o outro, fala com ele”.

Quando a gente se dispõe a ouvir, a gente convida o outro a participar da solução do problema. Ele se torna também responsável pela solução. E se compromete em fazer dar certo.

Portanto, parece-me que, se ouvíssemos mais nossos alunos, seríamos mais eficazes no ato de ensinar. E os resultados, muito melhores.

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Falta formação política aos brasileiros

Estou desenvolvendo, neste semestre, com meus alunos de Jornalismo e Publicidade, da Faculdade Maringá, uma disciplina de formação política e social. O foco principal é analisar os movimentos da campanha presidencial e as propostas dos principais candidatos.

Os encontros semanais são bastante animados. Não faltam discussões.

Não é a primeira vez que desenvolvo esta proposta na faculdade, mas, semelhante a outras ocasiões, a experiência tem sido enriquecedora.

O difícil mesmo é ouvir alguns candidatos. Ao selecionar as entrevistas que muitos deles concedem aos principais meios de comunicação do país, a gente nota o quanto suas falas são vazias.

Como nosso objetivo em aula é analisar as propostas dos candidatos, temos nos surpreendido com a ausência de projetos coerentes com a realidade do Brasil. Com exceção de um ou dois candidatos, os demais falam apenas para agradar o público deles.

O tripé educação-saúde-segurança está presente na fala de todo mundo. Mas o que será feito nessas áreas, que ações serão implementadas, como será gasto o dinheiro? Ninguém sabe.

O que percebo a cada novo encontro com os alunos é o quanto nossa gente é carente de uma formação sólida para a compreensão dos temas políticos. Se as pessoas efetivamente analisassem o que os candidatos falam e separassem as propostas das frases de efeito, dos clichês e das discussões sobre temas relacionados aos costumes, provavelmente teríamos outros candidatos favoritos à vitória.

As questões que efetivamente farão diferença na vida da população estão ausentes nos discursos da maioria dos candidatos. Lamentável.

Para que serve a escola?

Existe um descompasso entre qual deveria ser o papel da escola e qual ela cumpre.

Na sociedade capitalista, a escola não tem função libertadora. Embora muito seja falado sobre humanização, respeito, formação para a vida, na prática, o Estado e o mercado possuem outras expectativas. E isso se reflete na proposta pedagógica, já que as estruturas condicionam o sistema educacional.

O movimento recente no Brasil promovido pelo Escola Sem Partido apenas reafirma esse propósito: tornar a escola um espaço desprovido de reflexão, debate, questionamento. O que se espera da escola, na visão desse movimento e de boa parte da elite econômica, é que prepare as pessoas para o mercado de trabalho. Formar mão de obra, este é o objetivo.

Na Europa, autoridades ligadas à educação têm verbalizado ao longo dos anos que espera-se da educação que seja capaz de aumentar as taxas de crescimento econômico e ajude os países na competição com parceiros europeus.

Essa mentalidade não é diferente noutros países capitalistas. No Brasil, inclusive. Aqui, o único problema é que nem para isso Estado e mercado conseguem ser competentes. Falham inclusive na formação do homem-máquina.

Essa forma de pensar é dominante. Para a maioria dos estudantes – e dos pais -, educação é porta de entrada para o mercado. Acredita-se que seja uma passagem para o crescimento/desenvolvimento profissional. Mede-se inclusive a qualidade da escola pelos índices de aprovação em vestibulares, etc – nunca pelos valores éticos.

Qual o problema dessa forma de pensar? A educação torna-se um lugar de reafirmação dos valores do capital. Não promove a liberdade das pessoas. As pessoas se tornam reféns do consumo, do desejo de consumir, de trabalhar para ganhar, ganhar para consumir. E deixam efetivamente de viver. Tornam-se máquinas. Trabalham horas e horas diariamente, sacrificam família, filhos… tudo por roupas melhores, carros melhores, celulares melhores…

Está errado desejar (e lutar por) uma vida mais confortável? Não! Mas essa não pode ser a medida de todas as coisas. Temos perdido a humanidade, a capacidade de nos relacionarmos. A ética tem sido relativizada. A saúde é preterida em nome da produtividade. Parece-me que educação deveria ser bem mais que isso.

O prazer de educar

Ano quase acabando e as atividades da faculdade do ano estão praticamente concluídas. A paixão pela sala de aula me faz sentir saudades de vir para o computador e preparar ou revisar a programação da semana. Afinal, domingo, pelo menos na vida deste professor aqui, é dia de trabalho. Faço isso há muitos anos. E com muita satisfação. Acho que não sei mais ficar à toa nesse dia da semana.

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Durante uma das bancas de monografia

Quando olho pro ano que passou, sempre me cobro bastante. Penso em tudo que ofereci aos meus alunos e é impossível ignorar os erros. E sempre encontro vários deles. Mas com os erros a gente tenta aprender. Não adianta ficar lamentando. Já foi. É reparar os problemas e focar no que vem por aí.

Entretanto, teve muita coisa legal acontecendo. Como trabalho com futuros jornalistas, em algumas disciplinas, a missão é prepará-los para o mercado profissional. E este ano fizemos muito. Produzimos várias revistas, vídeos criativos para a web, jornais para a internet, fizemos a cobertura dos protestos de junho em Maringá, mantivemos blogs de conteúdos alternativos, recuperamos a produção musical e cinematográfica das últimas décadas, viajamos pelas obras de pintores consagrados, descobrimos ações sociais que transformam a vida de pessoas fazem uso de manifestações artísticas… Foi show! Fico orgulhoso de cada ação que meus alunos desenvolveram.

E, para encerrar o ano, tive o privilégio de levar os acadêmicos Cínthia Carla, Elizabeth Pinheiro e Fábio Carlucci para às bancas dos Trabalhos de Conclusão de Curso com monografias elogiadas pelos avaliadores e reconhecidas com a nota máxima. Impossível não ficar orgulhoso deles, pois apenas os orientei. A produção foi deles, a nota foi mérito deles. Apenas procurei encaminhá-los da forma que acredito ser a correta: metodologia correta, distribuição adequada dos fundamentos teóricos e diálogo com a análise e/ou peça produzida. Deu certo mais uma vez.

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Elizabeth Pinheiro e Fábio Carlucci

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Cínthia Carla

Após todas experiências vividas ao longo de 2013, é impossível não ficar cheio de expectativas para o próximo ano. Quem serão os novos alunos? Que resultados vamos obter? E os erros cometidos, vamos conseguir evitá-los? Embora existam várias perguntas ainda sem respostas, o desejo sempre será o mesmo: fazer o melhor. Nem sempre é possível, mas não faltará disposição para tentar.

Dedico este texto a todos meus alunos, aqueles que já passaram por minhas aulas e a todos que amam a vida acadêmica. Obrigado por me ajudarem a crescer e me ensinarem tanto.

Regurgitadores do saber

Vez ou outra escuto alunos reclamando da sobrecarga de atividades. Lamentam que não possuem fins de semana, precisam estudar de madrugada, são obrigados a se debruçar sobre textos chatos, teorias aparentemente sem sentido. Olham para a rotina dos estudos como um peso, um fardo difícil de suportar. Por isso, contam as horas para as férias e, principalmente, para a tão aguardada entrega do diploma.

– Só quero acabar essa faculdade logo.

Este é o tom do discurso de muitos acadêmicos no ensino superior. Não é diferente nas séries iniciais.

Hoje, enquanto lia um texto do professor Rodrigo Zeviani a respeito de Da Vinci, voltei a pensar nessa ausência pelo desejo de aprender. Leonardo era gênio, é verdade. Porém, queria conhecer. Nada e nem ninguém o impediu de ter acesso ao conhecimento. E olha que as circunstâncias não eram favoráveis.

Por isso, me incomoda ver o discurso de nossos estudantes. Por isso, me entristece observar que, para muitos, estudar é um peso.

Ao que tudo indica, todos buscam sua “zona de conforto”. Os desafios deveriam ser a alternativa para a superação. A preguiça deveria ser combatida com todas as forças. Somos uma geração fadada às repetições. Os pensadores estão em falta.

Sim. E o que é pior, na mesma medida que alguns professores transferem a responsabilidade pelo não aprender para os alunos; muitos alunos transferem para seus professores a culpa pelo não desejo de conhecer. Por vezes, chegam a ridicularizá-los, inclusive.

Volto a me inspirar no texto do professor Rodrigo… Imaginem o que seria de Da Vinci se achasse seu mestre na pintura um “pobre coitado”? O que seria de Leonardo? Ele superou o próprio mestre. E mostrou isso na primeira oportunidade que teve. Isso, porém, não o impediu de seguir trabalhando com Verrocchio.

Lembro dos esportes… Por que um Roger Federer respeita seu técnico? Ele poderia pensar: se seu técnico fosse tão bom assim não deveria ele, o técnico, estar na quadra? Mas é assim que funciona: ao professor cabe estimular; ao aluno, cabe ir além… Conhecer mais. Fazer mais.

Mesmo atividades aparentemente sem sentido podem se transformar em oportunidades raras de aprendizagem. Quando há prazer em aprender, busca-se o saber. Recordo que um dos trabalhos mais “imbecis”(?) que tive durante a faculdade, tornou-se talvez no melhor momento do nosso grupo durante aqueles anos de academia. Achamos tudo tão sem sentido que resolvemos pesquisar por nossa conta, criar nossa própria proposta… Por fim, nos divertimos e… aprendemos. Para mim, foi a maior lição que aprendi na faculdade: o estímulo é dado em sala de aula, o conhecimento obtenho fora dela – por minha própria conta.

Quando a gente se põe a lamentar da rotina, a gente trava. Não aprende. O texto fica chato, a atividade sem sentido, o estudo… sem graça.

Um ano de muitas leituras pode ser difícil sim. Um bimestre com muitos trabalhos pode nos roubar noites de sono sim. Uma semana de provas, seminários etc pode estressar sim. Entretanto, se isso vai nos dar prazer ou não quem define somos nós mesmos. Não é a escola, a faculdade. Nossa atitude é determinante.

Para os “meros regurgitadores do saber”, talvez esses períodos sejam apenas isso: um fardo. Para os que encontram satisfação no conhecimento, nenhum minuto de estudo será tempo perdido.

Palavras que me tiraram o fôlego

A noite dessa terça-feira foi de fortes emoções. Quem me acompanha por aqui sabe de minha paixão pela sala de aula. Amo dar aulas. E tenho uma relação de profundo respeito por meus alunos. Gosto deles, de conviver com eles, de ensinar e aprender com eles. Por isso mesmo, quando um ciclo se encerra, é impossível não sentir um enorme vazio, a dor da despedida. E ontem foi noite de despedida. Meu último encontro com a turma de Jornalismo do VIII Semestre da Faculdade Maringá. Na próxima semana, meus alunos estarão apresentando as monografias.

Tive o privilégio de acompanhá-los desde o primeiro ano. A turma, que está se despedindo, apelidei de “microturma”. Quatro anos atrás, apostamos num vestibular de meio de ano. Embora não tenha tido muitos candidatos, a instituição optou por iniciar as aulas já naquele mês de agosto de 2009. Foi assim que a história deles com o Jornalismo começou. Não eram muitos acadêmicos, mas formaram um grupo muito especial.

E ontem, nos minutos finais da aula, optei por agradecê-los pela oportunidade do convívio, pelo aprendizado e para lhes desejar sucesso. Ressaltei algumas características da turma, lembrei de desafios, de momentos que nos marcaram… Foi impossível conter a emoção. As palavras saiam sob efeito de um grande nó na garganta. Porém, pelo menos pra mim, a emoção maior estava reservada pra hoje. Logo cedo vi algumas marcações no Facebook falando sobre a despedida. E, no meio da manhã, o depoimento que me tirou o fôlego:

Eu já ouvi frases tão bem construídas que autor deveria ir para a academia de letras, mas que nunca me tocaram o coração. Por outro lado, já ouvi frases com erros de conjugações de verbos que me tocaram o coração profundamente. O autor deveria ganhar o Nobel da Paz. Mas ontem eu ouvi frases bem construídas que tocaram o meu coração, como se Deus soprasse nos ouvidos daquele homem as palavras certas que chegavam sem grandes esforços a nossas almas. Este homem, que é iluminado, Ronaldo Nezo, que nos fez reviver quatro anos em vinte minutos, que nos levou ao choro e aos risos neste tempo, que nos ensinou a arte de ser jornalistas, mas respeitando o próximo. Ética que eu aprendi o vendo trabalhar e como tratava cada assunto. Aquela pessoa que tem riso fácil e que te leva, que tem uma competência fora do comum, que as aulas são prazerosas, que nos apresentava diversos desafios e que nos fizeram acreditar que conseguiríamos ir mais longe do que pensávamos. Eu quero agradecer por ter a honra de tê-lo como mestre, de encontrar em você o profissional competente, por acreditar em nosso potencial. Obrigada mesmo sem você saber por todas as respostas que já encontrei lendo seu blog para problemas que estavam me preocupando… Mestre, obrigada. Você é uma pessoa iluminada com um dom lindo que Deus lhe deu e que cumpre sua missão de forma honrosa!!

Diga-me, caríssimo leitor, o que comentar depois dessas palavras? Até o momento não sei muito o que dizer. Sei apenas que, depois de sete anos dando aulas, um comentário como esse faz valer cada minuto em que estive em sala de aula, cada hora gasta em casa com o preparo de aulas, correção de provas, trabalhos… Cada email respondido, cada palavra dada em momentos que vi alunos em dificuldade… Sei que não fui o melhor professor dessa turma. E estou longe de ser um grande educador. Mas a fala da Larrisa Fernanda me faz sentir orgulho de ser professor. Fez-me sentir a responsabilidade da profissão que escolhi exercer. E me fez sentir o prazer de viver para o que acredito: a educação.

Uma vida é curta diante do universo de saber

Gravei há pouco na CBN uma entrevista sobre a História da Física. Fiquei impressionado com minha falta de conhecimento. Senti-me um completo ignorante. Já tinha consciência disso antes da conversa. Entretanto, o papo só reforçou o que já imaginava.

Pouco antes da gravação, comentei com o professor pós-doutor em Física, Luiz Roberto Evangelista, que hoje era meu dia de “pagar mico”. Afinal, minha formação em Física é péssima. Como meu curso no Ensino Médio era técnico, tive apenas um ano da disciplina. E isso faz 20 anos. Portanto, não lembro quase nada.

Ainda assim, me aventurei a entrevistá-lo. Afinal, ele é autor de uma obra muito interessante. Nela, o educador resgata o nascimento desse conhecimento científico e mostra sua evolução ao longo dos anos. É impressionante, principalmente por descobrirmos que o berço da Física é o mesmo da Filosofia.

Bem, mas este não é o foco deste post. Na verdade, queria falar da minha relação com o conhecimento. Dias atrás, conversava com uma pessoa sobre a quantidade de informações que hoje temos disponível e chegávamos a conclusão socrática que, quanto mais sabemos, mais notamos nossa ignorância.

Todas as vezes que leio algo novo, percebo minha insignificância. Há tanto saber no mundo e acessamos tão pouco esse universo… Diria, nos contentamos com migalhas de um banquete infindável em que os pratos são cada vez mais saborosos e elaborados.

Eu queria ter mais tempo. Mais tempo para ler, mais tempo para estudar. Queria entender melhor os fenômenos naturais – sejam físicos, químicos… em especial, os da natureza humana. Somos tão complexos. Em todos os sentidos.

Sabemos tão pouco sobre nós e a respeito do mundo. Pior é que nos contentamos com isso. A visão rasa, superficial das coisas nos satisfaz. E julgamos que o aparente expressa toda a verdade. Quão medíocres somos.

Por vezes, em sala de aula, me deparo com essa rejeição ao saber. Pelo simples fato de supostamente o conteúdo não ter efeito prático na profissão desejada, o sujeito mantém indiferente ao conhecimento. Nega-se a aprender.

– Para quê preciso aprender isso?

É a pergunta que geralmente alguns fazem.

Pelo papel que ocupo, quase sempre busco justificar a necessidade da informação proposta. Entretanto, acabo me sentindo frustrado por notar que vivemos um momento em que valoriza-se o saber imediato, prático. Aprende-se algo para fazer alguma coisa. É isso que motiva as pessoas. Não se aprende por aprender, pelo prazer de ter o conhecimento.

Quando penso nisso lembro do filme Matrix. E de um dos argumentos do vilão: tem muita gente que não se dá conta do que está acontecendo e está satisfeita em viver do jeito que está vivendo; sem saber que está num jogo.

Sabe, talvez isso não nos faça mais feliz… Porém, sinto falta de saber o que existe além do aparente, do que se mostra visível.

Cinco minutos de atraso tira direito do aluno assistir as aulas

escola

Pra botar “ordem na casa”, muita escola proíbe o aluno de entrar em sala quando chega atrasado. Lembro que anos atrás o Instituto Estadual de Educação de Maringá estabeleceu uma série de regras. Entre elas: alunos que chegarem cinco minutos após o início das aulas não entram. Não entravam mesmo. Perdiam todas as aulas. Isso deu muita confusão. Houve interferência até do Conselho Tutelar.

Esse tipo de medida sempre gera o questionamento:

– é justo proibir que aluno entre na escola por que chegou cinco minutos atrasado?

Não, não é.

Ter regras é necessário. Quando há orientação, um processo educativo que envolva os pais, algum tipo de perda para o aluno e sem que o aluno fique desocupado no pátio, a medida pode mudar a realidade da instituição. Acabar com a farra e reduzir a quantidade de moleque chegando fora da hora…

Entretanto, se a medida radicaliza, se não há permissão de entrar na escola mesmo após terminar a primeira aula, a questão se torna mais complexa. E pode ser questionada também do ponto de vista legal.

Também há outro aspecto. Parece-me que acabar com a cultura do atraso é necessário; porém, que direito o diretor de um colégio tem de impedir o aluno de assistir as aulas? Até concordaria que ele perdesse a aula em que estaria chegando atrasado. Mas e as demais? O fato de chegar seis minutos atrasado justifica deixá-lo sem nenhuma aula?

Num país em que o povo não morre de amores pelas escolas, trata-se de uma medida que parece gerar ainda mais antipatia. Sem contar que esses adolescentes que chegam atrasados vão ficar onde quando perderem as aulas? Depois de deixarem suas casas, impedidos de entrar, retornarão ou ficarão na rua esperando dar a hora de terminar as atividades do colégio?

Como eu disse, legalmente a escola não pode mandar o aluno que chega atrasado de volta pra casa. Impedir a entrada na aula que já começou é uma medida justa. Mas, segundo o advogado Leonardo Pacheco,  a direção deve permitir o acesso à escola e pode ocupar o aluno com alguma atividade até o horário da próxima aula. Qualquer coisa diferente disso, pode ser questionada. E o Conselho Tutelar é a porta de entrada para a reclamação dos pais.