Não escute demais os outros

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Não é nada agradável ouvir alguém falando mal de você. Na verdade, até quando descobrimos por meio outra pessoa que um amigo está falando mal de nós, ficamos entristecidos. Por vezes, sentimos raiva e desejo de vingança. Dias, atrás, porém, encontrei um texto que resume uma grande verdade:

Não dê atenção a todas as palavras que o povo diz, caso contrário, poderá ouvir o seu próprio servo falando mal de você; pois em seu coração você sabe que muitas vezes você também falou mal de outros (Eclesiastes 7:21-22).

Sabe, pessoas falam de nós. E nós falamos das pessoas. Coisas boas e coisas ruins. Porém, como nossa natureza é má, parece que temos certa tendência em tecer comentários negativos a respeito dos outros. Quando o tipo de comentário sai de nossa boca, ainda nos desculpamos:

– Não estou falando mal de fulano; é apenas um comentário.

Entretanto, o que acho fantástico nesse raciocínio de Salomão está na primeira parte do verso. Diz ele “não dê atenção a todas as palavras que o povo diz”. Na prática, o autor nos recomenda a prestar menos atenção ao que os outros dizem. Afinal, todas as vezes que prestamos atenção ao que os outros estão dizendo, vamos ouvir coisas que não gostamos. E isso vai nos magoar, produzir sentimentos negativos… E sabe o que é pior? Pode nos desviar de nossas rotas.

Quantas vezes você já desistiu de um projeto por que alguém te desestimulou? Ou quantas vezes você ficou inibido de fazer alguma coisa com receio do que os outros diriam a seu respeito?

Embora críticas possam nos ajudar a crescer, devemos tomar cuidado para não escutar tudo que os outros falam. Quando a gente presta atenção demais nos outros, deixamos de escutar o próprio coração. Nossas verdades são silenciadas ou confrontadas pelo que os outros pensam. E isso nos paralisa, nos rouba até a vontade de viver. Passamos a viver em função dos comentários alheios e não com base em nossos sonhos.

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Preferimos não ser sinceros

amizade

Você já notou como a gente tenta ser conveniente diante de situações que nem sempre nos agradam? Ou como muitas vezes até fingimos saber de algo que desconhecemos? Ou ainda demonstramos interesse por assuntos que não nos empolgam?

É um negócio meio maluco, é verdade. Mas a gente é assim.

Dias atrás, uma amiga me contava que passou vergonha ao conversar com dois conhecidos alemães. Eles perguntaram se ela já tinha assistido um determinado filme. Pra se mostrar interessada, respondeu que sim. Depois de uns dois minutos de conversa, os rapazes perceberam que tinha algo errado e começaram a fazer perguntas sobre o filme. Claro, ela não sabia nada e teve que confessar que desconhecia a obra.

O que essa minha amiga fez, eu já fiz. Também já disse conhecer livros que nunca li… E provavelmente você, caríssimo leitor, deve ter feito o mesmo.

Essa cultura de conveniência, porém, não fica restrita a essas situações. Tem muito mais. Quem já não aprovou o cabelo de uma amiga, mesmo achando que o corte ficou ridículo? Semana passada, lembro que minha filha perguntou sobre um penteado. O negócio tinha ficado esquisito… Para não chateá-la, eu disse:

– Está tudo bem, filha.

Ela olhou pra mim e preferiu a opinião do irmão. Ele olhou, riu e respondeu:

– Não vou nem comentar…

A Duda entendeu o recado. Estava feio. Bem feio. E mudou o penteado.

Quem é professor, como eu, já deve ter visto apresentações de alunos que são pavorosas. No entanto, a gente aprendeu que precisa incentivar, estimular. Então, a molecada faz um troço assustador, revela completa ignorância e a gente ainda diz:

– Gente, valeu pela iniciativa. Foi legal o esforço de todos vocês.

O aluno, que é um pouco mais atento, sabe que o professor optou por não magoar. Outros sentem que, de alguma forma, está tudo certo… E não há mesmo o que fazer. Ficam com a impressão que trabalhos escolares são mesmo uma grande porcaria, uma perda de tempo. Enfim, eles seguem fingindo que fazem e nós, educadores, fingimos que ensinamos.

Sabe, esse é um traço de nossa cultura. A gente tem isso. Eu costumo dizer que faz parte das nossas máscaras para convivência social. Afinal, se expressamos a verdade, criamos desconforto. Tornamo-nos os chatos, críticos, arrogantes, prepotentes… Os “sabe-tudo”. No colégio ou na faculdade, ninguém gosta do professor que aponta o erro, que mostra a incompetência, o relaxo, a displicência.

O brasileiro prefere uma mentira que conforte a uma verdade que revele sua incompetência.

E nessa tentativa de agradar, de manter as relações, a gente preserva um hábito que paralisa. Sim, porque quando os problemas não são apontados, eles se perpetuam.

Por exemplo, se meu filho não ironizasse o cabelo da irmã dele, ela teria saído com um penteado ridículo… Vale o mesmo pra escola, pro trabalho, para as diferentes dinâmicas dos relacionamentos.

O professor que não aponta o erro, perde a chance de ensinar; o marido que não fala que a comida da esposa está salgada, não ajuda que ela note o mau hábito…. Se a gente não corrige o pedreiro que colocou uma lajota fora do prumo, a gente aceita que a parede fique torta depois de pronta. Ou seja, ao tolerar as falhas, nós as aceitamos como condições naturais, como parte do que é normal. E isso nos impede de crescer. Ninguém muda se não notar seus erros. E o humano, por si mesmo, nem sempre dá conta de saber o que precisa mudar.

Trate as pessoas como gostaria de ser tratado

gentileza

Uma das regrinhas básicas de convivência passa pelo exercício diário de um tratamento gentil, afetuoso. A gente fala, mas nem sempre tem disposição de praticar:

– Trate as pessoas como você gostaria de ser tratado.

Estamos tão focados em nós mesmos, em nossos desejos e vontades, que ignoramos as pessoas com as quais convivemos. É impressionante como tem gente que não dá conta de reprimir seu “eu”. Parece incapaz de se colocar na posição do outro. Alguns tratam mal e outros até são desonestos nas relações.

Quem gosta de ser corrigido aos gritos? Quem se sente confortável de ter um trabalho seu rasgado sob a justificativa de que não prestou? Quem fica bem ouvindo uma resposta atravessada?

E aqueles que acham natural tirar vantagem? No supermercado, trocam etiquetas de produtos que estão próximos de vencer… Na oficina, mecânicos dizem que o carro tem um defeito quando, na verdade, o defeito é outro – e isso apenas para faturarem mais… Não é honesto. E ninguém gosta de ser passado para trás.

Uma das palavras que adoro é “empatia”. E empatia é um pouco isso: sentir a dor do outro, reconhecer a posição do outro, imaginar-se como se sentiria se a vítima fosse você. Isso se dá inclusive numa discussão (quando a gente escuta algo que nos contraria, é importante transcender nossas mágoas e tentar pensar: por que ele disse isso?). Há muitos outros momentos que nos falta disposição para perceber que é bom ser bem tratado, ser respeitado.

E então… Se não gostamos, por que fazemos? Quantas vezes gritamos com o parceiro, com os filhos e até com os pais? Quantos humilham as crianças por que não deram conta de fazer a tarefa da escola corretamente? Quantos parceiros, amigos e até colegas de trabalho são incapazes de uma resposta gentil? E nem precisa ser assunto grave… Pode até ser sobre qual o horário ficará pronto o jantar ou onde foi colocado o relatório…

Tratar de forma gentil, respeitosa – e honesta – deveria ser prática constante. Sei que há momentos que a gente perde o controle. Porém, precisamos reprimir alguns instintos. É verdade que há dias que estamos irritados, que estamos odiando o mundo, mas quem está do nosso lado não tem culpa (algumas vezes até podem ter culpa, mas quando retribuímos com agressividade, nos rebaixamos, nos tornamos semelhante ao outro). Não vale a pena… Ser grosseiro, violento com as palavras, não nos garante paz de espírito. E ainda nos faz perder a chance de preservar ou abrir-se para novos relacionamentos.

Na segunda, uma música

Costumo dizer que não é fácil encontrar alguém disposto a ajudar, com o coração aberto para aceitar, que pratique o amor em atitudes de perdão, de apoio, de ajuda. Na música de hoje, Phil Collins fala dos momentos em que alguém se sente desencorajado, sem forças para prosseguir. Mas ele diz: estou aqui; pode contar comigo.

Vejo você como realmente é, e é por isso que te amo
Então não tenha medo, de mostrar você como realmente é

Em “True colors”, o cantor pede um sorriso… Mostra o quanto se importa.

Me mostre um sorriso
Não fique infeliz, não me lembro
Da última vez que te vi sorrindo
Quando esse mundo te deixar louco
E você tiver aguentado tudo que pode aguentar
Me ligue, porque você sabe que eu estarei aqui

É maravilhoso quando encontramos alguém assim, né? Pena que são tão raros os amigos ou os amores que conseguem ver para além de si mesmos.

Vamos ouvir?

Viver em paz

harmonia

Tem comentários cotidianos cheios de verdade, mas que, por vezes, ignoramos. Um que gosto bastante é sobre nossa condição anatômica: temos dois ouvidos e apenas uma boca. Isso sugere que deveríamos ouvir mais e falar menos.

Com frequência, a gente faz justamente o contrário: fala mais e ouve menos. E mesmo quando silencia, não ouve. Tem uma passagem bíblica na carta de Tiago que é traz um conselho precioso.

– Lembrem disto, meus queridos irmãos: cada um esteja pronto para ouvir, mas demore para falar e ficar com raiva (Tiago 1:19).

Consegue perceber a dimensão da orientação? Primeiro, a gente deve ouvir mais que falar. Segundo, a gente deve ter disposição para ouvir. Terceiro, a gente deve refletir antes de falar. Por fim, a gente deve ter controle das emoções.

Quando eu era garoto, meu avô usava uma expressão que eu achava o máximo. Ele dizia “quem fala demais, dá bom dia a cavalo”. Bom, não sei bem o que significa dar bom dia a um cavalo, mas sei o que ele queria dizer. Seo Américo sustentava – e praticava – a tese que é mais prudente falar pouco. E, ao recordar dele, posso assegurar que a “regra” funciona. Meu avô era um homem que tinha autoridade e era respeitado. Justamente por falar pouco, geralmente não magoava as pessoas. O que ele verbaliza parecia ser estudado, resultado de uma reflexão. Por isso, quando abria a boca, a gente sabia que era algo importante; deveríamos ouvi-lo.

Na verdade, esse também é um dos problemas de falar demais: as palavras se tornam banais, vazias. Perdem força. Há pressa, ansiedade em falar, falar e falar.

Entretanto, mais que ter cuidado com o que se fala, é desafiador se manter disposto a ouvir. A gente tem fôlego pra falar, mas pouca paciência em ouvir. E estar pronto para ouvir é estar preparado para ser ofendido, inclusive. Ou para escutar coisas que desagradam, que não nos interessam. Num momento de intolerância e egoísmo, quem se prontifica a ouvir? E nem digo de ouvir num confronto; falo, por exemplo, do ato de ouvir alguém que precisa desabafar. Na verdade, as pessoas hoje parecem não se importar uma com as outras. No confronto, a situação tende a ser muito pior.

O que me parece ainda mais difícil é controlar as emoções. Como não ficar com raiva se aquilo que ouvi me ofende ou agride pessoas que amo? Como ter disposição para ouvir, demorar-se pra responder e pra ficar com raiva? Posso garantir que sou um sujeito bastante controlado. Contudo, estou distante demais de combinar essas “habilidades” do conselho do apóstolo Tiago. Parece quase uma utopia. Como viver dessa maneira? Sinceramente, não sei. Ainda assim, para além de uma crença religiosa ou de ser um ensino bíblico, sei que se trata do jeito certo de viver. Se praticássemos o que está nesse texto, viveríamos bem melhor, faríamos bem às pessoas com as quais nos relacionamos e certamente a convivência com os outros se tornaria mais prazerosa.

O que falam de você

fofoca

Provavelmente não seja algo bom. Pelo menos, se ficar sabendo, não vai te agradar. Pior, talvez quem esteja comentando a seu respeito seja sua melhor amiga. Sei… É decepcionante.

Na verdade, raramente escapamos dos comentários alheios. A gente gostaria que falassem apenas coisas boas da gente. Isso até acontece, mas menos que o desejado. A regra é: até seus amigos falam mal de você.

Dentro de nós alguma coisa incomoda, reclama carinho, afeto, aceitação. Queremos ser admirados. Queremos ser amados. Desejamos que as pessoas, mesmo quando estão longe de nós, falem palavras inspiradoras a nosso respeito.

Por isso nos decepcionamos quando uma pessoa próxima fala algo negativo a nosso respeito. Dói. Faz sofrer.

Algo em nós pulsa, reclama por aprovação. Não basta acharmos que somos pessoas boas. Queremos que os outros achem isso também. E quem falem sobre nossas qualidades.

Acontece que da mesma forma que carecemos de olhares e palavras elogiosas, o coração humano carrega certa dose de maldade. Esta é a razão para aquele amigo, quando está longe de você, dizer:

– Ah, o fulano é gente boa, muito querido. Pena que é desorganizado, um pouco acomodado. E você já notou como a mulher dele é feia?

Sei que faz mal saber que sua amiga mais querida falou pra uma colega:

– Eu adoro ela. Mas ela se veste mal demais. Você viu aquela saia que estava usando ontem? Gente do céu! É ridícula. E o grude com o namorado? Aquele cara é um imbecil. Só ela não enxerga.

Infelizmente, amigos e até familiares falam de nós. E coisas ruins. E não falam para nós. Para nós, reservam os sorrisos, os elogios, os paparicos. Nossa síndrome de aprovação faz desejarmos os elogios e oferecermos apenas elogios. Trata-se de nossa máscara social. As relações humanas quase sempre funcionam assim. E quem geralmente procura ser sincero não é bem visto, nem é querido.

Chega ser contraditório. Ficamos decepcionamos com quem fala mal de nós. Mas não queremos por perto, muito menos ser amigo de quem tem disposição para nos criticar. No nosso íntimo, preferimos a bajulação. Bajulação que quase sempre carrega certa dose de falsidade.

Sabe, é assim que funciona a dinâmica dos relacionamentos humanos. O problema não está necessariamente na sua amiga que fala coisas negativas de você. Ela fala de você, você fala dela… E todo mundo tem uma justificativa para destilar um veneninho a respeito do outro quando está distante. O problema está na nossa própria natureza. Os humanos são assim. Por isso, sempre teremos pessoas que amamos que dirão coisas que nos desagradariam se soubéssemos.

Como resolver isso? Não tem o que fazer. É relaxar e viver. Ignorar e seguir adiante. Não vale a pena dramatizar, nem chorar por isso. Muito menos deixar de ter amigos. É só não confiar demais… A vida, quando isolados, geralmente não vale a pena.