Somos carentes de vínculos, mas o individualismo nos separa

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Em nossa busca por encontrar nosso lugarzinho ao sol, colocamo-nos como competidores e desenvolvemos nossas táticas de sobrevivência. Cada um deseja seu pedacinho do bolo e luta para alcançá-lo. Uma luta que nem sempre se traduz em disputa justa. Por vezes, se atropela os outros e até mesmo os relacionamentos são construídos baseados em interesses.

Num de seus livros, a escritora Brené Brown afirma que: “estamos aqui para criar vínculos com as pessoas. Fomos concebidos para nos conectar uns com os outros. Esse contato é o que dá propósito e sentido à nossa vida, e, sem ele, sofremos”.

Parece muito maluco, mas, ainda que sejamos carentes de vínculos, a busca pela vida boa tem afastado muita gente. Tornamo-nos cada vez mais individualistas. Olhamos para nossos interesses e são eles que parecem os mais importantes. Com isso, entre os nossos interesses ou a preservação de um relacionamento, colocamo-nos em primeiro lugar. A lógica bíblica do servir é simplesmente esquecida.

Observamos isso em todas as práticas cotidianas. Vemos nas empresas, vemos nos relacionamentos familiares e até mesmo em situações simples do dia – quem aí nunca viu alguém furando fila para ser atendido mais rápido?

Nesse período de pandemia, pra muita gente, vale mais um churrasco com amigos ou passeio na praia, atropelado todas as orientações médicas, do que o cuidado para não se contaminar ou contaminar outras pessoas com o vírus da covid-19.

Acontece que, como diz Brené Brown, e a Bíblia mostra há muitos séculos, vivemos para a glória de Deus e para abençoar outras pessoas. A ideia de uma vida em que os meus interesses sejam os mais importantes não combina com a doutrina bíblica e tampouco faz sentido nos estudos das ciências humanas e sociais.

É por meio do respeito ao outro, do desejo de me conectar com as outras pessoas e de conviver harmonicamente com elas que a minha vida ganha sentido e sinto alegria de viver. Pense nisso! Crie vínculos! Faça conexões! Ame mais!

Escolha bem os seus amigos

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Acredito no princípio de que devemos amar todas as pessoas. Mas também entendo que posso escolher com quem vou conviver, com quais pessoas vou dividir minha vida.

Amar todas as pessoas significa desejar o bem a todas elas. E, em todas as oportunidades, tratá-las como minhas semelhantes. Amar o outro é incluí-lo e reconhecê-lo como parte da minha humanidade.

Entretanto, para a convivência diária, é necessário ser seletivo. Devemos escolher bem os nossos amigos. E, para isso, existem alguns critérios. Além da importância da simpatia mútua, devo lembrar que quem convive comigo influencia as minhas emoções, contribui para o meu desenvolvimento.

Quando você tem amizade e convive com gente que vive descontente, que reclama de tudo, sacrifica a sua estabilidade emocional. Pessoas que vivem zangadas, irritadas, falando mal das outras trazem toda essa energia pra nossa vida.

As interações com as pessoas não são apenas meros contatos. Há em cada interação uma troca de energias… Algumas podem trazer esperança, alegria, paciência, amor… Essas pessoas fazem emergir o que há de melhor em nós.

Por outro lado, tem gente que traz pessimismo, desconfiança, inveja, ansiedade e outros tantos sentimentos e emoções que nos esvaziam, que sugam tudo que existe de bom em nossa alma. Quando ficamos muito expostos a essas pessoas, nosso equilíbrio é comprometido.

Por isso, é fundamental escolher com cuidado quem faz parte de nossa vida. É fato que não convivemos apenas com quem escolhemos. Justamente por isso torna-se ainda mais importante fazer escolhas inteligentes. Afinal, se não podemos escolher todas as pessoas que passam pela nossa vida, que pelo menos as escolhidas possam ser boas influências, grandes fontes de inspiração.

Não escute demais os outros

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Não é nada agradável ouvir alguém falando mal de você. Na verdade, até quando descobrimos por meio outra pessoa que um amigo está falando mal de nós, ficamos entristecidos. Por vezes, sentimos raiva e desejo de vingança. Dias, atrás, porém, encontrei um texto que resume uma grande verdade:

Não dê atenção a todas as palavras que o povo diz, caso contrário, poderá ouvir o seu próprio servo falando mal de você; pois em seu coração você sabe que muitas vezes você também falou mal de outros (Eclesiastes 7:21-22).

Sabe, pessoas falam de nós. E nós falamos das pessoas. Coisas boas e coisas ruins. Porém, como nossa natureza é má, parece que temos certa tendência em tecer comentários negativos a respeito dos outros. Quando o tipo de comentário sai de nossa boca, ainda nos desculpamos:

– Não estou falando mal de fulano; é apenas um comentário.

Entretanto, o que acho fantástico nesse raciocínio de Salomão está na primeira parte do verso. Diz ele “não dê atenção a todas as palavras que o povo diz”. Na prática, o autor nos recomenda a prestar menos atenção ao que os outros dizem. Afinal, todas as vezes que prestamos atenção ao que os outros estão dizendo, vamos ouvir coisas que não gostamos. E isso vai nos magoar, produzir sentimentos negativos… E sabe o que é pior? Pode nos desviar de nossas rotas.

Quantas vezes você já desistiu de um projeto por que alguém te desestimulou? Ou quantas vezes você ficou inibido de fazer alguma coisa com receio do que os outros diriam a seu respeito?

Embora críticas possam nos ajudar a crescer, devemos tomar cuidado para não escutar tudo que os outros falam. Quando a gente presta atenção demais nos outros, deixamos de escutar o próprio coração. Nossas verdades são silenciadas ou confrontadas pelo que os outros pensam. E isso nos paralisa, nos rouba até a vontade de viver. Passamos a viver em função dos comentários alheios e não com base em nossos sonhos.

Preferimos não ser sinceros

amizade

Você já notou como a gente tenta ser conveniente diante de situações que nem sempre nos agradam? Ou como muitas vezes até fingimos saber de algo que desconhecemos? Ou ainda demonstramos interesse por assuntos que não nos empolgam?

É um negócio meio maluco, é verdade. Mas a gente é assim.

Dias atrás, uma amiga me contava que passou vergonha ao conversar com dois conhecidos alemães. Eles perguntaram se ela já tinha assistido um determinado filme. Pra se mostrar interessada, respondeu que sim. Depois de uns dois minutos de conversa, os rapazes perceberam que tinha algo errado e começaram a fazer perguntas sobre o filme. Claro, ela não sabia nada e teve que confessar que desconhecia a obra.

O que essa minha amiga fez, eu já fiz. Também já disse conhecer livros que nunca li… E provavelmente você, caríssimo leitor, deve ter feito o mesmo.

Essa cultura de conveniência, porém, não fica restrita a essas situações. Tem muito mais. Quem já não aprovou o cabelo de uma amiga, mesmo achando que o corte ficou ridículo? Semana passada, lembro que minha filha perguntou sobre um penteado. O negócio tinha ficado esquisito… Para não chateá-la, eu disse:

– Está tudo bem, filha.

Ela olhou pra mim e preferiu a opinião do irmão. Ele olhou, riu e respondeu:

– Não vou nem comentar…

A Duda entendeu o recado. Estava feio. Bem feio. E mudou o penteado.

Quem é professor, como eu, já deve ter visto apresentações de alunos que são pavorosas. No entanto, a gente aprendeu que precisa incentivar, estimular. Então, a molecada faz um troço assustador, revela completa ignorância e a gente ainda diz:

– Gente, valeu pela iniciativa. Foi legal o esforço de todos vocês.

O aluno, que é um pouco mais atento, sabe que o professor optou por não magoar. Outros sentem que, de alguma forma, está tudo certo… E não há mesmo o que fazer. Ficam com a impressão que trabalhos escolares são mesmo uma grande porcaria, uma perda de tempo. Enfim, eles seguem fingindo que fazem e nós, educadores, fingimos que ensinamos.

Sabe, esse é um traço de nossa cultura. A gente tem isso. Eu costumo dizer que faz parte das nossas máscaras para convivência social. Afinal, se expressamos a verdade, criamos desconforto. Tornamo-nos os chatos, críticos, arrogantes, prepotentes… Os “sabe-tudo”. No colégio ou na faculdade, ninguém gosta do professor que aponta o erro, que mostra a incompetência, o relaxo, a displicência.

O brasileiro prefere uma mentira que conforte a uma verdade que revele sua incompetência.

E nessa tentativa de agradar, de manter as relações, a gente preserva um hábito que paralisa. Sim, porque quando os problemas não são apontados, eles se perpetuam.

Por exemplo, se meu filho não ironizasse o cabelo da irmã dele, ela teria saído com um penteado ridículo… Vale o mesmo pra escola, pro trabalho, para as diferentes dinâmicas dos relacionamentos.

O professor que não aponta o erro, perde a chance de ensinar; o marido que não fala que a comida da esposa está salgada, não ajuda que ela note o mau hábito…. Se a gente não corrige o pedreiro que colocou uma lajota fora do prumo, a gente aceita que a parede fique torta depois de pronta. Ou seja, ao tolerar as falhas, nós as aceitamos como condições naturais, como parte do que é normal. E isso nos impede de crescer. Ninguém muda se não notar seus erros. E o humano, por si mesmo, nem sempre dá conta de saber o que precisa mudar.

Trate as pessoas como gostaria de ser tratado

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Uma das regrinhas básicas de convivência passa pelo exercício diário de um tratamento gentil, afetuoso. A gente fala, mas nem sempre tem disposição de praticar:

– Trate as pessoas como você gostaria de ser tratado.

Estamos tão focados em nós mesmos, em nossos desejos e vontades, que ignoramos as pessoas com as quais convivemos. É impressionante como tem gente que não dá conta de reprimir seu “eu”. Parece incapaz de se colocar na posição do outro. Alguns tratam mal e outros até são desonestos nas relações.

Quem gosta de ser corrigido aos gritos? Quem se sente confortável de ter um trabalho seu rasgado sob a justificativa de que não prestou? Quem fica bem ouvindo uma resposta atravessada?

E aqueles que acham natural tirar vantagem? No supermercado, trocam etiquetas de produtos que estão próximos de vencer… Na oficina, mecânicos dizem que o carro tem um defeito quando, na verdade, o defeito é outro – e isso apenas para faturarem mais… Não é honesto. E ninguém gosta de ser passado para trás.

Uma das palavras que adoro é “empatia”. E empatia é um pouco isso: sentir a dor do outro, reconhecer a posição do outro, imaginar-se como se sentiria se a vítima fosse você. Isso se dá inclusive numa discussão (quando a gente escuta algo que nos contraria, é importante transcender nossas mágoas e tentar pensar: por que ele disse isso?). Há muitos outros momentos que nos falta disposição para perceber que é bom ser bem tratado, ser respeitado.

E então… Se não gostamos, por que fazemos? Quantas vezes gritamos com o parceiro, com os filhos e até com os pais? Quantos humilham as crianças por que não deram conta de fazer a tarefa da escola corretamente? Quantos parceiros, amigos e até colegas de trabalho são incapazes de uma resposta gentil? E nem precisa ser assunto grave… Pode até ser sobre qual o horário ficará pronto o jantar ou onde foi colocado o relatório…

Tratar de forma gentil, respeitosa – e honesta – deveria ser prática constante. Sei que há momentos que a gente perde o controle. Porém, precisamos reprimir alguns instintos. É verdade que há dias que estamos irritados, que estamos odiando o mundo, mas quem está do nosso lado não tem culpa (algumas vezes até podem ter culpa, mas quando retribuímos com agressividade, nos rebaixamos, nos tornamos semelhante ao outro). Não vale a pena… Ser grosseiro, violento com as palavras, não nos garante paz de espírito. E ainda nos faz perder a chance de preservar ou abrir-se para novos relacionamentos.