A educação só é prazerosa quando promove a descoberta

​Me perguntaram: professor, a escola tem que dar prazer ao aluno? Não, não é este o propósito da escola. A escola precisa ensinar. E ensinar com o objetivo de promover o conhecimento.​ O prazer é efeito do ato de descobrir. ​E isso a escola pode promover: a descoberta.

​Se partimos da premissa de que a busca pelo prazer norteia a relação das pessoas com as coisas que elas fazem, sabemos que a escola já sai perdendo. O processo de aprendizagem é desgastante e uma espécie de agressão ao conforto do nosso cérebro.

Então ​o que fazer pela escola? ​Vejamos… Embora o processo de ensino-aprendizagem provoque desprazer, é possível dar sentido ao que se ensina e ao que se aprende. E, na descoberta, há prazer.

Quando algo se revela diante de nós, algo que desconhecíamos, a sensação é maravilhosa. Quando há o efetivo aprendizado, aprendizado de algo que tem valor, há o encantamento.

Isso ocorre entre os adultos, mas principalmente entre as crianças. Crianças são curiosas. Querem descobrir, aprender. Elas se alegram quando descobrem o funcionamento das coisas. Os olhos delas brilham!!

Então por que a escola aborrece? Porque muitos das informações fornecidas não fazem sentido. Não há descoberta. Se houvesse descoberta, enquanto se ​dá o processo do ensino, haveria cansaço, sofrimento​, mas tão logo as informações fizessem sentido, a criança ou adolescente se encantaria com o saber adquirido.

É esse encantamento que a educação deve buscar. Não dá para tornar o processo de ensino prazeroso, mas é sim possível assegurar prazer com o efeito da descoberta, da novidade, do conhecimento.

Anúncios

A escola e o (não) prazer de estudar

​Dias atrás, falei aqui que um número expressivo de jovens entende que sucesso profissional é “fazer o que gosta”. Também mencionei que a busca por fazer coisas que proporcionam prazer é uma das características do momento em que vivemos. Frequentemente, as escolhas de nossos adolescentes e jovens têm como referência a expectativa de que aquela atividade poderá ser alegradora.

Esse não é um princípio de vida ruim. Passa a ser, quando há baixa tolerância à frustração, ao desconforto, à dor.

E aqui está um dos problemas enfrentados na escola. O ato de aprender é, por vezes, desgastante, cansativo e provoca muito sofrimento.

O movimento de aprendizagem é uma espécie de agressão subjetiva. É necessário todo um esforço para se adquirir um determinado tipo de conhecimento, principalmente em áreas que não parecem fazer sentido para nós. Há necessidade de criar novos “caminhos” no sistema neuronal, novas conexões.

Entretanto, no que diz respeito à escola, a situação é ainda mais complexa. Algumas regras gramaticais, cálculos matemáticos, princípios físicos, químicos ou estudos biológicos são totalmente estranhos e desconexos com a realidade imediata do aluno. E aí sem prazer e sem fazer sentido, não há nada de recompensador nesse aprendizado.

A rejeição por aquele saber é quase imediata. Com raras exceções, absorve-se o necessário para obter o resultado desejado: a aprovação na matéria. Nada mais que isso!

E nenhum discurso professoral, ou até mesmo da família, em defesa desse tipo de conhecimento têm lógica para os estudantes. Eles se sentem desconfortáveis com as horas dedicadas ao estudo, não encontram nenhum prazer naquilo e, pior, ainda notam que provavelmente boa parte daquele conhecimento só terá valor para passar num vestibular. Nada mais.

Na prática, a escola produz efeito contrário do desejado. Ao obrigar os alunos a fazerem coisas que não gostam e que não possuem conexão com a realidade deles, a escola acaba por sugerir que o estudo é chato, impositivo, e não passa de uma mera formalidade para aprovação em concursos ou em atividades que estabelecem, aleatoriamente, suas próprias regras, ignorando as habilidades que, de fato, são requeridas numa profissão e até mesmo para a vida.

A curiosidade deve motivar a busca por aprender

O processo de aprendizagem não é nada divertido; pelo contrário, é bastante desgastante e cansativo.

Porém, a busca por aprender, tendo como foco apenas a preparação para o trabalho, pode até assegurar um objetivo a esse processo, mas não o torna significativo.

O que garante significado ao ato de estudar é a curiosidade. Quando a gente procura entender os fenômenos sociais, físicos, biológicos, químicos, matemáticos… As estruturas da linguagem, a riqueza da literatura… Quando fazemos isso, por curiosidade, nossa mente se abre, um novo mundo se abre diante de nós. Somos desestabilizados, confrontados… E isso atualiza e renova nossa maneira de ver e pensar.

Na sociedade capitalista, parece que tudo precisa ter uma função prática, uma justificativa objetiva. Isso tira a beleza do ato de aprender.

É a curiosidade, o desejo de ver melhor e mais longe, a paixão por saber é que deveria nos motivar a estudar.

Se estudamos apenas pela perspectiva de ganhos financeiros, não nos abrimos efetivamente para o saber. O foco passa a ser tão somente o dinheiro.

É justamente a motivação pelo lucro que torna as pessoas suscetíveis à corrupção e nos desumaniza. Cada um passa a ter um preço. Quando nos movemos por paixão, nada pode nos corromper. Não trocamos a liberdade do pensar, a reputação e os valores, por uma mala de dinheiro.

Um jovem que escolhe Medicina pensando no status dessa profissão e em ganhos financeiros não será capaz de se comover com um pobre coitado à beira da morte que pede socorro na porta de um hospital.

Gente que tem paixão por aprender é como esponja: absorve todos os tipos de conhecimento e se conecta com o mundo por compreendê-lo, não pelos resultados financeiros que pode obter.

Aprender com os erros…

Precisamos aprender com os erros… Nossos e dos outros.

Eles nos ensinam.

Como fazem parte da caminhada, podemos viver lamentando nossas quedas ou criticando as falhas alheias… Ou podemos observar o que motivou os erros e desenvolver estratégias para que não aconteçam mais ou não sejam repetidos por nós.

Quase todos os dias, a gente encontra pessoas se lamentando pelas bobagens que fizeram. Sentir tristeza ou arrependimento, é normal. Mas ninguém corrige o passado.

Porém, quando erramos, a vida nos dá oportunidade de refletir sobre o aconteceu e, com isso, aperfeiçoarmos nossas práticas, tornarmos nossa vida melhor.

Eu vejo, por exemplo, muitos alunos que, ao final de um ano, ficam de exame, passam sufoco para conseguir a aprovação e, às vezes, até reprovam. No ano seguinte, tudo acontece de novo. E acontece porque as práticas que levaram ao fracasso seguem sendo as mesmas.

Mas existe um quadro ainda mais interessante. Você já deve ter conhecido alguém que apontou o erro alheio e, tempos depois, foi pego fazendo a mesma coisa. Lembrou de alguém?

Talvez você diria “eu mesmo já fiz isso”. Eu já fiz.

Por que isso ocorre com a gente? Porque nem sempre nos dispomos a aprender com o erro do outro. O erro cometido por outra pessoa também pode nos ensinar.

Temos a chance de observar o que motivou o problema, quais as consequências e até o que poderia ser feito para evitá-lo.

Uma vida com sabedoria é uma vida de aprendizagem constante. É isso que permite o nosso desenvolvimento e uma existência mais feliz.

A educação é um direito de todos?

A constituição federal diz que a educação é um direito de todos. Crianças, adolescentes e jovens, pobres ou ricos, têm direito à educação.

A ideia de ser um direito parece ter tido um efeito bastante nocivo na visão que temos da educação.

De certo modo, parte significativa da população se relaciona com a educação de maneira passiva. Se é um direito, eu mereço ser educado. Ou seja, essa visão implica a obrigação de um terceiro fazer algo por nós. Alguém nos educa.

O problema é que essa visão transfere para o outro o dever de fazer com que o processo de educação dos nossos alunos seja bem sucedido.

E a dinâmica, na prática, é outra. A educação é algo que se conquista. É algo que o aluno faz por si mesmo. O professor, a escola, o Estado não podem fazer pelo aluno aquilo que é papel dele.

É dever do Estado (ou do dono da escola) assegurar a vaga, o funcionamento da escola, a estrutura física adequada, a presença do professor na escola; mas cabe ao aluno o dever de se abrir para o que é ensinado e buscar efetivamente a sua formação.

Esta deveria ser a compreensão de todos nós a respeito da educação. A educação não é algo que alguém faz por mim; é algo que eu faço por mim.

Quando a gente entende isso, muda toda a dinâmica. Muda, porque, se alguma coisa não está funcionando, a gente vai atrás. Cobramos, questionamos e, principalmente, entendemos que somos os protagonistas de nossa história – os responsáveis pelo sucesso de nossa formação.

Somos seres inacabados

Somos condicionados pelo meio em que estamos. Ninguém é totalmente livre. Nossos pensamentos e desejos não brotam livremente em nossa mente. Quando nos movemos para fazer algo que supostamente queremos, esse desejo é condicionado pela história – nossa família, religião, mídia.

Ninguém compra um roupa simplesmente porque quer aquela roupa. Ainda que de forma inconsciente, nosso gosto é condicionado. Vale o mesmo para as escolhas políticas, amizades etc.

O mestre Paulo Freire foi um dos pensadores que discutiu essa tese. E, por isso, apontava que todo professor/a deve considerar a história do aluno, pois ela afeta a aprendizagem.
Entretanto, Freire também dizia que somos seres inacabados.

O que isso significa? Que sempre há espaço em nós para aprendermos mais, ressignificarmos nossas ações, revermos hábitos e até formas de pensar. Em outras palavras, ninguém precisa ser para sempre a mesma pessoa. É possível crescer como humano.

E essa consciência de que somos seres inacabados (de que não sabemos tudo e de que não possuímos todas as verdades) pode motivar-nos à busca constante de conhecimento. Não sei música? Mas posso saber. Não sei pintar? Posso aprender. Não sei cuidar da terra? Ainda é possível descobrir seus segredos…

É na inconclusão do ser, que se sabe como tal, que se funda a educação como processo permanente. Mulheres e homens se tornaram educáveis na medida em que se reconheceram inacabados” (Paulo Freire, Pedagogia da Autonomia).

Quem estimula o aprendizado é o professor

Quando o assunto é educação, não existem posições definitivas. Nem uma única forma de ensinar e/ou de aprender. Ser flexível, rever conceitos são atitudes fundamentais. Tanto ao pesquisador da educação quanto ao professor.

O educador também é um aluno. Por vezes, um aluno de seus alunos. Ouvir e aprender com eles é ser sábio. O professor não sabe tudo. Nunca saberá. Outras vezes, os sinais emitidos pelos alunos sugerem que é preciso rever a proposta pedagógica ou mesmo o jeito de ensinar. Manter-se fiel ao mesmos métodos, as mesmas fórmulas, é a receita do fracasso. Cada turma é única e aprende de um jeito muito particular.

Como pai de alunos, pesquisador da educação e professor, noto que alguns colegas ainda se incomodam com o desinteresse do aluno e o culpam por isso. Na tentativa de fazê-lo permanecer em sala e se envolver com o programa da disciplina, criam estratégias das mais variadas que tornam aquele espaço quase um quartel militar.

Recordo que quando comecei a dar aulas, era um desses professores dispostos a tudo pra manter o acadêmico em sala – ainda que não estivesse interessado em minhas aulas. Uns dois anos atrás, conversando com uma jovem, que havia sido uma das minhas alunas mais brilhantes, aprendi uma grande lição: a melhor maneira de fazer o acadêmico estar em sala é despertar nele o desejo pelo conhecimento que tenho a oferecer. O que eu digo, o que eu falo, o que eu ensino tem que fazer algum sentido. Eu tenho que oferecer algo que possa mexer com eles. Não é fazê-los rir. Professores não são humoristas. Porém, o encanto deve estar no conhecimento. O saber atrai.

Se o aluno percebe que o professor tem algo a oferecer e este saber pode lhe ser interessante, ele estará em sala. O conhecimento é o que deve estimular, não as ferramentas coercitivas.

Esta filosofia é transformadora. Por duas razões: reconheço minha responsabilidade em provocar o desejo pelo conhecimento ao mesmo tempo dou liberdade ao aluno de escolher se quer ou não aprender.

Admito, não é simples encarar os alunos e impactá-los. Mas confiar no que tenho para oferecer, ter domínio daquilo que vou ensinar me garantem autoridade para fazer com que cada aula seja especial.

A mudança de método me fez descobrir que o professor, ao demonstrar claro interesse em promover o conhecimento ao aluno, consegue aquilo que o docente preso aos esquematismos não consegue: salas cheias e alunos envolvidos.

O prazer maior diante de uma sala interessada, que não dorme durante a aula, é do próprio educador. Ganha o professor, ganham os alunos, já que estes descobrem que a aquisição do saber – ainda que seja um processo desgastante, cansativo – não deve ser por obrigação, mas por uma escolha consciente.