A pandemia e as aulas online

Numa semana, estávamos todos em sala de aula, animados e cheios de planos para o ano letivo; na semana seguinte, as aulas presenciais estavam suspensas e fomos interpelados a reinventar o sistema de ensino.

Este é o resumo do que experimentei em meados de março. Fazia poucas semanas que as aulas na faculdade tinham começado. Estávamos animados. Algumas mudanças que propusemos na Semana Pedagógica estavam sendo implementadas. As matrículas tinham se encerrado há poucos dias e a sala do primeiro semestre estava lotada. O clima era extremamente positivo. Tudo mudou quase que num piscar de olhos. Tá… não foi assim tão rápido. Mas foi rápido o suficiente para não dar tempo de processar as mudanças.

Eu vivi isso e milhares de outras pessoas também. Professores e alunos. E desde as séries iniciais até mestrados e doutorados.

Desde a segunda quinzena de março, a luta diária objetiva fazer o ensino presencial funcionar no sistema remoto.

O que escolas, colégios e faculdades estão experimentando pode se assemelhar ao EaD, modalidade de educação a distância. Entretanto, trata-se apenas de uma semelhança pela ausência da sala de aula física e práticas de ensino e aprendizado utilizando plataformas digitais. Entretanto, as semelhanças param por aí. Diferente dos cursos em EaD, quem atua no presencial não tem material pronto, apostilado, para esse tipo de ensino, nem aulas gravadas e tutores para auxiliar no atendimento.

Da parte do aluno, as expectativas também são outras. Quem aí consegue imaginar uma criança de sete, oito anos tendo a autonomia e a disciplina necessárias para um curso on-line, sem supervisão, horários e rotinas fixas?

Por isso, tanto as crianças quanto os adolescentes e jovens estão sendo desafiados a viverem uma experiência complexa de ensino-aprendizagem. Para os professores, a adaptação também é dolorosa. E todo mundo está trabalhando muito mais.

Além disso, o cenário de incertezas provocado pela pandemia de coronavírus interfere no estado emocional e muita gente está com dificuldade de concentração, está sofrendo quadros de ansiedade, não dorme direito, sente estresse, depressão, pânico… E tudo isso afeta a dinâmica escolar.

Neste contexto, tem havido inúmeras críticas, questionamentos. Algumas pessoas pedem pela suspensão das aulas; outras pedem por menos tarefas, menos leituras… Tem também aqueles que, matriculados em instituições particulares, querem redução nas mensalidades.

Na verdade, todas as manifestações são compreensíveis. Afinal, ninguém escolheu viver o que está vivendo. Entretanto, tenho dito para meus colegas professores e também para meus alunos: vivemos um período de oportunidades. Estamos sendo desafiados a vivenciar novas formas de ensinar e de aprender. As ferramentas digitais estão presentes em nossa rotina há bastante tempo. A escola, porém, ainda é tímida no uso das tecnologias. Mesmo alunos que fazem cursos em EaD, pouco se apropriam do conhecimento disponível nas redes.

Portanto, ainda que você tenha dúvidas sobre a eficácia das práticas escolares neste momento de pandemia, quero te fazer um pedido: dê uma chance para sua escola, seu professor e para você mesmo.

Interromper todo o processo de ensino agora, apenas porque não podemos estar em sala de aula, seria burrice, estupidez. Talvez as coisas não estejam funcionando de maneira perfeita. Ainda assim, com disposição para a colaboração coletiva, podemos construir novas experiências de ensino-aprendizagem.

Parar todas as aulas seria um atestado de incompetência de nossa parte; mostraria que não somos capazes de mudar, de avançar e nem de recriar a história.

É fato que a experiência que estamos vivendo não foi escolhida, desejada e nem planejada. Mas também é fato que, nas crises, somos convidados a ser criativos, a reinventar nosso próprio modo de vida.

Então sejamos menos preceituosos, menos resistentes e vamos aproveitar este momento para aprender e fazer algo novo.