Falta de planejamento compromete o futuro do Brasil

Nenhum país muda sem ter um planejamento de futuro. Trocar deputados, senadores, governadores e presidente da República pode até ajudar na reformulação de determinadas práticas, inclusive com novas políticas públicas. Mas não ocorrerão avanços significativos.

Fazer planejamento tem a ver com a cultura de um povo. Não é da cultura do brasileiro planejar. A gente não faz isso na casa da gente. Não faz na empresabasta notar a quantidade de empresas que fecham por não ter pensado todas as estratégias de curto, médio e longo prazos. E a gente não faz planejamento na política.

A Coreia do Sul há pouco mais de 60 anos era um território arrasado pela guerra. Um país pobre.

Muita gente atribui o sucesso econômico e científico da Coreia ao investimento na educação. É verdade que a educação fez e ainda faz a diferença por lá. Porém, a educação não foi a chave do sucesso. O segredo da Coreia do Sul foi planejamento. A educação fez parte das estratégias utilizadas para colocar o país na rota do desenvolvimento econômico e científico.

No Brasil, não damos valor a isso. A ausência de uma cultura de planejamento faz com que as ações iniciadas num governo sejam interrompidas no outro. Cada político pensa no seu mandato e em medidas que possam lhe render capital político, votos. Um governo inicia um programa de incentivo ao ensino superior, financiando bolsas de estudo… Um novo governo reduz a verba para o programa e dá início a outra ideia.

Um prefeito começa uma obra, não consegue concluí-la e, quando outro é eleito, entende que existem coisas mais urgentes e a obra fica parada.

Políticas precisam ser pensadas não para estancar um problema agora, mas para criar uma condição de vida melhor para as pessoas daqui a 20, 30… 50 anos.

Com uma mentalidade de planejamento, as pessoas compreenderiam que não existem soluções mágicas. É preciso muito trabalho, esforço, disciplina e tempo para dar conta de demandas históricas.

A Coreia do Sul não se tornou uma potência tecnológica, uma força na indústria automobilística mundial de um dia para o outro. Os resultados começaram a aparecer depois de quase 40 anos.

Mas veja só… O Brasil nunca foi arrasado por uma guerra, nunca sofreu com grandes catástrofes naturais, mas não sai do lugar. Nossos problemas de hoje não são diferentes dos problemas que tínhamos no passado. A gente sonha com o Brasil do futuro, mas o futuro nunca chega… E não chega porque a gente não planeja o futuro.

Isso só reforça o que estou dizendo: não existe um messias político para colocar o país nos trilhos. Se não houver uma mudança de mentalidade, a criação de uma nova cultura, a gente pode ter uma certeza: tudo vai continuar dando errado.

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De que tipo é o preconceito do brasileiro?

Do mais contextualizado, diversificado e complexo. Talvez em nenhum outro país do mundo, seja tão difícil identificar contra quais grupos de pessoas existem reações e tratamentos negativos, depreciativos.

A ideia de que o Brasil é resultado da miscigenação, da mistura entre brancos, negros e índios, acaba por esconder nossos preconceitos.

A impressão que se tem é que somos um povo misturado. E se somos misturados, todos são aceitos igualmente.

Mas, na prática, não é isso que acontece.

Há um preconceito velado, silencioso, muito mais nocivo que aquele aberto, conhecido e reconhecido por todos.

No Brasil, entre os extremos branco rico e preto pobre, existem outras tantas hierarquias que motivam atitudes, comportamentos preconceituosos.

Por aqui, chega-se ao ponto da pessoa que não tem a pele totalmente preta colocar-se numa condição de “não sou negro”.

Essas gradações múltiplas resultam numa sociedade em que o combate aos preconceitos é muito mais difícil, porque, de certo modo, todo mundo tem algum preconceito contra alguém ou um grupo de pessoas.

Não se trata apenas do negro. Por aqui, é o branco em relação ao pobre… O pobre em relação à pessoa gorda… A pessoa gorda em relação ao homossexual… O homossexual em relação ao religioso… O religioso cristão em relação ao espírita… O acadêmico em relação ao que abandonou os estudos…

A lista é ampla e assustadora.

A legislação não dá conta de contemplar todas as dinâmicas que funcionam na sociedade.

E isso só reforça a tese do quanto nós, brasileiros, precisamos crescer como humanos na busca de um olhar justo e respeitoso em relação a todas as pessoas.

O destino do Brasil está em nossas mãos

Estão definidas as candidaturas à presidência da República. São 14 nomes. Provavelmente, serão 13, porque Manuela D´Ávila, do PCdoB, deverá retirar a candidatura e apoiar o PT.

Desde 1989, não temos tantos nomes concorrendo ao Planalto. Desde 1989, não temos uma eleição com tantas pessoas preparadas para ocupar a presidência.

Sim, é isso mesmo. Por mais que a gente diga que não sabe em quem votar, que faltam opções… Teremos uma disputa que reunirá alguns dos políticos mais preparados para comandar o Brasil.

É fato que pode-se questionar alguns valores éticos, morais e, principalmente, o posicionamento ideológico deles. Porém, temos na disputa gente que tem trajetória no parlamento, governos, ministérios… Alguns, inclusive, com passado de bastante sucesso por onde passaram. Já demonstraram competência.

E isso significa uma única coisa: o futuro do país está nas nossas mãos. Podemos escolher mal de novo, optar por algum aventureiro, algum um salvador da pátria… Ou podemos observar o passado, realizações, eficiência nos cargos já ocupados e votar em um candidato que pode dar conta de administrar bem a máquina pública.

Há quase cinco anos, o país entrou na maior crise de sua história. Deixamos de crescer e todos os indicadores econômicos e sociais são negativos. Nenhum dos eleitos fará milagre. Entretanto, alguém com capacidade administrativa poderá dar conta de arrumar a casa e, ao final de quatro anos, deixar o governo em condições de fazer o Brasil voltar a sonhar em ser grande no cenário internacional.

A decisão está em nossas mãos.

Medo do desemprego é o maior em 22 anos

A CNI, Confederação Nacional da Indústria, apresenta, mensalmente, um indicador que mede o medo do desemprego no país. E esse indicador atingiu um índice recorde, o maior em 22 anos. O nível de insegurança do trabalhador subiu 4,2 pontos e atingiu 67,9 pontos – um recorde.

A insegurança aumentou principalmente entre os homens. Para eles, o medo de perder o emprego subiu 5,6 pontos, contra uma alta 2,8 para as mulheres.

O maior receio entre os homens é justificado. Num país em que a cultura ainda é de um homem-provedor, aquele que coloca comida na mesa, estar desempregado significa expor a família a riscos.

O medo do desemprego é maior entre os trabalhadores do Nordeste brasileiro, mas também atinge os jovens com idade de 16 e 24 anos e afeta mais aqueles que ganham até um salário mínimo.

Esse índice recorde no indicador medido pela CNI se deve à falta de confiança na retomada econômica. O Brasil está há cinco anos passando por momentos muito difíceis na economia. Neste período, foram três anos de recessão, um crescimento medíocre em 2017 e, 2018, deve repetir o cenário do ano passado.

Michel Temer assumiu a presidência com o discurso de que tinha a receita para colocar o Brasil na rota do crescimento. Promoveu reformas importantes, mas acabou engolido pela naturalização na corrupção no seu governo, incompetência na gestão de crises, como a recente paralisação dos caminhoneiros – características que, em síntese, tiram toda credibilidade, tão necessária para o bom funcionamento da gestão pública e confiança dos investidores.

Podcast da Band News. 

O excludente sistema de educação

Sustento a necessidade de debates profundos sobre o Brasil, porque a política do imediatismo e do discurso fácil tem nos tornado um povo sem perspectivas de desenvolvimento efetivo.

Por exemplo, números da educação revelam que de cada 100 crianças que entram na escola:
– 65 terminam o ensino médio;
– 18 concluem o e.m. sabendo Português adequadamente;
– 5 aprendem matemática como deveriam;
– 7 entram na faculdade.

Os números são pífios. Mostram que o sistema educacional brasileiro é uma máquina de excluir pessoas e tem falhas profundas que resultam em deficiências no aprendizado.

O fracasso do modelo pode ser notado já nos primeiros anos. A Avaliação Nacional de Alfabetização mostrou que 55% dos alunos do terceiro ano do ensino fundamental não têm aprendizado adequado de leitura.

É este cenário que faz do Brasil, o quinto maior país do planeta, oitava economia do mundo, ser apenas o 80o mais competitivo, conforme o Fórum Econômico Mundial.

Sustentabilidade: o Brasil precisa passar do discurso à prática

FOTO: LAURENT REBOURS (AP) - REPRODUÇÃO DE EL PAÍS
FOTO: LAURENT REBOURS (AP) – REPRODUÇÃO DE EL PAÍS

Quando o assunto é mobilidade urbana, o Brasil segue muito atrasado. O incentivo ao uso dos carros passa, inclusive, pelo próprio poder público. As cidades são pensadas para privilegiar os veículos. E, recentemente, durante a política de redução de impostos promovida pelo governo para não permitir o desaquecimento da economia, o setor automobilístico foi um dos mais beneficiados.

Enquanto isso, na Europa, os carros ganham status de vilões do meio ambiente. Todo projeto de sustentabilidade que se discute por lá prevê menos veículos nas ruas (por aqui, o povo briga quando são reduzidas vagas de estacionamento pra carro e ninguém luta por bicicletários). A França, por exemplo, está muito empenhada em fazer uma transição energética. Não se tratam de projetos pontuais, mas sim para toda a nação. O governo de François Hollande está determinado em viabilizar a proposta e já recebeu sinal verde do Legislativo francês para promover uma grande mudança no país.

A lei em discussão prevê medidas de curto, médio e longo prazo. A meta é tornar a França campeã ecológica na Europa até 2050. Entre as principais medidas estão incentivos para as empresas que motivarem os funcionários a usar bicicletas. Cada quilômetro rodado de magrela vira dinheiro no bolso do trabalhador. E a empresa ganha benefícios fiscais.

Além disso, as companhias com mais de 100 funcionários deverão apresentar um plano de transporte para sua equipe envolvendo transporte coletivo, carros compartilhados e uso das bicicletas.

Paris é a cidade mais empenhada no projeto. A capital ganha cada vez mais espaços para os veículos de duas rodas. Também estão sendo instaladas milhares de “tomadas” para atender veículos elétricos.

O francês que for trocar o carro a diesel por um elétrico também ganha uma espécie de prêmio – bônus. E o poder público também faz sua parte. Na renovação da frota, para cada dois veículos comprados, um deve ser elétrico.

Entretanto, o “pacote ecológico” não tem apenas medidas visando reduzir a poluição e melhorar o trânsito. Também saem de cena as sacolas plásticas descartáveis, os pratos e talheres do mesmo material. E como o objetivo é promover uma transição na matriz energética, edifícios devem ser reformados visando reduzir o consumo de energia de lâmpadas e equipamentos de ar condicionado. Quem for fazer a reforma, recebe incentivos fiscais e pode fazer empréstimos com juros subsidiados.

Coisa boa, né? Pois bem… É desse tipo de avanço que a gente precisa. No Brasil, um debate político sério também deveria contemplar projetos ambiciosos dessa natureza. Entretanto, por aqui, nossos supostos representantes ainda carecem de maturidade para fazer o enfrentamento de temas mais complexos. E a sociedade, por sua vez, está acomodada e é só quer saber de mudanças que, na verdade, não mudam nada.

Copa sem bola

futebol

Na minha Copa não tem bola. Nada de apito do árbitro, jogadas de efeito ou gritos de gol, gente gritando… Apenas algumas notícias, comentários e torcida.

Até gosto de futebol. Também acho bonito o espetáculo do Mundial de seleções. Porém, há muito tempo deixei de ter paciência para ficar duas horas diante da TV. O rádio ainda me atrai. Mas, no máximo, como acompanhante.

Deixar de assistir aos jogos não é uma opção política, ideológica. Não estou contra a seleção. Nem mesmo os problemas de organização, os desmandos dos governos na execução das obras me fariam torcer para dar tudo errado.

Entendo que o futebol tem encanto. Milhões são torcedores. E embora a seleção seja a CBF e não um país, as emoções se misturam e ver a equipe de Felipão como vitoriosa seria um presente para o povo brasileiro. Além disso, o custo da Copa já é alto demais para que o título fique nas mãos dos “adversários”. A gente não merece mais uma derrota.

O título é apenas simbólico. Não significa ganhos reais. Mas representa sorrisos, certa satisfação, orgulho… E a Copa acontece na nossa casa. Então não tem por que desejar que dê tudo errado. Se der errado, a CBF perde alguns milhões de dólares, a Dilma talvez siga sendo sufocada pela onda de mau humor… Entretanto, a entidade que comanda o futebol nacional continuará explorando a paixão nacional. E a máquina pública (inclusive o PT) seguirá seu rumo, como sempre aconteceu. Quanto ao povo? Também não terá perdas reais. Porém, verá escapar um título que poderia ser do futebol brasileiro. Ficará com o ônus da organização da Copa e terá reforçada a “síndrome de patinho feio”, por sequer ter dado conta de conquistar o hexa em casa.

Portanto, mesmo sem bola rolando na minha Copa, torço para que as coisas funcionem. E sem ver o futebol, dedico meu tempo ao trabalho, aos estudos… Acho que isso é ser patriota, sem ser inconsequente.  E sonho com um dia em que a gente, como povo, seja menos passional. Saiba separar as paixões do que realmente importa. E invista melhor o tempo que temos. Quem sabe a gente cresça de fato e não tenhamos mais que lamentar por desmandos como os vistos nessa Copa. Afinal, o que hoje gera revolta só é resultado de uma cultura indolente, imediatista, paternalista e de troca de favores.

Por que o Brasil não anda?

brasil

A gente reclama muito dos governos. E é justo reclamar. Embora não seja correto generalizar, dá pra dizer que parte considerável de nossos políticos tem pouco compromisso com o bem-estar da população, com o desenvolvimento do país. Muitos são incompetentes. E outros são representantes de si mesmos (estão no poder para defender seus próprios interesses e de determinados grupos econômicos).

Entretanto, além de encontrar motivos externos para o país não funcionar, deveríamos assumir nossa responsabilidade. Não são apenas as obras da Copa que atrasaram, foram mal feitas ou deixaram de ser executadas. Independente do partido político, tem centenas de obras superfaturadas, atrasadas ou paralisadas pelo país afora. Porém, o que acontece na esfera pública, ocorre também em nossa casa, em nosso trabalho. Quem nunca “esqueceu” uma tomada estragada em casa por semanas sem se mexer para arrumar? Quem nunca atrasou um relatório ou quis dar um jeitinho de entregar depois um trabalho de escola?

Não, não estou justificando o injustificável da prática política, da gestão pública no Brasil. O que quero mostrar é a outra face. Na verdade, não privilegiamos a eficácia, a excelência dos serviços. Veja o que acontece no comércio. Quem nunca entrou numa loja e sentiu vontade de virar as costas por ser mal atendido? E o serviço de atenção aos clientes prestado pelas operadoras de telefonia? Por quantos minutos ficamos esperando no telefone? Quem nunca precisou voltar à oficina mecânica porque o profissional foi negligente? Quem nunca teve que brigar com o pedreiro porque ele foi relapso na execução do que havia sido combinado?

Sou professor. Vejo alunos sentirem prazer em ter aula vaga ou quando um colega falta. Comemoram recessos e muitos passam o ano sem ler um único texto proposto para as aulas. Há negligência e pouco interesse pela excelência. Reclama-se do sistema, mas não há luta para, como indivíduo, ser melhor.

O economista Paulo Roberto Feldmann, professor da USP, lançou um livro nos Estados Unidos. Nele, o ex-diretor de empresas como a Microsoft e o Banco Safra, tenta ensinar americanos a trabalhar com latino-americanos. Numa entrevista à revista Época, Feldmann foi taxativo: “algumas características culturais do brasileiro atrapalham seu desempenho no trabalho”.

O professor mostra que isso atrapalha e muito o desenvolvimento do país.

Não damos importância à pontualidade. Em outros países, isso é inadmissível. O fato de não darmos importância a detalhes de comportamento influencia a má administração. No Brasil, se alguém atrasa a entrega de um projeto, dificilmente será advertido ou punido. Em outros países, a questão da pontualidade e do cumprimento de prazos é levada muito a sério, e isso tem uma influência na produtividade.

Na opinião de Feldmann, o brasileiro não gosta de seguir regras, não se preocupa com a excelência.

Na média, o brasileiro é um pouco indolente, não se preocupa em seguir regras e não se empenha em ser preciso. De forma geral, o brasileiro não tem um ritmo de trabalho tão alto como os americanos e os europeus.

Ele aponta que uma pesquisa revelou que a nossa produtividade é muito baixa quando comparada com povos de nações desenvolvidas.

Há dados sobre a produtividade da mão de obra em vários países. Nos EUA, a produtividade é 100. No Brasil, é de 18% da americana. Isso quer dizer que a produtividade do brasileiro é menor que a quinta parte do americano. Na Alemanha, é 70%.

Ou seja, embora seja um tanto clichê, é correto dizer que “enquanto a gente não mudar, o Brasil não vai mudar”. A gente despreza os livros, despreza a importância da pontualidade, da entrega nos prazos… A gente acha que o “meia-boca” é aceitável. Não, não é. Fazer bem um serviço, atender bem um cliente, valorizar e investir no conhecimento, não desperdiçar o tempo, contratar o competente e não o “amigo”… é o que se espera de um profissional, é o que deseja de um trabalhador, de um estudante… E são práticas que podem impactar positivamente nossa relação com o mundo do trabalho e do conhecimento. E, em especial, que podem nos ajudar a romper com a cultura acomodada e “indolente” sugerida pelo professor Feldmann.