Medo do desemprego é o maior em 22 anos

A CNI, Confederação Nacional da Indústria, apresenta, mensalmente, um indicador que mede o medo do desemprego no país. E esse indicador atingiu um índice recorde, o maior em 22 anos. O nível de insegurança do trabalhador subiu 4,2 pontos e atingiu 67,9 pontos – um recorde.

A insegurança aumentou principalmente entre os homens. Para eles, o medo de perder o emprego subiu 5,6 pontos, contra uma alta 2,8 para as mulheres.

O maior receio entre os homens é justificado. Num país em que a cultura ainda é de um homem-provedor, aquele que coloca comida na mesa, estar desempregado significa expor a família a riscos.

O medo do desemprego é maior entre os trabalhadores do Nordeste brasileiro, mas também atinge os jovens com idade de 16 e 24 anos e afeta mais aqueles que ganham até um salário mínimo.

Esse índice recorde no indicador medido pela CNI se deve à falta de confiança na retomada econômica. O Brasil está há cinco anos passando por momentos muito difíceis na economia. Neste período, foram três anos de recessão, um crescimento medíocre em 2017 e, 2018, deve repetir o cenário do ano passado.

Michel Temer assumiu a presidência com o discurso de que tinha a receita para colocar o Brasil na rota do crescimento. Promoveu reformas importantes, mas acabou engolido pela naturalização na corrupção no seu governo, incompetência na gestão de crises, como a recente paralisação dos caminhoneiros – características que, em síntese, tiram toda credibilidade, tão necessária para o bom funcionamento da gestão pública e confiança dos investidores.

Podcast da Band News. 

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O excludente sistema de educação

Sustento a necessidade de debates profundos sobre o Brasil, porque a política do imediatismo e do discurso fácil tem nos tornado um povo sem perspectivas de desenvolvimento efetivo.

Por exemplo, números da educação revelam que de cada 100 crianças que entram na escola:
– 65 terminam o ensino médio;
– 18 concluem o e.m. sabendo Português adequadamente;
– 5 aprendem matemática como deveriam;
– 7 entram na faculdade.

Os números são pífios. Mostram que o sistema educacional brasileiro é uma máquina de excluir pessoas e tem falhas profundas que resultam em deficiências no aprendizado.

O fracasso do modelo pode ser notado já nos primeiros anos. A Avaliação Nacional de Alfabetização mostrou que 55% dos alunos do terceiro ano do ensino fundamental não têm aprendizado adequado de leitura.

É este cenário que faz do Brasil, o quinto maior país do planeta, oitava economia do mundo, ser apenas o 80o mais competitivo, conforme o Fórum Econômico Mundial.

Sustentabilidade: o Brasil precisa passar do discurso à prática

FOTO: LAURENT REBOURS (AP) - REPRODUÇÃO DE EL PAÍS
FOTO: LAURENT REBOURS (AP) – REPRODUÇÃO DE EL PAÍS

Quando o assunto é mobilidade urbana, o Brasil segue muito atrasado. O incentivo ao uso dos carros passa, inclusive, pelo próprio poder público. As cidades são pensadas para privilegiar os veículos. E, recentemente, durante a política de redução de impostos promovida pelo governo para não permitir o desaquecimento da economia, o setor automobilístico foi um dos mais beneficiados.

Enquanto isso, na Europa, os carros ganham status de vilões do meio ambiente. Todo projeto de sustentabilidade que se discute por lá prevê menos veículos nas ruas (por aqui, o povo briga quando são reduzidas vagas de estacionamento pra carro e ninguém luta por bicicletários). A França, por exemplo, está muito empenhada em fazer uma transição energética. Não se tratam de projetos pontuais, mas sim para toda a nação. O governo de François Hollande está determinado em viabilizar a proposta e já recebeu sinal verde do Legislativo francês para promover uma grande mudança no país.

A lei em discussão prevê medidas de curto, médio e longo prazo. A meta é tornar a França campeã ecológica na Europa até 2050. Entre as principais medidas estão incentivos para as empresas que motivarem os funcionários a usar bicicletas. Cada quilômetro rodado de magrela vira dinheiro no bolso do trabalhador. E a empresa ganha benefícios fiscais.

Além disso, as companhias com mais de 100 funcionários deverão apresentar um plano de transporte para sua equipe envolvendo transporte coletivo, carros compartilhados e uso das bicicletas.

Paris é a cidade mais empenhada no projeto. A capital ganha cada vez mais espaços para os veículos de duas rodas. Também estão sendo instaladas milhares de “tomadas” para atender veículos elétricos.

O francês que for trocar o carro a diesel por um elétrico também ganha uma espécie de prêmio – bônus. E o poder público também faz sua parte. Na renovação da frota, para cada dois veículos comprados, um deve ser elétrico.

Entretanto, o “pacote ecológico” não tem apenas medidas visando reduzir a poluição e melhorar o trânsito. Também saem de cena as sacolas plásticas descartáveis, os pratos e talheres do mesmo material. E como o objetivo é promover uma transição na matriz energética, edifícios devem ser reformados visando reduzir o consumo de energia de lâmpadas e equipamentos de ar condicionado. Quem for fazer a reforma, recebe incentivos fiscais e pode fazer empréstimos com juros subsidiados.

Coisa boa, né? Pois bem… É desse tipo de avanço que a gente precisa. No Brasil, um debate político sério também deveria contemplar projetos ambiciosos dessa natureza. Entretanto, por aqui, nossos supostos representantes ainda carecem de maturidade para fazer o enfrentamento de temas mais complexos. E a sociedade, por sua vez, está acomodada e é só quer saber de mudanças que, na verdade, não mudam nada.

Copa sem bola

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Na minha Copa não tem bola. Nada de apito do árbitro, jogadas de efeito ou gritos de gol, gente gritando… Apenas algumas notícias, comentários e torcida.

Até gosto de futebol. Também acho bonito o espetáculo do Mundial de seleções. Porém, há muito tempo deixei de ter paciência para ficar duas horas diante da TV. O rádio ainda me atrai. Mas, no máximo, como acompanhante.

Deixar de assistir aos jogos não é uma opção política, ideológica. Não estou contra a seleção. Nem mesmo os problemas de organização, os desmandos dos governos na execução das obras me fariam torcer para dar tudo errado.

Entendo que o futebol tem encanto. Milhões são torcedores. E embora a seleção seja a CBF e não um país, as emoções se misturam e ver a equipe de Felipão como vitoriosa seria um presente para o povo brasileiro. Além disso, o custo da Copa já é alto demais para que o título fique nas mãos dos “adversários”. A gente não merece mais uma derrota.

O título é apenas simbólico. Não significa ganhos reais. Mas representa sorrisos, certa satisfação, orgulho… E a Copa acontece na nossa casa. Então não tem por que desejar que dê tudo errado. Se der errado, a CBF perde alguns milhões de dólares, a Dilma talvez siga sendo sufocada pela onda de mau humor… Entretanto, a entidade que comanda o futebol nacional continuará explorando a paixão nacional. E a máquina pública (inclusive o PT) seguirá seu rumo, como sempre aconteceu. Quanto ao povo? Também não terá perdas reais. Porém, verá escapar um título que poderia ser do futebol brasileiro. Ficará com o ônus da organização da Copa e terá reforçada a “síndrome de patinho feio”, por sequer ter dado conta de conquistar o hexa em casa.

Portanto, mesmo sem bola rolando na minha Copa, torço para que as coisas funcionem. E sem ver o futebol, dedico meu tempo ao trabalho, aos estudos… Acho que isso é ser patriota, sem ser inconsequente.  E sonho com um dia em que a gente, como povo, seja menos passional. Saiba separar as paixões do que realmente importa. E invista melhor o tempo que temos. Quem sabe a gente cresça de fato e não tenhamos mais que lamentar por desmandos como os vistos nessa Copa. Afinal, o que hoje gera revolta só é resultado de uma cultura indolente, imediatista, paternalista e de troca de favores.

Por que o Brasil não anda?

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A gente reclama muito dos governos. E é justo reclamar. Embora não seja correto generalizar, dá pra dizer que parte considerável de nossos políticos tem pouco compromisso com o bem-estar da população, com o desenvolvimento do país. Muitos são incompetentes. E outros são representantes de si mesmos (estão no poder para defender seus próprios interesses e de determinados grupos econômicos).

Entretanto, além de encontrar motivos externos para o país não funcionar, deveríamos assumir nossa responsabilidade. Não são apenas as obras da Copa que atrasaram, foram mal feitas ou deixaram de ser executadas. Independente do partido político, tem centenas de obras superfaturadas, atrasadas ou paralisadas pelo país afora. Porém, o que acontece na esfera pública, ocorre também em nossa casa, em nosso trabalho. Quem nunca “esqueceu” uma tomada estragada em casa por semanas sem se mexer para arrumar? Quem nunca atrasou um relatório ou quis dar um jeitinho de entregar depois um trabalho de escola?

Não, não estou justificando o injustificável da prática política, da gestão pública no Brasil. O que quero mostrar é a outra face. Na verdade, não privilegiamos a eficácia, a excelência dos serviços. Veja o que acontece no comércio. Quem nunca entrou numa loja e sentiu vontade de virar as costas por ser mal atendido? E o serviço de atenção aos clientes prestado pelas operadoras de telefonia? Por quantos minutos ficamos esperando no telefone? Quem nunca precisou voltar à oficina mecânica porque o profissional foi negligente? Quem nunca teve que brigar com o pedreiro porque ele foi relapso na execução do que havia sido combinado?

Sou professor. Vejo alunos sentirem prazer em ter aula vaga ou quando um colega falta. Comemoram recessos e muitos passam o ano sem ler um único texto proposto para as aulas. Há negligência e pouco interesse pela excelência. Reclama-se do sistema, mas não há luta para, como indivíduo, ser melhor.

O economista Paulo Roberto Feldmann, professor da USP, lançou um livro nos Estados Unidos. Nele, o ex-diretor de empresas como a Microsoft e o Banco Safra, tenta ensinar americanos a trabalhar com latino-americanos. Numa entrevista à revista Época, Feldmann foi taxativo: “algumas características culturais do brasileiro atrapalham seu desempenho no trabalho”.

O professor mostra que isso atrapalha e muito o desenvolvimento do país.

Não damos importância à pontualidade. Em outros países, isso é inadmissível. O fato de não darmos importância a detalhes de comportamento influencia a má administração. No Brasil, se alguém atrasa a entrega de um projeto, dificilmente será advertido ou punido. Em outros países, a questão da pontualidade e do cumprimento de prazos é levada muito a sério, e isso tem uma influência na produtividade.

Na opinião de Feldmann, o brasileiro não gosta de seguir regras, não se preocupa com a excelência.

Na média, o brasileiro é um pouco indolente, não se preocupa em seguir regras e não se empenha em ser preciso. De forma geral, o brasileiro não tem um ritmo de trabalho tão alto como os americanos e os europeus.

Ele aponta que uma pesquisa revelou que a nossa produtividade é muito baixa quando comparada com povos de nações desenvolvidas.

Há dados sobre a produtividade da mão de obra em vários países. Nos EUA, a produtividade é 100. No Brasil, é de 18% da americana. Isso quer dizer que a produtividade do brasileiro é menor que a quinta parte do americano. Na Alemanha, é 70%.

Ou seja, embora seja um tanto clichê, é correto dizer que “enquanto a gente não mudar, o Brasil não vai mudar”. A gente despreza os livros, despreza a importância da pontualidade, da entrega nos prazos… A gente acha que o “meia-boca” é aceitável. Não, não é. Fazer bem um serviço, atender bem um cliente, valorizar e investir no conhecimento, não desperdiçar o tempo, contratar o competente e não o “amigo”… é o que se espera de um profissional, é o que deseja de um trabalhador, de um estudante… E são práticas que podem impactar positivamente nossa relação com o mundo do trabalho e do conhecimento. E, em especial, que podem nos ajudar a romper com a cultura acomodada e “indolente” sugerida pelo professor Feldmann.

Qual é o nosso desejo?

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Tempos atrás li uma frase que chamou minha atenção.

Um povo se define pela qualidade do seu desejo. E desejo só se qualifica com educação. (Eliane Brum)

Fiquei pensando nos sentidos que se constroem a partir do que disse a Eliane. Qual é o nosso desejo? Qual é a vontade do povo? Responder essas perguntas ajudaria a compreender o que queremos. E isso nos levaria a discutir a qualidade, os fundamentos do que queremos.

Por exemplo, as pessoas se manifestam, reclamam do governo, falam sobre escola, saúde, transporte, questionam os estádios construídos para a Copa… Mas, afinal, o que de fato querem? Sabem qual seu verdadeiro desejo?

Eu tenho dúvidas disso. Até vejo barulho, mas não ouço harmonia. A gente mal sabe em quem votou nas últimas eleições. A gente mal olha para as demandas do nosso bairro. Por exemplo, tenho um apartamento numa região da cidade que há cerca de dois anos sofreu uma mudança significativa pela instalação de um bar muito badalado. O movimento de pessoas, carros e motos é intenso. Incomoda. Inclusive de madrugada. O ruído é insuportável. Quem mora no prédio não tem paz. Entretanto, curiosamente, só tem interesse em questionar o desrespeito que se pratica no local quem é afetado diretamente pelo problema. Gente que mora a 500 metros, no lugar onde estava instalado o bar até então, está feliz da vida. Funciona a lógica “se não me incomoda, não é problema meu”.

E assim é com quase tudo. Olhamos para o próprio umbigo. Questionamos o governo, brigamos com a Dilma, mas não sabemos o que de fato queremos. Qual é nosso desejo para a educação? Uma educação de qualidade, diriam. Ok; então o que é uma educação de qualidade? O que você entende como educação de qualidade? Seria um prédio bonito? Desculpem-me, mas vamos ser sinceros: que educação de qualidade é essa se sequer respeitamos os professores? Basta o docente ser mais severo com um filho e lá vai o pai à escola ameaçando, pedindo a demissão do educador.

O que é mais contraditório é que, conforme resume a frase da jornalista Eliane Brum, o desejo só se qualifica pela educação. E, convenhamos, nossa educação é muito ruim. Não, não estou falando da educação que é dada na escola. Estou falando de formação, de cidadania. A gente joga lixo na rua, a gente não tem disposição para dar passagem ao pedestre, a gente para em fila dupla, a gente briga com o outro motorista que dá sinal de luz ou buzina para sairmos da frente, a gente fura fila no banco, a gente faz “gato” pra não pagar TV a cabo, a gente cola na prova, a gente pede favor a político, a gente liga o som alto e diz um “dane-se” pro sono do vizinho, a gente bebe e dirige, a gente corta a árvore quando atrapalha a fachada da loja, a gente não devolve o troco que é dado a mais pelo caixa do supermercado… E essa lista poderia se estender. E muito.

Nossa postura é tão duvidosa que, num evento como o da Copa, perdemos o foco, protestamos e achamos que as manifestações com “quebra-quebra” nas ruas são o verdadeiro exercício de cidadania. Não estou defendendo a passividade, nem o fim dos protestos; questiono a falta de “time”, questiono a falta de percepção do que é nosso desejo, da qualidade de nosso querer; questiono a ausência de auto-crítica, a ignorância… Será que sabemos o que realmente queremos? Qual o país que desejamos? Eu não acredito que são sábios os desejos de pessoas que desprezam os livros, que classificam as aulas como chatas (mas não se envolvem com a escola), que julgam antes de conhecer, que ouvem, dançam e cantam as músicas que tocam nas rádios (reproduzindo discursos machistas e de mulheres-objeto), que assistem e tornam seu assunto predileto os programas populares da tevê e os atores que estão na capa das revistas. Ou que reproduzem comportamentos como os que citei há pouco.

Não vejo nossa sociedade como madura. Nem disposta a amadurecer. Vejo nossos desejos verbalizados em críticas e manifestações mais como atos adolescentes, inconsequentes, fruto de um povo que ainda não sabe quem é e o que realmente quer ser.

Brasil mata ecologistas

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Este é o número: 448. Entre 2002 e 2013, 448 ecologistas foram assassinados no Brasil. Esse dado assustador está no relatório da ONG Global Witness que, parece, foi ignorado pela grande imprensa nacional. E também pelos políticos – inclusive de oposição (pelo menos até o momento, né).

Preocupados em falar dos “erros” da equipe econômica do governo petista, dos problemas da Petrobras e do deputado André Vargas, assuntos tão ou mais relevantes são silenciados. Talvez porque a morte de ecologistas não importe. Afinal, o Brasil amazônico nem parece coisa nossa. Ou quem sabe, falar de ecologistas mortos não atraia leitores. Nem votos.

O número se torna ainda mais expressivo quando a gente descobre que, nesse mesmo período, morreram 908 ecologistas no mundo. Isso significa que nosso país responde por quase metade dos assassinatos. E, no Brasil, quase sempre morrem nas mãos de grileiros e de poderosos que querem se apropriar de terras, de recursos naturais. As vítimas são defensores dos direitos humanos, gente que defende o direito à terra. Tudo que querem é deter o avanço de megaprojetos que destroem o meio ambiente e roubam suas fontes de sobrevivência. Conforme aponta a Global Witness, quase sempre pertencem às populações indígenas ou minorias que vivem em cidadelas ou aldeias no meio da mata.

Por acontecer em regiões esquecidas, longe do olhar das autoridades, a violência segue a escalada e nada se faz. A impunidade se perpetua. Desse universo de 908 mortes, apenas dez pessoas foram julgadas e condenadas. E as outras? Seguem livres. Muitas vezes prestigiadas como “pessoas de bem”.

Segundo a ONG, os assassinatos são apenas a ponta do iceberg. Há muita violência. Desde violência física até psicológica – com ameaças, terror contra famílias… Isso não aparece nos dados oficiais fornecidos pelos governos para a Global Witness. Os papeis silenciam o medo, a insegurança das vítimas. Mesmo as autoridades sabendo que os assassinatos quase sempre caminhem juntos com a devastação da floresta. Onde há luta por recursos naturais, há mortes. Pena que quase ninguém se importe.

PS- Vale acrescentar que, após quatro anos de queda, o desmatamento voltou a aumentar em 2013. O crescimento foi de 28%.

A neutralidade no Jornalismo

jornalismo
Ouvir as diferentes versões de uma mesma história é um dos princípios jornalísticos. A gente chama isso de “entrevistar os dois lados”. Afinal, se você tem alguém que reclama, do outro lado deve haver alguém pra se defender. Numa greve, existem as versões dos empregados e dos patrões. Num acidente, envolvidos e até testemunhas. Na política, situação e oposição… E assim por diante.

Entretanto, há algo nessa dinâmica do jornalismo que pouca gente nota. Quando o assunto carece de uma interpretação, entrevista-se um especialista. Esse expert explica o acontecimento, as implicações do fato. E a visão desse profissional não se questiona.

Por exemplo, quando ocorrem atos de violência nos morros do Rio de Janeiro, moradores são ouvidos, a polícia é ouvida. E, com frequência, um único especialista é convidado para explicar o confronto. Essa pessoa problematiza as questões envolvidas e as interpreta para os ouvintes, telespectadores, leitores etc.

Essa lógica da imprensa funciona basicamente para todos os assuntos. Do meio ambiente à economia. Os lados são ouvidos. E, pra concluir a “reportagem”, também um especialista, que deve interpretar os acontecimentos.

O que pouca gente questiona é a neutralidade desse especialista. Será não há visões diferentes entre pesquisadores do mesmo tema? Será que um expert reúne toda a verdade? Será que um especialista não se posiciona de um determinado lugar, inclusive ideológico? É claro que sim.

A Ciência não é um todo homogêneo. Todos os fenômenos sociais possuem diferentes interpretações. Um mestre, um doutor – ou mesmo pós-doutor – faz suas pesquisas partindo de uma linha teórica. Isso se reflete na forma como analisa os fatos. Por exemplo, um especialista adepto de uma linha teórica mais liberal vai criticar as intervenções no Estado na economia; outro pode entender que a presença do governo interferindo no mercado é uma necessidade para que se reduzam as desigualdades sociais.

A questão, portanto, é bastante complexa. E é complexa porque raramente a gente reclama da imprensa por trazer apenas um especialista (ou uma vertente ideológica) nas explicações de um determinado fato. O Brasil, por exemplo, supostamente vive um momento delicado. Parece não dar conta de controlar o crescimento da inflação e, ao mesmo tempo, não consegue expandir a economia. Entretanto, temos visto na mídia diferentes interpretações dos movimentos econômicos? Tenho impressão que o discurso dominante é de total crítica ao governo. Mas será que não há visões contraditórias? Todos concordam? Não há ninguém com analise de outra maneira? Estaríamos vivendo um momento em que todos pensam igual? Ou será que quem pensa diferente não estaria sendo ouvido?

Um autor americano que respeito, Roberto Darnton, ressalta que:

Os jornais devem ser lidos em busca de informações a respeito de como os acontecimentos eram interpretados pelas pessoas da época, em vez de representarem fontes confiáveis dos acontecimentos em si.

E o motivo é muito simples: o jornal – o jornalismo em si – interpreta a realidade. Não significa que mente, manipula ou pretende aliar o público. Apenas não reproduz a realidade em sua totalidade. Ela faz um recorte. Por isso, decidir nossa vida pelo que sai na imprensa pode ser bastante arriscado.