Estresse no romance encurta a vida

casal

Uma das razões pelas quais escrevo sobre relacionamentos é porque entendo que a vida acontece na dinâmica da convivência com o outro. Embora entenda que é possível ser feliz sozinho, a gente quer mesmo ter alguém por perto pra tocar, sentir, amar. E quando essa dinâmica não funciona, a gente não funciona. Tudo parece se complicar quando o romance não vai bem.

Entretanto, uma pesquisa desenvolvida pela Universidade de Copenhague, Dinamarca, revelou que não apenas as emoções ficam abaladas quando o relacionamento tem problemas. Casais que brigam demais abrem mão de viver em paz, abrem mão de viver mais. Após observar 9.870 pessoas entre 30 e 60 anos, num período de 11 anos, os estudiosos descobriram que relacionamentos estressantes triplicam o risco de morte. Ou seja, um relacionamento ruim destrói as emoções e encurta a vida.

Pior, a morte quase sempre acontece porque o cenário ruim do relacionamento mexe com as emoções e, ao fazer isso, provoca doenças – como o câncer. Na verdade, o que acontece é justamente a reprodução de uma lógica que já ocorre noutras situações: quando as emoções vão mal, o corpo sofre, doenças surgem. Pode começar com irritação, dores de cabeça mais freqüentes tonturas, gastrite… E os quadros se desenvolvem para depressão, câncer, doenças hepáticas, doenças do coração. Um relacionamento ruim aumenta, inclusive, as chances da pessoa se suicidar.

Outras pesquisas já demonstraram que vive mais quem tem um casamento calmo, maduro, de parceria, de segurança… Curiosamente, até quando ficam doentes, os casados têm mais chance de descobrirem o problema precocemente, tratarem-se e se curarem. E nós homens somos os principais beneficiados – justo nós que temos menor expectativa de vida. Portanto, investir num relacionamento que administra os conflitos, que se desenvolve em harmonia, também é investir em qualidade de vida e numa velhice mais longa e muito melhor.

Tempo para pensar

pensarNão apenas para pensar, mas também para acalmar. Um dos erros de muitos casais é tentar resolver tudo na hora. Acontece um descompasso, uma briga e já tentam resolver. Se estiverem de cabeça quente, a chance de se magoarem aumenta muito.

Eu defendo que nada deve ser silenciado. Se o casal teve um problema, precisa conversar, dialogar. Entretanto, quando se está muito irritado, não é possível ter um diálogo.

Diálogo é quando a gente consegue falar, mas, principalmente, ouvir. E isso… no tom de voz natural.

Tem casais que, após um mal entendido, não dão conta desse tipo de comportamento. Ficam estressados e, ao insistirem em conversarem, vão perdendo o controle das emoções. Em pouco tempo, até coisas do passado voltam à pauta e atravessam esse novo momento. Vira uma confusão. Logo estão gritando. Pra voltarem ao normal, dá muito mais trabalho.

Por isso, entendo que faz bem esfriar a cabeça. Não é uma regra sem exceções, claro. Não precisa valer para todas as situações. Entretanto, é uma coisa um tanto óbvia. Muita gente negligencia essa “estratégia”. Prefere continuar ali… insistindo. Não dá. Tem que parar. Se a confusão for cara a cara (estiverem juntos), vale dizer:

– Vamos continuar essa conversa daqui a pouco?

E aí dá uma saidinha, ouve uma música, assiste um programa na tevê… Quem sabe, faz uma caminhada, dá uma volta de bicicleta. Mas… separados. Se o descompasso for por telefone, também vale agir da mesma maneira. Claro, o outro precisa entender, respeitar; o outro deve compreender que a atitude visa preservar o casal. Não é uma fuga. Apenas uma maneira de esperar o momento certo pra conversarem. Por isso, tem que ser algo já acordado previamente entre o casal. Tem que estar combinado. Detalhe, também não é pra guardar, fazer outras coisas juntos e retomar. Isso não funciona. Vai ficar incomodando, distanciando. Como você vai sair pra jantar com a pessoa amada se está com um problema? Ninguém vai curtir, se divertir. O “tempo pra pensar” é pra esfriar, acalmar… retomar onde pararam, mas com equilíbrio emocional.

Saber esperar, respeitar o tempo do outro para colocar as ideias no lugar é saber preservar o relacionamento, evitar mágoas e garantir uma vida feliz para o casal.

Mas você faz…

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Um dos argumentos mais repetidos em discussões é também um dos mais vazios e improdutivos. De um lado, está alguém que diz algo para ser prontamente rebatido pelo outro com uma fala do tipo:

– Ah… mas quando é você, você faz isso e também aquilo e mais aquilo…

Pronto. Está armado o cenário para uma discussão imbecil e que não vai produzir nenhuma mudança. Pelo contrário, apenas deixará mágoas.

E chega ser engraçado como as coisas acontecem. Às vezes começa de maneira muito simples. A mulher entra no quarto pela manhã, está com dor de cabeça e sente o perfume forte do marido.

– Poxa, você passou bastante perfume…

É uma situação localizada. O incômodo aconteceu naquele momento. Mas… pra que foi dizer isso? O sujeito parece estar armado, pronto para o contra-ataque.

– E quando é você? Você toma banho de perfume. Gasta um frasco de perfume toda vez que vai sair.

Se quem fez o primeiro comentário não engolir as palavras e optar por rebater, não tem jeito: vai ter briga.

Por sinal, muitas brigas começam por coisas simples. Coisas sem sentido. Apenas porque as pessoas são intolerantes, vivem na defensiva, prontas para o confronto. Sentem-se perdedoras se não responderem o comentário alheio.

Isso tudo é muito ruim para a dinâmica do relacionamento. É improdutivo. Não ajuda em nada. A gente tem mania de não tolerar a crítica. E não fazer a autocrítica. A gente escuta o comentário do outro e não é capaz de parar e pensar: “será que exagerei?”, “será que errei?”… Na verdade, a primeira coisa que fazemos é procurar no outro comportamento semelhante que o desautorize a nos corrigir. Trata-se de uma atitude medíocre, pequena demais. A gente não cresce e nem ajuda o outro crescer. Continuamos no erro e não contribuímos para a mudança do outro.

Deveríamos entender que cada situação é específica. A história do perfume, por exemplo, talvez nem fosse uma crítica. Talvez teria nascido apenas porque o outro não está se sentindo bem. Um comentário num tom agradável…

– Está incomodando?

Ou:

– Acha que exagerei hoje?

Poderia ajudar a entender o contexto, saber o que o outro está de fato pensando, ou o que queria dizer. Também poderia abrir a possibilidade de continuar a conversa de maneira branda e aí sim falar do outro.

– Por sinal, amor, acho que tem passado muito perfume também. Às vezes me incomoda.

O problema é que frequentemente nem há incômodo, nem há razão pra questionar o outro. Mas a falta de disposição pra entender a perspectiva do outro, que o outro é diferente… acaba falando mais alto. A gente “tira algo da cartola” e tudo vira motivo pra confrontar, para não se abrir ao diálogo.

Sabe, as relações seriam muito melhores, cresceríamos mais, se tivéssemos humildade para ouvir as críticas e até os comentários tido como nocivos. Embora possa num primeiro momento parecer um ataque barato, a fala do outro pode conter certa verdade. Não significa que a outra pessoa também não tenha erros que precisam ser reparados. Significa que o erro do outro não deve silenciar nossos próprios erros. E a gente pode ouvir, refletir, mudar… Separando o que é falha nossa do que é falha do outro. Afinal, não é por que o outro tem problemas que precisamos seguir com os nossos. A autocrítica produz crescimento. E mudanças são sempre bem vindas.

PS- O texto não tem como proposta dizer que, no relacionamento, a gente deve baixar a cabeça pra tudo que o outro diz (não estou falando de sujeição). Apenas tem como objetivo mostrar que, no fundo, a crítica pode trazer uma verdade sobre nós. Uma verdade que pode nos ajudar a mudar. Quanto aos erros do outro, podemos ajudá-lo a crescer. Mas não será fazendo comparações, partindo para o ataque que isso vai acontecer.

Pais criminosos: Salve Jorge, a novela e a vida real

Quando um casal se separa, a harmonia inicial vai embora e muitos filhos tornam-se vítimas
Quando um casal se separa, a harmonia inicial vai embora e muitos filhos tornam-se vítimas

De um lado, um pai; do outro, uma mãe. Entre eles, uma criança. Mas esta não une essas duas pessoas. Divide. É motivo de briga, de disputa. E a filha vira vítima. É manipulada.

Esta é a história de César, Antonia e Raissa. São personagens da novela Salve Jorge. Nessas noites mais tranquilas, vi algumas cenas e fiquei assustado. Movido pelo desejo de vingança, César usa a filha para machucar a ex-mulher. Ele ama a filha, mas ignora a importância da mãe na vida da criança. A pequena Raissa torna-se um objeto. Seus desejos, vontades são atropelados. A saudade é ignorada. O pai usa da proximidade para persuadir, convencer e afastá-la de Antonia.

César, Antonia e Raissa são só personagens da trama global. Entretanto, não é difícil encontrar perto de nós pessoas que transformam seu filhos em armas para punir ex-marido, ex-mulher. Na novela, o homem tem o poder. Além da vantagem natural que leva, ainda fica com a filha e a usa para se vingar. Na vida real, quase sempre os filhos ficam com as mães. E isso não é ruim. Mas algumas delas também guardam mágoas. E nem precisam ser traídas. Por motivos diferentes, atrapalham as visitas, colocam os filhos contra os pais, tornam a vida do ex um inferno. E roubam das crianças a chance de um desenvolvimento saudável. Deixam de ser pais, tornam-se criminosos. 

Sabe, casamento acaba. Mas, quando existe um filho na história, o homem e a mulher deixam de ser um casal, mas não deixam de ser pais. E como pais têm o dever de promover o bem-estar da criança. É um crime usar os pequenos, manipulá-los. Crianças não têm maturidade pra isso. É atitude egoísta, mesquinha, irresponsável, pequena demais falar mal do ex ou da ex-parceira para o filho.

Separação dói. Separação machuca. E, para os filhos, não é nada fácil ver os pais se separem. Eles ficam sem chão. E com pais feridos pelo fim do relacionamento, podem se sentirem sozinhos, ignorados ou tornaram-se superprotegidos, mimados demais. Não é fácil encontrar o equilíbrio, a forma certa de sofrer com o casamento que acabou e, ao mesmo tempo, proteger a molecadinha, ajudar os filhos a ter um desenvolvimento emocional saudável. Porém, é preciso querer, esforçar-se. Superar os próprios instintos. Calar a boca quando a vontade é falar do outro, desqualificá-lo. Pelo bem dos filhos, pelo futuro deles, não dá para se inspirar em César…

Não fale de seu relacionamento para os outros

O “desgraçado” de hoje é gatinho, fofinho, lindinho, amorzinho… amanhã

Dias atrás, num papo com amigos, saiu aquele velho ditado:

– Em briga de marido e mulher, não se mete a colher.

A conversa girava em torno de problemas familiares – marido e mulher, pais e filhos etc. E, claro, do potencial explosivo que existe na interferência externa nesses conflitos domésticos. Afinal, basta alguém de fora tentar interferir para que os membros da família se defendam e o outro, o de fora, torne-se “persona non grata”, inimigo.

Entretanto, observo que muita gente parece gostar de entregar a “colher” para o outro. Parece desejar que alguém dê palpite.

A mulher briga com o marido e corre contar para as vizinhas. Vai lá chorar as mágoas. Tem problema com o parceiro e vai se lamentar com a mãe. A garota sente-se ofendida pelo namorado e entrega o “desgraçado” para os pais.

O problema é que o “desgraçado” de hoje é gatinho, fofinho, lindinho, amorzinho… amanhã. E aí a confusão já está feita, porque pais e amigos não convivem com o casal, não vivenciam a relação. E, por isso mesmo, provavelmente tomarão partido. A imagem que vão construir do outro é justamente aquela que você ajudou a formar nos momentos que estava magoada, ofendida.

Relacionamentos têm conflitos. Os conflitos fazem parte da dinâmica da convivência. É impossível não haver confusão entre duas pessoas que se amem. Até pra “negociarem” as diferenças, fazerem-se respeitar, tem que haver o conflito. No entanto, quando o problema do casal transcende as quatro paredes, pode ter desdobramentos inesperados – e não muito desejados.

Particularmente, entendo que nossos conflitos cotidianos não devem ser compartilhados com pais, amigos, colegas de trabalho… Gente de fora só deve ser convidada a participar do cotidiano do casal, de seus problemas, quando são pessoas maduras e experientes. Devem ser pessoas com a isenção necessária para avaliar o quadro sob todos os aspectos, analisar as partes envolvidas e levar os “briguentos” a encontrarem as soluções para seus problemas – sem dar razão pra nenhum deles. Ainda assim, o ato de contar deve ser combinado, conversado. Não pode ser unilateral.

Diferente disto, entregar a “colher” pra gente que não vive o cotidiano do relacionamento é amplificar os problemas e ainda ferir a reputação do parceiro. Portanto, antes de falar de seus problemas para alguém, morda a língua.