Do que precisamos para viver?

Quais são as nossas necessidades? O que é essencial para vivermos bem?

Condicionados pelo nosso modo de vida atual, talvez a nossa resposta seja algo do tipo: precisamos de um bom emprego, uma casa confortável, alimentos diversificados, plano de saúde…

Enfim, nessa lista apareceriam itens bastante positivos e que são importantes.

Entretanto, como raramente fazemos essa reflexão – ou seja, como quase nunca falamos sobre as nossas reais necessidades para uma boa vida -, temos buscado uma série de coisas para suprir pseudo necessidades e, por vezes, faltam-nos aquelas que são essenciais.

Noutras palavras, nosso modo de vida moderno está distante de ser normal.

O psicólogo norte-americano Abraham Maslow, que viveu no século passado, criou uma teoria interessante sobre as necessidades humanas, o que de fato precisamos ter para viver bem.

A chamada Hierarquia de Necessidades de Maslow deveria vez ou outra ser observada por todos nós; afinal, a hierarquia de necessidades do pesquisador é bastante coerente.

A lista mostra que nossas primeiras necessidades são fisiológicas. Carecemos de comida, água, abrigo, ar, sono, higiene, saneamento.

Em segundo lugar estão as necessidades de segurança. Precisamos ter garantida a nossa segurança, a segurança de nossos entes queridos e de nossos recursos.

Terceiro, as necessidades sociais: laços familiares, amizade, vida em comunidade, intimidade, conexão com outras pessoas, com grupos.

Na hierarquia de necessidades, o quarto aspecto são as necessidades de autoestima. Temos que ter confiança, responsabilidade, senso de conquista, respeito.

Por fim, necessidades auto-atualizantes; que compreendem a criatividade, a espiritualidade, o crescimento e a realização.

A Hierarquia de Necessidades de Maslow revela que somos carentes de vários elementos. Uma boa vida não está concentrada em apenas um ou outro campo. Temos necessidades fisiológicas, mas também temos necessidades sociais e de autoestima; de segurança, mas também auto-atualizantes, que engloba, por exemplo, a espiritualidade.

Enfim, em nenhuma dessas áreas é preciso haver excesso. Só precisamos suprir o necessário; sem acúmulo. Porém, se concentramos demais nossas energias na busca da comida, do abrigo, da segurança e ignoramos os laços familiares, a conexão com pessoas, com a comunidade, por exemplo, não vamos viver bem.

A vida boa, segundo Maslow, é resultado do equilíbrio na busca por suprir as cinco categorias de necessidades humanas.

Os efeitos nocivos da desigualdade social

​A desigualdade é uma das características das sociedades capitalistas. Ela funciona, inclusive, como uma espécie de mecanismo motivador da busca por condições de vida melhores. Justamente por alguns conquistarem condições privilegiadas, toda uma sociedade se move na tentativa de chegar a esse lugar privilegiado.

Em diferentes momentos históricos, houve tentativas de pôr fim às desigualdades. Porém, todas fracassaram. As políticas de igualdade produziram uma igualdade artificial, mentirosa e que, na prática, empobreceu a população. Também parece ser da natureza humana o desejo da conquista, a competitividade, a insatisfação que faz com que queiramos sempre mais e mais. As experiências têm provado que isso não é ruim. Afinal, na busca por ganhar mais, acumular mais e viver melhor, as nações se desenvolvem, tecnologias são criadas e até mesmo as condições de saúde e bem-estar das pessoas têm melhorado ao longo da história.

Entretanto, o conceito de desigualdade social transcende a ideia de uma sociedade em que as condições de riqueza são desiguais. O conceito retrata o abismo que pode existir entre quem tem mais e quem tem menos. E essa distância, quanto maior é, mais problemas traz.

Estudos têm provado que sociedades desiguais são mais violentas, têm mais gente nas prisões, maiores níveis de obesidade e de doenças mentais, mais pessoas infelizes, menores expectativas de vida e baixos níveis de confiança. Além disso, pesquisadores descobriram que a desigualdade social aumenta a segregação e os resultados educacionais de crianças, jovens e adultos são piores.

Por outro lado, a existência de políticas de promoção humana com a finalidade de reduzir a desigualdade social, além de garantirem rendimentos maiores para os trabalhadores, ainda asseguram bem-estar para as crianças, diminuição da mortalidade infantil, menores níveis de estresse, menos consumo de drogas, mais qualidade de vida para a população.

Ou seja, ainda que seja desejável assegurar que as pessoas tenham a liberdade de lutar por condições de vida e riqueza distintas, algumas tenham mais e outras menos, está provado que nenhuma sociedade pode permitir que se crie um abismo entre os mais ricos e os mais pobres. A crescente desigualdade social não é apenas injusta; ela é nociva para a população, pois piora as condições de vida de todo o conjunto da sociedade. Até mesmo os privilegiados se tornam reféns em suas próprias casas, tendo que viver trancados para evitar os efeitos de uma sociedade profundamente desigual.

Ps. Para quem quer entender mais os efeitos nocivos da desigualdade, sugiro a leitura de “The Spirit Level: Why Greater Equality Makes Societies Stronger”, dos britânicos Richard Wilkinson e Kate Pickett.

Confundimos qualidade de vida com consumo

Um dos equívocos que a gente comete é confundir qualidade de vida com consumo. Acredita-se que consumir é ter qualidade de vida. Mais que isso, confunde-se inclusive prazer e felicidade com consumo. O sujeito fica feliz quando vai pro shopping e sai de lá abarrotado de sacolas. Ou quando se frequenta os restaurantes mais badalados… Ter carros modernos também é termômetro dessa tal qualidade de vida.

Gente, essa visão é obra do imaginário coletivo. Foi construída pela sociedade capitalista em que vivemos. Somos estimulados a comprar. Por isso, não é difícil entender por que distorcemos o próprio sentido do que é viver.

Vive-se para consumir. O consumo passou a ser a medida de boa vida das pessoas. E todo mundo mede seu estado de bem-estar pela quantidade de coisas que pode comprar. Quem pode comprar menos, sente-se excluído, sofre, deseja inclusive a vida do outro. Passa dias, semanas e anos na busca incansável de ter as mesmas possibilidades que o colega “mais riquinho”.

Essa tem sido a lógica da maioria de nós. Basta refletir sobre o que fazemos.

Trabalhar oito horas por dia já não é suficiente. É preciso ir além – acumular empregos ou atividades extras, que poderão ser feitas em casa. Queremos a tal “qualidade de vida” – casa boa, carro bom, televisor gigante… Queremos celular de última geração, tablet, férias duas vezes por ano – mas não qualquer férias; tem que ser em algum lugar cheio de glamour.

Essa é a medida da qualidade de vida.

Acontece que, ao fazer isso, ignora-se que qualidade de vida não é um momento de prazer. Não é o que o dinheiro pode comprar. Isso até contribui, mas não é garantia de nada.

Qualidade de vida tem a ver com bem-estar físico e emocional. De nada adianta consumir tudo que se deseja, mas ter como custo estresse, cansaço, ansiedade e até insônia. Não adianta ter boa cama, mas não conseguir dormir.

Sabe, não adianta ter carro bom e não ter prazer ao dirigir – enquanto dirige, xinga o motorista do lado, fala ao celular, buzina, grita…

Não adianta ter férias num paraíso duas vezes por ano, mas passar as demais semanas e meses do ano sem namorar a mulher, sem conversar com os filhos, sem ler um bom livro.

Não adianta ter dinheiro para frequentar os melhores médicos, mas estar com o colesterol alto, sofrer hipertensão ou ter a libido reduzida por causa da pressão na empresa.

Mentiram pra nós. E nós acreditamos. Disseram que viver bem é ter coisas, ter a chance de comprar tudo que desejamos. O problema é que não param de nos oferecer coisas.

O problema é que nos incentivam a consumir cada vez mais e nos transformaram em escravos de um sistema que aprisiona nossa mente e rouba nossa saúde, nossa paz de espírito. Rouba o nosso tempo.

Viver assim não é viver. Qualidade de vida não é nada disso. Mas nos engaram. E, tolos como somos, não conseguimos mudar nada disso. Ninguém está satisfeito com a vida que tem, mas não consegue romper com o modelo proposto. Lamentável!

As coisas não são feitas pra durar

Talvez em algum momento você já entrou nesta discussão. E por mais que isso não pareça correto, é um fato. Os objetos que usamos no dia-a-dia são feitos para deixar de funcionarem num tempo inferior ao que seria normal.

Especialistas afirmam que um celular, por exemplo, teria vida útil de 12 anos. Entretanto, com dois anos de uso, começa a se tornar obsoleto. Isso acontece porque ele foi feito para ser rapidamente substituído. Você sabe… Geralmente, em dois anos, o smartphone fica lento, desempenho comprometido, alguns aplicativos não rodam…

Vale o mesmo para máquinas de lavar, liquidificadores, chuveiros, aparelhos de televisão, computadores, geladeiras… E até bens de muito maior valor, como um carro, por exemplo, ou itens básicos do dia a dia, como uma lâmpada elétrica. Afinal, existe tecnologia para que a lâmpada nunca queime. Mas qual a vantagem de vender uma lâmpada que nunca precisará ser substituída?

Para que a gente esteja sempre consumindo, duas grandes estratégias são utilizadas: a primeira, é estimular o desejo. Somos o tempo todo incentivados a consumir. De certo modo, o mercado promete que os produtos são capazes de nos satisfazer. São alegradores.

E quando compramos, isso realmente acontece. Por meio da publicidade, é despertado o nosso desejo de comprar. Às vezes, ficamos até impacientes para adquirir um determinado produto. Ao comprá-lo, a sensação inicial é indescritível. O prazer é muito grande. Isso passa logo, claro.

A outra estratégia para promover o consumo é justamente tornar os produtos obsoletos em pouco tempo. A durabilidade é bem menor do que poderia ser… E os dispositivos também se tornam antiquados em muito pouco tempo – um televisor com mais de 10 anos, ainda que esteja funcionando bem, não é um item que te orgulha de deixá-lo na sala de casa, né?

Embora as indústrias nem sempre admitam que encurtam a vida útil dos produtos, nós consumidores precisamos ter consciência de que vivemos numa sociedade que se sustenta pelo nosso consumo. A lógica para isso nem sempre é moral e ética. E, no final, nós é que somos as mercadorias que fazem a máquina girar.

A economia do medo

O medo da violência urbana, a insegurança nas cidades são dispositivos relevantes na sociedade capitalista.

Existe toda uma economia que funciona em função do medo.

Milhões de reais são gastos anualmente pela população (no mundo, falamos de bilhões de dólares). Milhares de empregos são gerados.

Gastamos com seguro de carro, blindagem de veículo, seguro de imóvel… Instalamos câmeras de segurança em vários ambientes, colocamos cerca elétrica nas casas, reforçamos grades, contratamos empresas de segurança e monitoramento…

Há toda uma série de produtos e serviços que só existem por causa do medo.

A economia do medo também criou uma arquitetura própria. Nas médias e grandes cidades, temos o registro crescente de imóveis verticais e, para quem tem mais dinheiro, condomínios fechados… Muros e grades, janelas reforçadas, também atendem o desejo de mais segurança.

A arquitetura das grandes empresas é pensada não apenas para garantir funcionalidade aos serviços; busca-se também a segurança dos trabalhadores e, principalmente, proteção do patrimônio.

Todo esse investimento milionário deixaria de existir se as pessoas tivessem segurança. Mas a economia do medo não alimenta apenas diferentes setores de produtos e serviços; é fundamental a manutenção de todo um aparato policial e judiciário.

Muito dinheiro é gasto com carros, armamento, policiais, advogados, promotores, juízes, além de uma enorme estrutura burocrática de cartórios e até o sistema prisional… Tudo em função da economia do medo, que existe em virtude da criminalidade – uma criminalidade, que como é possível notar, faz muito bem à economia.

Para que serve a escola?

Existe um descompasso entre qual deveria ser o papel da escola e qual ela cumpre.

Na sociedade capitalista, a escola não tem função libertadora. Embora muito seja falado sobre humanização, respeito, formação para a vida, na prática, o Estado e o mercado possuem outras expectativas. E isso se reflete na proposta pedagógica, já que as estruturas condicionam o sistema educacional.

O movimento recente no Brasil promovido pelo Escola Sem Partido apenas reafirma esse propósito: tornar a escola um espaço desprovido de reflexão, debate, questionamento. O que se espera da escola, na visão desse movimento e de boa parte da elite econômica, é que prepare as pessoas para o mercado de trabalho. Formar mão de obra, este é o objetivo.

Na Europa, autoridades ligadas à educação têm verbalizado ao longo dos anos que espera-se da educação que seja capaz de aumentar as taxas de crescimento econômico e ajude os países na competição com parceiros europeus.

Essa mentalidade não é diferente noutros países capitalistas. No Brasil, inclusive. Aqui, o único problema é que nem para isso Estado e mercado conseguem ser competentes. Falham inclusive na formação do homem-máquina.

Essa forma de pensar é dominante. Para a maioria dos estudantes – e dos pais -, educação é porta de entrada para o mercado. Acredita-se que seja uma passagem para o crescimento/desenvolvimento profissional. Mede-se inclusive a qualidade da escola pelos índices de aprovação em vestibulares, etc – nunca pelos valores éticos.

Qual o problema dessa forma de pensar? A educação torna-se um lugar de reafirmação dos valores do capital. Não promove a liberdade das pessoas. As pessoas se tornam reféns do consumo, do desejo de consumir, de trabalhar para ganhar, ganhar para consumir. E deixam efetivamente de viver. Tornam-se máquinas. Trabalham horas e horas diariamente, sacrificam família, filhos… tudo por roupas melhores, carros melhores, celulares melhores…

Está errado desejar (e lutar por) uma vida mais confortável? Não! Mas essa não pode ser a medida de todas as coisas. Temos perdido a humanidade, a capacidade de nos relacionarmos. A ética tem sido relativizada. A saúde é preterida em nome da produtividade. Parece-me que educação deveria ser bem mais que isso.

Quase linchado. Crime? Ele queria comer

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“Nas ruas do mundo, o grande desafio é olhar para ver” (Eliane Brum)

Ele tem 17 anos. Quase foi linchado. Foi pego por populares após tentativa de furto em supermercado. Ouviu insultos… Muita gente o chamou de vagabundo, vadio. Queriam matá-lo. O adolescente tentava furtar comida.

Tempos atrás, ouvi uma professora dizer que a sociedade brasileira é vingativa, raivosa. Concordo com ela.

Temos inúmeros crimes que revoltam. Entretanto, vez ou outra parece que é preciso descontar em alguém nosso ódio. Nessa terça-feira, 4, no Rio, um adolescente de 17 anos foi alvo do desencanto, da desilusão, do sentimento de impunidade da população.

Existe justificativa para o furto? A fome é razão para um crime? Parece-me que não. Porém, existem motivos para tentar tirar a vida de um adolescente?

Enquanto lia a notícia, pensava nas condições de vida desse adolescente. Eu não sei quem ele é, qual é sua família. Entretanto, creio que deve ser vítima dessa mesma sociedade que queria linchá-lo. Garoto negro, filho do morro… Excluído do mundo urbano, da cidade, do consumo.

De fora, não conhecemos a vida desses meninos criados no morro, nas periferias, nos guetos de nossas cidades. Ali a maioria não tem escolha. Furtos, roubos, tráfico nem sempre são uma opção de vida; podem ser consequência de ter nascido na favela, da falta de outras oportunidades.

O imperativo “Vai trabalhar, vagabundo!!!” é só uma retórica pobre, vazia na boca de quem julga pelas aparências. O garoto que tem fome, que tenta furtar para comer, provavelmente não conseguiria emprego se tivesse aparecido um dia antes pedindo trabalho na empresa de qualquer um daqueles que tentavam matá-lo.

Um garoto que tenta furtar para comer talvez nem tenha sido pego pelo tráfico, porque o tráfico paga seus soldados.

A jornalista Eliane Brum diz que

Nas ruas do mundo, o grande desafio é olhar para ver. E olhar para ver é perceber a realidade invisível – ou deliberadamente colocada nas sombras. Olhar para ver é o ato cotidiano de resistência de cada pessoa.

Sabe, na história de vida de cada pessoa há um universo – para nós, desconhecido – que motiva ações ou reações que condenamos. As condições sociais, familiares, históricas às vezes são determinantes. Com um pouco de tolerância e interesse pelo outro (o desafio de olhar para ver), perceberíamos que “menores infratores” podem ser vítimas de uma sociedade desigual, que condena muitos à eterna marginalidade.

Ps – O texto não tem como proposta ser uma defesa do garoto. E a principal discussão não visa tratar desse adolescente que quase foi linchado. A proposta é fazer pensar sobre a maneira como julgamos os menores, a forma vingativa que a sociedade tem respondido por anos de frustração diante da impunidade, os riscos que corremos ao sermos apressados nas conclusões e, por fim, para apontar que muitos dos adolescentes criminosos são vítimas das próprias condições sociais. 

Lugar de criança é na escola?

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É certo colocar a molecadinha para estudar desde os primeiros anos de vida? Faz bem para o desenvolvimento deles? Sinceramente, não sei. Existem defensores da educação obrigatória desde o pré-escolar e outros que defendem os seis ou sete anos como a idade ideal para colocar a criança na escola. Minha avaliação, porém, é muito mais pessoal que baseada em qualquer estudo.

No Brasil, começa a vigorar a obrigatoriedade do ensino a partir dos 4 anos. Os baixinhos têm que ir à escola. Mais que isso, devem frequentar no mínimo 60% das aulas. É lei.

Eu tenho pena deles. Acho que os primeiros anos de vida deveriam ser sob cuidado dos pais. É verdade que as mães estão fora de casa cada vez mais. Estão distantes dos filhos. E a pré-escola garante o cuidado que elas não podem ter pelos baixinhos. Entretanto, cá com meus botões, entendo que filho precisa mais dos pais que de escola nos primeiros anos de vida.

A rotina escolar também é cansativa. Por mais que sejam oferecidas brincadeiras e o ambiente proporcione socialização etc etc, ter uma agenda, horário de entrada e saída, atividades programadas e determinadas (a criança praticamente não escolhe o que faz), a instituição de ensino, por melhor e mais moderna que seja, não é nada estimulante. Acredito que mais canse a criança do que a desenvolva. Prepara para a vida acadêmica e profissional, mas não garante as experiências necessárias de uma infância livre, sem formalidades.

Talvez eu esteja errado, mas sinto que começar estudar antes dos seis ou sete anos é apenas uma maneira de encolher a infância, a fase da “irresponsabilidade”… transformando muito cedo nossas crianças em servidores do mercado e do consumo.