De que lado você está?

Chega a ser admirável a postura de algumas pessoas que assumem a defesa de políticos. Agem como advogados, tomando as dores e atacando quem questiona o governante.

Quase todos os dias, recebo textos, vídeos e mensagens de outros gêneros que têm como objetivo tentar desconstruir as críticas recebidas pelo seu político favorito. Confesso que essas mensagens me irritam. Não pelo político, mas pela ingenuidade das pessoas.

Já disse aqui e volto a repetir, político nenhum está do nosso lado. Eles fazem parte de outro mundo. Possuem dezenas de assessores, ganham milhares de reais, recebem dinheiro nosso para ter e usar o telefone, andar de avião, possuem carros oficiais, motoristas, não enfrentam fila nos postos de saúde, os filhos frequentam as melhores escolas e, em alguns casos, têm até carreira política garantida pelo pai… Enfim, político tem casa, comida e roupa lavada. Eles estão num universo paralelo. Não são gente como a gente.

Todo o cidadão deveria estar sempre no campo oposto ao dos políticos. A gente escolhe o menos pior, vota e assume o papel que nos cabe: fiscalizadores críticos.

Político que tem defensores entre o próprio povo usa isso para fazer jogo de cena, separando os grupos – como se existisse gente do bem e gente do mal. E ao separar as pessoas, tira do povo a sua única força – a de pressionar o governante.

Numa sociedade, os grupos que existem são outros: os que estão no poder e os que estão fora do poder.

Como povo, eu estou fora do poder. Então não importa a cor do político, o partido do político. Ele está no poder. Eu não. Eu sou afetado pelas decisões dele. Então estarei sempre do lado oposto, questionando, reclamando, criticando. Este é meu papel.

Torço para o governo do sujeito dar certo. Mas não faço o papel de defensor dele.

Para isso, o político tem a máquina pública nas mãos, tem dinheiro nosso, pode gastar milhões em publicidade e até contratar gente pra falar bem dele.

Quem está fora do poder só pode fazer uma coisa: questionar sempre. Só somos donos de uma coisa: a nossa consciência. E possuímos apenas uma arma: o voto.

Por isso, quando gente que está fora do poder assume a defesa de quem tem o poder, sem perceber, pode estar traindo suas próprias origens.

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O fim da obrigatoriedade do extintor no carro: fomos feitos de bobo

Vi algumas ironias circulando no Facebook por conta do fim da obrigatoriedade do extintor no veículo.

Sem ter como mudar a realidade, as pessoas ficam irritadas, e com razão, pelas idas e vindas de órgãos governamentais.

Até meses atrás, discutíamos, inclusive na imprensa, que o modelo de extintor estava mudando… Era preciso gastar um bocado para trocar o equipamento… E agora, por decisão do Contran (Conselho Nacional de Trânsito), o motorista brasileiro não precisa mais ter um extintor no carro. O equipamento passa a ser opcional.

Vamos tentar entender melhor essa questão…

Em primeiro lugar, a obrigatoriedade do extintor era uma dessas coisas que a gente costuma dizer que só acontece no Brasil. Claro, não é só coisa do nosso país. Porém, países como Estados Unidos, Alemanha, Suécia e Japão não obrigam os proprietários a manterem o equipamento no carro. Ele, de fato, é desnecessário. Uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Engenharia Automotiva mostrou que dos 2 milhões de sinistros em veículos cobertos por seguros, 800 tiveram incêndio como causa. Desse total, apenas 24 informaram que usaram o extintor, isso é o equivalente a 3%.

Quase ninguém usa extintor em caso de incêndio. E, pior, a gente não tem treinamento para fazer uso do equipamento. Chega ser arriscado tentar apagar incêndio de um carro com um desses extintores.

O que a gente não consegue entender é por que só agora o Contran decidiu pôr fim a obrigatoriedade. Essas informações, que compartilho aqui, são de conhecimento do Conselho Nacional de Trânsito. O que torna a situação ainda mais irônica é que, no ano passado, o Contran havia mudado as regras, defendia o novo extintor e impunha a troca do extintor por um modelo mais caro.

Sabe o que parece? Parece que no Brasil tudo é feito de maneira amadora, improvisada. Falta responsabilidade com o cidadão.Ou será que existem outros interesses em jogo?

E nós, cidadãos, precisamos discutir essas coisas. Tem um monte de regras, de exigências que não fazem sentido. A informação sobre a não obrigatoriedade dos extintores em outros país é uma informação acessível… E por que nada aconteceu quando houve a exigência de trocarmos o equipamento?

De verdade, acho que está na hora de não aceitarmos mais sermos tratados como bobos da corte.

Violência conjugal

violencia

Um novo relatório da Organização Mundial de Saúde informou que, no mundo, uma em cada três mulheres sofre violência conjugal. Sim, uma em cada três é vítima do próprio parceiro, do sujeito que deveria estar ali não apenas pra prover, mas principalmente para amar e proteger.

E mais, o documento mostrou que entre 100 milhões e 140 milhões sofreram mutilação sexual e cerca de 7% sofrem violência sexual ao longo da vida.

Esses números me assustam. Sei que existem diferentes motivos pra isso. Vão desde a cultura até posições religiosas de caráter questionável. Entretanto, o que mais me entristece é que isso tudo acontece e pouca coisa se faz. Estou cansado de ver denúncias, mas o que tem mudado?

Muitos desses crimes também acontecem perto da gente. Quem não conhece uma vítima de violência doméstica? Quem não sabe de pelo menos um caso de estupro contra mulher?

Pior que mesmo em países como o nosso, os atos de violência são por vezes tolerados. Muita gente age como se fosse normal o homem espancar a mulher. E isso ocorre por ciúme, porque ela queimou o arroz, porque esqueceu de passar a camisa ou simplesmente porque não quis fazer sexo.

Não sei se apenas punições mais duras são suficientes para mudar essa realidade. Talvez o maior problema ainda seja o medo, a vergonha. Por razões que a própria razão parece incapaz de explicar, muitas mulheres sofrem caladas. E outras inclusive assumem a responsabilidade pelo ato de violência sofrido. É como se repetissem o mantra: “eu mereci”.

Sei apenas que, como sociedade, precisamos rejeitar todo e qualquer ato de violência contra a mulher. Nada justifica. E eu entendo que isso deve mudar a partir do nosso discurso, da nossa posição diante de fatos que deveríamos condenar.

Dias atrás, por exemplo, ouvia uma mulher contando de uma conhecida que traiu o marido e apanhou dele. Ela repetia a história do espancamento, tendo como espectadores da narrativa duas filhas menores e um garoto de 12 anos:

– Bem feito! Quem mandou ser safada?, dizia.

Esse tipo de discurso perpetua uma visão machista e que tolera a violência. Essas meninas vão crescer pensando o quê? E o garoto? Será que não se sentirá autorizado a bater numa futura parceira? Violência nenhuma pode ser aceita. Em nenhuma situação. Não adianta a gente ter legislação rigorosa, mas uma cultura que admite (e até estimula) a violência em “casos específicos” – como se algumas ocasiões justificassem a agressão.

E o medo, por que ocorre? Porque além da sensação de impunidade, existe a impressão que ninguém se importa. Se pedir ajuda para o vizinho, até que ponto irá se envolver? Na verdade, muitas vezes, nem mesmo as autoridades policiais se empenham em dar atendimento às vítimas. Não são raros os casos de vítimas desestimuladas a denunciar os agressores.

Sinceramente, eu não tenho respostas… Não sei como mudar essas estatísticas. Sei apenas que, a partir da casa da gente, da sala de aula, temos que manter um discurso que rejeite por completo a violência contra a mulher. É preciso falar, falar e falar sobre essas questões. Aproveitar todas ocasiões. E fazer isso sem ter vergonha, sem ter pudor.

Pode ser de bicicleta?

bicicletas

Dirigir tem se tornado uma das atividades menos prazerosas do dia. E olha que sempre gostei disso. Mas ultimamente deixou de ser uma experiência agradável. Na cidade ou nas estradas, a coisa anda complicada. É quase impossível não se estressar. Tem carro demais. E gente pouco habilitada no volante.

O que me incomoda é a falta de políticas públicas para melhorar o fluxo de veículos e tornar mais fácil a vida dos cidadãos. E, claro, isso não significa investir apenas em estratégias para garantir o tráfego dos carros. Estou falando de todo um sistema de transporte que atenda plenamente a população.

A falta de iniciativas incomoda. Poucas são as cidades brasileiras (veja o belo exemplo de Sorocaba) que procuram alternativas sérias para mudar essa realidade. Infelizmente, não dá para resolver os problemas do trânsito mantendo vagas de estacionamento. Não dá para sair abrindo ou alargando ruas e avenidas. Tem que se trabalhar com base na realidade. E esta exige medidas duras em alguns casos. Garantindo, é claro, a contrapartida para que o cidadão não seja prejudicado.

Estacionamentos em vias públicas tornam o trânsito mais lento. Por mais antipática que seja a medida, reduzi-los é uma necessidade. Ampliar o transporte coletivo é urgente. Investir em ciclovias (mais espaços para guardar as bicicletas, sistema de aluguel etc), idem. Além disso, é fundamental respeitar o pedestre.

O jornalista André Forastieri relatou dias atrás a experiência de Nova Iorque. Por lá, as políticas públicas foram nesta direção. E isso há apenas cinco anos. Os resultados são muito satisfatórios.

A secretária de transportes da cidade, Jenette Sadik-Khan, causa polêmica, pisando em calos diversos e rodando de bike pela cidade. Instalou 400 quilômetros de faixas para bicicletas. Fez muitos calçadões e calçadões temporários (só no final de semana, ou só no verão). Bancou um sistema de ônibus expressos, em que o usuário compra o ticket antes de entrar, mais ou menos no modelo de Curitiba. Instalou um sistema de compartilhamento gratuito de bicicletas. Botou um monte de bancos bem confortáveis nas ruas, para estimular as pessoas a caminhar mais, dando a elas um lugar para descansar. Está trocando a sinalização da cidade inteira, e incluindo mapas para pedestres. Também desviou tráfego pesado das zonas residenciais e construiu dezenas de novas praças.

Hoje, apenas 1/3 da população da maior cidade do planeta usa carros para ir ao trabalho; os outros 2/3 vão a pé ou, transporte coletivo.

Ou seja, dá para fazer. É preciso querer. O que não pode é o poder público ser refém do empresariado, como acontece em Maringá (lojista não abre mão de vaga na frente na loja; só não sei pra quem é o estacionamento, já que está sempre ocupado). Não dá para ser conivente com as estratégias da única empresa de transporte coletivo. Muito menos seguir ignorando a tendência global de incentivar as bicicletas ou ir a pé para o trabalho. Uma cidade não se revela rica pela quantidade de carros nas ruas, mas sim pelo respeito que tem por sua gente (mesmo que seja preciso contrariá-la) preservando o meio ambiente e promovendo a saúde (ou alguém aí acha que estresse no trânsito não causa doenças?).

Procuradoria quer censurar o BBB

O BBB 13 está longe de começar, mas o Ministério Público Federal já está de olho no programa. E quer censurá-lo. A Procuradoria não quer uma censura qualquer. Quer uma censura ética. Entende que o programa não pode atropelar determinados valores morais.

Sinceramente, não gosto de censura. Entretanto, vendo a falta de bom senso do CQC, as propostas bizarras do Pânico e o histórico de idiotices do Big Brother, hoje, não me sinto confortável em defender a liberdade de expressão. Não dessa liberdade que está aí…

Entendo que o problema desses programas não está neles, está no público. Porém, quando o público não sabe escolher – e nem tem formação crítica para isso -, o que pode ser feito? É correto deixar a “coisa rolar” e realimentar esse vazio cultural da sociedade?

Não sei. Não tenho uma resposta pronta.

A ideia de ter um mecanismo (um órgão) de controle, que regule a qualidade da programação, seria uma alternativa interessante se fosse formado por gente realmente comprometida com a promoção da cidadania, da democracia, educação e ainda entendesse que mídia também é entretenimento e espetáculo.

Cá com meus botões, tenho a impressão que nenhum órgão teria tal responsabilidade. Desvios ocorreriam. Exageros e censura propriamente dita. Sem contar os interesses nem sempre justificáveis que norteariam os critérios de julgamento dos programas.

Ou seja, trata-se de belo impasse. Parece até que ouço meu pai dizendo:

– Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

Pois é… Deixar como está é aceitar passivamente o aprofundamento da banalização do conteúdo midiático; por outro lado, censurar – ainda que sob justificativa da ética, da moral – pode ser um retrocesso, uma ruptura com o direito de liberdade de produção e veiculação de conteúdo, conquistado depois de muita luta.

Burrice coletiva

O conhecimento que liberta pode ser o mesmo que aprisiona. Pelo menos, é o que se nota nos últimos tempos com o sucesso da internet e, em especial, das redes sociais. Quando o conhecimento se constrói com bases sólidas, fundamentadas, possibilita-se ver além do obvio, permite-se crescer como sujeito e cidadão; quando ocorre o contrário, afunda-se na ignorância. E o que é pior, o ignorante sente-se dotado de conhecimento porque se justifica na informação obtida em algum espaço supostamente digno de credibilidade. É o típico caso do camarada que diz:

– Ah, mas eu li na internet. Recebi um email falando sobre isso.

Ou seja, a pessoa não conhece, não sabe, mas não reconhece sua ignorância porque viu ou leu algo que acha ser verdadeiro. Torna-se teimoso, resistente.

O momento em que vivemos é propício para a procriação dos imbecis. Nunca tivemos tanta informação. O problema é justamente esse. A mesma facilidade que existe para o acesso também existe para a disseminação de conteúdo falso ou duvidoso. Qualquer pessoa com conexão à internet pode fazer circular uma informação falsa.

Tenho dito que a internet é terra de ninguém. Afinal, não há controle algum. Isto é positivo na medida em que se rompe com a censura, democratiza o processo de acesso e produção das notícias. Mas deixa de ser quando notamos, por exemplo, que tem crescido o número de pais que evitam vacinar os filhos. Alguns por convicção mesmo. Outros porque acreditam em teorias conspiratórias que, vez ou outra, surgem na internet e se espalham entre a população. Tem gente que acha que a vacina pode causar doença aos filhos, que a indústria farmacêutica criou a necessidade da imunização por mero interesse econômico… Enfim.

A crença numa bobagem dessas coloca em risco os próprios filhos dessas pessoas como ainda cria uma janela no processo de imunização que pode permitir o retorno de doenças que deixaram de ser comuns – caso do sarampo e até mesmo da paralisia infantil.

Numa de minhas últimas aulas, sustentei a importância da educação para as novas mídias. Não visando ensinar a apertar teclas, entrar em sites… Nada disso. Isso é fácil. Não carece de orientação especializada. É necessário preparar as pessoas para ler criticamente o conteúdo hoje disponível. As pessoas não podem ser vítimas de informações deturpadas, viciadas, falsas. Isso é dever do Estado que deve ter políticas públicas adequadas na Educação. Mas é papel de todos mobilizar-se, cobrar.

Afinal, ainda que o senso comum por vezes revele parcialmente a verdade, é preciso romper com tudo aquilo que é raso, superficial. O público não pode ser refém desse tipo de conhecimento. Do contrário, vamos continuar nos arrastando na direção do desenvolvimento. De nada adianta termos um país economicamente rico, mas pobre de conhecimento, alienado em suas próprias crenças.

Flanelinhas ameaçadores

Ando incomodado. Não dou conta de escapar dos flanelinhas. Estão em todos os lugares. Multiplicam-se.

Dia desses saí para almoçar e num trecho de três quadras vi pelo menos seis deles. Todos intimidadores.

Eles me assustam.

Hoje, mal deixei o prédio onde trabalho e fui abordado por um representante da espécie. Resmungou comigo e queria receber por ter guardado o carro.

Olhei pro moleque e segui adiante. Nem estava de carro. Apenas com uma chave na mão. Ia pagar o quê? E pelo quê?

Sei que nada impede os flanelinhas de circularem pelas ruas e avenidas da cidade. Até a legislação prevê sua existência. Mas não entendo o silêncio e a omissão das autoridades.

Talvez meu olhar seja preconceituoso. É provável que seja. Porém, quase não vejo mais aqueles “senhorzinhos” guardando carros. O que estão por aí são umas figuras estranhas. Parecem moradores de rua. Assemelham-se com usuários de drogas. Estão quase sempre sujos, exalando mal cheiro e com cara de poucos amigos.

Não me sinto confortável em ver a cidade tomada por eles. Tenho a impressão que muitos são bandidos travestidos de “guardadores de carros”.

Enquanto se proliferam, agrupam-se. Parecem fazer parte de um movimento organizado. São onipresentes. E estão dispostos a tirar de nós alguns trocados. Todos que pudermos dar. De preferência, mais que aquela moedinha de um real.

E, como disse, não entendo a omissão das autoridades. A vagabundagem é tolerada. E o cidadão de bem fica desprotegido, já que a atividade se sustenta na ameaça velada:

– Sem nos pagar, não há garantias de que seu carro estará intacto quando voltar.

Como cidadão, sinto-me impotente, e desprotegido – refém das circunstâncias.

Leitura obrigatória de jornais nas escolas

Projeto de vereador quer tornar obrigatória a leitura de jornais em sala de aula… Mas não é em Maringá. A proposta está sendo analisada em Curitiba. Parece-me bastante interessante. Os quatro principais jornais da capital seriam utilizados em todas as escolas municipais.

A iniciativa visa ambientar as crianças aos temas da cidade, principalmente às questões políticas.

Se as leituras forem bem conduzidas, os objetivos podem ser alcançados. E melhor, poderemos ter, no futuro, jovens e adultos melhor formados. A vida pública, a realidade das cidades, devem fazer parte da formação básica de todo cidadão. É o caminho para construção de uma sociedade melhor.