Sobram opiniões sobre os outros; faltam a respeito de nós mesmos

Frequentemente, temos opiniões muito bem definidas sobre o que as outras pessoas deveriam mudar nelas.

A gente tem imagens bem formadas sobre como deveriam ser as atitudes, a maneira de falar, o jeito de responder… Qual seria a forma correta de agir com o chefe, de tratar os amigos, de se comportar com o namorado, marido, mulher etc.

Também temos opiniões definidas a respeito de como deveriam trabalhar, qual o comprometimento com os estudos, como se portarem nas redes sociais…

Curiosamente, pensamos saber tudo que as outras pessoas teriam que fazer para serem melhores, porém, pouco sabemos a respeito de nós mesmos.

Na verdade, quase sempre pensamos que nos conhecemos. E justamente por acharmos que conhecemos nossas virtudes e também as falhas que possuímos, a lista das coisas que deveríamos mudar em nós é bem restrita – às vezes, se resume em comer menos, fazer exercícios, viajar mais…

As mudanças que entendemos necessárias em nós nem de longe se assemelham às que projetamos para os outros.

Isso mostra como pervertermos e invertemos as prioridades. Deveríamos lembrar que ninguém muda ninguém. Só podemos mudar a nós mesmos. Mas, para isso, o primeiro passo é olhar menos para o outro e voltarmos os olhos para descobrir quem de fato somos, quais nossas potencialidades e o que precisamos modificar para nos tornarmos o tipo de pessoa que achamos que os outros deveriam ser.

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A curiosidade deve motivar a busca por aprender

O processo de aprendizagem não é nada divertido; pelo contrário, é bastante desgastante e cansativo.

Porém, a busca por aprender, tendo como foco apenas a preparação para o trabalho, pode até assegurar um objetivo a esse processo, mas não o torna significativo.

O que garante significado ao ato de estudar é a curiosidade. Quando a gente procura entender os fenômenos sociais, físicos, biológicos, químicos, matemáticos… As estruturas da linguagem, a riqueza da literatura… Quando fazemos isso, por curiosidade, nossa mente se abre, um novo mundo se abre diante de nós. Somos desestabilizados, confrontados… E isso atualiza e renova nossa maneira de ver e pensar.

Na sociedade capitalista, parece que tudo precisa ter uma função prática, uma justificativa objetiva. Isso tira a beleza do ato de aprender.

É a curiosidade, o desejo de ver melhor e mais longe, a paixão por saber é que deveria nos motivar a estudar.

Se estudamos apenas pela perspectiva de ganhos financeiros, não nos abrimos efetivamente para o saber. O foco passa a ser tão somente o dinheiro.

É justamente a motivação pelo lucro que torna as pessoas suscetíveis à corrupção e nos desumaniza. Cada um passa a ter um preço. Quando nos movemos por paixão, nada pode nos corromper. Não trocamos a liberdade do pensar, a reputação e os valores, por uma mala de dinheiro.

Um jovem que escolhe Medicina pensando no status dessa profissão e em ganhos financeiros não será capaz de se comover com um pobre coitado à beira da morte que pede socorro na porta de um hospital.

Gente que tem paixão por aprender é como esponja: absorve todos os tipos de conhecimento e se conecta com o mundo por compreendê-lo, não pelos resultados financeiros que pode obter.

As bibliotecas deixarão de existir?

Amo as bibliotecas. Não necessariamente as que temos… Cheias de mofo. Ou em locais improvisados. Essas daí precisam ser modernizadas. Mas ninguém parece muito interessado em fazer isso.

Apenas universidades e grandes centros de ensino recebem investimentos nesses espaços de conhecimento.

As bibliotecas da cidade geralmente mal são contempladas por recursos para compra de livros.

As instituições de ensino gastam com infraestrutura e obras porque as bibliotecas fazem parte dos critérios de avaliação feita Ministério da Educação. Além disso, não se faz educação sem livros.

Mas o povo não é contemplado por bibliotecas modernas, equipadas e com bom acervo. E isso não acontece basicamente por um motivo: as pessoas não se interessam por elas.

Em 2012, a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil revelou que mais de 70% da população sabe onde estão localizadas, mas não frequenta as bibliotecas.

Como os programas eleitorais apresentados pelos nossos governantes levam em conta o imaginário popular, os supostos desejos da população, as bibliotecas raramente são ou serão contempladas.

Mas, até em função das novas tecnologias, as bibliotecas estão condenadas?

Cá com meus botões, entendo que bibliotecas não são depósitos de livros. Nunca foram.

Biblioteca é um local de promoção do saber. O livro não é a finalidade da biblioteca, mas sim o conhecimento. E este é o fundamento da construção de uma vida melhor, como disse Thomas Jefferson:

Encaro a difusão da luz e da educação como o recurso mais confiável para melhorar as condições que promovem a virtude e aumentam a felicidade do homem.

As palavras do ex-presidente dos Estados Unidos estão gravadas em letras douradas na parede da Trustees’ Room da Biblioteca Pública de Nova York. Elas servem até hoje de inspiração.

E apontam para o futuro: a gente se desenvolve, cresce à medida que tem acesso ao conhecimento. Por isso, livros e bibliotecas não podem morrer. Se deixarem de existir, morreremos juntos.

O blogueiro/youtuber é quem sabe tudo?

Nestes dias, retomei o estudo da obra de Darcy Ribeiro. O antropólogo, escritor e político brasileiro foi um dos maiores pesquisadores da identidade de nossa gente. Educador, homem comprometido com o ensino e responsável por reformas universitárias em vários países da América, Darcy Ribeiro deixou-nos vários livros que deveriam ser leitura obrigatória.

Ontem, enquanto relia alguns dos argumentos de Darcy Ribeiro, pensava em como estudos com tamanha profundidade são, hoje, descartados facilmente e desconstruídos com base em meia dúzia de frases de qualquer blogueiro ou youtuber que está alinhado a algum movimento político.

Por exemplo, se, para embasar alguns argumentos, eu retomasse as discussões feitas pelo antropólogo, certamente apareceria alguém para desqualificar Darcy Ribeiro.

Lamentavelmente, esse movimento tem sido recorrente. Especialistas e pesquisas respeitáveis, credibilidades têm sido colocadas em xeque por gente ignorante, que despreza o saber e desqualifica o conhecimento produzido em estudos sérios, profundos.

Um dos maiores educadores brasileiros, Paulo Freire, tem sido visto como nefasto para a educação do país. E a ignorância é tanta que essa gente sequer sabe que, infelizmente, a escola brasileira tem quase nada de Paulo Freire – se tivesse, talvez seria muito melhor.

Eu confesso que ando assustado com esse movimento: para rebater um argumento, pesquisadores são desqualificados. E o movimento se estende também ao universo informativo proposto pela imprensa profissional.

Se é publicada uma reportagem contundente, uma denúncia, por exemplo, e essa informação incomoda algum grupo político, rapidamente aparecem blogueiros, youtubers desqualificando o veículo de comunicação e até o jornalista.

Há uma indisposição para ouvir o contraditório – ainda que apresentado por uma pessoa séria, que passou anos se dedicando à pesquisa ou que tem um currículo invejável.

Durante a campanha eleitoral deste ano, vi isso várias vezes. Você pega duas ou três análises econômicas, feitas por doutores em economia, em gestão pública, manda pra uma pessoa e ela rebate tudo aquilo que está ali tomando como referência um argumento tosco usado por alguma figura que está na internet, às vezes, simpatizando de político ou ideologia política.

Isso é simplesmente assustador. E é assustador porque perpetua a ignorância, o desconhecimento… Porque há uma valorização do senso comum, do argumento raso, do mito em lugar da ciência.

E isso só confirma o que Darcy Ribeiro já dizia há quase 50 anos… No Brasil, parece haver certo conforto na ignorância.

A importância da leitura dos clássicos

Abrir-se para o aprendizado constante é a essência de uma pessoa culta. Aprender sempre e se dispor ao diálogo com saberes construídos ao longo da história da humanidade nos permite ver o mundo para além das obviedades.

Neste sentido, a literatura clássica tem papel fundamental. Quando a gente pega um texto escrito por Platão, Aristóteles, Sêneca… Ou ainda Shakespeare, Victor Hugo, Dostoiesvski, Eça de Queiroz, Machado de Assis… Quando lemos esses autores, mantemos um diálogo intergeracional, aprendemos com essas pessoas, ampliamos nossa visão de mundo.

Por outro lado, quem se fecha para esse aprendizado, torna-se uma pessoa inculta. Ou seja, o que é o inculto? O inculto é aquela pessoa que passa pela vida sem escutar outra voz que não a sua. O culto é aquela pessoa consciente de que está envolto em várias vozes que vêm do passado e que, ao ouvirmos essas vozes, compreendemos outras maneiras de dar significado, sentido aos vários movimentos da vida e da sociedade.

Entendo que não é simples voltar-se para a literatura clássica, para textos escritos em épocas tão distintas da nossa. Porém, o pensamento desses grandes autores ajudam-nos a ampliar a memória. É como se, ao aprendermos com eles, passassem a existir em nós, a conviver conosco. Deixamos de pensar sozinhos; pensamos com eles, dialogando com outras tantas experiências, que são riquíssimas.

Além disso, textos considerados difíceis são um grande desafio intelectual. Desafio este que nos tira da zona de conforto e, semelhante aos exercícios físicos mais complexos, que refinam os nossos movimentos e nos fazem descobrir musculaturas que sequer sabíamos que existiam, os textos tidos como difíceis exercitam nosso cérebro, ampliam nossas habilidades cognitivas, nos fazem descobrir novos mundos.

A desvalorização do conhecimento…

Noto um crescimento cada vez maior da presença de pessoas pouco qualificadas em cargos importantes. Desde a sala de aula, passando pelas empresas e igrejas, até as funções públicas.

Parece-me haver cada vez mais a valorização de quem se articula bem, de quem faz excelente marketing pessoal, de quem aposta no chamado networking.

Cá com meus botões, não vejo problemas nessas habilidades políticas, digamos assim. Porém, me preocupa o fato de algumas dessas pessoas não possuírem o conhecimento necessário para o exercício pleno das funções e, principalmente, para inspirarem seus seguidores e liderados.

Essas pessoas poderão ser bem-sucedidas em suas tarefas, mas não pelo conhecimento; outras habilidades acabam maquiando a falta de profundidade, a reprodução do senso comum.

Gente que lidera, gente que ensina, gente de destaque, mas pobre de conteúdo, é gente que forma mal. Todas as pessoas que estão subordinadas a esses líderes são afetadas. Elas aprendem mal, vão enxergar o mundo empresarial, as relações sociais, a sociedade em que vivem de forma rasa, superficial.

Quando você tem em sala de aula um professor fraco, ele pode encantar com suas inúmeras outras habilidades, mas vai formar alunos tosquinhos, com uma visão estreita de mundo.

Quando você tem um gerente que reproduz um monte de ideias clichês, a equipe pode até ter obter bons resultados financeiros, mas dificilmente será inovadora.

Quando você tem um líder religioso que desconhece a complexidade das relações humanas, a psicologia, a filosofia política, o universo midiático, ele tende a formar uma comunidade religiosa fundamentalista e, em vários casos, até intolerante.

Quando você tem um político pouco qualificado no comando de uma cidade, estado ou mesmo do país, as pessoas tendem a entender os problemas públicos de maneira simplista. A violência passa a ser culpa da falta de polícia ou da falta de atendimento aos pobres e miseráveis. O atendimento ruim na saúde é culpa da falta de investimentos no setor… Adversários políticos passam a ser inimigos… Ou seja, a visão estreita de quem lidera afeta profundamente os liderados. E isso impede o desenvolvimento efetivo da sociedade.

Esse fenômeno de valorização da superfície e consequentemente da desvalorização do conhecimento (que pode levar à sabedoria) me incomoda. No mundo do saber, há uma hierarquia. É inegável que, em suas especialidades, algumas pessoas sabem mais que outras. Ter as pessoas mais habilitadas de cada segmento no comando não é garantia de sucesso, mas certamente ajudaria nossas escolas, nossas empresas e até nossas igrejas a serem muito melhores.

Livros: o universo do desconhecido

Eu gosto de ler. É verdade que leio bem menos do que gostaria. Um pouco por causa do tempo, ocupado pelo trabalho e tarefas do doutorado; mas também por me distrair com aplicativos e redes sociais (sim, eu também me pego jogando tempo fora indo do nada pro lugar nenhum).

Então me culpo por não ler mais. E me sinto muito mal quando vejo o universo tão rico de livros que nunca vou acessar. Afinal, ainda que aumente significativamente minha rotina de leitura, certamente não vou ler mais que outros mil e poucos livros até o fim da minha vida.

Bom, enquanto me pego pensando em livros, noto que a maioria das pessoas lê muito pouco. Na verdade, segundo o último relatório Retratos da Leitura no Brasil, 44% da população não tinham sequer chegado perto de um livro nos três meses anteriores à pesquisa. Isso é grave, porque um povo que não lê é também um povo de pensamento estreito e pobreza cultural.

Ler – e é claro que não se trata de ler qualquer bobagem – ajuda no vocabulário, melhora a argumentação e, principalmente, leva a gente para mundos não conhecidos. Isso é fundamental para nos tornarmos pessoas mais sábias.

Quando a gente lê, a gente dá um passo adiante, porque nos apropriamos de um saber que outra pessoa teve trabalho para construir. Isso nos coloca em vantagem, pois, na prática, eu somo a minha relação com o mundo com a relação do outro (escritor) com o mundo dele. Em mim, passam a habitar universos que até então eu desconhecia. E isso me faz ver mais longe.

Gente que ignora a própria ignorância

Parte significativa da população sofre de um mal grave: a ignorância. E mais, essas pessoas ignoram a própria ignorância. Acho impressionante como opinam, discutem, reverberam os mais diferentes temas, mas com total ausência de noção real sobre o que estão falando.

Pessoas falam sobre política, mas desconhecem o funcionamento das diversas estruturas políticas;
Falam sobre educação, mas não têm a menor noção sobre a dinâmica de uma escola e muito menos sobre as diferentes práticas pedagógicas possíveis;
Falam a respeito de segurança, mas nem entendem a respeito das responsabilidades de cada ente público – município, estado e união…

E a lista das bobagens que aparecem principalmente nas redes sociais é muito maior.

Eu tenho dito, não é vergonha não saber sobre tudo. Muito menos não ter opinião a respeito de tudo.

Na verdade, é muito melhor aceitar que ignora – porque isso pode significar abertura para o aprendizado – que posicionar-se com pseudo-verdades que não passam de inutilidades, por vezes, palavras ao vento, mas que provocam, agridem e até causam empatias e antipatias.

Ps. Adoro a foto que ilustra esse texto. Algumas pessoas deveriam ser impedidas de usar as redes.