A importância da leitura dos clássicos

Abrir-se para o aprendizado constante é a essência de uma pessoa culta. Aprender sempre e se dispor ao diálogo com saberes construídos ao longo da história da humanidade nos permite ver o mundo para além das obviedades.

Neste sentido, a literatura clássica tem papel fundamental. Quando a gente pega um texto escrito por Platão, Aristóteles, Sêneca… Ou ainda Shakespeare, Victor Hugo, Dostoiesvski, Eça de Queiroz, Machado de Assis… Quando lemos esses autores, mantemos um diálogo intergeracional, aprendemos com essas pessoas, ampliamos nossa visão de mundo.

Por outro lado, quem se fecha para esse aprendizado, torna-se uma pessoa inculta. Ou seja, o que é o inculto? O inculto é aquela pessoa que passa pela vida sem escutar outra voz que não a sua. O culto é aquela pessoa consciente de que está envolto em várias vozes que vêm do passado e que, ao ouvirmos essas vozes, compreendemos outras maneiras de dar significado, sentido aos vários movimentos da vida e da sociedade.

Entendo que não é simples voltar-se para a literatura clássica, para textos escritos em épocas tão distintas da nossa. Porém, o pensamento desses grandes autores ajudam-nos a ampliar a memória. É como se, ao aprendermos com eles, passassem a existir em nós, a conviver conosco. Deixamos de pensar sozinhos; pensamos com eles, dialogando com outras tantas experiências, que são riquíssimas.

Além disso, textos considerados difíceis são um grande desafio intelectual. Desafio este que nos tira da zona de conforto e, semelhante aos exercícios físicos mais complexos, que refinam os nossos movimentos e nos fazem descobrir musculaturas que sequer sabíamos que existiam, os textos tidos como difíceis exercitam nosso cérebro, ampliam nossas habilidades cognitivas, nos fazem descobrir novos mundos.

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A desvalorização do conhecimento…

Noto um crescimento cada vez maior da presença de pessoas pouco qualificadas em cargos importantes. Desde a sala de aula, passando pelas empresas e igrejas, até as funções públicas.

Parece-me haver cada vez mais a valorização de quem se articula bem, de quem faz excelente marketing pessoal, de quem aposta no chamado networking.

Cá com meus botões, não vejo problemas nessas habilidades políticas, digamos assim. Porém, me preocupa o fato de algumas dessas pessoas não possuírem o conhecimento necessário para o exercício pleno das funções e, principalmente, para inspirarem seus seguidores e liderados.

Essas pessoas poderão ser bem-sucedidas em suas tarefas, mas não pelo conhecimento; outras habilidades acabam maquiando a falta de profundidade, a reprodução do senso comum.

Gente que lidera, gente que ensina, gente de destaque, mas pobre de conteúdo, é gente que forma mal. Todas as pessoas que estão subordinadas a esses líderes são afetadas. Elas aprendem mal, vão enxergar o mundo empresarial, as relações sociais, a sociedade em que vivem de forma rasa, superficial.

Quando você tem em sala de aula um professor fraco, ele pode encantar com suas inúmeras outras habilidades, mas vai formar alunos tosquinhos, com uma visão estreita de mundo.

Quando você tem um gerente que reproduz um monte de ideias clichês, a equipe pode até ter obter bons resultados financeiros, mas dificilmente será inovadora.

Quando você tem um líder religioso que desconhece a complexidade das relações humanas, a psicologia, a filosofia política, o universo midiático, ele tende a formar uma comunidade religiosa fundamentalista e, em vários casos, até intolerante.

Quando você tem um político pouco qualificado no comando de uma cidade, estado ou mesmo do país, as pessoas tendem a entender os problemas públicos de maneira simplista. A violência passa a ser culpa da falta de polícia ou da falta de atendimento aos pobres e miseráveis. O atendimento ruim na saúde é culpa da falta de investimentos no setor… Adversários políticos passam a ser inimigos… Ou seja, a visão estreita de quem lidera afeta profundamente os liderados. E isso impede o desenvolvimento efetivo da sociedade.

Esse fenômeno de valorização da superfície e consequentemente da desvalorização do conhecimento (que pode levar à sabedoria) me incomoda. No mundo do saber, há uma hierarquia. É inegável que, em suas especialidades, algumas pessoas sabem mais que outras. Ter as pessoas mais habilitadas de cada segmento no comando não é garantia de sucesso, mas certamente ajudaria nossas escolas, nossas empresas e até nossas igrejas a serem muito melhores.

Livros: o universo do desconhecido

Eu gosto de ler. É verdade que leio bem menos do que gostaria. Um pouco por causa do tempo, ocupado pelo trabalho e tarefas do doutorado; mas também por me distrair com aplicativos e redes sociais (sim, eu também me pego jogando tempo fora indo do nada pro lugar nenhum).

Então me culpo por não ler mais. E me sinto muito mal quando vejo o universo tão rico de livros que nunca vou acessar. Afinal, ainda que aumente significativamente minha rotina de leitura, certamente não vou ler mais que outros mil e poucos livros até o fim da minha vida.

Bom, enquanto me pego pensando em livros, noto que a maioria das pessoas lê muito pouco. Na verdade, segundo o último relatório Retratos da Leitura no Brasil, 44% da população não tinham sequer chegado perto de um livro nos três meses anteriores à pesquisa. Isso é grave, porque um povo que não lê é também um povo de pensamento estreito e pobreza cultural.

Ler – e é claro que não se trata de ler qualquer bobagem – ajuda no vocabulário, melhora a argumentação e, principalmente, leva a gente para mundos não conhecidos. Isso é fundamental para nos tornarmos pessoas mais sábias.

Quando a gente lê, a gente dá um passo adiante, porque nos apropriamos de um saber que outra pessoa teve trabalho para construir. Isso nos coloca em vantagem, pois, na prática, eu somo a minha relação com o mundo com a relação do outro (escritor) com o mundo dele. Em mim, passam a habitar universos que até então eu desconhecia. E isso me faz ver mais longe.

Gente que ignora a própria ignorância

Parte significativa da população sofre de um mal grave: a ignorância. E mais, essas pessoas ignoram a própria ignorância. Acho impressionante como opinam, discutem, reverberam os mais diferentes temas, mas com total ausência de noção real sobre o que estão falando.

Pessoas falam sobre política, mas desconhecem o funcionamento das diversas estruturas políticas;
Falam sobre educação, mas não têm a menor noção sobre a dinâmica de uma escola e muito menos sobre as diferentes práticas pedagógicas possíveis;
Falam a respeito de segurança, mas nem entendem a respeito das responsabilidades de cada ente público – município, estado e união…

E a lista das bobagens que aparecem principalmente nas redes sociais é muito maior.

Eu tenho dito, não é vergonha não saber sobre tudo. Muito menos não ter opinião a respeito de tudo.

Na verdade, é muito melhor aceitar que ignora – porque isso pode significar abertura para o aprendizado – que posicionar-se com pseudo-verdades que não passam de inutilidades, por vezes, palavras ao vento, mas que provocam, agridem e até causam empatias e antipatias.

Ps. Adoro a foto que ilustra esse texto. Algumas pessoas deveriam ser impedidas de usar as redes. 

Um país gigante, mas insignificante em conhecimento, inovação

Relatório do Índice Global de Inovação, divulgado esta semana, mostra que o Brasil é apenas o 64º país no ranking de inovação. Somos a oitava economia do planeta, o quinto maior em extensão territorial, somos um dos maiores produtores de alimentos do planeta, mas somos insignificantes quando o assunto é inovação.

No ranking de inovação, o melhor país da América é o Chile; aparece na 47º posição. O índice é publicado anualmente pela Universidade Cornell, Insead e Organização Mundial de Propriedade Intelectual.

Quando terminaram as quartas de final, muita gente lamentou o fato de não ter restado nenhum dos países da América entre os quatro melhores da Copa. Os três gigantes da América, com nove títulos mundiais – Argentina, Uruguai e Brasil – foram eliminados no mata-mata.

Na elite do futebol, ficaram apenas os europeus.

Algumas pessoas se dedicaram a tentar explicar o fato. Mas há algo que nem todo mundo tem observado: o mundo de hoje é da competência, da organização, da especialização, da profissionalização. Não há espaço para amadores.

E por que falo de Copa do Mundo, quando o assunto principal é a pequenez do Brasil no ranking de inovação? Porque o futebol é espelho da cultura de um país de gente que quer dinheiro, mas tem pouca disposição em experimentar coisas novas, buscar o conhecimento, investir em formação ampla – que vai para além da mera qualificação para uma única atividade.

No futebol ou em qualquer outra área, não há mais espaço apenas para o talento. O talento precisa ser lapidado. E isso só acontece em espaços que privilegiam a inovação. 

Ao longo de sua história, o Brasil do futebol, da política, da ciência e dos negócios tem se contentado com pouco. Basta os poderosos ganharem dinheiro e está tudo certo. Não existem políticas de longo prazo, não se fazem reformas estruturais e nem há preocupação de fato em fazer investimentos em infraestrutura, tecnologia e muito menos contemplar o desenvolvimento de todas as pessoas.

O ranking inovação, hoje, é liderado pela Suíça. Depois, temos os chamados Países Baixos, Suécia, Reino Unido, Cingapura, Estados Unidos, Finlândia, Dinamarca, Alemanha e Irlanda.

Lideram o ranking porque têm altas taxas de depósito de pedidos de propriedade intelectual, criação de aplicativos, gastos com educação, publicações científicas e técnicas. Ou seja, há um investimento real na promoção do conhecimento e este conhecimento se espalha por diferentes setores. A condição de vida das pessoas melhora, a economia cresce e tudo mais se moderniza.

Podcast da Band News. 

Informação não é conhecimento

A gente vive um período singular na história. Nunca tivemos tanta informação disponível.

Há alguns anos, acreditávamos que a sociedade da informação seria sinônimo de sociedade do conhecimento. Hoje, sabemos que não é assim que funciona. Talvez nunca será dessa maneira. Somos como peixes no mar… Há tanta água em torno do peixe que ele sequer percebe todo o universo que o rodeia e, principalmente, o que realmente importa.

Pesquisadores observam que o excesso de informação pode dificultar o conhecimento. Afinal, informação não é conhecimento. Informação proporciona conhecimento à medida que sabemos o que fazer com as informações que estão disponíveis.

Para que a informação se transforme em conhecimento, é necessário realizar algumas operações. Duas delas são fundamentais: a) capacidade de atenção; b) insistência para desenvolver e manter a atenção.

O que tem valor e terá cada vez mais valor é a capacidade de selecionar a informação oportuna e investir nossa atenção para compreendê-la. Para isso, temos que ter critérios, sabermos filtrar o que é o que não é relevante; além disso, desenvolvermos a habilidade de nos mantermos atentos. Sim, porque nos distraímos muito facilmente.

Nossa mente é vagabunda… Gosta de novidades. Nossa atenção muda o foco rapidamente em busca de coisas aparentemente mais interessantes, que nos proporcionem algum tipo de recompensa – geralmente, coisas que nos entretém, nos divertem…

E o universo informacional é tão grande que a gente se move de um lugar para o outro, vendo fotos, memes, vídeos… Mas nada disso constrói efetivamente um conhecimento. É só passatempo.

Por isso, a capacidade de atenção é o grande capital da pós-modernidade. A atenção, a capacidade de se manter atento, focado em algo, é o que assegura chegar ao conhecimento.

Algumas pessoas – poucas, infelizmente – ao perceberem que estão se distraindo, voltam-se rapidamente para o que estavam fazendo. Outras se deixam levar, perdem horas e horas. E nada aprendem.

Para lidar com todo o universo informacional, é preciso priorizar. Saber o que quer aprender e investir energias em busca de formar um conhecimento. Deixar-se levar pelo que está disponível nos torna vazios. Vemos tudo, lemos tudo, mas não aprendemos nada.
Podcast da Band News FM.

O que significa ser um indivíduo?

Nem sempre a gente se dá conta que algumas palavras que usamos são conceitos nascidos em diferentes campos da ciência. Indivíduo é uma dessas palavras. Ela remete à ideia de uma pessoa única, distinta, diferente, dona de si, responsável por seus atos. É alguém que possui uma identidade que se distingue das demais pessoas (ou, dos demais indivíduos).

Porém, no mundo em que vivemos, o indivíduo pode ser tudo, menos diferente e único. Na sociedade de consumo, seguimos as mesmas estratégias de vida, usamos símbolos comuns. Mesmo quando queremos nos distinguir dos demais, a busca por essa distinção se assemelha a um desejo que também está no outro.

Ocupados em construir uma individualidade, não notamos o quanto somos semelhantes.

Esse empenho por buscar descobrir – e construir – nossa identidade leva-nos muitas vezes a investir no autoconhecimento. E isso não é ruim. Porém, como diz Bauman, a viagem pela autodescoberta, por saber quem somos, quase sempre termina numa teia global em que receitas de individualidade são vendidas no atacado.

Afinal, quem não conhece livros de auto-ajuda, palestras de motivação que repetem o bordão: “seja você mesmo”? Apenas uma receita para todos! Mas que promete que cada pessoa será única. Grande falácia!

A busca por ser um indivíduo também tem nos feito perder é o senso de comunidade. Na busca por sermos únicos, tem ficado de fora de nossas preocupações as relações interpessoais, a proximidade, o contato face a face.

A própria ideia de socializar, de estar em comunidade, quase sempre se confunde com um barzinho com os amigos, uma balada… Ou seja, a socialização é focada no eu, no meu prazer, no meu gosto. E, na prática, a socialização é mediada pelo consumo.

Curiosamente, em nossa sociedade, a luta por sermos nós mesmos geralmente passa pelo consumo. Nos distinguimos das outras pessoas pelas coisas que podemos – ou queremos – ter. E, sejamos sinceros, nisso não há nenhuma autenticidade.

A sociedade de consumo construiu uma singularidade marcada pela diferença entre o novo e o ultrapassado. Sou diferente na medida em que tenho as últimas novidades do mercado. Sou diferente na medida em que sou capaz de descartar o que existe de “ultrapassado” – um celular com mais tempo de uso, por exemplo.

Essa busca pela individualidade – que é uma busca por identidade – quase sempre é assombrada pelo medo da solidão e pelo pavor da incapacidade. Construímos um mundo em que queremos sempre mais. Isso nos impede de ter relacionamentos duradouros e, por vezes, até os amigos são nossos adversários (competimos com eles). Isso resulta numa vida um tanto solitária. Esse ritmo intenso, e necessidade de acessar o que o mercado oferece de mais moderno, de estar constantemente se atualizando, também cria em nós a sensação de que não daremos conta, que em algum momento ficaremos para trás, seremos ultrapassados.

Hierarquia de conhecimentos

Na sociedade da informação, muita gente acredita que possui saber, conhecimento sobre tudo. As redes sociais, ao possibilitarem que todos se manifestem, parecem ter criado a sensação de que todos possuem autoridade para falar/escrever sobre qualquer coisa.

Acho fantástica a democratização do processo de produção de conteúdo. Não existe mais um monopólio do ato de informar. Qualquer pessoa, em sua própria rede, tem a chance de dizer o que sente, o que pensa… Isso tem gerado uma verdadeira revolução nos sistemas de informação. Todos os canais tradicionais podem estar fechados para uma pessoa e ainda assim ela consegue se comunicar com gente conhecida e desconhecida, gente de perto e de longe.

Entretanto, a sociedade da informação parece ignorar algo fundamental: existe sim uma hierarquia de conhecimento. Muitas pessoas não aceitam isso. Ou sequer pensam sobre o assunto. Na prática, nossa sociedade tem a sensação de que informação é formação. E não é.

Ter todo conhecimento do mundo disponível a um clique não torna ninguém conhecedor. O conhecimento é resultado de um processo longo, demorado, exaustivo, que implica no esforço disciplinado de horas de estudo sobre um determinado tema ou assunto.

Por exemplo, sou jornalista de formação, professor da área há 12 anos e transito pela comunicação desde 1989. São esses anos todos de aprendizado prático, de leitura e ensino que asseguram minha formação na área. E certamente não sei muita coisa. Por vezes, reluto avaliar uma estratégia comunicacional ou mesmo a abordagem feita por uma reportagem, porque seria prepotente da minha parte dizer “isso está errado”. Afinal, o próprio fazer jornalístico está em constante mudança – sem contar que sofre influência de cada cultura.

Porém, curiosamente, vejo diariamente pessoas criticando jornalistas e empresas de comunicação dizendo: “isso não é jornalismo”. São pessoas que sentem-se autorizadas a classificar uma atividade profissional sem nunca terem vivido o dia a dia de uma empresa de comunicação, sem nunca terem lido um único manual de redação, sem sequer conhecerem um livro que trata sobre a prática jornalística.

Outro exemplo… Em meio a uma série de polêmicas envolvendo a arte, o que não faltam/faltaram são pessoas que batem/bateram na mesa e dizem/disseram “isso não é arte”. Ou, “pedofilia não é arte”. Fico pensando: será que sabem definir, juridicamente, o que é pedofilia? Que formação possuem para conceituar arte? O que essas pessoas sabem a respeito de/da arte?

No Brasil, a arte é de domínio de poucos. De uma minoria, na verdade. A maior parte das escolas públicas tem um ensino sofrível sobre arte. E isso se estende também a um percentual considerável das particulares. O país tem poucas bibliotecas, um percentual pequeno de leitores… A quantidade de museus, teatros é quase insignificante (pouca gente frequenta esses espaços; menos de um milhão de pessoas foram a um museu em 2016)… Nosso olhar para o cinema é quase todo mediado pelos interesses de mercado (gostamos mesmo é de filmes produzidos em Hollywood). Nosso entendimento a respeito de música pode ser notado claramente nos gêneros mais consumidos atualmente… Não conseguimos compreender por que pintores como Rembrant, Van Gogh, Renoir, Monet, entre outros, são considerados gênios… E o que dizer de “malucos” como Pollock?

Existe sim uma hierarquia de conhecimentos. Não sabemos sobre tudo (na verdade, mesmo quem estuda muito, ainda sabe muito pouco). E é justamente por não dominarmos todos os assuntos que deveríamos ser mais cautelosos ao falar, ao opinar. Talvez seja possível dizer “eu não gosto”, “isso me desagrada”, “me incomoda”. Afinal, o gosto – embora construído socialmente – manifesta-se individualmente. Porém, gostos individuais não podem ser regras sociais e tampouco são saberes que definem o que existe e se faz no mundo.