A nossa fé autoriza sermos desagradáveis com outras pessoas?

Num episódio recente, perguntei: conviver com você é uma experiência agradável para as outras pessoas?

Afinal, a gente espera muito dos outros, mas até que ponto somos pessoas que tornam alegradores os momentos que os outros estão conosco?

A reflexão sobre isso é fundamental. A gente enxerga as chatices dos outros, mas não enxerga as nossas.

Diante da argumentação que apresentei, uma ouvinte me mandou recado:

Eu não sou agradável porque não faço o que os outros querem e sim a vontade de Deus.

Tentei argumentar com ela. Mas ela usou a morte de Jesus como justificativa para dizer que as pessoas não gostavam dele e que cristãos não são agradáveis no relacionamento com os outros, porque possuem uma postura que não combina com o mundo.

Eu não insisti. Optei por não perder uma ouvinte dos meus conteúdos.

Entretanto, fiquei pensando: será que outras pessoas pensam assim? Será que a nossa fé nos autoriza sermos desagraveis com as outras pessoas?

Eu não acredito nisso!

É fato que Jesus foi perseguido e morto. Mas também é verdade que as pessoas queriam estar próximas dele. Muita gente sentia prazer em estar com ele. Havia sim um certo grau de interesse nessa relação: pessoas queriam milagres, curas, libertação. Mas muita gente estava com Ele para ouvi-lo.

Num tempo em que as crianças não eram nada na sociedade, não tinham valor algum, elas gostavam de estar com Jesus, queriam a companhia dEle.

Além disso, a companhia de Cristo era tão desejada que cobradores de impostos corruptos, prostitutas, gente cheia de problemas, gostava de ficar com Ele.

Ou seja, a santidade de Jesus não o separava das pessoas; a santidade de Jesus não tornava a companhia dele pesada, desagradável.

Jesus não ficava censurando as pessoas. Jesus não era rabugento, chato. Nem por isso, Jesus fazia o que faziam as pessoas pecadoras, cheias de problema.

E aqui está um princípio fundamental: nossa fé deve ser instrumento de atração das pessoas e não de afastamento das pessoas.

Não é porque não vivo o que outras pessoas vivem que minha presença deve se tornar desagradável.

É um erro absurdo achar que a nossa fé nos impede de sorrir, de brincar, de contar e ouvir histórias, de fazer piada com os outros. Nossa fé não pode ser instrumento de julgamento, de militância moralista.

Nossa fé precisa ser instrumento de amor, de acolhimento, de perdão, de palavras doces, suaves. Nossa fé deve servir para motivar, para animar, para espalhar esperança.

Quem não gosta de estar com alguém que ama de verdade, que não julga, que tem sempre um sorriso acolhedor no rosto, que fala de maneira gentil?

Se minha fé afasta as pessoas, existe um problema no meu cristianismo.

A maneira como vivemos deve atrair pessoas. Nunca afastá-las.

Se minha companhia, em função da fé, faz com que ninguém queira estar comigo, preciso rever os meus conceitos e minha maneira de viver a experiência cristã.

Os cristãos são o Cristo na terra.

É fato que nunca agradaremos todas as pessoas. Também é fato que algumas pessoas vão nos rejeitar e até perseguir em função da nossa fé.

Mas nós não devemos ser os agentes causadores do afastamento. O fato de querer viver uma vida correta não justifica ser sisudo, pessimista, alarmista, tampouco nos dá direito de apontar os erros dos outros, censurar suas falhas.

Quando Jesus se ofereceu para estar na casa de Zaqueu, você não vê ali o Mestre falando dos defeitos dele, dos anos de corrupção. Jesus não diz: ei, eu vim na sua casa, mas agora vê se toma vergonha nada cara e muda de vida.

Nada disso. É pelo gentil e espontâneo do mestre, de se oferecer para estar na casa de Zaqueu, sem julgá-lo, sem avaliar o passado dele, é por essa atitude cheia de amor e graça que aquele publicano abraça a fé e se dispõe a repara todos os seus erros passados cometidos contra seus irmãos israelitas.

Portanto, volto a perguntar: conviver com você é uma experiência agradável para as outras pessoas? Saiba que a fé deve ser instrumento de atração, de beleza, de encantamento, de leveza.

Minhas escolhas podem afetar a vida dos outros

Sabia que, mesmo em coisas simples, aquilo que você faz ou deixa de fazer pode ter um impacto na vida de outra pessoa? Pense nisso! Afinal, agir de maneira ética implica em pensar sobre o efeito de nossas ações no mundo em que vivemos.

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Conhece gente que se diz autêntica e machuca os outros?

Autenticidade. Eu gosto desta palavra. Ela me faz pensar em coisas boas… E em algo muito precioso: a verdade. Embora a compreensão sobre verdade seja bastante complexa, acredito que existe o falso e o verdadeiro. Particularmente, para ter um parâmetro sobre a verdade, adoto a Palavra de Deus como referência – inclusive como base para nossos comportamentos cotidianos, para nossos relacionamentos.

Entretanto, ainda que a palavra “autenticidade” me traga bons sentimentos, me preocupo com a maneira como muita gente a utiliza para justificar atitudes grosseiras e até violentas.

Sim, meus caros amigos e amigas, tem gente que se diz autêntico para justificar respostas atravessadas, desrespeito e até a humilhação de outras pessoas. Costumo dizer que, mesmo uma pessoa polida e elegante em suas atitudes, pode vez ou outra ofender alguém próximo. E pode fazer isso sem ter a intenção de magoar. Eu já fiz isso. Várias vezes, inclusive. Em muitas dessas ocasiões, minha esposa, a Rute, que tem uma sensibilidade diferenciada, puxa minha orelha e assinala que fiz bobagem.

Entretanto, não falo aqui dessas situações excepcionais, que acontecem esporadicamente. Falo de pessoas que assumem uma pseudo-identidade de transparência, dizendo-se autênticas, e que atropelam os sentimentos das outras.

Para essas pessoas, costumo dizer que a autenticidade só tem uma função: revelar o ser humano horrível que, arrogantemente, se diz verdadeiro, sincero.

Gente que se diz autêntica, mas fere as outras, não passa de uma pessoa cheia de coisas ruins por dentro, que usa a autenticidade como máscara para se dizer boa pessoa. É como se falasse: “machuco você, mas falo o que penso; sou verdadeiro/a”. A pessoa se apoia na tese da verdade para justificar suas más ações e ainda tenta se colocar como superior… Em jogo é colocada a ideia: “sou melhor do que você, porque machuco, mas não minto, não finjo igual você faz”.

Não há mérito algum numa autenticidade que revela uma pessoa horrível por dentro. Esse tipo de comportamento sugere duas coisas: pra quem está por perto, um convite, caia fora! Para a própria pessoa, um desafio: busque ajuda, mude de comportamento.

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O outro é meu espelho

Ouça a versão em podcast!

A necessidade de acolhimento, de aprovação, do aplauso alheio pode nos levar a viver uma mentira. Já falei aqui várias vezes sobre o risco de assumirmos um personagem que mata a nossa personalidade e destrói nossa autoestima. 

Porém, a preocupação com a avaliação do outro tem um lado positivo. Qual é? Quando essa preocupação motiva uma mudança. 

O outro sempre será nosso espelho. E se soubermos aprender com isso, podemos crescer como pessoas. 

Por exemplo, se eu noto que todas as vezes que meus colegas de trabalho se dispersam quando me aproximo deles no refeitório, eu tenho um indicador de que algo não está funcionando. E numa situação como essa tenho algumas possibilidades de reação… Talvez o problema seja comigo; talvez seja com eles. E aí reside a diferença entre quem é bem resolvido e quem não é; entre quem é capaz de aprender com o outro e quem se moda ao outro apenas para ser aceito. 

Neste exemplo, você pode ter um grupo de pessoas que se dispersa quando você chega, porque você é aquele cara sério, que não gosta de fofocas e não aceita piadas machistas. Se você se molda ao grupo para ser aceito, você está atropelando sua identidade. Ou seja, você precisa trabalhar isso para não viver em busca de aprovação dos outros. 

Porém, tem o outro lado… Talvez você seja aquela pessoa chata, que reclama de tudo, vive se lamentando ou fazendo piada sem graça… Gente com disposição para aprender pode notar nesse afastamento dos colegas a necessidade de mudar, de se tornar uma pessoa mais agradável. E esse tipo de mudança faz crescer… Torna mais sociável, mais amigável… 

Ou seja, o outro é importante para meu crescimento. Quem diz “eu sou assim e quem quiser gostar de mim, ok; quem não quiser, dane-se”, quem pensa assim, estaciona na vida, não passa de um estúpido. 

O outro deve sempre me levar a uma reflexão, a uma autocrítica. Não se trata de insegurança; trata-se da necessidade de autoconhecimento. Eu me olho e questiono: “tem algo em mim que não está funcionando e precisa mudar?”. 

Ser bem resolvido não é estar acima das críticas alheias; é reconhecer nas críticas que recebo se são vazias ou são degraus oferecidos pelo universo para meu crescimento. 

A caminhada é mais fácil quando nos abrimos para os relacionamentos

Ouça a versão em podcast!

Precisamos de gente em nossa vida. Embora a existência seja, de certo modo, solitária, é fundamental ter com quem somar e dividir.

A caminhada é solitária por que as pessoas entram e saem da nossa vida. Cada uma delas deve construir seus próprios projetos, relacionamentos… Muitas delas se afastam para dar conta das próprias necessidades e, com isso, também se distanciam emocionalmente.

Outras tantas deixam nossa vida porque a morte tiram-nas de nós.

Entretanto, embora sempre existam partidas, precisamos ser receptivos àqueles que chegam. Sei que para muitas pessoas isso é desafiador. Tem gente que já sofreu tanto em relacionamentos que prefere se manter distante. Também há quem é introspectivo e se sente mais confortável sozinho – eu sou uma dessas pessoas. Conviver parece não ser algo agradável.

Entretanto, é preciso romper com as barreiras que nos separam das outras pessoas. Vivemos melhor quando nos relacionamos. Ainda que muita gente nos deixe durante o percurso, é necessário quem encontramos; trazê-las para perto de nós, dividirmos as experiências e as coisas boas que temos, também somar forças para a construção de nossos sonhos e aprendermos aquilo que podem nos ensinar.

Se a gente não se abre para o outro, a vida não se torna apenas solitária, experimentamos a solidão e nos tornamos mais frágeis.

São os relacionamentos que nos fortalecem, que possibilitam as trocas e que possibilitam inclusive as conquistas pessoais e profissionais. Tudo se torna muito mais difícil quando estamos sozinhos. Não se trata apenas de ter alguém com quem você possa conversar, trata-se de contar com gente para agregar, aprender, ensinar, auxiliar na realização de um projeto, facilitar na abertura de uma porta – às vezes até para mediar o contato com alguém que você sonha conhecer.

Por isso, é importante não nos fecharmos em nós mesmos; a caminhada fica mais fácil quando nos abrimos para os relacionamentos.