O sucesso pede mudanças

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Quem já andou por trilhas no meio da mata talvez tenha percebido que muitas delas são bastante sinuosas, com obstáculos… Formam caminhos nem sempre práticos para se chegar ao destino. Curiosamente, algumas delas nem foram feitas por mãos humanas; apenas foram adaptadas por terem menos vegetação. Há trilhas, inclusive, que eram originalmente “caminho” de animais, mas que passaram a ser o trajeto usado pelos homens para exploração da mata.

Nosso cérebro funciona mais ou menos da mesma forma. Quando acessamos uma informação nova, cria-se um novo caminho ali. No início, sempre há certo estranhamento. Por exemplo, quando vamos a um supermercado pela primeira vez, temos dificuldades para explorar cada setor. Se repetirmos as compras sempre no mesmo lugar, logo faremos tudo “no automático”.

É assim que funciona com tudo. Do jeito que trabalhamos, do jeito que compramos, comemos e, em alguns casos, até do jeito que fazemos sexo. Entretanto, há um risco nisso. Um sério risco. Tudo que se torna automático deixa de ser experimentado, vivido. É como se nos tornássemos robôs. Aos poucos, vai ficando chato, perdendo a graça. Acontece que, pelo medo de ousar, optamos pelo “caminho mais fácil”.

Mas há um outro problema. Quando algo que fazemos dá muito certo, passamos a utilizar aquela fórmula como se fosse a “receita do sucesso”. E isso não é nada bom. Primeiro, porque nos tornamos previsíveis; segundo, porque a vida é dinâmica e o que hoje dá certo, amanhã pode fracassar. O futebol é um exemplo disso. O Brasil de Felipão usou uma tática vencedora na Copa das Confederações. Repetiu na Copa do Mundo e deu no que deu: a seleção foi presa fácil para os alemães.

Isso vale pra tudo. No relacionamento, o que hoje agrada demais seu parceiro, amanhã pode perder a graça e ganhar contornos de rotina (em seu pior sentido). No trabalho, a estratégia que hoje te faz vender muito, amanhã pode se revelar um fiasco.

O que quero dizer com isso? Muito simples: não podemos nos engessar pelo sucesso. O sucesso pode ser mais perigoso que o fracasso. O fracasso aponta o erro e a necessidade de mudar. O sucesso ilude e faz temer a mudança. Não mudar é estagnar. E estagnar é o primeiro passo para a derrota. Precisamos entender que o que deu certo uma, duas… dez vezes não representa um modelo a ser seguido. O mundo está em constante movimento e modelos são superados. Nosso cérebro sempre vai sugerir os caminhos já percorridos, já conhecidos. Porém, não dá para se iludir com a aparente segurança que temos em apostar no que está dando certo. “Em que time que está ganhando” também se mexe.

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Os erros do Brasil

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Vexame histórico. Vergonha. Desastre… Enfim, há várias palavras para caracterizar os 7 a 1 sofridos na semifinal da Copa contra a Alemanha. Entretanto, a derrota dessa terça-feira, 8 de julho, não começou às 17h no Mineirão.  Os 7 a 1 sofridos são a metáfora de uma decadência. A goleada iniciou muito antes… O que aconteceu em Belo Horizonte é resultado de uma série de erros que antecedem a própria estreia do Brasil no dia 12 de junho. E há mais de um responsável.

Vamos tentar entender o que aconteceu.

Felipão e Parreira – quando assumiram o Brasil, após a demissão de Mano Menezes, foram a melhor aposta da CBF (isso, entre as opções de técnicos brasileiros). A seleção estava desacreditada. Os jogadores, que fossem convocados, precisavam confiar no comando técnico. Felipão e Parreira foram os últimos campeões do Brasil. Eram respeitados. Apesar disso, estão defasados. Não assimilaram o que há de mais moderno no futebol mundial. Iludiram-se com a conquista da Copa das Confederações diante da Espanha e praticamente não mudaram a equipe que venceu aquela competição – mesmo com alguns jogadores em má fase.

Convocação – alguns nomes não deveriam estar entre os 23 convocados. Por exemplo, Fred, Hulk, Bernard e Jô. Na verdade, o Brasil sofre com a falta de atacantes. Não tem ninguém brilhante. Neymar é nossa maior referência. Ainda assim, esses quatro não são jogadores com futebol para defender uma seleção pentacampeã.

Equipe – a gente pode até questionar a convocação de mais alguns nomes. Porém, o futebol brasileiro não tem produzido jogadores brilhantes. O momento é ruim. Talvez tenhamos a pior geração dos últimos anos.

Escalação – mesmo com uma equipe limitada, Felipão escalou mal ao longo de toda Copa. Talvez o melhor momento do técnico foi contra a Colômbia. Ontem, por exemplo, o treinador fez uma péssima aposta. Deve ter achado que a identificação com o povo mineiro, com o estádio, ser ovacionado pela torcida, faria Bernard jogar o que não estava jogando nos treinos. Errou. E feio.

Jogadores – não vejo culpa neles. Mesmo Fred, o mais atacado, parecia comprometido com a seleção. O problema é que ele e outros que foram mal na Copa não estão num bom momento ou não possuem futebol para a seleção. Jogador não tem culpa de ser convocado e escalado. Pode ser responsabilizado por ser displicente. Não foi o caso. Eles só não jogaram o suficiente– e nem foram treinados taticamente – para disputar o Mundial.

CBF – aqui é que aparecem os maiores problemas. Vejamos:

a) não aprendeu com a eliminação contra a Holanda em 2010;

b) naquele ano, apostou em Mano Menezes, que tinha como principais conquistas o campeonato brasileiro da Série B e uma Copa do Brasil pelo Corinthians;

c) com o desastre de Mano no comando técnico, a entidade foi conservadora: apostou no que parecia seguro, Felipão e Parreira, os dois últimos campeões. Faltou ousadia. Havia clima para contratar um técnico estrangeiro. O espanhol Pep Guardiola era um nome cogitado;

d) o título da Copa das Confederações em 2013 criou uma onda de ilusões. A CBF achou que tinha encontrado o caminho da vitória para o Mundial. Felipão e Parreira acreditaram que os 3 a 0 contra os espanhóis representava a fórmula para o título. A tática já estava definida. Não era necessário treinar nada diferente. Só cuidar do espetáculo com a imprensa. Isso deixou o time óbvio, previsível;

e) o Brasil de Dunga se fechou, em especial para a Globo. Criou uma imagem de uma equipe carrancuda, mal-humorada. O presidente da CBF, José Marin, não queria isso. Então deixou as portas abertas da seleção. E comprometeu completamente os preparativos da equipe. O time estava na tevê, mas não em campo treinando;

f) a CBF foi política. Não quis criar desconfortos com presidentes das federações levando a seleção para São Paulo, ou para Minas, ou para a Bahia etc etc… O Brasil concentrado num desses lugares, deixaria insatisfeitos os cartolas dos demais estados/clubes. Quis agradar a todos e ficou em Teresópolis. A Granja Comary é aberta. Todo mundo espia, vê… Não dá para fazer treinos fechados, não tem como ensaiar as táticas. Chegou-se ao absurdo de variações táticas serem treinadas uma única vez por dez minutos apenas.

Enfim, o Brasil segue amador. Acha que emoção, vontade, apoio da torcida ganham jogo. Na verdade, podem ajudar, mas o futebol moderno pede estratégia, treinamento, variações táticas. Os cartolas e técnicos são dinossauros. Estão no século passado. E não há mudança prevista. Entre os nomes para substituir Felipão e Parreira aparecem: Muricy Ramalho e Vanderlei Luxemburgo. Dá pra acreditar?

PS – A gente precisa diferenciar a seleção e sua preparação e a organização da Copa. São dois assuntos. A derrota do time da CBF não reflete a organização do Mundial como evento. Este seria um outro assunto (embora também passível de questionamentos). 

 

Por que o Brasil não anda?

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A gente reclama muito dos governos. E é justo reclamar. Embora não seja correto generalizar, dá pra dizer que parte considerável de nossos políticos tem pouco compromisso com o bem-estar da população, com o desenvolvimento do país. Muitos são incompetentes. E outros são representantes de si mesmos (estão no poder para defender seus próprios interesses e de determinados grupos econômicos).

Entretanto, além de encontrar motivos externos para o país não funcionar, deveríamos assumir nossa responsabilidade. Não são apenas as obras da Copa que atrasaram, foram mal feitas ou deixaram de ser executadas. Independente do partido político, tem centenas de obras superfaturadas, atrasadas ou paralisadas pelo país afora. Porém, o que acontece na esfera pública, ocorre também em nossa casa, em nosso trabalho. Quem nunca “esqueceu” uma tomada estragada em casa por semanas sem se mexer para arrumar? Quem nunca atrasou um relatório ou quis dar um jeitinho de entregar depois um trabalho de escola?

Não, não estou justificando o injustificável da prática política, da gestão pública no Brasil. O que quero mostrar é a outra face. Na verdade, não privilegiamos a eficácia, a excelência dos serviços. Veja o que acontece no comércio. Quem nunca entrou numa loja e sentiu vontade de virar as costas por ser mal atendido? E o serviço de atenção aos clientes prestado pelas operadoras de telefonia? Por quantos minutos ficamos esperando no telefone? Quem nunca precisou voltar à oficina mecânica porque o profissional foi negligente? Quem nunca teve que brigar com o pedreiro porque ele foi relapso na execução do que havia sido combinado?

Sou professor. Vejo alunos sentirem prazer em ter aula vaga ou quando um colega falta. Comemoram recessos e muitos passam o ano sem ler um único texto proposto para as aulas. Há negligência e pouco interesse pela excelência. Reclama-se do sistema, mas não há luta para, como indivíduo, ser melhor.

O economista Paulo Roberto Feldmann, professor da USP, lançou um livro nos Estados Unidos. Nele, o ex-diretor de empresas como a Microsoft e o Banco Safra, tenta ensinar americanos a trabalhar com latino-americanos. Numa entrevista à revista Época, Feldmann foi taxativo: “algumas características culturais do brasileiro atrapalham seu desempenho no trabalho”.

O professor mostra que isso atrapalha e muito o desenvolvimento do país.

Não damos importância à pontualidade. Em outros países, isso é inadmissível. O fato de não darmos importância a detalhes de comportamento influencia a má administração. No Brasil, se alguém atrasa a entrega de um projeto, dificilmente será advertido ou punido. Em outros países, a questão da pontualidade e do cumprimento de prazos é levada muito a sério, e isso tem uma influência na produtividade.

Na opinião de Feldmann, o brasileiro não gosta de seguir regras, não se preocupa com a excelência.

Na média, o brasileiro é um pouco indolente, não se preocupa em seguir regras e não se empenha em ser preciso. De forma geral, o brasileiro não tem um ritmo de trabalho tão alto como os americanos e os europeus.

Ele aponta que uma pesquisa revelou que a nossa produtividade é muito baixa quando comparada com povos de nações desenvolvidas.

Há dados sobre a produtividade da mão de obra em vários países. Nos EUA, a produtividade é 100. No Brasil, é de 18% da americana. Isso quer dizer que a produtividade do brasileiro é menor que a quinta parte do americano. Na Alemanha, é 70%.

Ou seja, embora seja um tanto clichê, é correto dizer que “enquanto a gente não mudar, o Brasil não vai mudar”. A gente despreza os livros, despreza a importância da pontualidade, da entrega nos prazos… A gente acha que o “meia-boca” é aceitável. Não, não é. Fazer bem um serviço, atender bem um cliente, valorizar e investir no conhecimento, não desperdiçar o tempo, contratar o competente e não o “amigo”… é o que se espera de um profissional, é o que deseja de um trabalhador, de um estudante… E são práticas que podem impactar positivamente nossa relação com o mundo do trabalho e do conhecimento. E, em especial, que podem nos ajudar a romper com a cultura acomodada e “indolente” sugerida pelo professor Feldmann.

“Joga pedra na Geni”

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O cenário político não parece favorável à presidente Dilma. Há certo mau humor. Parte da população transfere toda responsabilidade ao governo federal pelos problemas do país. Os desastres com a Copa são um exemplo disso. Cá com meus botões, entendo que a imprensa e os analistas não parecem muito dispostos a explicar que parte do que se credita à petista deveria ser compartilhado com governos estaduais e municipais – e de diferentes partidos políticos.

Ainda falando da Copa, vale lembrar que temos 13 cidades-sede. Para realização do evento, várias obras foram anunciadas. Não apenas estádios. E a responsabilidade pela execução e gestão delas deveria ser compartilhada pela União, Estados e Municípios. Ou seja, uma obra em atraso pode significar que houve incompetência da presidente e sua equipe, mas também do governador do estado e do prefeito. E sabe o que eu penso? Penso que a Copa evidencia que a questão é muito mais complexa: a máquina pública brasileira não funciona. O Estado está falido. Não importa quem está no governo, qual é o partido. Importa que a máquina não funciona. Portanto, mais que questionar a Dilma, o Alckmin ou qualquer outro gestor, precisamos questionar: o que pode ser feito para mudar essa realidade?

Além disso, acho que é necessário distribuir as responsabilidades. Por não votar desde 1998, sinto-me livre para dizer: acho que estão culpando a Dilma até por coisa que ela não tem culpa. E a Folha de São Paulo me ajuda a sustentar o discurso.

Num editorial publicado nessa quarta-feira, 28, o jornal mostra que, em 2012, o governo federal disponibilizou R$ 12,4 bilhões a fundo perdido para governadores e prefeitos investirem em projetos de mobilidade urbana. Depois dos protestos de junho do ano passado, esperava-se que esse dinheiro sequer fosse suficiente para atender tanta demanda. Para isso, só precisavam apresentar bons projetos. Havia um prazo para isso. Outubro de 2013 era o limite. Não apareceram projetos e o prazo foi estendido, dezembro. E agora o prazo é junho/2014. E sabe o que é curioso? Até o momento, poucos gestores se interessaram pelo dinheiro. Apenas R$ 479 milhões foram sacados por Estados e Municípios.

Portanto, há necessidade de ir para além do simples ato de criticar um governo pelos problemas sentidos pela população. A responsabilidade deve ser compartilhada. Não há uma pessoa apenas e nem um só partido quando o tema é incompetência na administração do setor público.

A lista de Felipão

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Não importa quem são eles. Não importa o que fizeram ou o que estão fazendo. O que se espera deles é comprometimento, desejo de vencer. Queremos resultados. É claro que temos nossa própria lista. Por isso, nem sempre concordamos com os convocados que vão defender o Brasil na Copa. Também por isso, se o título não vier, Felipão é candidato a vilão. Hoje, é uma das figuras mais badaladas na imprensa. Inclusive no mercado publicitário. Vende de carros a bebidas. Mas tudo pode mudar após um único tropeço.

Sim, nós somos assim. Transformamos heróis em vilões. Não lembramos a história. Esquecemos o passado de glória. E vale pra tudo. Vale para o técnico de futebol. Vale para o cidadão comum que sempre foi exemplo de homem de bem, mas, num momento qualquer, errou; e ao errar, tornou-se a pior pessoa do mundo.

Temos esse hábito. Um mau hábito. Julgamos, avaliamos, classificamos, rotulamos. As pessoas devem corresponder às nossas expectativas. Não toleramos o fracasso, a queda. Não queremos saber os motivos. Importa o que entendemos que é certo, o que achamos que deveria ser feito… segundo os nossos critérios – critérios estes que mudam de acordo com nosso humor ou nossos pré-conceitos.

Hoje e pelos próximos dias, Felipão e seus convocados serão o foco de nossos comentários. Cada atitude deles será alvo de nossas críticas. Não conhecemos essas pessoas, suas motivações, seus interesses. Desconhecemos o caráter e o que vai na alma. Isso, porém, pouco significa. Pra nós, apenas os resultados fazem sentido. É isso que se espera deles. É isso que esperamos das pessoas. Nos concentramos naquilo que projetamos para o outro, para o que supomos que podem ou devem fazer. É pequeno demais da nossa parte, mas é assim que preferimos ser.