O corpo como instrumento de conquista

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Às vezes me questiono sobre o valor de determinados textos que escrevo… Acabo me perguntando: será que as pessoas não sabem disso? Era necessário tratar desse tema?

É o caso deste texto. Parece tão óbvio que o corpo não deve ser instrumento de conquista que nem deveríamos discutir a questão. Entretanto, não raras vezes, noto que algumas pessoas fazem do corpo o principal instrumento de sedução.

Sabe, não existe problema em se cuidar. E cada um deve saber em que medida se sente confortável em sensualizar, seduzir… Porém, no que diz respeito à conquista, é fundamental compreender que, se o corpo é o “cartão de visitas”, você atrairá pessoas que mais valorizam a imagem que o conteúdo.

Estar bela, sentir-se bela é fundamental. Faz bem para a autoestima. Ninguém gosta de se sentir “caidinho”. Muito menos se sente confortável em sair de “qualquer jeito” para encontrar alguém. Entretanto, existe uma enorme diferença entre ser/estar bonita, ter um belo corpo, vestir-se bem e usar o corpo para conquistar. Quem faz isso atrai gente que se interessa por um corpo, pela aparência. Atrai gente que quer a mulher gostosa, não quer a inteligência dela.

Isso é machismo? Sim. É justamente a cultura machista que motiva essa visão da mulher como produto a ser consumido. Por isso, quando a mulher faz do corpo um instrumento de conquista, reproduz essa visão machista. Além disso, em certa medida, está aceitando ser tratada como objeto.

Mulheres que querem ser bem-sucedidas num relacionamento usam a inteligência, o conhecimento, para mostrar quem são. Essas mulheres vão atrair homens sensíveis e interessados em ter como parceira alguém que é muito mais que um corpo; vão atrair homens que têm interesse num compromisso para a vida, pois sabem que a beleza vai embora, mas o ser humano – com seu saber, com seus valores – permanece.

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Prisioneiros de si mesmos

triste sozinha

Cheguei há pouco de uma corrida na chuva. Caminhar, correr são coisas que gosto. Mas, na chuva, não diria que seja algo que faço rotineiramente. Entretanto, com a academia fechada nas férias, não dá pra descuidar. Então, por volta das 20h, coloquei short, camiseta, tênis e saí pro parque. Confesso que, apesar da água escorrendo no rosto e molhando toda a roupa, a sensação é agradável – sem contar que não há riscos de trombar com ninguém. Porém, sair de casa foi uma “briga”.

Enquanto corria, pensava… O que somos? Somos uma mente em movimento. Claro, tem corpo, alma… essas coisas todas – dependendo, claro, da posição religiosa de cada um. Mas tudo passa pela nossa mente. Ou, como prefiro, nossa consciência (pra quem gosta de teorias, falo de consciência na perspectiva de um autor russo chamado Bakhtin).

Por que falo da consciência? Dessa mente em movimento? Por uma razão bem simples: quando decidi correr na chuva, fiz isso por uma escolha. Uma escolha que nasceu e se realizou na minha mente. De verdade, a ideia não parecia a mais divertida. E acho que a maioria das pessoas pensa a mesma coisa. Afinal, não havia mais ninguém no parque. Camisa molhada, tênis molhada… Um friozinho… Nada parecia empolgante. Por que relutava ir? Qual o prejuízo? Apenas o desconforto do corpo. Minha mente não seria molhada. Apenas o corpo. Se minha mente ignorasse a chuva, achasse normal a gotas d´água caindo sobre a cabeça, não teria problema algum. Tudo passaria – e passou – pela maneira como eu encararia o cenário.

Sabe, de certa forma é bem isso: o corpo é apenas a “casa” de nossa mente. Nossa consciência é que comanda tudo. Não raras vezes, travamos diante da vida não porque não somos capazes, mas porque acreditamos ser incapazes. 

Este é um drama diário. Nosso corpo é motivado por desejos. Mas quem comando o corpo? Deveria ser nossa mente. Nem sempre é. Mas deveria. Não raras vezes nos tornamos reféns do corpo, dos desejos. Ou da ausência deles. E a mente fica presa a um corpo cheio de vícios. O sujeito sabe o que fazer, mas não consegue fazer. Onde está o problema? Na ausência de comando. A mente (a consciência) não consegue fazer o corpo responder. As atitudes não respondem à razão, apenas aos desejos.

Diante de um banquete, a pessoa perde o controle. Sabe que não pode exagerar, mas come mais do que deve. A pessoa está acima do peso, sabe da importância de exercitar-se, mas fica adiando. Nunca começa.

E o que dizer dos bloqueios emocionais? O sujeito está numa entrevista de emprego, sabe o que deve fazer, mas não consegue. Mal dá conta de abrir a boca. Depois sai dali lamentando-se e se achando a pior pessoa do mundo. O camarada conhece uma garota maravilhosa. Porém, não consegue sequer convidá-la pra jantar. Tem medo de ouvir um “não”.

Outras tantas pessoas olham pra si mesmas de maneira negativa. Olham para o espelho e se enxergam desprovidas de beleza, incapazes, derrotadas. O problema é físico? Não, não é. O corpo apenas sofre as consequências de uma mente. A sua consciência está deformada e o cérebro não comanda. Nada dá certo. E o problema está lá dentro… Na maneira como a própria pessoa se vê.

Tem saída? Sempre tem. Entretanto, é preciso acreditar em si mesmo. Transformar a mente em comandante do corpo. Uma consciência doente vai matando o corpo aos poucos… aniquilando os desejos, roubando a vida. Uma mente passiva, que se deixa dominar pelos desejos também causa dor, pois agride a razão. Nessa guerra, são vencedores aqueles que valorizam os desejos, mas sabem controlá-los por meio de sua consciência. São vencedores aqueles que conhecem a si mesmos, dominam as próprias vontades, superam as crises de auto-imagem e entendem que somos aquilo que pensamos ser.

Como disse certa vez o escritor alemão Goethe:

Não basta saber, é também preciso aplicar; não basta querer, é preciso também agir.

A virgindade por R$ 300 mil

Nem sei se é um tema que interessa você, caríssimo leitor. Também não sei bem por que me senti incomodado em escrever. Talvez pela necessidade de refletir sobre o tema. Parece que, quando escrevo, penso melhor.

Desde a semana passada acompanho as notícias sobre a garota brasileira que leiloou a virgindade. Na verdade, a primeira que vi era esta:

Catarinense de 20 anos leiloa virgindade pela internet

Hoje, encontrei o resultado do leilão:

Jovem que participa de leilão já tem data para perder a virgindade

Pois é, a garota já tem data pra perder a virgindade. E sabe quanto vai ganhar: cerca de R$ 314 mil.

A catarinense Catarina Migliorini fez uma escolha. Optou por vender a virgindade. Diz ela que para transformar o dinheiro em um projeto social.

Não vou discutir o projeto. Nem o caráter da moça. Tem muita gente que prefere dizer que é safadeza, prostituição… Sei lá, cada um pensa o que quiser.

Eu só não gosto da ideia. Tudo bem que prostitutas transformam o corpo em produto. Modelos transformam o corpo em mercadoria. Panicats e afins projetam-se pelo corpo. O corpo é deslocado da alma e vira bem de consumo. Mas o que significa vender a virgindade?

Ok, a “aura” da virgindade pode ser apenas uma construção social. Fazer parte do imaginário popular. Porém, é exatamente por isso que alguém se dispõe a pagar mais de R$ 300 mil reais para transar com uma garota que nunca teve relação sexual.

A escolha é de Catarina. Mas por quê? Como ela vai se sentir daqui 10 anos? Daqui 20? Como será com os homens que virão? E, se casar, como vai lidar com isso? E os filhos? Netos? Ela sempre será a garota que vendeu a virgindade.

A gente esquece, é claro. Não vamos lembrar do nome dela daqui uns anos. Mas quem a conhece, quem for conhecê-la, o ambiente em que vive… será que esse fato, noticiado no Brasil inteiro e até fora daqui, não vai acompanhá-la por toda a vida?

Catarina está fazendo isso num reality show. Não é qualquer coisa. A visibilidade é enorme. É pra ficar registrado. Pra sempre.

Está certo que a primeira vez é quase sempre um desastre. É a “prática” – e, principalmente, a intimidade – que torna o sexo prazeroso. Mas nem uma coisa nem outra essa jovem terá. Não tem a vivência. Não tem intimidade. E a relação sexual com um desconhecido, de glamouroso, só terá o fato de acontecer nos ares, em um avião. Nem beijo é permitido.

Sinceramente, nada parece justificar tal escolha. Não existe nada do mundo que seja tão nobre a ponto de justificar a entrega de algo tão íntimo, o próprio corpo, para um desconhecido. Sim, o corpo. Não estou dizendo a virgindade. É mais que isso. O nosso corpo é nosso. É o nosso bem maior. Não se deixa tocar, não se troca, não se vende… É nosso. Faz parte do todo. Deveríamos valorizar o que temos. Não entregar por qualquer coisa. Por uma noite de prazer. Muito menos por apenas… dinheiro.

Quando o corpo se torna uma mercadoria

Tempos atrás defendi aqui que não devemos julgar as pessoas pelas roupas que usam. Principalmente, no caso das mulheres. Afinal, não é o tamanho da saia que traduz o caráter. Nem a disponibilidade para o sexo.

Entretanto, há um outro lado: o uso do corpo como estratégia de autopromoção. É o caso, por exemplo, dessas pseudo-celebridades televisivas.

Veja esta foto.

(Foto: Orlando Oliveira/AgNews)

Quem é a garota? Uma ex-latinete que estaria concorrendo ao Miss Bumbum.

Andressa Urach apareceu vestida assim no aeroporto. Precisava? Claro que sim. O produto dela é o corpo. Usar essa roupa para pegar um avião, “parar” o aeroporto rende nota em jornais, fotos em revistas, publicações em sites. É assim que funciona.

Recordo de uma entrevista com o produtor desse evento, o Miss Bumbum. Lembro dele contando que as participantes pagam por serviços de assessoria de comunicação. E são orientadas sobre o que falar, o que vestir e como se portar. Elas vivem para serem flagradas pelas lentes dos fotógrafos. E os flagras, é claro, são armados. O fotógrafo está no lugar certo, na hora certa… e a modelo, óbvio, finge que nem percebeu. Age, digamos, naturalmente.

O público voyer, fascinado por corpos midiaticamente perfeitos, se encanta pelas gostosas de plantão e consome essas informações. Elas se promovem, garantem 15 minutos de fama e ganham dinheiro com isso. Essas “famosas”, seus agentes e todo mundo que transforma corpo em mercadoria… mercadoria em notícia.

Há certa percepção por parte do público de que tudo não passa de imagem. Até os corpos dessas mulheres são fabricados. Porém, prefere-se viver a ilusão. Prefere-se gozar o efeito. A ilusão de um prazer imagético, sem sensações verdadeiras, mas que engana os sentimentos reais e ajuda a tornar a vida mais leve.

O corpo fala

Sim… O corpo fala. E o que fala sobre nós? Sei que vivemos a busca por uma afirmação do corpo, da liberdade de manifestar-se, mostrar-se. Entretanto, o mesmo corpo que queremos assumir como nosso, confunde-se com nossa identidade e serve para que o outro nos julgue.

O sociólogo britânico Anthony Giddens entende que nosso corpo é o meio pelo qual nos apresentamos ao outro. Na prática, é assim funciona… No emprego, na escola ou mesmo nos relacionamentos, a forma como nos mexemos, como nos posicionamos podem influenciar – e muito – a visão que as pessoas têm de nós. O corpo fala. E fala mais que nossas próprias palavras.

Ainda que queiramos nos libertar do olhar do outro, do julgamento, a escolha é nossa em construir, por meio do corpo, relações produtivas ou não. Talvez julguemos que as regras são impositivas e até injustas. Ainda assim, são as regras do jogo.

Devemos prestar atenção em nossa postura, no que ela diz a nosso respeito. Nossa postura pode “vender uma imagem” de pessoas humildes, arrogantes, líderes, poder etc. Talvez sustente uma sensualidade ou erotização não desejada. E isso nos afeta – positiva ou negativamente.

Ter consciência do corpo não é tarefa simples. Assumir-se livre implica compreender qual tipo de liberdade para o corpo queremos e/ou é desejada. 

Ainda no conjunto de manifestações do corpo, muito do que falamos não é verbal, nem mesmo é inconsciente. A gente se entrega e nem se dá conta disso. E até diz o que não quis dizer com o corpo, apenas porque o mundo já possui leituras pré-fabricadas, pré-concebidas.