Difícil não ceder as tentações


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Pequenos atos de corrupção

Na noite do último sábado, troquei uma das lâmpadas do prédio onde moro. Prédio antigo, sem elevador, quando uma lâmpada queima entre os andares, fica complicado subir às escadas. Eu tinha uma lâmpada de LED guardada em meu apartamento. Aproveitei-a para resolver o “problema”. A Rute é a síndica. Então cabe a nós esses cuidados.

Hoje pela manhã, enquanto descia, ao passar justamente pelo andar no qual a lâmpada nova havia sido instalada, notei que a coloração da luz estava bem estranha. Olhei para o teto e lá estava uma lâmpada antiga, barata, que, acho, deixou de ser vendida nas lojas especializadas. O que aconteceu com a lâmpada de LED? Provavelmente, alguém fez a troca. Trocou a lâmpada pior pela melhor.

Não vou mentir: fiquei irritado. Mas mais que isso… Lembrei de discussões que insisto fazer: a corrupção de Brasília, das grandes empresas, as alterações na carne, no leite etc etc. nada mais são que reflexo das nossas pequenas corrupções diárias. Infelizmente, boa parte de nós não vê mal em ser um pouco esperto e conseguir alguma vantagem fácil, sem esforço real, sem trabalhar de fato e pagar pelo benefício.

Jeitinho corrupto

Um país justo se constrói com gente honesta, moral, ética
Um país justo se constrói com gente honesta, moral, ética

É difícil admitir que nossos pequenos atos marginais projetam comportamentos corruptos. Entretanto, é isso que prova um estudo realizado pelo Josephson Institute of Ethics. Baseado em quase 7 mil entrevistas, o relatório aponta que o “simples” ato de colar na escola significa maior possibilidade do sujeito ser desonesto. Pior, países que têm a prática do “jeitinho” são países mais corruptos.

Acho que isso explica muita coisa, né? E também sugere que a condição moral, o comportamento ética se aprende desde cedo.

Recordo que uma das discussões mais polêmicas que faço em sala de aula é justamente sobre a corrupção cotidiana. Costumo dizer que não somos melhores nem piores que os políticos; a diferença está apenas no tamanho dos benefícios pessoais que se tenta obter.

A cola na escola, por exemplo, é um ato de corrupção quase institucionalizado. O discurso estabelecido é bem conhecido: “quem não cola, não sai da escola”. Entretanto, quem trapaceia numa prova está corrompendo o sistema, está buscando uma vantagem pessoal. É verdade que, num primeiro momento, pode parecer apenas uma ação sem prejuízos. No entanto, revela o caráter, revela uma pré-disposição em romper com a “lei” em benefício próprio.

O relatório do Josephson Institute deixa isso muito claro: independente da idade, as pessoas que colaram (ou colam) na escola estão duas ou mais vezes mais propensas a serem desonestas. E os números são contundentes. Vejamos a comparação entre quem colou e quem não colou em situações bem específicas:

Três vezes mais propensos a mentir para um cliente (20% contra 6%) ou inflar uma reivindicação de seguro (6% versus 2%) e mais de duas vezes mais propensos a inflar um reembolso de despesas (10% contra 4%). Duas vezes mais propensos a mentir ou enganar seu chefe (20% vs 10%) ou mentir sobre seu endereço para colocar uma criança em uma escola melhor (29% vs 15%) e uma vez e meia a mais de probabilidades de mentir para o cônjuge ou outra pessoa significativa (35% vs 22%) ou trapacear nos impostos (18% vs 13%).

Na verdade, a corrupção na política, na administração pública e até mesmo nas grandes corporações nasce justamente nas frágeis bases éticas e morais de cada um de nós. A gente não quer pagar impostos, pirateia livros, músicas, filmes… Passa ser natural pagar um vereador para propor uma lei, pedir favor a fim de furar fila e conseguir primeiro uma consulta médica, mentir sobre a condição do motor do carro na hora da venda etc etc. Num patamar diferente, torna-se natural receber “incentivo” para aprovar um projeto, para conseguir recursos para uma obra pública… Quando dá, a gente fura até fila de banco!!!

Embora o estudo tenha sido realizado há alguns anos, um aspecto que se sobrepõe é a necessidade da educação para a formação de um sujeito ético. Os primeiros comportamentos marginais ocorrem na infância. E como as crianças aprendem na relação com o outro, a disciplina e o exemplo são fundamentais. Quando o baixinho tenta levar vantagem, precisa ser corrigido. Contudo, quando ele nota que o pai dá um jeitinho de escapar da multa de trânsito, ou mente que não está em casa quando o telefone toca, tudo que ele diz para o filho deixa de ter valor. Por isso, é preciso combinar orientação e modelo ético.

Dias atrás eu li uma charge:
– Se não reformarem os políticos, não adianta nada.

O discurso está equivocado. A questão não começa lá, começa aqui… entre nós. Se a gente quer um país melhor, não adianta apontar o dedo pra Dilma, pro Congresso… A gente precisa reconhecer os próprios limites – inclusive morais. E mudar. Um país tem políticos honestos quando tem um povo honesto. Um país muda quando a gente muda.

Moradores de rua devolvem dinheiro e viram notícia: quando ser honesto se torna a exceção

Acho que muita gente viu a notícia do casal de andarilhos que achou R$ 20 mil e devolveu. Bom, é provável que você leu, assistiu… Sei lá. A informação está na rede. E o casal, na televisão.

Falei sobre isso na CBN tão logo vi a notícia. Usei-a no comentário com o Gilson nesta terça-feira. Papo leve, agradável e muito elogiado pelos ouvintes. Tudo muito bom.

Mas o que pouca gente percebe é o lado ruim da notícia. Sim, tem um lado ruim. Sabe por quê? Porque o fato não deveria ser destaque na mídia.

É verdade. Esse tipo de coisa chama a atenção, recebe nossos aplausos… A gente diz: “oh, que casal honesto. Que belo exemplo”. Porém, nada disso deveria ser incomum.

O fato desperta o interesse porque não somos honestos. É isso que esta notícia revela. O incomum mostra o que é comum: o normal seria não devolver o dinheiro. E tenho vergonha disso. Não deveria ser assim. Não deveríamos ter no noticiário esse tipo de informação. Deveríamos nos assustar quando o dinheiro some, quando verba é roubada, desviada e não aparece. Infelizmente, o crime, a desonestidade, a falta de ética, o “jeitinho” viraram regra. O ser honesto é a exceção.

A corrupção cotidiana

A manchete da Folha de São Paulo de ontem era esta:

Bens de vítimas de queda de prédios são desviados

Acho desnecessário lembrar a tragédia no Rio de Janeiro. Todo mundo já ouviu, viu e leu sobre o tema. O fato de pertences das vítimas terem desaparecido do depósito onde estavam, também.

O que me assusta nesse fato é ver estampada na manchete da Folha a nossa corrupção. A corrupção de gente comum, de pessoas que não estão no poder, mas que não sentem nenhum constrangimento em desviar os pertences das vítimas que, após serem garimpados nos entulhos, foram destinados a um depósito provisório a fim de, posteriormente, estarem à disposição de familiares etc.

Tenho repetido que a corrupção do poder nasce na sociedade, nos pequenos atos do nosso cotidiano. Embora pareça exagero, sustento que o problema começa em casa nas mentiras que contamos para sustentar nossa máscara, passam pela cola nas provas… Só depois chegam à propina para os guardas de trânsito e, quando em cargos públicos, transformam-se na apropriação indébita do dinheiro do povo.

É isso, no entanto, que não queremos ver. O que acontece em Brasília é a reprodução do que já somos no dia a dia. O dinheiro desviado da saúde não é muito diferente do sumiço de pequenos objetos das vítimas dos prédios que caíram no Rio. A safadeza, a corrupção é a mesma. A gente é que não quer ver, porque é mais fácil atirar contra os ladrões lá de cima do que reconhecer nossas contradições éticas.