Filhos frágeis

Ao observar o comportamento de muitos adolescentes, fico bastante indignado com os pais. É impressionante o que muitos deles têm feito na educação da garotada. Nossos jovenzinhos são frágeis… Não sabem enfrentar os problemas. Não sabem lidar com a vida.

E de quem a responsabilidade? Dos pais! Sim, os pais estão formando uma geração mole. Uma geração de filhos bundões – desculpa o termo.

Essa molecadinha não pode ouvir um não do colega, do professor… e já chega em casa chorando. Aí os pais correm pra comprar a briga dos filhos.

O menino foi alvo de uma brincadeira de mau gosto na escola? Tá lá, no mesmo dia, os pais ameaçando tirar o garoto da escola.

A menina foi excluída do grupinho? Lá estão os pais, nervosos, irritados, tomando as dores da filha.

Chega a ser assustador!

São meninos e meninas que não sabem se defender. Não sabem se impor. E quando tentam fazer isso, a defesa é quase sempre um ato de violência – ainda que verbal.

Tenho repetido que não sou um pai exemplar, mas me orgulho de saber que orientei meus filhos a resolverem seus próprios problemas. Sempre estive pronto pra abraçar, apoiar, aconselhar. Mas a encrenca na qual se meteram era um problema deles. Nunca fui à escola defender meus filhos, nunca tive que conversar com outros pais por conta de problemas deles.

Penso que é dever dos pais permitir que os filhos amadureceram. Isso significa expô-los às dificuldades. A gente tem que aprender a dizer para as crianças:

– Querido, se você se envolver num problema na escola, tente resolver. Fale com o colega, converse com a professora, procure a coordenação. Se alguém te tratar mal, afaste-se. Encontre um jeito de resolver. Eu não vou resolver pra você!

Esse tipo de atitude ajuda no desenvolvimento da autonomia, da confiança.

A vida é dura. E justamente por isso temos que incentivar nossos filhos a se tornarem pessoas fortes. Sensíveis sim aos problemas alheios, mas capazes de lidar com as frustrações, com as decepções, traições… Fortes para assimilarem as pancadas da vida.

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As tarefas que a criança pode fazer dos 8 aos 12 anos

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Muitos pais acham que os filhos são pequenos demais para fazer determinadas tarefas. Porém, a própria constituição psicológica da moçadinha sugere que não há razão para poupá-los. Trabalhar não causa trauma em ninguém. Pelo contrário, aperfeiçoa a própria natureza, o caráter. Enfim, prepara para a vida.

Entre os nove e onze anos
Já é bastante autônomo e tem suas próprias vontades. Também é responsável. Por isso, pode ser cobrado para ter sua própria organização (e não a da mãe ou do pais) com os materiais, roupas… Sua própria poupança. Pode e deve encarregar-se de algumas tarefas domésticas e precisa realizá-las com responsabilidade e certa perfeição. Por outro lado, gosta de ser recompensado pelas tarefas que lhe são atribuídas.

Embora vez ou outra apareçam ainda indícios de dependência, gosta de tomar decisões e opor-se aos adultos inclusive com certa rigidez. É capaz de escolher com critérios pessoais. Geralmente não admite exceções, é exigente e rigoroso.

Identifica-se com seu grupo de amigos e cada um tem sua “função”. Sabe reconhecer a posição de liderança de outras pessoas ou a questiona se julga que não possuir mérito.

Reconhece o que faz de errado, porém sempre busca desculpas. Gosta de decidir por si mesmo e tem necessidade de se afirmar na frente das pessoas, por isso a resistência em obedecer e ao mesmo de tempo de mandar nas crianças menores. Geralmente conhece suas possibilidades, é capaz de refletir antes de fazer algo, aprende as consequências e se sente atraído pelos valores morais de justiça, igualdade, sinceridade, bondade etc. Porém, como disse no texto anterior, carece de um ambiente de bons exemplos para se espelhar.

Entre onze e doze anos
A influência dos amigos começa ser decisiva e sua conduta é influenciada em grande parte pelo comportamento que observa em seus amigos e amigas e companheiros de classe. Os irmãos maiores têm mais influência sobre eles que os pais. Trata-se de uma fase em que as críticas são muito frequentes e dirigidas aos pais e professores. Não gosta que lhe tratem de um modo autoritário, como se fosse uma criança; reclama autonomia em todas suas decisões.

Necessita ter amigos e depositar deles sua intimidade; é leal ao grupo e sua moral é a de seus iguais – imita a forma de vestir, os jogos, as brincadeiras, os passatempos, diversões etc. Quer ser como os mais velhos (como gente de 16, 18 anos…). Tem senso de responsabilidade e trata de cumprir suas obrigações, também se torna mais flexível em seus juízos. Tem capacidade de analisar o que é bom e o que é mal em suas ações, pode pensar nas consequências, conhece com bastante objetividade suas intenções e deseja definir as coisas por si mesmo, ainda que se equivoque.

É uma fase que pode realizar praticamente todas as tarefas domésticas tidas como dos adultos: cozinhar, passar, limpar, lavar, comprar… Não deve ser poupado de ajudar em casa. Porém, as atividades devem ser feitas como parte da dinâmica familiar e não como castigo por desobediência ou algo do tipo.

PS- Com este texto, encerro essa série que trata das atividades que os filhos podem executar em casa. É fundamental, porém, acrescentar que ensinar tudo isso dá trabalho. Por isso sempre digo: se você não tem tempo para educar um filho, não tenha filho. Educar dá trabalho. E requer dedicação, envolvimento, comprometimento, persistência.

As tarefas que a criança pode fazer dos 5 aos 8 anos

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Sabe aquele dizer “quem não trabalha dá trabalho”? Pois é… Com criança também é assim. Por isso, respeitando a faixa etária, os pais não podem ignorar a importância de atribuir tarefas aos filhos.

Na sequência dessa série sobre atividades que os filhos podem realizar, hoje falo sobre o que as crianças podem fazer entre os cinco e oito anos. Também procuro apresentar um pouco como funciona a cabecinha delas.

Entre cinco e seis anos
Nessa fase, a criança já aprendeu muitas rotinas e, embora ainda necessita de um adulto que lhe sinalize o que deve e o que não deve fazer, convém apresentar-lhe possibilidades de escolha entre duas opções. Ela pode ser responsável por tarefas domésticas simples: limpar o pó dos móveis, tirar as coisas da mesa, lavar algumas peças mais simples da louça, preparar a roupa para se vestir, buscar o que precisa para uma atividade concreta… Na cozinha, a criança já dá conta de preparar um lanchinho. E outros pratos mais simples.

Os pais não devem esquecer que a criança segue imitando os adultos e é exigente na aplicação da norma para todos. Ou seja, ela aprende com o exemplo. Não adianta querer que a criança faça pequenas tarefas, se o pai, por exemplo, passa o domingo inteiro afundado no sofá e não se dispõe sequer a tirar o próprio prato da mesa.

Entre os seis e sete anos
Com controle e ajuda para evitar descuidos involuntários, pode e deve preparar sozinha os materiais para a realização de suas atividades. Nessa idade, pode ser estimulada a organizar o próprio quarto… Já dá conta de ir à escola e à casa de amigos ou familiares que morem próximos. Pode ficar responsável por controlar algum dinheiro que lhe é dado semanalmente. E isso, inclusive, é fundamental para aprender a administrá-lo, sabendo que, se gastar mais do que poderia, vai ter de esperar até a semana seguinte para receber uma nova “mesada”.

Geralmente até os oito anos, a criança cumpre as ordens ao pé da letra. Tende a formar grupos de relacionamento com os companheiros do mesmo sexo. Bem orientada, aprende os hábitos sociais relacionados com a saúde, cumprimentos… Vai adquirindo a noção de justiça e compreende as normas morais mediante exemplos concretos. Isto quer dizer, mais uma vez, que, se pais e pessoas próximas dão mau exemplo, a criança aprende errado. Depois não adianta reclamar…

Aos oito anos
Pode controlar seus impulsos, em função de seus objetivos. Sabe bem as consequências de seus atos. É capaz de organizar a distribuição do tempo, do dinheiro e das brincadeiras. Embora ainda careça de alguma supervisão, pode ter responsabilidades diárias: preparar o café da manhã, banhar-se etc… Além, é claro, das atividades que já vinha desenvolvendo em anos anteriores.

Começa a ter vontades independentes dos adultos a respeito de normas e, consequentemente, tenta aplicá-las em sua conduta. Sabe quando e como deve agir em situações habituais de sua vida. Por isso, a atuação das pessoas adultas é decisiva. Se a ação dos pais é autoritária, a criança se torna dependente, submissa e lhe falta iniciativa. Se os pais são permissivos, a criança se transformará em uma pessoa indisciplinada, voluntariosa, irresponsável. Por isso, é imprescindível uma atitude que favoreça a iniciativa, mas com regras claras.

PS- No próximo texto, vou falar sobre as atividades que podem ser realizadas por crianças de oito a doze anos. Aqui (clique no link), você pode ler sobre as tarefas dos dois aos cinco anos; e aqui, o primeiro texto da série.

As tarefas que a criança pode fazer dos 2 aos 5 anos

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Nós, pais, muitas vezes ficamos com pena deles. Ou achamos que são muito pequenos para fazer certas tarefas. Poupamos os baixinhos e, com isso, prejudicamos o desenvolvimento dos filhos.

Como eu havia dito, não há uma única regra. Porém, em linhas gerais, dá para pensar alguns trabalhos que as crianças podem fazer. E isso de acordo com a faixa etária.

Entre dois e três anos
Nessa idade, as tarefas que a criança realiza devem estar sob controle do adulto. Os pequenos ainda não dão conta de compreender direitinho o que estão fazendo… E se estão fazendo bem ou mal a tarefa que receberam. Nessa idade, a criança atua de acordo com as orientações e proibições. Ela colabora com o adulto na organização e também consegue guardar seus brinquedos, calçados, pijama… Podem regar flores e ainda algumas tarefas concretas como colocar ou recolher os guardanapos da mesa…

Entre três e quatro anos
É um período em que as crianças observam a conduta do adulto e a imitam. Elas atuam em função da recompensa ou mesmo do castigo que podem receber. Nesta fase, vão sendo capazes de se controlarem e podem manter em ordem suas coisas. Colaboram na hora de guardar os jogos e devem ficar responsáveis por recolhê-los. Também podem colocar algumas coisas fáceis na mesa como os pratos e os talheres. Já tiram as roupas sozinhas e se vestem com alguma ajuda. Aprendem a compartilhar as coisas e a esperar a vez delas. Mostram interesse crescente por brincar com outras crianças.

Entre quatro e cinco anos
A criança segue observando e imitando o adulto. Necessita de quem lhe guie, mas tem desejos de agradar e servir. Os pais devem aproveitar essa fase para não desestimulá-los com reprovações e reprimendas. Uma coisa é orientar e corrigir; outra é fazer a criança se sentir incapaz.

Os pais devem incentivar as crianças a se vestirem sozinhas, recolherem os brinquedos, se controlarem em espaços públicos – igrejas, teatros, restaurantes etc. Nessa idade, já pode assumir algumas responsabilidades como colocar a mesa, cuidar de algum animalzinho, dar recados… A criança consegue cuidar de irmãozinhos menores por breves períodos de tempo (desde que tenha a presença de um adulto na casa). E deve ser responsável por deixar organizados os objetos que usa.

Entre os quatro e cinco anos, a criança tem capacidade para comer sozinha, calçar-se, lavar-se, tomar banho. Gosta de conviver com outras crianças, faz amizade com facilidade e precisa aprender a respeitar a vontade das demais, ceder nas brincadeiras… Enfim, exercitar a generosidade.

PS- Este texto faz parte de uma série sobre a importância dos pais ensinarem os filhos a trabalhar, ajudando em casa e desenvolvendo autonomia. No próximo, vou tentar relacionar algumas tarefas que as crianças entre cinco e oito anos podem realizar.

Os pais devem ensinar as crianças a trabalhar

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Não existe uma regra mágica que aponte qual a idade certa para desenvolver determinadas tarefas. Tipo: quando posso deixar meu filho fazer um bolo? É certo mandar minha filha passar roupas aos 10 anos? Pois é… Não existe manual. Porém, é errado poupar a molecadinha. A criançada precisa aprender a trabalhar.

O desenvolvimento de algumas atividades depende de muitas variáveis: a maturidade da criança, conhecimentos já adquiridos, educação dos pais, ambiente em que vive, se é filho único, se é o caçula…

Mas a questão nem tem a ver com esse contexto todo. Tem mesmo a ver, segundo os especialistas, com o fato de os pais não atribuírem tarefas aos filhos pequenos. E, muitas vezes, nem na adolescência. E as razões são quase sempre as mesmas.

Algumas famílias consideram que os filhos são pequenos demais para fazer coisas sozinhos. Vestirem-se aos cinco anos para ir à escola, por exemplo. A psicopedagoga Sira Martín fez uma pesquisa e descobriu que mesmo os adolescentes são poupados. No máximo, ficam responsáveis por passear com o cachorro ou levar o lixo à lixeira.

Ou seja, os adolescentes raramente recebem a incumbência de fazer compras no supermercado, lavar o carro ou preparar o jantar.

Na opinião da psicopedagoga, para que os filhos aprendam a ser responsáveis é preciso proporcionar-lhes autonomia pessoal. Ou seja, os pais devem incentivá-los a assumir certas tarefas desde os primeiros anos – claro, respeitando os limites da idade. Quando são muito pequenos, é evidente que não se pode exigir que façam coisas complexas. Nem que executem com perfeição. Por exemplo, se começam a comer sozinhos, não dá para esperar que não derramem alguma coisa na mesa. Conforme vão crescendo, as responsabilidades vão aumentando. Preparar a mochila da escola, diariamente, é uma atividade que a criança logo pode assumir – ainda que sob a supervisão dos pais.

Entretanto, é muito comum que os pais façam por seus filhos o que as crianças poderiam fazer sozinhas. E isso por serem mais rápidos e eficientes. Assim, não é oferecido aos filhos espaço, tempo e um ambiente de confiança para que aprendam a fazer coisas por eles mesmos. O problema, como já disse noutros textos, é que esse tipo de comportamento impede o crescimento da garotada. Desta forma, as crianças crescem sem conhecer e desenvolver as habilidades em diferentes áreas. Além disso, acomodam-se e quase sempre encontram dificuldade quando surgem os primeiros grandes desafios da vida.

PS- Nos próximos textos, vou tentar relacionar algumas tarefas que as crianças podem desenvolver em cada faixa etária.

Filhos podem chorar

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Por que nossos filhos não podem chorar? Qual o problema de frustrar suas expectativas?

Uma das coisas que mais me incomodam no processo de educação é a “prontidão” dos pais. Desde muito cedo fazem tudo errado. Parecem ter medo de causar sofrimento nos pequenos. E ao fazer isso, produzimos crianças ansiosas, estressadas e que podem se tornar tiranas.

Um dos primeiros erros acontece logo nas primeiras semanas de vida do bebê. O pequenino mal se mexe no berço e já estamos ali, prontos, para acolhê-lo. Se chora, já entramos em desespero para descobrir o que está acontecendo. Tenta-se de tudo: da troca de fraldas, passando pela mamada ao remedinho para cólicas. É uma loucura! A criança se acostuma a ser atendida ao primeiro incômodo. Tal comportamento dos pais informa ao bebê que, quando chorar, será atendido. Além disso, esse tipo de ansiedade dos pais ainda prejudica no desenvolvimento de um hábito noturno saudável. A criança não dorme direito e todos passam meses sem ter uma boa noite de sono.

Outro erro grave se dá quando o pequeno passa a acompanhar os pais às compras. Como está em desenvolvimento, é normal que a criança dê show para ganhar um brinquedo, um doce… Quando isso acontece, quase sempre os pais se perdem e atendem os filhos. Primeiro, dizem não. Aí a criança faz birra e consegue o que quer. Motivo? A criança sabe que, se chorar, os pais cedem. Eles sentem vergonha do “escândalo” e falta disposição para serem firmes – temem causar um trauma no baixinho. 

A molecadinha dá trabalho porque muita gente não sabe ser pai, não sabe ser mãe. Por não se preparar, a maioria falha no processo educativo. Além disso, os pais são ansiosos e inseguros. Falta confiança no método. Escuta-se uma coisa aqui, outra ali, o vizinho, a avó… mas não sabem exatamente o que fazer com o filho.

Sabe, se a criança foi devidamente alimentada antes de deitar à noite, está com as fraldas limpas, se não está doente… Enfim, se está tudo bem, deixar chorar por cinco ou dez minutos não faz mal nenhum. Pelo contrário, ajuda o bebê a entender que é hora de dormir. Além disso, após dois ou três meses, não há necessidade de uma mamada a cada duas horas durante a noite. Quem cria o hábito (errado) são os pais que não dão conta de administrar a própria ansiedade.

Bebês não são bolhas indefesas. Deixá-los chorar um pouco não é coisa de pais preguiçosos. Fazem parte das atitudes de pais que acompanham os filhos e entendem que a frustração leva ao aprendizado, que permite torná-los mais seguros. Crianças devem entender que nem sempre terão tudo, nem sempre serão atendidos prontamente. Seja na hora do sono, na compra do brinquedo ou até mesmo no horário das refeições (por sinal, criança tem que ter horário pra comer).

A origem do problema, como eu disse, é a ansiedade de pais despreparados, de pais que vivem nesse mundo tecnológico no qual tudo funciona por um clique, num mundo que tem remédio pra tudo. A maioria, antes de ter o primeiro filho, acha que quando falar “não”, o filho vai aceitar, não vai testar os limites; acha que o bebê aprende a dormir a noite inteira sozinho, não vai fazer manha, birra… E, se acontecer alguma coisa, é só procurar o médico, comprar um remedinho… Acontece que educação ainda se faz do jeito tradicional. Até existem estudos novos que ajudam, mas, para ensinar, é preciso se envolver, investir tempo e afeto, sem ter medo de conter os impulsos dos baixinhos e frustrá-los de vez em quando.

Jeitinho corrupto

Um país justo se constrói com gente honesta, moral, ética
Um país justo se constrói com gente honesta, moral, ética

É difícil admitir que nossos pequenos atos marginais projetam comportamentos corruptos. Entretanto, é isso que prova um estudo realizado pelo Josephson Institute of Ethics. Baseado em quase 7 mil entrevistas, o relatório aponta que o “simples” ato de colar na escola significa maior possibilidade do sujeito ser desonesto. Pior, países que têm a prática do “jeitinho” são países mais corruptos.

Acho que isso explica muita coisa, né? E também sugere que a condição moral, o comportamento ética se aprende desde cedo.

Recordo que uma das discussões mais polêmicas que faço em sala de aula é justamente sobre a corrupção cotidiana. Costumo dizer que não somos melhores nem piores que os políticos; a diferença está apenas no tamanho dos benefícios pessoais que se tenta obter.

A cola na escola, por exemplo, é um ato de corrupção quase institucionalizado. O discurso estabelecido é bem conhecido: “quem não cola, não sai da escola”. Entretanto, quem trapaceia numa prova está corrompendo o sistema, está buscando uma vantagem pessoal. É verdade que, num primeiro momento, pode parecer apenas uma ação sem prejuízos. No entanto, revela o caráter, revela uma pré-disposição em romper com a “lei” em benefício próprio.

O relatório do Josephson Institute deixa isso muito claro: independente da idade, as pessoas que colaram (ou colam) na escola estão duas ou mais vezes mais propensas a serem desonestas. E os números são contundentes. Vejamos a comparação entre quem colou e quem não colou em situações bem específicas:

Três vezes mais propensos a mentir para um cliente (20% contra 6%) ou inflar uma reivindicação de seguro (6% versus 2%) e mais de duas vezes mais propensos a inflar um reembolso de despesas (10% contra 4%). Duas vezes mais propensos a mentir ou enganar seu chefe (20% vs 10%) ou mentir sobre seu endereço para colocar uma criança em uma escola melhor (29% vs 15%) e uma vez e meia a mais de probabilidades de mentir para o cônjuge ou outra pessoa significativa (35% vs 22%) ou trapacear nos impostos (18% vs 13%).

Na verdade, a corrupção na política, na administração pública e até mesmo nas grandes corporações nasce justamente nas frágeis bases éticas e morais de cada um de nós. A gente não quer pagar impostos, pirateia livros, músicas, filmes… Passa ser natural pagar um vereador para propor uma lei, pedir favor a fim de furar fila e conseguir primeiro uma consulta médica, mentir sobre a condição do motor do carro na hora da venda etc etc. Num patamar diferente, torna-se natural receber “incentivo” para aprovar um projeto, para conseguir recursos para uma obra pública… Quando dá, a gente fura até fila de banco!!!

Embora o estudo tenha sido realizado há alguns anos, um aspecto que se sobrepõe é a necessidade da educação para a formação de um sujeito ético. Os primeiros comportamentos marginais ocorrem na infância. E como as crianças aprendem na relação com o outro, a disciplina e o exemplo são fundamentais. Quando o baixinho tenta levar vantagem, precisa ser corrigido. Contudo, quando ele nota que o pai dá um jeitinho de escapar da multa de trânsito, ou mente que não está em casa quando o telefone toca, tudo que ele diz para o filho deixa de ter valor. Por isso, é preciso combinar orientação e modelo ético.

Dias atrás eu li uma charge:
– Se não reformarem os políticos, não adianta nada.

O discurso está equivocado. A questão não começa lá, começa aqui… entre nós. Se a gente quer um país melhor, não adianta apontar o dedo pra Dilma, pro Congresso… A gente precisa reconhecer os próprios limites – inclusive morais. E mudar. Um país tem políticos honestos quando tem um povo honesto. Um país muda quando a gente muda.

Crianças obesas e a responsabilidade dos pais

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Comer é uma das melhores coisas do mundo. Não é sem razão que a gente, ao comemorar alguma coisa, pensa logo em comida. Entretanto, o prazer de comer tem se transformado num enorme problema: a obesidade. E a situação se torna ainda pior porque tem começado ainda muito cedo. Estudos sugerem que cerca 1/3 da molecadinha está acima do peso. Sabe o que é pior? Os adultos são os culpados – principalmente os pais.

A gente se preocupa demais com o peso, mas faz muito pouco pra mudar os hábitos. A gente come porcaria, come fora de hora, come demais e faz exercícios de menos. E as crianças crescem vendo nossos exemplos. Agora, um estudo recente, identificou um outro problema: pais de crianças obesas fazem muito pouco para ajudá-las. Na verdade, metade deles não acha que o filho obeso represente um problema. São pais que subestimam o excesso de peso dos filhos. Parecem que não enxergam o que está acontecendo. Isso é grave demais!

E é grave porque criança gorda é meio caminho para um monte de doenças. As autoridades de saúde dizem que ainda na infância têm crescido os registros de hipertensão, colesterol alto, os casos de diabetes, enfraquecimento dos ossos… A coisa é feia. E os pais seguem dando bobagem para os filhos. Bolachinhas recheadas, salgadinhos industrializados, refrigerantes, sorvetes, balas… Tem família que não sabe mais o que é ter um almoço com arroz, feijão, carne, legumes e saladas. Frutas então??? Nem feitas em vitamina.

A molecadinha não sabe brincar. Quer dizer, até sabe – desde que no computador, nos videogames, smartphones, tablets… Acomodados, nós, pais, nada fazemos para mudar essa realidade. Nem na mesa nem na prática de atividade física. Futuro? Difícil saber… Talvez, como ouvi dias atrás de um médico, vamos começar a ver muito cedo uma redução na expectativa de vida. Ou gente vivendo muito, mas à base de medicamentos, sem qualidade de vida.