A sedutora Black Friday

A Black Friday é uma grande celebração do consumo. Consumo que há muito tempo deixou de ser a concretização de uma necessidade. Hoje, é a satisfação de desejos. Desejos que são estimulados por diferentes estratégias de comunicação e marketing.

Um dia de promoções em toda a rede lojista do país é apenas mais uma das estratégias de mercado. Na prática, temos promoções o ano todo. E, com frequência, os preços praticados estão muito próximos dos que podemos conseguir num dia qualquer (se for feita uma pesquisa razoável em diferentes empresas).

Ou seja, a compra de um produto sempre pode ser adiada. Não é, quase sempre, porque a ansiedade é grande… É “preciso” realizar o desejo de ter aqui e agora o objeto desejado.

E o que é adquirido logo perde a graça. Em pouco tempo, outro produto terá de ser comprado.

Na verdade, como diz o sociólogo Zigmunt Bauman, o mercado não sobreviveria se as pessoas se apegassem às coisas. Estas logo devem ser descartadas…

A arte do marketing está voltada para evitar a limitação de opções. Quando se abre o site de uma loja virtual, as possibilidades são tantas que, por vezes, ficamos tontos, indecisos.

Não compramos apenas o necessário; compramos o que salta aos olhos. Afinal, a sociedade de consumo funciona sob a lógica do desejo, do despertar e do realizar os desejos por meio das compras.

Os desejos são cultivados de forma cuidadosa. E frequentemente são caros. Não poucas vezes, causam endividamento e comprometimento da renda e até de compras futuras, inclusive de objetos e/ou serviços realmente necessários.

Porém, poucas pessoas dão conta de passar “em branco” numa Black Friday. Já estamos condicionados. A sociedade moderna-líquida é destinada e feita para o consumo.

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Cuidar de si mesmo

Escrever sobre suas angústias, sonhos, desejos é forma de se conhecer e cuidar de si mesmo
Escrever sobre as angústias, sonhos, desejos é forma de se conhecer e cuidar de si mesmo

Tenho a impressão que um de nossos maiores desafios é cuidar da gente, do coração, das emoções. Temos tempo pra tanta coisa, mas quase nunca olhamos para nosso interior, para nossas necessidades.

Quais são meus sonhos?
O que me agrada?
O que me faz bem?
O que desejo para minha vida?
Como construir meus dias?
De que forma conquistar as pessoas que amo?
Como me livrar das coisas ruins?

Nem tudo a gente consegue fazer, é verdade. Entretanto, viver bem passa por se conhecer. E mais que isso: ter tempo para olhar para o interior, para seus próprios pensamentos.

A vida em movimento reclama pausa, reflexão, introspecção. É assim que a gente dá conta de saber o que se quer e como alcançar. Também é assim que notamos nossos limites e desenvolvemos estratégias para crescer como indivíduos.

Não há vida sem sonhos. Mas não há sonhos realizados sem planos, projetos e conhecimento de si mesmo.

Por um ano bom…

O universo conspira a favor daqueles que estão dispostos a mudar
O universo conspira a favor daqueles que estão dispostos a mudar

Estamos em 2013. Qual a diferença entre hoje e segunda-feira, último dia de 2012? Sinceramente, pelo menos pra mim, tirando que no 31 todo mundo estava em clima de “vamos festejar”, é só mais um dia.

Não, não estou querendo ser pessimista. E nem sou pessimista. É apenas um fato. As comemorações são rituais necessários. E ajudam muita gente a repensar a vida, fazer planos, projetos… e até iniciar alguns. Porém, a maioria começa fazendo as mesmas coisas. Às vezes, até dá uma pausa – por causa das férias. Mas, quando o ano começar de verdade, estará lá repetindo os mesmos erros do passado, vivendo a mesma vida de sempre, reclamando das mesmas coisas.

Costumo brincar que, pra mostrar que vamos viver mais do mesmo, a Rede Globo anuncia já nas primeiras horas do ano novo o início de mais uma edição do Big Brother. Bom, quem deixou a TV ligada por alguns minutos nesses dias já deve ter “esbarrado” com o Pedro Bial.

É por isso que defendo uma tese que me acompanha há algum tempo: o ano novo começa quando a gente quiser que comece. Pode ser em janeiro, fevereiro… ou em agosto. Não importa. A gente decide quando vai fazer as coisas diferentes. A virada de nossa vida é uma escolha nossa. Não está atrelada ao calendário. O calendário até pode fazer bem, por causa da sensação de novidade que a mudança numérica traz. Entretanto, não existe nada mágico. A magia está em nós. Em nossa determinação, em nossos esforços para transformar sonhos em realidade.

Feliz 2013!

Eu faço o que quero?

liberdade
Você faz? Tudo, tudinho? Aquilo que dá vontade de fazer… você faz? Sente-se livre pra fazer? Ou faz escondido? Tem que pensar duas vezes? Tem que prestar contas depois?

O conceito de liberdade é muito amplo. Ao mesmo tempo, contraditório. Somos livres, mas não totalmente. Há regras, convenções. Nem tudo que queremos, fazemos (ninguém anda nu pelas ruas, ainda que tenha muita vontade de fazer isso). E outras vezes, para fazer, é preciso dar um “jeitinho”.

Viver em sociedade é abrir mão de ser você. As regras sociais afetam nossas escolhas. A gente pode não gostar, mas elas são fundamentais. Do contrário, teríamos um verdadeiro caos. Para que as coisas funcionem nem tudo é possível experimentar. Ou, se há vontade, vive-se, mas… às escondidas.

O sujeito sente vontade de tirar o dia de folga. Não pode. Porém, inventa um desculpa e garante as horas de lazer. Contudo, o coração fica a mil, porque sabe que burlou as regras. Se for visto, está enrolado. Pode até perder o emprego.

A garota está louca para sair sábado à noite com as amigas. Mas, se falar pra mãe, não terá autorização. Então, diz que vai dormir na casa de uma delas, cria um álibi, e faz o que estava com vontade. No entanto, proíbe todo mundo de postar fotos no Facebook. Se a mãe encontrar a foto, acaba a farsa.

Em ambas situações, os desejos foram realizados. Talvez até com certo prazer. Teve aquela adrenalina, o coração palpitando… E isso dá uma sensação gostosa. Porém, permanece o sentimento de “não podia”. Atropelam-se as regras, mas fica o medo da descoberta. O prazer é pela metade, pois sempre há o risco de a “conta” ser cobrada.

Por falar em medo, o medo de ser visto, descoberto… é o principal sintoma de que ninguém é plenamente livre. Vive-se por um sistema. Quem viola o sistema, é marginalizado. É excluído do grupo. E a gente não quer isso. Então, nem que seja necessário viver de aparências, faz-se o que for preciso para permanecer no círculo social.

Por isso, de alguma maneira, somos hipócritas – uns mais, outros menos, mas todos são. Escondemos os desejos, silenciamos ou os realizamos às escondidas. E, pior, também cobramos do outro os mesmos comportamentos. Afinal, quando chegamos por aqui, disseram pra nós que há um jeito de viver. É preciso encaixar-se.

Isso vai mudar? Óbvio que não. Talvez nem seja interessante que mude. Porém, a humanidade seguirá vivendo entre dois mundos – o que é passível de mostrar e o que carece esconder. E a frustração pelos desejos não realizados, parte da natureza do próprio homem.

Prisioneiros de si mesmos

triste sozinha

Cheguei há pouco de uma corrida na chuva. Caminhar, correr são coisas que gosto. Mas, na chuva, não diria que seja algo que faço rotineiramente. Entretanto, com a academia fechada nas férias, não dá pra descuidar. Então, por volta das 20h, coloquei short, camiseta, tênis e saí pro parque. Confesso que, apesar da água escorrendo no rosto e molhando toda a roupa, a sensação é agradável – sem contar que não há riscos de trombar com ninguém. Porém, sair de casa foi uma “briga”.

Enquanto corria, pensava… O que somos? Somos uma mente em movimento. Claro, tem corpo, alma… essas coisas todas – dependendo, claro, da posição religiosa de cada um. Mas tudo passa pela nossa mente. Ou, como prefiro, nossa consciência (pra quem gosta de teorias, falo de consciência na perspectiva de um autor russo chamado Bakhtin).

Por que falo da consciência? Dessa mente em movimento? Por uma razão bem simples: quando decidi correr na chuva, fiz isso por uma escolha. Uma escolha que nasceu e se realizou na minha mente. De verdade, a ideia não parecia a mais divertida. E acho que a maioria das pessoas pensa a mesma coisa. Afinal, não havia mais ninguém no parque. Camisa molhada, tênis molhada… Um friozinho… Nada parecia empolgante. Por que relutava ir? Qual o prejuízo? Apenas o desconforto do corpo. Minha mente não seria molhada. Apenas o corpo. Se minha mente ignorasse a chuva, achasse normal a gotas d´água caindo sobre a cabeça, não teria problema algum. Tudo passaria – e passou – pela maneira como eu encararia o cenário.

Sabe, de certa forma é bem isso: o corpo é apenas a “casa” de nossa mente. Nossa consciência é que comanda tudo. Não raras vezes, travamos diante da vida não porque não somos capazes, mas porque acreditamos ser incapazes. 

Este é um drama diário. Nosso corpo é motivado por desejos. Mas quem comando o corpo? Deveria ser nossa mente. Nem sempre é. Mas deveria. Não raras vezes nos tornamos reféns do corpo, dos desejos. Ou da ausência deles. E a mente fica presa a um corpo cheio de vícios. O sujeito sabe o que fazer, mas não consegue fazer. Onde está o problema? Na ausência de comando. A mente (a consciência) não consegue fazer o corpo responder. As atitudes não respondem à razão, apenas aos desejos.

Diante de um banquete, a pessoa perde o controle. Sabe que não pode exagerar, mas come mais do que deve. A pessoa está acima do peso, sabe da importância de exercitar-se, mas fica adiando. Nunca começa.

E o que dizer dos bloqueios emocionais? O sujeito está numa entrevista de emprego, sabe o que deve fazer, mas não consegue. Mal dá conta de abrir a boca. Depois sai dali lamentando-se e se achando a pior pessoa do mundo. O camarada conhece uma garota maravilhosa. Porém, não consegue sequer convidá-la pra jantar. Tem medo de ouvir um “não”.

Outras tantas pessoas olham pra si mesmas de maneira negativa. Olham para o espelho e se enxergam desprovidas de beleza, incapazes, derrotadas. O problema é físico? Não, não é. O corpo apenas sofre as consequências de uma mente. A sua consciência está deformada e o cérebro não comanda. Nada dá certo. E o problema está lá dentro… Na maneira como a própria pessoa se vê.

Tem saída? Sempre tem. Entretanto, é preciso acreditar em si mesmo. Transformar a mente em comandante do corpo. Uma consciência doente vai matando o corpo aos poucos… aniquilando os desejos, roubando a vida. Uma mente passiva, que se deixa dominar pelos desejos também causa dor, pois agride a razão. Nessa guerra, são vencedores aqueles que valorizam os desejos, mas sabem controlá-los por meio de sua consciência. São vencedores aqueles que conhecem a si mesmos, dominam as próprias vontades, superam as crises de auto-imagem e entendem que somos aquilo que pensamos ser.

Como disse certa vez o escritor alemão Goethe:

Não basta saber, é também preciso aplicar; não basta querer, é preciso também agir.

Não adie seus sonhos

Felicidade se vive agora; não se transfere para o amanhã

Vez ou outra a gente encontra pessoas que dizem:

– Ah, quando eu me aposentar, vou fazer uma viagem de aventura. Quero pegar um carro e sair por aí… sem rumo.

Ou:

– Quando meu filho casar, e ficar só eu e meu marido, todo fim de semana quero ir num lugar diferente.

Também:

– Quando comprar minha casa, vou poder receber os amigos.

São sonhos. Desejos. Planos. Projetos. Todos nós temos. E são eles que nos movem. Entretanto, por que não podemos vivê-los agora? Realizá-los?

Por que precisam estar tão distantes?

Quem tem certeza de que vai viver até se aposentar? Ou estará casado quando o filho sair de casa? E se não der pra comprar uma casa?

Sabe, às vezes fico observando e noto que muitos de nós apenas sobrevivemos. Transferimos tudo aquilo que nos daria prazer para o futuro.

Nos contentamos com migalhas da vida e deixamos de saborear o prato principal.

O emprego é ruim, a gente sonha com um melhor, mas não corre atrás. Estamos solitários, sem amigos, mas projetamos fazer amizades quando tivermos mais tempo. O relacionamento está uma droga, mas idealiza-se viver um conto de fadas quando encontrar o príncipe encantado.

Tá… Por que não agora?

A felicidade não é caderneta de poupança que a gente deixa lá quietinha rendendo juros pra sacar no futuro. Felicidade não se transfere pra depois. Haverá depois?

Sonhos não se adiam. Felicidade não se deixa pra amanhã.

O momento de fazer o que se deseja fazer é agora.

Se algo impede, temos que enfrentar, remover pra viver.

Algumas pessoas passam uma vida inteira num trabalho que odeiam. Outras fazem cursos que as esgotam. Tem aquelas que arrastam um relacionamento doentio por anos… Sofrem, envelhecem e, quando percebem, estão sozinhas.

O momento de viver é agora. Se a gente sabe o que quer, por que não tentar?

É verdade que pode dar trabalho. Talvez seja bem difícil. Quem sabe seja necessário abrir mão de algumas coisas, perder dinheiro, começar do zero e até ferir pessoas queridas. Porém, quem disse que é justo machucá-las um pouquinho todos os dias vivendo uma mentira? Sim, porque se nossos sonhos são outros, por vezes, o que se vive no presente é uma mentira.

Adiar sonhos é aceitar o “não viver”. É negar a si mesmo o direito de ser feliz. É deixar de amar e ser amado. É torturar-se todos os dias, aceitando viver a dor hoje pela expectativa de um sorriso que talvez nunca possa vir.

Relacionamentos idealizados

O que você espera dele? O que deseja encontrar nela? Relacionamentos também são construídos sob expectativas. A gente idealiza coisas. Pensa em como deveriam ser. Espera por determinadas reações.

Ela te faz uma pergunta, você responde e…
– Hum… por que me disse isso? Deveria ter dito aquilo.

Às vezes, até a pergunta que ela faz tem uma resposta prevista. Não a sua; a dela, é claro.

Expectativas estão em tudo. Antes, durante e depois do relacionamento. Sim, porque até quando o romance acaba, algumas reações são desejadas.

Sabe, antes de o relacionamento começar, muita coisa passa pela cabeça. A mente humana é incrível, criativa. E trabalha sob perspectivas reais e imaginárias. O mundo ao redor, relacionamentos conhecidos ou vividos apenas no cinema dão cor e tom aos nossos desejos.

Pinta-se o sujeito ideal. A garota perfeita. O parceiro tem gestos previstos, tem palavras, discursos encantadores… Tem atitudes admiradas. Na mente, a pessoa amada está pronta. Ela até tem defeitos, pois o cérebro nos avisa que todo mundo tem defeitos, mas os defeitos, em nossos sonhos, não incomodam. São silenciados pelo comportamento nobre, digno de alguém que sabe amar, que valoriza a pessoa amada.

Vez ou outra, a garota conhece alguém… E, de longe, vislumbra tudo que desejou. Ou, quem sabe, pelo menos pareça ser a resposta as suas preces.

– Dessa vez, não vou errar.

Talvez ele seja bonito, tenha um ótimo papo… Cultive um humor capaz de tirar um sorriso mesmo em dias ruins.

Parece perfeito. A concretização das expectativas. É hora de se entregar.

Acontece que nem sempre sai tudo como previsto no script. Por vezes, as expectativas são frustradas. E o relacionamento dos sonhos torna-se só mais um na lista de decepções. Às vezes, a pessoa por quem se apaixonou nem era das piores, mas as expectativas geradas eram tão grandes que, atendê-las, estava acima das possibilidades do outro.

Já escrevi aqui sobre relacionamentos exigentes, sobre as chatices cotidianas… e até mesmo sobre a idealização do romance. Entretanto, noto que num tempo em que os compromissos são frágeis e as bases do relacionamento são egoístas – estão voltadas para a realização da satisfação pessoal e ao prazer (principalmente sexual) -, gente que ama de verdade é coisa rara. Mas o desejo humano segue ali, incomodando, reclamando um relacionamento firmado em sentimentos verdadeiros, fidelidade, carinho, compreensão, atenção… Por isso, o coração sente-se solitário, vazio, infeliz… E esse é o campo ideal para o desenvolvimento de tantas expectativas.

Cá com meus botões, acho as expectativas necessárias. Não devemos exagerar, é claro. Mas elas são o resultado dos nossos desejos, daquilo que a gente quer pra gente. Porém, também penso que, para não viver se machucando, quem está à procura de um amor deve ter mais cautela. Prudência mesmo. Essas palavras estão fora de moda, o negócio agora é curtir, aproveitar, ver onde vai dar. No entanto, não acredito que o coração goste tanto disso. De vez em quando, perder a razão pode até fazer bem. Mas relacionamentos de verdade são construídos… E uma construção implica tempo. Saber esperar.

Por isso, quando se conhece alguém, por mais que pareça ter as marcas idealizadas em nossos sonhos, ir devagar ainda é a melhor estratégia para não sofrer depois. E se o outro tiver pressa, está aí um primeiro sinal de que as coisas não vão ser tão boas quanto se deseja.

Ninguém conhece ninguém em dois encontros. Ninguém conhece ninguém em dois meses de convivência. Conhecer é conhecer. É conhecer quando se está feliz ou triste, quando se está bem ou com raiva. Conhecer é saber como o sujeito trata pai, mãe, irmãos… colegas de trabalho. Como é no trânsito? Respeita as pessoas? Cumprimenta o porteiro? Maltrata o pedinte? Ah… e animais. Sim, como esse camarada por quem você está apaixonada trata os bichos domésticos? Será que ele é louco para atropelar um cachorro?

O que ele acha do sexo? Você vai primeiro pra cama pra depois descobrir o que ele pensa sobre o assunto? E aqui não estou falando se ela gosta muito ou não… Nem de posições, de quantidade de vezes…

Talvez o papo por aqui esteja chato… Mas, cá com meus botões, ainda entendo que somos importantes demais para sermos tão descuidados com a escolha das pessoas que entram em nossa vida. Se você se ama, dê uma chance a você. Não estou sugerindo pra ser egoísta, apenas se respeitar. E entender que relacionamentos são mais felizes quando construídos sem pressa, vivendo cada coisa a seu tempo.

Dor se deixa doer

Foto: Pedro X. Moreira

Às vezes, não há desejo, não há vontade. Nada. Só o sentimento de abandono. Busca-se paz. Onde encontrar? Espírito inquieto, mente confusa, corpo trêmulo… Tensão. Não parece haver razão para tamanha inquietude. Mas dores da alma não se explicam.

Há dias em que tudo que sobra é o vazio. Vazio absoluto. Pelo sim e pelo não, segue-se vivendo. Vivendo ou sobrevivendo? Não dá para saber. Viver é estar, é sentir, é notar, ser notado, amar e ser amado. Sobreviver é meio assim, assim… Deita-se e acorda-se, passa-se o dia. Mantém-se vivo. Vivo por ainda haver existência. Porém, morto para as emoções, para os sentimentos.

As buscas são insanas. O destino é desconhecido. As pessoas próximas são apenas números. Esbarro, ouço, falo. Existem, mas não estão em mim. Não as sinto. São rostos, são sorrisos… Ou lágrimas. Mas nada significam. Estou mergulhado em mim. Os outros são os outros. Neste mergulho, os sentimentos estão perdidos. Dor ou prazer parecem ser uma só coisa.

Quem sou? Onde estou? Para onde vou?

Vez ou outra, sentimo-nos assim. São sentimentos humanos. Nessas horas, nada e nem ninguém podem tornar nossos dias melhores. E quem se envolve, tenta ajudar, talvez se veja impotente, um estranho caminhando por estradas desconhecidas em meio à escuridão.

Não, não há jeitinho. Não existe um “faça isto e você vai ficar bem”. Auto-ajuda é coisa para iludidos. E emoções intensas podem ser confusas, mas não se enganam com palavras bonitas. Dor se deixa doer. Experimenta-se sem fuga até o ponto de, nesse mergulho, encontrar-se e voltar a ver o brilho do sol, a beleza da vida. Por alguns instantes, será possível respirar…