O outro é meu espelho

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A necessidade de acolhimento, de aprovação, do aplauso alheio pode nos levar a viver uma mentira. Já falei aqui várias vezes sobre o risco de assumirmos um personagem que mata a nossa personalidade e destrói nossa autoestima. 

Porém, a preocupação com a avaliação do outro tem um lado positivo. Qual é? Quando essa preocupação motiva uma mudança. 

O outro sempre será nosso espelho. E se soubermos aprender com isso, podemos crescer como pessoas. 

Por exemplo, se eu noto que todas as vezes que meus colegas de trabalho se dispersam quando me aproximo deles no refeitório, eu tenho um indicador de que algo não está funcionando. E numa situação como essa tenho algumas possibilidades de reação… Talvez o problema seja comigo; talvez seja com eles. E aí reside a diferença entre quem é bem resolvido e quem não é; entre quem é capaz de aprender com o outro e quem se moda ao outro apenas para ser aceito. 

Neste exemplo, você pode ter um grupo de pessoas que se dispersa quando você chega, porque você é aquele cara sério, que não gosta de fofocas e não aceita piadas machistas. Se você se molda ao grupo para ser aceito, você está atropelando sua identidade. Ou seja, você precisa trabalhar isso para não viver em busca de aprovação dos outros. 

Porém, tem o outro lado… Talvez você seja aquela pessoa chata, que reclama de tudo, vive se lamentando ou fazendo piada sem graça… Gente com disposição para aprender pode notar nesse afastamento dos colegas a necessidade de mudar, de se tornar uma pessoa mais agradável. E esse tipo de mudança faz crescer… Torna mais sociável, mais amigável… 

Ou seja, o outro é importante para meu crescimento. Quem diz “eu sou assim e quem quiser gostar de mim, ok; quem não quiser, dane-se”, quem pensa assim, estaciona na vida, não passa de um estúpido. 

O outro deve sempre me levar a uma reflexão, a uma autocrítica. Não se trata de insegurança; trata-se da necessidade de autoconhecimento. Eu me olho e questiono: “tem algo em mim que não está funcionando e precisa mudar?”. 

Ser bem resolvido não é estar acima das críticas alheias; é reconhecer nas críticas que recebo se são vazias ou são degraus oferecidos pelo universo para meu crescimento. 

Ter alguém que diga “você está errado” é um privilégio

Defendo a importância de aceitarmos ser confrontados pelas outras pessoas quando estamos agindo de forma errada. Ter alguém que diga “você está errado” é um privilégio.

Quando alguém aponta nossas falhas, temos a chance de mudar as nossas práticas e tomar um outro caminho.

Por outro lado, também defendo a ideia de que é preciso saber criticar alguém. Saber falar. Se alguém vai apontar o erro do outro, a chance de incomodar é de 100%; então que pelo menos seja gentil.

Mas aí vem a grande questão: a maioria das pessoas não têm a polidez, a empatia e nem o amor necessário ao outro para confrontar da maneira adequada. Isso nos coloca num impasse: se a crítica for agressiva, exagerada, maldosa devemos ignorá-la?

Entendo que algumas vezes é necessário deixar pra lá. Mas isso não significa deixar de ouvir. Tem que ter estômago? Sim. Mas sempre devemos ouvir e filtrar.

Como fazer isso? Respondo: a pessoa fala um monte de coisas… Você ouve tudo e avalia: eu faço isso? O que estou fazendo poderia ser interpretado da maneira como a pessoa está vendo?

Se você não faz e nem há chance de suas atitudes serem interpretadas de um modo equivocado, você ignora e segue em frente. Talvez a pessoa falou o que falou, te agrediu, por ser mal resolvida, mal amada e estar com inveja de você. Porém, se algo te incomodou ou sobrou um pontinho de interrogação, pergunte a alguém que você confia; de preferência, para uma pessoa mais madura, experiente: ei, eu tenho feito tal coisa? Você acha que estou errado?

Não precisa nem citar que foi criticado. Muito menos falar o nome da pessoa que te confrontou. Apenas pergunte, como se estivesse pedindo ajuda, pedindo uma opinião.
Em algumas ocasiões, se não estamos errando em nossas ações, podemos estar nos comunicando de forma inadequada com quem convive conosco.

A abertura para ouvir as críticas é um passo transformador. O nosso desenvolvimento pessoal passa pelo reconhecimento e abandono de determinados hábitos e atitudes que, por vezes, se tornaram naturais para nós.

Pais não são amigos dos filhos

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Confesso que muitas vezes me sinto tentado a confidenciar certas coisas aos meus filhos. Num tempo em que a gente praticamente não tem amigos, não consegue confiar nas pessoas, os filhos parecem ser “o ouvido” ideal.

Mas não são. Filhos são filhos. Não são amigos.

Na verdade, é um erro mudar a dinâmica do relacionamento pais e filhos. Pais são referência, são exemplo, não são amigos. Com amigo, temos outro tipo de relacionamento. Sei que muita gente usa o argumento “seu pai é seu melhor amigo” ou “sua mãe é sua melhor amiga”, mas, quando isso acontece, perdem os pais, perdem os filhos.

A situação é muito problemática na infância, adolescência e juventude. No entanto, na fase adulta, também há prejuízos.

Antes da maturidade, quando os filhos são feitos confidentes dos pais, atropela-se o bom senso… Eles desconhecem o universo adulto. Não possuem experiência suficiente para ajudar os pais. E o desenvolvimento emocional deles fica comprometido, porque criam expectativas distorcidas do que é a vida adulta. Além disso, esse tipo de dinâmica, aprisiona os filhos. Impede-os de ter novas experiências.

Lamentavelmente, as confidências muitas vezes estão voltadas para o que acontece entre o pai e a mãe. O pai fala da mãe para o filho… A mãe fala do pai… E a criança fica no meio das frustrações do casal. O filho acaba ocupando o papel que seria do cônjuge, de um amigo, de um terapeuta. E sabe o que é pior? Muitas vezes, o filho toma partido de um deles e desenvolve sentimentos negativos. Outra consequência se dá quando o filho cresce e vai ter seu próprio relacionamento… O namorado, a namorada passam a ser referenciados pelas experiências vividas no casamento dos pais.

Os pais podem e devem falar dos seus problemas com os filhos. Se está triste, se anda com dificuldades no trabalho… Mas não dá para pedir colo. As conversas precisam ser numa perspectiva educativa. Até para mostrar que também falham, fracassam, se frustram.

Filhos também carecem de liberdade para falar com os pais. Contar seus dilemas, pedir orientação. Os pais podem ser bacanas, divertidos… Entretanto, os pais estão ali para acolher, disciplinar, conter. O papel de amigo é um; o de pai e mãe, é outro. Quando os papeis se confundem, a hierarquia é quebrada. Pode se perder o respeito e a autoridade.

A relação entre pais e filhos deve ter muito afeto, aceitação, perdão. Mas amizade é uma relação entre iguais. Presume-se mais que confidências. Entre amigos, a gente desabafa, compartilha coisas, faz coisas juntos, fala bobagem… Com amigo, a gente “peca” junto, acerta junto… Amigo interfere sim na vida da gente, mas não determina, não disciplina.

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E mesmo na fase adulta, quando a relação se torna de “amigos”, tudo se confunde. Não demora para a filha estar falando do marido para a mãe… Depois, faz as pazes, se ajeita… Mas os pais acabam ficando “ariscos” com o genro. O inverso também acontece com a nora. Sem contar os casos em que se perdem os limites. Pais, filhos, netos se misturam a tal ponto que começa a faltar respeito. Ninguém cresce.

Numa conversa com a psicóloga Adrina Furlan, ela disse que pais que fazem de amigos os filhos revelam que são incapazes de ter seus próprios amigos. Assim, acabam por “escravizá-los” neste tipo de relação.

Os filhos também se tornam inseguros. É como se os pais se tornassem um “ego externo”. Como não se desenvolveram, não possuem autonomia. Não sabem julgar o que é bom ou ruim para a vida, sempre precisando do aval ou parecer dos “amigos pais” para tudo. E é obvio que isso se torna um grande desastre para a vida.

Aos pais, também não é bom, pois agindo assim nunca verão os filhos como seres separados, independentes, adultos. Passam a vida inteira considerando-os crianças, incapazes de tomar as próprias decisões.

Enfim, por mais que alguns não queiram admitir, os papéis devem estar bem definidos. A Psicologia tem mostrado que a natureza humana reclama esses limites. Entre pais e filhos, há regras, posições distintas. Para o bem de todos e desenvolvimento emocional saudável, pais devem ser só pais.