Pessoas boas estão condenadas à ruína

Às vezes a gente se depara com ideias ou mesmo premissas que incomodam profundamente. E incomodam, porque contrariam tudo aquilo que defendemos ou entendemos ser o certo.

Ainda ontem li uma citação de Nicolau Maquiavel que me machucou bastante. Diz:

O homem que tenta ser bom o tempo todo está fadado à ruína entre os inúmeros outros que não são bons.

Evidente que não sou perfeito. Nem reúno as qualidades que gostaria de ter. Mas uma de minhas lutas interiores é por ser uma pessoa boa. E por bom entendo a integridade, a honestidade, a sensatez, fidelidade, lealdade, a compreensão, o respeito à diversidade…

Entretanto, o desejo de ser bom parece não encontrar apoio no mundo em que vivemos. Semelhante ao lamento do rei Davi, que dizia não entender a prosperidade dos homens maus enquanto as pessoas boas sofriam, o mundo não premia quem busca ser correto, uma vida virtuosa.

Na verdade, fazer o certo agora parece ser errado; e o errado, o certo.

A recomendação de Maquiavel vai justamente nesta direção: quem deseja ter sucesso, ser próspero e respeitado pelo mundo, não pode ser bom. Num mundo em que as pessoas não são boas, quem é bom vai à ruína, segundo o filósofo.

Cá com meus botões, embora entenda que Maquiavel tem razão, ainda prefiro acreditar que vale a pena ter uma conduta digna, mesmo que a sociedade não garanta recompensas às boas pessoas.

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Quando a relação termina é preciso sofrer com dignidade

Relações terminam. Amores esfriam e acabam. Algumas vezes, nem é falta de amor. São os desencontros cotidianos que desgastam o relacionamento e motivam o fim do romance. E, por mais dolorido que seja, relacionamentos chegam ao fim. O sonhado “felizes para sempre” nos escapa em um beco qualquer… Poucos passam pela vida tendo amado uma única vez. Acho que todo mundo tem ex… ex-ficante, ex-namorado, ex-marido… Algum tipo de ex… alguém por quem você um dia se apaixonou perdidamente, mas que ficou pelo caminho.

Embora seja natural que um relacionamento acabe, nem todo mundo sabe lidar com isso. Não, não estou dizendo que não dói. Dói sim. E muito. Entretanto, tem gente que perde a razão quando o romance termina. A pessoa simplesmente pira. Chora, briga, xinga, liga 200 vezes por dia, manda mensagem no celular, deixa recado no facebook, coloca bilhetinho no para-brisa do carro do sujeito, passa no trabalho dela todo o dia, insiste pra voltarem a conversar, faz escândalo se encontra o ex (ou a ex) em algum restaurante, balada… joga presentes fora, ameaça, faz chantagem emocional… Uma coisa de doido.

Sabe, o que precisamos entender é algo muito simples: é direito do outro querer ir embora. Machuca? Machuca sim, mas o outro tem direito de querer te deixar.

Quando a relação termina, a gente tem que sofrer com dignidade. Vale tentar reatar? Penso que sim. Se o sentimento ainda está vivo, se ama o outro e acredita que pode dar certo, vale tentar. Mas sem desespero, ansiedade… Se o outro diz que não dá, não dá. Pronto. Insistir demais só desgasta e prolonga o sofrimento.

Ficar chorando, fazendo drama… tentar comover o outro com ceninhas… é coisa de quem não sabe amar. Chantagem emocional, brigas, denegrir a imagem do ex… é coisa de quem não tem caráter.

E tem ainda o outro lado da história. Tem ex que adora ver o sofrimento da parceira abandonada. Parece sentir prazer nisso. O cara se acha tão imprescindível que não basta terminar a relação, precisa ter o “ gostinho”… saber que fez alguém chorar. Então, esse é mais um motivo pra “não dar corda”. Aceite o fim, sofra o que tiver que sofrer… e siga em frente. A vida continua… Outros amores virão.

Mais felizes e menos ocupados com nosso eu

Tenho sustentado por aqui a tese de que nossos valores estão invertidos. Nossas prioridades quase sempre estão relacionadas a conquistas materiais e a eterna busca da beleza. Embora não sejam coisas ruins em si mesmas, estão distantes daquelas que de fato nos fariam bem. Nossos problemas, hoje, quase sempre se dão em função de valorizarmos o aparente, pois acreditamos que é nisso que consiste a felicidade.

Pensava em alguns textos que discutimos sobre essas questões por aqui ao ler trechos do diário de duas adolescentes da mesma idade.

A primeira dizia:
– Está decidido: pensar antes de falar. Trabalhar com afinco. Ser comedida nas palavras e nas ações. Não me deixar divagar. Ser digna. Interessar-me mais pelos outros.

A segunda:
– Tentarei ser melhor de todas as maneiras que puder […] perderei peso, comprarei lentes de contato novas; já fiz um novo corte de cabelo, comprei uma boa maquiagem, novas roupas e acessórios.

Não é preciso ser um grande observador para notar a diferença entre as prioridades. Um otimista talvez possa pensar:

– Nem tudo está perdido!

O problema, caríssimos, é que a segunda é uma garota do nosso tempo. A primeira, é do Século XIX. Cem anos separam as duas adolescentes.

Não estou dizendo que a perda de referências seja sintoma das novas gerações. Há gente comprometida em fazer o bem, doar-se, servir, dividir, aprender, conhecer… Ser tolerante, paciente, digno, ético… Entretanto, é fácil notar que não são esses os valores predominantes.

Vivemos a sociedade da aparência. A ilusão da eterna juventude se confunde com a ideia de que é preciso ter cada vez mais para ser alguém.

Respeita-se quem é jovem e belo. Aplaude-se o famoso, bem vestido e bem “montado”. E não basta apenas isso. Competitivos que somos, é necessário ser o primeiro. O outro nos importa apenas quando pode nos ser útil.

Os valores culturais de nossa época são o da mulher gostosa, do homem forte, dos carros poderosos, das mansões… É isso que a própria mídia traduz nas capas de revistas como a Caras, Nova, Cláudia, Criativa, VIP etc etc. A televisão, o cinema e a internet reafirmam tais imagens.

Por conta disso, somos consumidos pela eterna insatisfação. Por mais que façamos, somos felizes por apenas alguns instantes. Logo nos pegamos frustrados e nem sabemos muito bem por quê. Nossa alma permanece vazia, carente de valores reais. Talvez estejam expressos na busca da garota do Século XIX. Por alguns momentos me pego pensando: quem sabe também pudéssemos nos descobrir mais realizados se começássemos a nos ocupar menos com o nosso eu.

Por mais belos que sejam nossos sorrisos, o que mais importa ainda é o que vai dentro da alma.