De que tipo é o preconceito do brasileiro?

Do mais contextualizado, diversificado e complexo. Talvez em nenhum outro país do mundo, seja tão difícil identificar contra quais grupos de pessoas existem reações e tratamentos negativos, depreciativos.

A ideia de que o Brasil é resultado da miscigenação, da mistura entre brancos, negros e índios, acaba por esconder nossos preconceitos.

A impressão que se tem é que somos um povo misturado. E se somos misturados, todos são aceitos igualmente.

Mas, na prática, não é isso que acontece.

Há um preconceito velado, silencioso, muito mais nocivo que aquele aberto, conhecido e reconhecido por todos.

No Brasil, entre os extremos branco rico e preto pobre, existem outras tantas hierarquias que motivam atitudes, comportamentos preconceituosos.

Por aqui, chega-se ao ponto da pessoa que não tem a pele totalmente preta colocar-se numa condição de “não sou negro”.

Essas gradações múltiplas resultam numa sociedade em que o combate aos preconceitos é muito mais difícil, porque, de certo modo, todo mundo tem algum preconceito contra alguém ou um grupo de pessoas.

Não se trata apenas do negro. Por aqui, é o branco em relação ao pobre… O pobre em relação à pessoa gorda… A pessoa gorda em relação ao homossexual… O homossexual em relação ao religioso… O religioso cristão em relação ao espírita… O acadêmico em relação ao que abandonou os estudos…

A lista é ampla e assustadora.

A legislação não dá conta de contemplar todas as dinâmicas que funcionam na sociedade.

E isso só reforça a tese do quanto nós, brasileiros, precisamos crescer como humanos na busca de um olhar justo e respeitoso em relação a todas as pessoas.

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A importância dos espaços públicos

A sensação de insegurança, o medo de sermos assaltados ou sofrermos algum outro tipo de mal, faz com que nos fechemos para o outro. Apostamos cada vez mais em espaços privados. Condomínios, clubes, associações etc. são algumas das estratégias que criamos e utilizamos para conviver com pessoas, mas evitar os desconhecidos.

Acontece que esse tipo de atitude, embora justificada, leva-nos a conviver apenas com iguais. Ou pelo menos, com pessoas mais parecidas conosco – principalmente no que diz respeito à classe social.

Hoje, as cidades limitam os espaços usados pelas pessoas e as separam, inclusive excluindo algumas delas. 

O movimento de restringir os espaços, torná-los privativos – ainda que se justifique, como eu disse -, traz alguns problemas.

A sociedade contemporânea precisa redescobrir o valor dos espaços públicos. Notamos, hoje, que as cidades de médio e grande portes pouco investem em praças, centros de convivência, áreas públicas de lazer, parquinhos etc.

Os espaços são públicos são lugares de convivência com pessoas diferentes, de classes sociais distintas, de orientações sexuais variadas, outras religiões… Ainda que estar com estranhos possa ser um tanto assustador, esses locais permitem que a diversidade seja valorizada. As diferenças ganhem visibilidade e sejam respeitadas.

É fundamental redescobrirmos quem são os outros. Num tempo em que nos ilhamos em espaços privados e as redes sociais na internet, por meio de seus algoritmos, criam tribos virtuais, os espaços públicos urbanos podem permitir o contato e o aprendizado com o diferente, e essencialmente desenvolver em nós a capacidade de nos sensibilizarmos com as desigualdades e até mesmo com as necessidades do próximo.

Ps. A praça da Catedral, em Maringá, é um exemplo de como os espaços públicos podem ser importantes para as pessoas. 

Por que o outro não pode ser diferente?

diferentes
Deveríamos nos dedicar em promover a paz, a igualdade na diversidade

Não entendo a intolerância. A resistência ao outro. Não compreendo o prazer em humilhar o diferente. Enquanto navegava na rede, encontrei uma notícia sobre homossexuais agredidos por jovens russos. Os atos foram publicados na internet. Os rapazes gays foram, inclusive, obrigados a beber urina. Tudo filmado e colocado na rede.

Claro, houve reação em vários lugares aos atos de humilhação. Muita gente pede punição aos agressores.

Crimes como esses – e outros tantos cometidos contra homossexuais, prostitutas, negros, mendigos etc – não podem ficar impunes. A pena contribui para conter um pouco os impulsos criminosos. Evita a manutenção daquela sensação de que “pode fazer, porque nada vai acontecer”.

Mas o que me incomoda é a motivação. A punição não elimina o desejo de fazer mal.

Por que o outro não pode ser diferente de mim? Por que não posso aceitá-lo? Se não consigo amá-lo, por que não dou conta de pelo menos respeitá-lo? Por que preciso fazê-lo sofrer por não ser o que eu entendo como normal?

Na história da humanidade, esse tipo de comportamento sempre existiu. A nossa natureza má que se materializa em ações contra o outro. Quem é diferente nada fez contra a sociedade, mas o fato de ser diferente, parece uma afronta. Por isso, há o desejo de atacá-lo, até eliminá-lo.

Nessas horas, dá vergonha de ser gente.

Não é raro ouvir em rodinhas de amigos um e outro ridicularizando um colega de trabalho gay. A garota que é lésbica. O menino que fala errado. Se a piada já é um ato de pura maldade, torna-se incompreensível quando existe ódio. E o ódio transparece em ações como desses jovens russos. Também é declarado nos assassinatos de homossexuais que acontecem todos os dias no Brasil.

Eu não entendo isso. Não entendo o prazer em humilhar, o prazer em agredir, a vontade de extirpar. As vítimas são pessoas. Gente como a gente. Talvez não se encaixem no padrão da maioria. Mas e daí? Qual o problema?

Se me incomoda, se não combina com minhas crenças… preciso “convertê-lo”, mudá-lo, fazê-lo sofrer, eliminá-lo?

Cá com meus botões, resumo isso tudo como insegurança, medo, medo do diferente, intolerância, ausência de amor. Essas pessoas se colocam no lugar de um Deus, se acham justas e superiores a ponto de estarem revestidas do direito de “limpar” a Terra. Limpar do quê? Deveriam lutar por mais respeito, dignidade, aceitação, igualdade na diversidade.