Com quem você pode contar?

ajudar

Já escrevi várias vezes sobre a falta que faz ter um amigo, amigo de verdade… Alguém com quem a gente possa contar nos momentos difíceis da vida. Porém, não é só nos dramas emocionais da vida que se faz sentir a falta de pessoas especiais – ou pelo menos, dispostas a ajudar. No dia a dia, também descobrimos que, muitas vezes, estamos sozinhos.

E as situações cotidianas talvez sejam as mais frequentes. Sabe aquele dia que você precisa mais cedo do trabalho para levar o filho ao médico e descobre que a colega, para quem você já fez vários favores, não topa cobrir sua ausência? E o trabalho de faculdade que, dessa vez, você não deu conta de fazer e, em função disso, ouviu um monte de bobagens da parceira de equipe? Pior… Essa mesma “amiga” já te deixou na mão várias vezes.

No trabalho, na escola e até mesmo em casa, é ruim perceber que são poucas as pessoas dispostas a ajudar no momento que necessitamos. Pode ser a simples troca de folga, a produção de um trabalho escolar, uma carona para ir ao centro da cidade… Coisas pequenas, mas que fazem a diferença quando não temos como fazer, como resolver e precisamos do outro. Além disso, a ausência desse tipo de favor parece desestimular a gentileza. De alguma maneira, lá no coração, a gente pensa:

– Pode deixar… Quando você precisar de mim, já sei o que vou responder.

Sim, somos humanos, e é mais ou menos desse jeito que sentimos quando alguém nos diz “não”. Ficamos chateados sim. E com vontade de retribuir na “mesma moeda”.

Entretanto, por mais que possamos concluir que dificilmente podemos contar com os outros, ainda assim cabe-nos fazer a nossa parte. Afinal, o mundo já é duro demais, difícil demais, egoísta demais… para participarmos dessa onda tão negativa e individualista.

Eu sei que dizer “sim” ao pedido de alguém que já nos disse “não” parece nos colocar na condição de bobos. E ninguém gosta de ser visto como aquele que é sempre “bonzinho”. Porque bonzinho parece ser o mesmo que bobinho. Porém, a vida só será melhor de ser vivida se fizermos nossa parte para tornar mais agradável o verdadeiro sentido do que é viver em comunidade.

Como dizer não?

Quem aprende a dizer não, torna-se livre e respeitado
Quem aprende a dizer não, torna-se livre e respeitado

Dizer não é uma das coisas mais difíceis na vida da gente. A mãe liga, faz um dengo e pede:
– Vem almoçar aqui no domingo?

Poxa, a agenda está cheia, você esteve com ela ainda no outro fim de semana, mas como dizer não?

Bom, acho que pra mãe a gente até diz um “não” com mais facilidade. O problema parece ser maior quando as pessoas não são tão próximas assim. Às vezes é a prima, o tio, um amigo, o patrão… O programa para o qual você está sendo convidado é chato, você se sentirá deslocado… Ou simplesmente, você já tinha se programado para fazer outra coisa.

Como dizer não?

É mesmo difícil. A gente projeta qual a expectativa que o outro tem de nós. Queremos agradar. Há um desejo de ser querido, amado, bem visto. E este desejo parece maior que a razão.

Por isso, tornamo-nos reféns de uma projeção. Sim, apenas uma projeção. Somos nós que projetamos o que supostamente o outro vai pensar. Não sabemos de fato como será sua reação. E, convenhamos, ainda que não seja muito simpática, o que perdemos ao dizer:
– “Me desculpe. Agradeço muito o convite, mas desta vez não poderei ir.”?

Talvez o outro fique um pouco chateado, descontente por um momento. Entretanto, gente de bom senso geralmente administra bem as frustrações. Se ficar magoado, talvez seja alguém com pouca sensibilidade, alguém não muito disposto a entender as limitações do próximo. Tem gente mimada demais que não sabe ouvir não. Porém, se esse é o tipo de pessoa que vai ouvir nosso não, qual o problema em dizê-lo? (Um “não” pra essas pessoas talvez até ajude a desenvolvê-las… Rsrs).

Por isso, embora entenda que precisamos ser sociáveis e, por vezes, até fazer coisas que não estamos dispostos a fazer, também defendo que não sejamos reféns das expectativas alheias. Não devemos ser egoístas, mas não dá pra complicar nossos dias, nem comprometer nossos programas apenas por medo de desagradar alguém. Quem sabe dizer não, torna-se livre, mais feliz e respeitado.

Dizer “não” e a crise da autoestima

Conheço gente que tem enorme dificuldade pra dizer “não”. A pessoa assume compromissos simplesmente por que não dá conta de olhar primeiro para si. Alguém pode até dizer: – mas olhar pra si é ser egoísta. Concordo, parcialmente. Acontece que a preocupação em atender sempre não faz bem. E geralmente é motivada pela necessidade de agradar.

O vizinho chega e, pra não arrumar confusão, você diz sim para aquele pedido chato. Ela quer deixar o filho na sua casa. O moleque é um diabinho, mal educado, quebra tudo. Mas você sorri amarelo e diz… sim.

No trabalho, o colega precisa de um dia de folga… Você está atarefado, com agenda cheia, estressado, já está tomando energético pra dar conta de ficar acordado até altas horas… Mas o colega precisa da folga e diz:

– Você pode fazer o relatório pra mim?

Ele pergunta já sabendo da resposta…

– Tudo bem. Pode deixar comigo. Aproveita a viagem.

Por dentro, você se sente explorado. Fica irritado, mas não tem coragem de desagradar.

Mas essa dificuldade pra dizer “não” também acontece em relacionamentos. A pessoa tem uma relação doentia, sofrida. Ainda assim, aceita tudo. É como se outro estivesse fazendo um favor de ficar com você. Embora doentia, a relação é mantida, porque o desconhecido assusta e parece não haver vida longe do “objeto idolatrado”.

Não ser capaz de dizer “não” é motivado por uma baixa autoestima. Quem é inseguro, não tem amor próprio e precisa da aprovação alheia sofre na busca de agradar – como se só o outro pudesse dar sentido a sua existência. Tem solução? Claro que sim. Mas passa por se conhecer melhor e entender que ser “bonzinho” sempre não garante a admiração dos outros. Pelo contrário, o universo conspira a favor das pessoas bem resolvidas e que sabem se valorizar.

PS- Este é o assunto do Questão de Classe desta quinta-feira, pela CBN Maringá.

Ah… vale dizer que hoje tem gente que não sabe dizer “sim”. É um outro problema. Porém, pra outro dia, outro post.