Qual formação dar aos filhos?

Ontem, enquanto esperava minha filha pegar o gabarito da prova do PAS, observava outros alunos e alunas que deixavam o local das provas. Vi muitos deles com lágrimas nos olhos, bastante abatidos. Pelo semblante, demonstravam tristeza, frustração… Pareciam derrotados.

O PAS, Processo de Avaliação Seriada, da UEM é um mecanismo de avaliação que ocorre desde o primeiro ano do Ensino Médio – uma espécie de vestibular em três etapas, uma a cada ano. Trata-se de um modelo bastante interessante e que permite uma avaliação mais justa, assegurando uma vaga na universidade para os candidatos que tiverem as melhores médias ao final de três anos.

Embora o PAS seja mais um instrumento de avaliação, que permite o acesso à universidade, e talvez o mais justo dos sistemas, particularmente, ainda penso que os modelos de seleção no Brasil estão distantes de serem os melhores. O que mais me incomoda é a pressão sobre meninos e meninas, ainda imaturos, e que faz muitos deles abdicarem de inúmeras práticas que são fundamentais para a formação.

Em cidades de médio e grande portes, espaços tipicamente universitários, as próprias escolas estão se transformando. Muitas delas têm se especializado em transformar adolescentes em máquinas de passar em vestibulares. Esses garotos e garotas, desde os 14 anos de idade, e às vezes até mais cedo, vivem a escola apenas para receberem conteúdos e mais conteúdos… E para serem treinados para os processos de seleção das universidades.

Essa garotada não vive mais nada na escola. E a própria escola se torna um espaço frio, mecânico, que só fala em aprovação.

Me assusta ainda mais o fato de muitos pais embarcarem nessa aventura com seus filhos. Repetem um discurso tolo do tipo “meus filhos só precisam disso”, “o foco agora é se preparar para o vestibular”. Esses pais parecem esquecer que um filho não é apenas um boletim escolar. Tampouco é apenas o domínio de conteúdos de Biologia, Química, Matemática, Português…

O ser humano é muito mais que isso. Somos dotados de habilidades múltiplas, que precisam ser desenvolvidas.

Formação completa precisa assegurar amadurecimento emocional e outras habilidades, como liderança, autonomia, resiliência, empatia…

Ninguém quer ser atendido por um médico sem empatia, que saiba muito sobre doenças, mas não sinta a dor das pessoas…

Ninguém quer um chefe que domine todos cálculos matemáticos, mas não seja uma liderança, um sujeito motivador…

Esses conhecimentos não são assegurados apenas com a aquisição de conteúdos das matérias tradicionais, muito menos de fórmulas e macetes para responder as questões das provas.

Pois é, amigos… Os pais precisam definir que tipo de formação desejam para os filhos. Apostar tudo apenas na preparação para garantir uma vaga na universidade é optar por um modelo reducionista e limitador das potencialidades de seus filhos.

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Pais devem ensinar os filhos a serem resistentes, resilientes

É fato que temos dificuldade em assumir as nossas responsabilidades. E isso acontece nas diferentes esferas da vida. Também ocorre com nossos filhos.

Frequentemente, vejo pais esperando que a escola faça pelos filhos aquilo que eles, os pais, não fazem.

Uma das coisas tristes é notar que muitos pais criam filhos frágeis a ponto de não serem capazes de lidar com uma ou outra brincadeira de um colega.

Sim, existe bullying. Porém, essa palavra que entrou no nosso vocabulário mais recentemente, parece ter sido incorporada para toda e qualquer situação.

Uma brincadeirinha sem graça de um grupinho contra uma ou outra criança já é chamada de bullying. A criança se encolhe e os pais ficam bravos querendo que a escola resolva o problema.

Desculpa, gente… Porém, muitas das falas maldosas entre crianças e adolescentes não são bullying. São apenas isso: falas maldosas, características da idade. A escola e as famílias devem atuar no processo de educação para que os tratamentos sejam respeitosos. Porém, também é dever dos pais ajudar seus filhos a serem resistentes a esse tipo de situação.

Existe hoje muito coitadismo, vitimismo.

A mãe olha pra filha e diz:

– Tadinha da minha filha; ninguém gosta dela. As coleguinhas são tão maldosas… Tratam ela tão mal.

O que essa mãe está fazendo? Está, inconscientemente, dizendo para a filha que ela é uma coitada, uma fraca, uma pessoa que não é amada, respeitada…

O pai e a mãe não preparam o filho para enfrentar o mundo e aí o problema são os outros.

Lamento dizer, mas se você não preparar seu filho, sua filha, para enfrentar cara feia, comentários maldosos, para não lidar com a concorrência, você estará educando sua criança para se tornar um adulto banana, um molenga que vai se encolher diante dos primeiros problemas de relacionamento.

E a culpa é toda dos pais.

Devemos ensinar nossos filhos a lidar com os conflitos, brincadeiras maldosas, chacotas dos colegas… Eles precisam ser resistentes e resilientes, pessoas capazes de superar obstáculos, resistir às pressões, estresses… e sem entrar em choque, sem se apequenarem.

Quando devo dar um celular ao meu filho?

Sou bastante conservador neste aspecto. Mas até o momento, não fui convencido que estou errado… Entendo que é necessário retardar ao máximo. Quanto mais tarde, melhor. Não há justificativa racional para uma criança ter um celular. Penso que o aparelho só deve chegar às mãos de nossos filhos na adolescência. Ainda assim, sem nenhuma pressa.

Mas aqui estão algumas outras recomendações…

Dar um celular ao seu adolescente não significa deixá-lo à vontade com o dispositivo. Depois que possuem um celular, com frequência, os adolescentes leem menos, estudam menos, focam menos nas tarefas, interagem menos com as pessoas próximas e se envolvem em mais confusões.

Por isso, os pais precisam estabelecer um limite no tempo de uso. Também é fundamental monitorar o que os filhos fazem ao celular.

O tempo de uso deve ser negociado, com bom senso. Entendo que o aparelho não deve estar nas mãos da garotada na hora das refeições, nas horas de estudo e muito menos durante à noite. Com frequência, vejo adolescentes que dormem mal, porque ficam no whatsapp e outras redes sociais até muito tarde. Isso prejudica o desempenho escolar e até mesmo o desenvolvimento físico e emocional. Dormir bem é uma necessidade de qualquer adolescente.

Mas, além de controlar o tempo de uso, é dever dos pais monitorar o que os filhos fazem com o celular. Enquanto os filhos estão em casa, não há nada de invasivo em acompanhar o que a garotada faz com o aparelho. Não são raros os casos de meninos e meninas que acessam conteúdos indevidos sem que a família saiba o que está acontecendo. Pior que isso, praticam bullying na rede, enviam nudes e se envolvem em problemas.

Por isso, educar também é ter controle da vida digital de seu filho.

Como educar os filhos sobre o uso do celular?

O celular é hoje um dos dispositivos mais úteis ao nosso dia a dia. E talvez seja o aparelho mais pessoal. É o celular que levamos para todos os lugares. Todos mesmo!

Mas o dispositivo tem se tornado um problema – principalmente para as crianças.

E, por isso, muitos pais questionam: o que podemos fazer?

Devemos entender, primeiro, que nos primeiros anos de vida, os filhos se guiam pelas práticas dos pais.

Aquilo que fazem de maneira bastante interessada vai servir de referência para as crianças. Os filhos consideram interessante tudo aquilo que prende a atenção dos pais.

Se a mãe fica horas diante da tela da televisão, a criança vai achar que algo ali muito interessante acontece. Se o pai se envolve totalmente com a leitura de um livro, a criança vai querer saber o que tem naquelas páginas mágicas.

Ou seja, o que capta nossa atenção desperta o interesse dos filhos.

Portanto, se somos reféns do celular, nossos filhos também serão.

Mas existem outras práticas que formam os maus hábitos no uso do dispositivo.

Os pais não podem ter o aparelho como muleta, como estratégia para evitar que o filho chore, fique agitado ou coisa parecida. Eu sei que é bem mais cômodo dar o aparelho a uma criança de dois aninhos para que ela se comporte na igreja. Ou fique quieta enquanto você come no restaurante. Entretanto, quando os pais fazem isso, estão abdicando do verdadeiro papel que lhes cabe: educar.

As crianças precisam ser contidas e devem aprender a silenciar seus impulsos.

Por fim, não há nenhuma justificativa racional para dar um celular a uma criança de dois, cinco, oito ou até 10 anos. Elas não precisam do dispositivo.

Até o início da adolescência, quando começam a ter alguns compromissos que não requerem mais a presença dos pais, o celular é dispensável.

Por outro lado, nessa fase de desenvolvimento, as crianças carecem de tempo para brincar, devem se relacionar com outras crianças, frequentar parques, andar de bicicleta, fazer tarefas manuais, aprender música, artes…

Isso não transforma os pais em conservadores. Faz dos pais efetivos educadores, preocupados com o desenvolvimento cognitivo e social dos filhos.

No que os pais estão falhando hoje?

Eu não acredito que os pais falhem na educação dos filhos porque querem. Tenho comigo que todos querem acertar. Entretanto, brinco que entre querer acertar e de fato acertar existe uma grande distância.

Os pais falham hoje em dois aspectos cruciais. Estes dois aspectos têm ramificações, tem suas especificidades na dinâmica de cada família.

O primeiro aspecto é que, hoje, os pais educam com medo. Eles têm medo de agir, orientar, estabelecer regras, disciplinar e, como consequência, traumatizar – ou até mesmo perder o amor dos filhos.

E os pais têm medo do que o mundo pode fazer com seus filhos. Por isso, não querem expor as crianças. Acham que correm riscos. As crianças acabam protegidas das frustrações com os amiguinhos, das correções da escola… São protegidas do trabalho doméstico, são impedidas de sair às ruas, não recebem tarefas para cumprir no comércio – tipo ir à padaria comprar um pão, pagar uma conta na lotérica…

Os pais têm medo dos filhos serem magoados, têm medo da violência urbana… Medo dos filhos se frustrarem por não darem conta de algumas responsabilidades.

O segundo aspecto: os pais têm falhado por ignorarem a importância dos bons exemplos.

Muitos pais pensam que as palavras são suficientes. Repetem: “eu já disse para meu filho não fazer isso”. Porém, esses mesmos pais, muitas vezes, quebram regras, são deselegantes no tratamento com outras pessoas, são agressivas no trânsito, falam mal da diarista, ofendem… Não são respeitosos com seus pais, os avós das crianças.

Os exemplos são fundamentais no processo de educação. Não adianta pedir para meu filho se controlar se eu não me controlo.

Depositamos toda confiança nas ordens que damos. Pensamos que, se somos pais, nossos filhos devem nos obedecer.

Entretanto, não é assim que funciona.

Crianças e adolescentes são grandes observadores, notam desde muito cedo as contradições entre o que falamos e o que fazemos. E aprendem muito mais com nossas atitudes do que com nossas palavras.

Filhos frágeis

Ao observar o comportamento de muitos adolescentes, fico bastante indignado com os pais. É impressionante o que muitos deles têm feito na educação da garotada. Nossos jovenzinhos são frágeis… Não sabem enfrentar os problemas. Não sabem lidar com a vida.

E de quem a responsabilidade? Dos pais! Sim, os pais estão formando uma geração mole. Uma geração de filhos bundões – desculpa o termo.

Essa molecadinha não pode ouvir um não do colega, do professor… e já chega em casa chorando. Aí os pais correm pra comprar a briga dos filhos.

O menino foi alvo de uma brincadeira de mau gosto na escola? Tá lá, no mesmo dia, os pais ameaçando tirar o garoto da escola.

A menina foi excluída do grupinho? Lá estão os pais, nervosos, irritados, tomando as dores da filha.

Chega a ser assustador!

São meninos e meninas que não sabem se defender. Não sabem se impor. E quando tentam fazer isso, a defesa é quase sempre um ato de violência – ainda que verbal.

Tenho repetido que não sou um pai exemplar, mas me orgulho de saber que orientei meus filhos a resolverem seus próprios problemas. Sempre estive pronto pra abraçar, apoiar, aconselhar. Mas a encrenca na qual se meteram era um problema deles. Nunca fui à escola defender meus filhos, nunca tive que conversar com outros pais por conta de problemas deles.

Penso que é dever dos pais permitir que os filhos amadureceram. Isso significa expô-los às dificuldades. A gente tem que aprender a dizer para as crianças:

– Querido, se você se envolver num problema na escola, tente resolver. Fale com o colega, converse com a professora, procure a coordenação. Se alguém te tratar mal, afaste-se. Encontre um jeito de resolver. Eu não vou resolver pra você!

Esse tipo de atitude ajuda no desenvolvimento da autonomia, da confiança.

A vida é dura. E justamente por isso temos que incentivar nossos filhos a se tornarem pessoas fortes. Sensíveis sim aos problemas alheios, mas capazes de lidar com as frustrações, com as decepções, traições… Fortes para assimilarem as pancadas da vida.

Devo dar liberdade aos meus filhos?

Alguns pais de adolescentes questionam:

– Devo ou não devo dar liberdade aos meus filhos?

Essa pergunta me faz pensar sobre o que entendemos por liberdade. Se a compreensão de liberdade for “meu filho quer fazer as próprias escolhas”, sinto muito, mas não dá para permitir que um adolescente decida sobre a vida dele.

Embora exceções existam, nossos garotos e garotas não têm maturidade para isso. Não possuem vivências. E as experiências que esse tipo de liberdade pode proporcionar não acrescentam muita coisa.

Quase sempre, as decisões dos adolescentes são pautadas pelo grupo. A moçadinha geralmente segue o que todo mundo está fazendo.

Entretanto, na voz do grupo nunca há sabedoria.

Por isso, os pais precisam, sempre que necessário, confrontar os filhos e estabelecer limites.

Talvez o adolescente diga:

– Mas todo mundo vai. O pai de fulano deixa.

Nessa hora é preciso ter forças e coragem pra dizer:

– Mas você não é todo mundo. E eu não deixo.

Muitos pais não são capazes de fazer esse enfrentamento por que temem perder o amor dos filhos. Não querem desagrá-los.

Posso assegurar, é melhor ter um filho com raiva da gente por um ‘não’ que sustentamos que chorarmos depois, culpados por nos faltar coragem para educá-lo.