Os políticos têm a nossa cara

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O brasileiro reclama muito dos políticos, mas ainda é facilmente iludido por eles. A disputa eleitoral deste ano mais uma vez provou isso. O cenário eleitoral foi manipulado pelo marketing dos candidatos e o resultado nas urnas deve refletir a imaturidade da sociedade brasileira.

Eu costumo dizer que o cenário político reflete o próprio cidadão. Na hora do voto, todas as representações equivocadas que o sujeito tem de si e do país aparecem na escolha que faz ao teclar os números na urna eletrônica. Por isso, não são os políticos que são ruins; ruins são nossas escolhas. E nem adianta falarmos que não existem opções. Opções existem, apenas não temos disposição para um aprofundamento do debate democrático. Votamos pela imagem dos candidatos, não pelo que eles de fato são.

O que dizer dos Tiriricas da vida? De deputados, senadores e até governadores envolvidos em atos de corrupção que são reeleitos? Não são raros os gestores que demonstraram incapacidade em cuidar de seus estados (têm aqueles que não pagam as contas, deixam faltar água pro cidadão etc) e que ainda assim são os preferidos dos eleitores.

Por isso, os problemas do Brasil não são dos políticos; os problemas são nossos. O Brasil tem a nossa cara, o nosso jeito. Então, antes de votar, vale lembrar: voto não se decide por rostinho bonito, fala simpática, nem por imagens que passam na televisão. Voto se dá com base em fatos reais. Não é só coração, é principalmente o exercício da razão. Portanto, não dá pra esquecer disso: o Brasil será melhor à medida que formos melhores cidadãos.

A Dilma já ganhou?

As últimas pesquisas sugerem uma conclusão: a campanha eleitoral está decidida. É verdade que muita coisa ainda pode acontecer. Entretanto, dificilmente ocorrerá um acontecimento nas proporções da morte de Eduardo Campos para virar a disputa presidencial.

Veja o vídeo e comente!

O medo impede o crescimento

O medo é uma das emoções que mais nos afetam. E, na política, quase sempre é uma estratégia para manutenção do poder por parte de quem já o possui. Isso faz parte da história recente do país.

Quase sempre, o medo funciona porque buscamos segurança. Temos medo do desconhecido. Na política ou na vida, o medo nos impede de crescer, de experimentar mudanças reais.

É sobre isso que falo neste novo vídeo.

O efeito pedagógico do vale-tudo eleitoral

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Campanha eleitoral também é feita de ataques… Não existem bonzinhos. Mais que mostrar propostas, é preciso fragilizar a imagem do adversário.

Entretanto, me parece que existe uma diferença entre mostrar a fragilidade do adversário e criar factóides… E isso ainda faz parte da cultura política do país.

Nesta campanha, por exemplo, me incomoda bastante muitos argumentos usados na disputa. Por exemplo, Dilma disse que, se Marina vencer, seriam tirados um trilhão e 300 bilhões de reais da educação. A propaganda de Dilma também fala em corte nos investimentos, caso Marina seja eleita. Com base em quê? É em fatos que temos esses argumentos da presidente e candidata?

E o que o campanha do PT tem feito com a educadora Neca Setúbal? Herdeira do Itaú, a educadora e socióloga, figura discreta, porém, muito respeitada, Neca, que nunca atuou na instituição financeira, virou banqueira. E o banco supostamente estaria financiando Marina.

A artilharia dos aliados de Dilma contra Marina comete injustiças contra a adversária e, principalmente, contra Neca Setúbal. Além disso, cria uma aura negativa contra o setor econômico. É como se ser rico fosse um crime no país. Vamos ser práticos… O Itaú é um dos bancos mais respeitados desse país. Será que tem algum problema em ser dono de banco? Ou herdeiro de banco? É uma atividade ilegal? É problema ser rico?

Parece-me que a questão deveria ser outra. Deveríamos pensar se a empresa é séria ou não. Se a pessoa está ou não comprometida com o país.

A prática difamatória numa campanha, além de distorcer os fatos, é uma prática pouca pedagógica. Trata-se de um (mau) exemplo pro cidadão. Que vê nos seus representantes o “vale tudo pelo poder”. E de alguma forma se sente autorizado em reproduzir esse tipo de comportamento no seu cotidiano como tática de sobrevivência.

No vídeo abaixo, eu falo um pouco mais sobre o assunto.

Aécio e a imprensa podem eleger Dilma

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Desde que foi confirmada como substituta de Eduardo Campos, Marina Silva se tornou a “novidade” na disputa eleitoral. E mais que isso, rapidamente, ganhou status de principal concorrente de Dilma Rousseff. Porém, a fim de pôr fim à “onda Marina”, várias ações passaram a ser executadas – inclusive na internet, que tanto ajudou Marina em 2010, mas agora tem servido para desconstruí-la.

Dilma tirou o foco de Aécio e se voltou contra Marina; Aécio afundou nas pesquisas e se viu obrigado a também “bater” na ambientalista; e parte considerável da grande imprensa, que tem certa queda pelo tucano, quis salvá-lo e passou a noticiar fatos negativos envolvendo a candidata do PSB.

E o efeito disso tudo? Marina não cresceu na última pesquisa. Mas quem ganhou fôlego de fato? A presidente Dilma. A estratégia de parcela da imprensa e de Aécio estão se somando ao ataque promovido pelos petistas. A atual chefe da nação, é a única pessoa beneficiada pelos ataques à Marina. Dilma estancou a queda nas pesquisas, aumentou a aprovação ao governo e ainda diminuiu a diferença pra Marina na simulação de segundo turno.

Aécio Neves foi atropelado de tal forma pela “onda Marina” que agora precisa atirar pra todos os lados. Bate no governo, bate em Marina… E segue afundando. Isso porque (pelo menos é essa a impressão que tenho), ao tentar desqualificar Marina, ele não ganha pontos da candidata do PSB; o mineiro fortalece a estratégia dos petistas. Ou seja, sem querer, Aécio se tornou aliado de Dilma

Já a parcela da grande imprensa, que simpatiza com o tucano e é inimiga de Dilma, também parece não se dar conta que potencializar as críticas contra Marina é fortalecer a estratégia do PT. Dificilmente vai garantir novo fôlego ao tucano. E Dilma? Dilma volta a sorrir. Já fala em mudanças no ministério. E ao lado de Lula… Que já pensa em 2018. 

Em defesa de Bonner

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William Bonner está sendo vítima de agressões e xingamentos por fazer bom jornalismo. Sim, o âncora do principal telejornal do Brasil tem sido questionado por aliados e eleitores dos candidatos à presidência da República por cumprir uma das funções mais básicas do jornalismo: questionar.

O Jornal Nacional abriu a rodada de entrevistas com os candidatos ouvindo Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB). E os apresentadores foram contundentes. Fizeram perguntas que colocaram os presidenciáveis em situações, no mínimo, desconfortáveis. No entanto, nenhuma delas estava desprovida de embasamento. Ficou nítido que Bonner e Patrícia Poeta estavam preparados para questionar os candidatos. Mas isso incomodou muita gente. O âncora, principalmente, foi alvo de agressões e xingamentos.

O assunto, que ganhou repercussão inclusive na internet, também apareceu em minhas aulas. Alunos trouxeram depoimentos de familiares e amigos que disseram que os apresentadores do JN estão vendidos ao PT. Algumas pessoas acharam deselegante o tom firme de Bonner e Poeta. Entendem que deveriam ser mais gentis, “generosos” com os candidatos.

Sinceramente, fico assustado com tanta bobagem. Na minha opinião, mostra o tamanho da imaturidade política do país. E o completo desprezo ao bom jornalismo.

Na verdade, historicamente, o Brasil sempre teve um jornalismo pequeno, pobre, acanhado, publicista, vítima de alinhamentos com o poder e/ou com grupos econômicos. O jornalismo no país pouco contribui para o debate democrático. Apresenta-se como imparcial, isento, responsável, porém, geralmente se dobra diante de interesses nem sempre republicanos. Quando o assunto é política, sabe-se que por vezes falta aos jornalistas liberdade para atuar como gostariam. Há uma “regra silenciosa” – que não se ouve, mas sabe-se que existe – de que o melhor é estar “de bem” com todo mundo.

Talvez por isso cause estranhamento que Bonner, no comando do JN, assuma uma postura crítica, firme diante de candidatos à presidência. Talvez também seja nosso desconhecimento da verdadeira prática jornalística. Talvez não estejamos acostumados a questionar o poder.

Não vou discutir aqui a entrevista de Eduardo Campos, vítima de acidente aéreo na quarta-feira, 13. Porém, a participação de Aécio Neves, na terça-feira, 12, é reveladora. Não mostra um Bonner e uma Patrícia dispostos a destruírem a candidatura do tucano. Aponta sim para o exercício justo do jornalismo, que ao longo dos anos ganhou status de mediador entre os fatos e a sociedade. Por isso, Aécio tem sim que explicar as contradições de seu discurso. Como terá que fazer Dilma Rousseff e os demais candidatos.

No horário eleitoral, nos palanques… os candidatos dizem o que querem. O discurso é efeito. E nele a realidade é a que se pode construir no imaginário popular. Aos jornalistas, cabe observar as contradições, problematizá-las e, sempre que possível, colocá-las em evidência. O público precisa conhecer o que está para além da aparência dos presidenciáveis. O marketing político, é claro, fará o possível para apresentar apenas o que é bonito de ver. Entretanto, a escolha do eleitor não deve ser baseada numa imagem.

E, sejamos sinceros, mesmo com toda contundência de Bonner e Poeta, ainda não temos todas as explicações. No caso de Aécio, ele assegura que fará um governo de “previsibilidade” e transparência. Porém, se é de previsibilidade, não deveríamos saber que cortes serão feitos, quais ministérios serão fechados? Apesar da insistência dos jornalistas globais, essa questão ficou aberta, sem resposta. E o sítio da família de Aécio valorizou ou não com o aeroporto? Tudo bem que a propriedade é da família há mais de 100 anos e não há interesse em vendê-la, mas custava responder a pergunta de Bonner? E se a saúde foi modelo em Minas, porém com dinheiro do governo federal, não poderia admitir isso e dizer que a diferença dele foi a eficiência?

Além do mais, ética e eficiência não seriam pressupostos básicos de todo governante? Como isso pode ser prioridade? Falta ao candidato planos para educação, saúde, segurança?

Enfim, o que quero mostrar é simples: William Bonner, ao lado de Poeta, estão apenas fazendo jornalismo. Talvez nossos políticos, e até nossa sociedade, não saibam muito bem o que é isso. Cá com meus botões, porém, fico contente por ver que, aos poucos, a mesma Globo, tão criticada por ser conivente e até partidária em muitos momentos da história, apresenta amadurecimento na prática jornalística e assegura certa liberdade aos seus jornalistas.

Beto Richa e o efeito de verdade

betorichaNa política não vale o que o governante ou legislador faz, mas o que aparenta fazer. E quem consegue validar o discurso como expressão da verdade junto ao eleitorado se mantém no poder. Para isso, entre as estratégias estão o marketing político, a simpatia, a empatia, a linguagem fácil.

Desde a posse do governador Beto Richa, noto sua habilidade no diálogo com o paranaense. Embora faça uma administração fraca, ele conseguiu “colar” o discurso de que pegou um estado falido e o governo federal não lhe repassa recursos. Portanto, o que o Beto deixa de fazer é culpa de Roberto Requião e do governo petista – em especial, por conta da provável candidatura de Gleisi Hoffmann.

O efeito de verdade é obtido a partir de fragmentos da realidade. Por exemplo, é fato que o Paraná teve dificuldades financeiras no final do governo Requião. Os problemas que o atual senador teve com seu sucessor, o vice Orlando Pessuti, reforçaram a tese de que o Estado estava falido.

No caso da relação entre o Paraná e a União, problemas nas contas do Estado (coisas técnicas que o eleitorado dificilmente vai entender) afetaram a liberação de vários empréstimos e também o repasse de recursos ficou comprometido. Além disso, o corpo técnico de Beto é ruim; faltaram projetos junto aos ministérios para liberar mais dinheiro. Somando isso a pouca disposição do governo federal em facilitar (pois quer assumir o poder por aqui), de fato os petistas mandaram pouco dinheiro para o Paraná.

Ou seja, os argumentos de Beto Richa resgatam parte dos fatos. Isso garante às meias verdades aparência de verdade. Com a simpatia que lhe é peculiar, empatia junto ao público, postura segura, linguagem popular e um bom marketing político, muita gente reproduz o discurso do governo paranaense. Já escutei de gente simples frases do tipo:

– Tadinho do Beto. Ele é tão legal! A Gleisi é que atrapalha tudo. Não ajuda o Paraná.

A Gleisi de fato não ajudou. Porém, isso faz parte do jogo político (não estou dizendo que deveria ser assim). Se tivéssemos um governador petista e um presidente tucano, não seria muito diferente. O que o governo Beto silencia é sua pouca eficácia na gestão do Estado. Maringá, por exemplo, durante a administração Silvio Barros, era oposição aos petistas. Ainda assim, proporcionalmente, foi o município brasileiro que mais recebeu recursos da União. E Silvio assumiu a prefeitura com restos a pagar da administração anterior, falta de certidões que inviabilizavam empréstimos etc. Porém, mudou isso ao longo dos anos. Um governo competente,  poderia ter feito o mesmo no Paraná.

Na prática, Beto Richa sustenta sua popularidade por meio do discurso. O que ele diz parece ser a verdade. Assim, mantém a aprovação do eleitorado e entra no último ano de gestão ainda como favorito à reeleição.