O desejo de vingança

Viver é perigoso, dizia Guimarães Rosa. Embora experimentemos muitas coisas boas, emoções indescritíveis, a vida também nos machuca. Machuca pelas perdas… Machuca pelos danos sofridos nas relações.

Não são raras as vezes que somos profundamente magoados por pessoas próximas. Parentes ou não. Amigas e não amigas.

Talvez pela minha personalidade, por não me expor tanto, vivi poucas situações em que fui humilhado, agredido verbalmente… Mas ainda assim esses episódios me deixaram triste, com raiva, ódio. Quando recordo, ainda dói. E já desejei muita coisa ruim para essas pessoas.

A ofensa é tão danosa que, dependendo do impacto causado, gera tantos sentimentos que fica difícil controlá-los. A vontade de vingança é talvez o maior deles.

A pessoa que humilha, agride, ofende, geralmente esquece. Com o tempo, até acha que tudo não passou de uma bobagem. A vítima, não. A vítima sofre com as lembranças. E a vontade de ver o agressor punido é enorme.

Sim, a gente quer que o outro sofra também. Sofra como a gente sofreu. Quem sabe, sofra até mais.

De alguma maneira, queremos que a pessoa talvez possa aprender que não pode fazer o que fez.

E não estamos errados em sentir o que sentimos. O desejo de vingança é legítimo. É humano. A raiva, o ódio… A vontade de ver o outro ferido, chorando como choramos… Esses desejos são naturais.

Mas sabe de uma coisa? Raramente podemos efetivamente nos vingar. E, mesmo quando isso é possível, podemos até nos alegrar em ver a perda do outro, mas ela não repara o dano primeiro que foi causado. A ferida ficará para sempre em nós. Talvez sintamos prazer de saber que o agressor foi “punido”. Porém, as marcas deixadas pela humilhação sofrida sempre estarão conosco. O medo, a insegurança, a desconfiança… O receio de que volte a acontecer.

Então qual o melhor caminho? Perdoar. Perdoar não por causa da outra pessoa; perdoar por nós mesmos. Perdoar para não carregarmos o peso da mágoa, do desejo de vingança e até da culpa por nos apequenarmos em tentar retribuir na mesma medida a agressão sofrida.

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A solidão e sofrimento dos pesquisadores

Enquanto observava alguns dados sobre a distribuição de doutores nas diferentes regiões do país, fiquei pensando sobre o quanto é desgastante dedicar-se à ciência. Quem está de fora, quase sempre não consegue ter ideia do que significa o percurso até a conquista do título de mestre e/ou doutor. Talvez por isso haja certa desvalorização do trabalho realizado.

Além das horas dedicadas à produção de um estudo com profundidade, são meses e meses dedicados às leituras, à escrita de pesquisas menores (comunicações, artigos, resenhas etc). Ainda têm as disciplinas, os grupos de estudos, os eventos, viagens… E tudo isso sob muita pressão. Os programas de mestrado e doutorado são avaliados pelo volume de produção. Não basta, portanto, entregar uma dissertação, uma tese ao final de dois, três ou quatro anos.

E esse percurso é muito solitário. No período de faculdade, você convive por alguns anos com a mesma turma. Existem conflitos, brigas, mas também empatia, cumplicidade… Pessoas se tornam amigas, frequentam sua casa, dividem tarefas… Na pós, os encontros são pontuais. Ainda que possamos desenvolver amizades, há pouco espaço para colaboração. Quase sempre a caminhada é sozinha – você, seus livros, seu computador. Os colegas também estão imersos em suas pesquisas. Cada um tem seu orientador, tem sua própria pesquisa, seus próprios prazos. Vivem angústias semelhantes. Porém, com tempo escasso e até pelo ambiente competitivo, ninguém tem condição de dizer “calma aí, vou fazer essa parte para você!”.

A família e os amigos, que não conhecem esse universo, geralmente pouco ajudam. E nem reúnem condições para isso. Frequentemente, não conseguem entender sua irritação, cansaço, estresse e muito menos por que você passa tantas horas lendo, consultando textos ou em frente ao computador. Falta tempo e disposição para um cineminha, barzinho… Lidar com o sono atrasado é parte da rotina.

É nesse ambiente que, silenciosamente, sofrem.  Uma pesquisa divulgada recentemente mostrou que 89% dos estudantes apresentavam sintomas de ansiedade, 64% de angústia, 63% de desânimo e 61% estavam com dificuldades de concentração. Há relatos de mudanças no apetite (muita gente engorda, outras emagrecem), vários casos de depressão… Adoecer durante os anos da pós é bastante comum – embora o assunto seja tabu nos programas de mestrado e doutorado.

Particularmente, não lido com isso de maneira muito diferente dos colegas. Por ter que conciliar trabalho, família e doutorado, por vezes, sinto o desgaste. Gosto, porém, dos eventos científicos justamente por trazerem certo fôlego nesse percurso tão complexo. Neles, a gente encontra outras pessoas que estão em condições muito semelhantes e ainda assim seguem produzindo. Ver todo mundo tentando fazer ciência, de maneira séria, renova os ânimos, faz com que voltemos para casa com vontade de estudar um pouco mais, discutir outros assuntos, propor outras reflexões… E faz até acreditar que isso tudo tem alguma coisa de divertido.

Só mais um Natal?

natal

Chegamos a este dia 24 de dezembro, véspera de Natal, com aquela sensação de: “espera aí, o que aconteceu? Onde eu estava em março, junho, setembro… Como assim? Já é Natal?”. Se você me acompanhou por aqui nesses últimos anos, talvez nessa mesma data, deve lembrar que, repetidas vezes, falei da urgência do tempo, da maneira apressada como vivemos e da impressão que dá de que tudo passa rápido demais. É verdade. Neste ano, não foi diferente. Passou rápido demais – apesar da crise econômica, do cenário de incertezas…

Mais um ano está indo embora. É Natal. Já é possível ouvir o som dos sinos, as boas conversas e risadas ao redor da mesa. Mas tudo isso também vai passar pra daqui a pouco comemorarmos a passagem de mais um ano e “estreia” em 2016.

Falar pra você “vamos aproveitar melhor o tempo, curtir intensamente cada momento” até parece um discurso repetitivo. Entretanto, não nos resta algo muito diferente. Afinal, o que importa na vida são os bons momentos que vivemos. As experiências mais profundas. Tudo mais é descartável e a gente esquece.

Neste Natal, o melhor é abrir o coração para as pessoas que amamos. A comida, a bebida, a música fazem parte apenas de um cenário em que os protagonistas devem ser cada de nós – a mulher, o marido, o namorado, a namorada, os filhos, os pais, os sogros… enfim, gente. São as pessoas que realmente importam. Gente é que faz a vida valer a pena. Foi pelas pessoas que o Cristo, do Natal, veio a este mundo – nascer, morrer e ressuscitar.

Então, que este seja o nosso sentimento neste Natal. Aproveite. Curta. Viva as pessoas que ama, viva o melhor Natal.

Amores doentios

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Dias atrás, um amigo me disse:

Estou impressionado com o que a mente é capaz de fazer.

Ele falava de uma mente doente. E tratava especificamente dos sintomas de uma pessoa com depressão. A conversa me fez pensar nos relacionamentos, pois existem uniões que estão longe de ser tão somente problemáticas, conflitivas. Há relacionamentos que sofrem porque um dos parceiros é doente emocional. E essas doenças se revelam de diferentes maneiras.

Tem gente que está sempre esperando alguma coisa do parceiro. Em geral, essas pessoas querem que o outro satisfaça suas necessidades infantis não satisfeitas. Por não terem recebido amor, atenção, reconhecimento etc etc, essas pessoas se mantêm em estado permanente de insatisfação. São carentes e cobram demais o parceiro. Tudo se torna motivo para reclamação, lamento…

O grande problema nesse tipo de vínculo é que o quadro doentio geralmente é naturalizado. Ou seja, é visto como normal. O outro é quem parece estar em falta com o parceiro, é quem não está suprindo as necessidades. Por isso, não é simples que o casal tome consciência da situação e reconheça que se trata de uma situação que precisa de intervenção profissional.

Tem gente que não consegue expressar suas emoções. E ao não dar conta de dizer o que sente, silencia-se e o corpo padece. Sim, algumas doenças do corpo nascem na mente porque a pessoa tem dificuldade para administrar o relacionamento.

Tem gente que tem uma necessidade não realizada de autonomia. A pessoa não aprendeu a ter autonomia e, por isso, uma das partes assume o papel de protetor e cuidador. Assim surge um vínculo patológico de protetor-protegido. Se o “protegido” começa a tentar fazer coisas por si mesmo, a dinâmica do relacionamento entra em colapso.

Tem gente que é dependente emocional e parece desejar ser submisso. Alguém domina e o outro acata. Esta é uma relação muito difícil de mudar e os conflitos surgem quando o dependente descobre que está sendo vítima do parceiro.

Tem gente que ama demais hoje, e não ama amanhã. O sentimento da pessoa parece uma montanha russa. Funciona numa lógica ilógica: agora te quero, amanhã não quero, depois volto a querer… Há um jogo constante e doentio de sedução. E um dos dois se torna manipulador. A vítima sofre e, se não consegue romper a relação, torna-se dependente emocional.

Tem gente que precisa ser admirado. E cobra o reconhecimento do parceiro. O problema é que ninguém dá conta de paparicar o tempo todo. Relacionamento é troca. Mesmo nos palcos de teatro, onde um faz o show e o outro está ali como espectador, o artista não pode cobrar os aplausos. Numa relação não é diferente. Embora admirar o parceiro seja uma forma de alimentar o romance, de fazer bem ao coração, a necessidade angustiante de ser notado sempre é uma doença. E essa vontade de ser admirado, que provoca expectativas, ansiedade… se transforma num problema ainda maior quando o parceiro, que fazia o papel de admirador, é elogiado, ganha uma promoção, passa num concurso…

Sabe, há outras manifestações de relacionamento doentio. Porém, o que posso dizer é que em todos eles, existe muita dor, sofrimento… E se o casal não buscar ajuda, as coisas não vão terminar bem.

O sofrimento é inevitável

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Não é difícil observar o quanto gostamos de coisas que supostamente facilitam nossa vida. Meu filho, por exemplo, vive reclamando da falta de uma máquina de lavar louças. Diz ele que, assim que tiver dinheiro, vai comprar uma. E, concordo, trata-se de um aparelho doméstico que melhora a vida de quem está na cozinha. Lavar louça não é algo divertido.

Uma série de produtos promete tornar nossos dias melhores. E nos sentimos atraídos por eles. Quase sempre, a indústria nos seduz com a promessa de uma vida mais confortável.

Isso acontece porque queremos um pouco mais de conforto. E isso não é ruim. No entanto, essa busca de conforto não se dá apenas do ponto de vista prático, de tarefas que podem ser transferidas para máquinas, também desejamos uma zona de conforto emocional. Por isso, sempre que podemos, tentamos correr dos problemas. Entre terminar um relacionamento olhando nos olhos do outro e mandar uma mensagem dizendo que “não dá mais”, o que é mais fácil?

Pois é… A gente quer evitar os problemas. E, na verdade, pensamos que a felicidade consiste em estar sempre bem, sorrindo, alegre… Tudo igualzinho ao que sugere a publicidade – seja de xampu ou de carro novo. O problema é que essa imagem é distorcida, é falsa. Quando se busca o bem estar em qualquer aspecto, é necessário compreender que a felicidade não consiste em anular as emoções incômodos, mas sim aceitá-las e aprender a administrá-las.

Tenho dito que a dor é inevitável. Em alguns momentos, a vida se torna difícil. Enfrentamos perdas não esperadas, decisões de outras pessoas que nos afetam e que nos aparecem injustas, amigos nos decepcionam e também cometemos erros que, muitas vezes, resultam em dores, sofrimentos. Atravessar os momentos difíceis é viver a vida como ela é. É superar as fantasias dos filmes de Hollywood com finais felizes. Se agimos com as emoções da mesma maneira que fazemos com a dor física, corremos o risco de buscar o primeiro remédio que pareça aliviar nosso coração. Alguns se refugiam em ansiolíticos, outros na busca de emoções passageiras que não curam feridas.

As emoções “incômodas” tem um por que em nossa vida. A tristeza, a ira, o medo são emoções básicas com as quais nascem todos os mamíferos. Elas são processados em nosso sistema límbico e o motivo é muito simples: ajudam-nos a sobreviver. Se não sentíssemos medo, por exemplo, seríamos incapazes de fugir, de evitar situações que nos colocam em risco. Todas emoções têm um por quê. O professor de psicologia de Harvard, Daniel Gilbert, chega a dizer que só apreciamos as emoções boas porque existem as ruins. Ou seja, os momentos difíceis da vida fazem-nos valorizar as coisas boas, ansiar por elas. Na opinião dele, para apreciarmos as coisas necessitamos de contrastes e não os teríamos se vivêssemos bem 365 dias por ano.

Quando penso nos dias ruins, lembro do livro de um pastor e escritor maringaense que ganhou o sugestivo título “As coisas boas dos dias maus”. Por mais sofrimento que alguns dias possam nos trazer, o que aprendemos nos desertos da vida ou em situações que parecem nos sucumbir, não aprendemos nos momentos doces da vida. Por isso, temos que conviver com os momentos incômodos e com as emoções que não ganham espaço no marketing das empresas.

A felicidade não está na ausência da tristeza, do medo, da raiva, da decepção… Nem está na aquisição de objetos que tornam nossa vida mais cômoda. A felicidade está em saber aceitar os reveses da vida e encará-los como oportunidades de aprendermos com cada um deles.

Por que o amor pode se transformar em ódio?

Amor ou ódio estão relacionados ao nosso ego
Amor ou ódio são emoções que estão relacionadas ao nosso ego

Frequentemente nos tornamos reféns de nossas emoções. O que explica, por exemplo, sentirmos ódio por uma pessoa ou amarmos demais outra?

Não é simples explicar.

Amor e ódio parecem emoções muito distintas. Porém, embora funcionem em oposição, geralmente são faces de uma mesma moeda. Amor e ódio são estados emocionais tão elevados que se sobrepõem. E, por isso, quase sempre funcionam juntos. Já notou como é comum odiarmos pessoas que um dia amamos demais?

Alguns pensadores apontam que tudo começa com nosso ego. E, cá com meus botões, tenho a impressão que eles têm razão. As coisas que sentimos que massageiam ou ferem nosso ego são as que geram respostas emocionais intensas.

Pense um pouco nisso…

Geralmente amamos as pessoas que amamos porque fazem bem ao nosso ego. Parecem que nos completam. Possuem características que admiramos e, quando estão conosco, fazem-nos ter a sensação de que também temos valor. Amamos pessoas que nos fazem sentir melhor com nós mesmos.

O problema é que o inverso também é verdadeiro. Odiamos as pessoas que de alguma forma ferem nosso ego. Gente que parece ser contra nós e que tenta nos denegrir. Ou que são desrespeitosos, ou se aproveitam de nós, ou menosprezam… Ou porque dizem verdades que não queremos ouvir. Ou simplesmente porque confrontam nossas verdades, nos incomodam por serem pessoas que invejamos ser ou por estarem em posições que jugamos não merecedoras.

Ou seja, o amor ou o ódio pelos outros não têm a ver com os outros; tem a ver com a gente, com nosso ego.

Nas relações cotidianas, ainda que essas emoções causem certas perdas, não chegam a ser um grande problema. Afinal, é natural que a gente não conviva com todo mundo. Mas nos relacionamentos mais próximos (principalmente, quando é namorado, esposa etc), entender o funcionamento das nossas emoções pode preservar o romance.

Quando a gente se envolve com alguém, mostra a melhor face. Investe o que tem de melhor. E, por isso, é mais fácil que o outro nos veja da maneira como gostaríamos que visse. Acontece que, com o tempo, essa versão lindinha que a gente vende para o parceiro, vai ficando arranhada. E aí necessitamos ser maduros e inteligentes para não nos ofendermos. Sim, porque o outro pode confrontar nosso ego, apontar coisas em nós que não gostaríamos que fossem apontadas.

Na verdade, quase sempre acreditamos na imagem que construímos de nós mesmos. Acreditamos nas máscaras que usamos. Quando alguém contraria isso, geralmente a rejeitamos.

Estudos apontam que a maioria das pessoas, estatisticamente, nega-se a reconhecer a pessoa na qual se tornou. A maioria simplesmente não quer reconhecer quem se tornou ou teme se olhar no espelho.

O problema é que, quando nos envolvemos com alguém, essa pessoa passa a conviver conosco. E ao nos conhecer cada vez mais, naturalmente vai apontar nossas fraquezas, vai mostrar uma parte de nós que não queremos ver. Dificilmente estamos emocionalmente prontos para isso.

Por isso, a maioria das pessoas se sente insultada, atacada, ferida… E responde de forma agressiva. O outro se torna culpado por nos ver de um jeito diferente daquele que gostaríamos que no visse. Quando as coisas se intensificam, o amor que uma vez sentimos pode se converter em ódio.

Então como evitar que isso aconteça? Sendo maduros. Gente madura ouve críticas e aprende com elas. O parceiro nem sempre critica para agredir ou insultar. E mesmo que tenha essa intenção, pode estar dizendo verdades a respeito de nós.

É fato que nunca vamos agradar a todos. Porém, podemos crescer a partir do reconhecimento de nossas fragilidades. Nossos instintos podem ser de odiar aqueles que ferem nosso ego. Porém, essas pessoas podem representar oportunidades de nos tornarmos melhores. Quem vê de fora, vê aquilo que a gente não vê – ou não quer ver.

Como saber se o parceiro te maltrata psicologicamente

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Muitas vezes, a dependência do outro é antessala dos maltratos psíquicos e até físicos. A dependência total do outro nunca faz bem. Porém, há situações ainda piores. E, na verdade, é fundamental ter a capacidade de olhar para o relacionamento a fim de saber se trata-se apenas de um momento ruim ou de uma situação doentia que está destruindo sua saúde emocional.

Qualquer pessoa, seja homem ou mulher, que está numa relação e que aceita que seu parceiro (ou parceira) lhe insulte, falte com respeito, denigra ou humilhe é alguém que está sendo maltratado psicologicamente.

A psicóloga e autora do livro “Cuando amar demasiado es depender”, Silvia Congost afirma que essas coisas não acontecem de uma hora para outra. Muitas vezes a dependência emocional precede o maltrato psicológico e até mesmo a agressão física. Nesses casos, a pessoa afetada costuma ser a última a se dar conta do que está acontecendo. E geralmente só nota isso quando recebe ajuda profissional ou de alguém mais experiente (e em quem confia). Ainda assim, não é fácil admitir o resultado da análise da relação.

O mais grave, segundo a psicóloga, é que o dependente geralmente se torna cada vez mais dependente. A pessoa passa a aceitar a agressão como algo natural, habitual, acostumando-se a isso a tal ponto que lhe custa muitíssimo abrir mão do relacionamento. A dependência do outro geralmente é tão grande que frequentemente a pessoa acha que o agressor pode estar certo. A vítima até quer sair do problema, mas a autoestima a confunde e não deixa.

Bom, mas vamos tentar identificar as características de um relacionamento em que há maltrato psicológico.

  • Anula a autoestima – quem maltrata geralmente diz coisas ou faz a vítima sentir que não serve para nada, que é um inútil, deprecia o parceiro. A situação chega ao ponto em que a pessoa não acredita em si mesma e pensa que, se abrir mão do relacionamento, não terá para onde ir, será incapaz de viver por conta própria.
  • Recebe ordens – o agressor geralmente dá ordens. Manda comprar pão, fazer a mesa, cuidar dos filhos… Reclama da limpeza da casa, da camisa “mal passada”, do presente que ganhou… E a vítima acha que não tem o que fazer. Pensa que deve aceitar as condições impostas pelo parceiro, porque, do contrário, a situação vai se tornar ainda pior. Há certo medo na dinâmica do relacionamento.
  • Não tem liberdade – a vítima não tem permissão para frequentar lugares que gosta, falar com pessoas que ama, que admira.
  • Distancia das pessoas que gosta – o agressor fala mal da família do outro, dos amigos e de todos que são contrários ao relacionamento.
  • Julga o que você faz, como faz, o que fala, como fala... Esse tipo de parceiro te obriga a mudar.
  • Quem maltrata culpa o outro pelas coisas ruins que acontecem (até naquelas questões totalmente irracionais). Frequentemente transfere para o parceiro as coisas negativas. Transforma o outro em responsável pelos acidentes cotidianos, mesmo quando não participou dos acontecimentos. Tipo… Ele bateu o carro. Ela nem estava junto. Mas o fato de terem brigado pela manhã faz com que o sujeito transfira para a mulher a culpa pelo que aconteceu.

Na dinâmica do relacionamento, as pessoas precisam ficar atentas. Todas as vezes que, em nome de um grande amor, toleram mais coisas do que deveriam tolerar, aceitam situações que não seriam aceitáveis – e isso por muito tempo -, tem algo errado acontecendo.

A importância de um parceiro com equilíbrio emocional

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Dividir a vida com alguém já é difícil por natureza. Dividir a vida com alguém desequilibrado emocionalmente vira um negócio maluco. É simplesmente enlouquecedor.

Já disse aqui que todo relacionamento é fadado ao fracasso. Só não fracassa quando as partes envolvidas estão comprometidas. É preciso ter um único propósito e muita disposição para fazer dar certo.

Porém, dificilmente um casal será feliz se uma das partes não tiver equilíbrio emocional. Tem gente que parece uma bomba relógio, está sempre pronto a explodir. E nem estou falando de irritação. Falo de uma pré-disposição para sair do que poderia ser considerado um estado normal.

Tem gente que basta ouvir uma palavra fora de hora para ficar de bico. Tem gente que basta enfrentar fila no caixa do supermercado para ficar estressado. Gente assim é difícil de conviver. E pior, é parceiro-problema.

Nem sempre as pessoas se dão conta da importância de um parceiro equilibrado emocionalmente. Porém, se em condições “normais” já não é simples fazer dar certo, lidar com quem tem um pacote de limitações emocionais torna tudo muito mais difícil.

Pessoas que têm dificuldades emocionais não conseguem ouvir com o “coração aberto”. Se for uma crítica então, pronto: temos o início do apocalipse. Pessoas assim também fecham a cara fácil… Para você, para sua mãe, para o pai dela, para o chefe, para o colega de classe… Choram fácil, gritam fácil…

Essa falta de equilíbrio emocional afeta a dinâmica do relacionamento. Porque se você esquece de comentar do penteado que ela fez para ir a uma festa de casamento, pode ter problemas a noite toda. Se envolveu-se num acidente de trânsito, o outro não vai te acolher; pelo contrário, vai criticar, colocar pra baixo. Se você está com problemas financeiros, a parceira não vai saber incentivar… Na verdade, vai se desesperar a cada novo boleto de cobrança que chega pelos Correios e te colocar ainda mais pra baixo.

O dia a dia do casal é instável, porque, se tudo está indo bem, pode deixar de estar num instante. E se você não está bem, o outro pode contribuir para tornar tudo ainda pior. 

Ter um parceiro com equilíbrio emocional é contar com uma pessoa que sabe lidar com as dificuldades, é também ter apoio em meio às crises e, principalmente, é ter alguém que não potencializa os problemas. Gente desequilibrada cria ambientes de tensão e pânico. Mas, no relacionamento, quando o outro é maduro, ajuda a apagar os “incêndios” da vida.