Aprendendo com Paulo Freire: todo professor é um pesquisador

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Ensinar exige pesquisa. Segundo Paulo Freire, ninguém é capaz de ensinar, de forma relevante, sem empenhar-se na busca, nas indagações, na bela tarefa de procurar saber se há mais informações, e informações importantes, sobre o tema a respeito do qual se pretende ensinar.

Essa ideia é maravilhosa! É aplicável não apenas ao campo da educação, do ensino na sala de aula.

O educador brasileiro coloca diante de nós uma premissa preciosa e que nos ajudaria a romper, inclusive, com a quantidade absurda de mentiras que circulam no WhatsApp e nas redes sociais.

Eu não sei se você percebe, mas quando compartilha um conteúdo com alguém, o que você intenciona é ensiná-lo sobre aquele tema. Frequentemente, do outro lado, quem lê ou vê o conteúdo reforça ou assimila uma certa visão de mundo. Ou seja, existe ali uma dinâmica de ensino e aprendizagem.

Já pensou se essa prática cotidiana de ensino, na sala de aula ou fora dela, fosse permeada pelo desejo constante de aprender e saber mais sobre o assunto a fim de oferecer um conhecimento mais completo aos alunos e às pessoas, de modo geral?

Paulo Freire chama isso de “curiosidade epistemológica” – uma curiosidade constante, uma vontade profunda de saber mais sempre para ensinar melhor.

Para o educador, a pesquisa é intrínseca à prática docente. Como professor, eu pesquiso para conhecer o que não conheço, pesquiso para conhecer mais e assim posso comunicar e anunciar as novidades.

Aprendendo com Paulo Freire: três lições

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A atualidade do pensamento de Paulo Freire está diretamente relacionada à capacidade do educador de compreender que o ensino precisa vincular-se à realidade das pessoas. Ou seja, os métodos e conteúdos devem dialogar com o que o aprendiz vive aqui e agora. Não existe em Paulo Freire uma receita, uma forma única de fazer educação. Faz-se educação partindo-se do mundo real, das experiências do professor e do aluno.

Outro aspecto que assegura a atualidade do pensamento de Paulo Freire é a importância dada à associação entre teoria e prática.

Ele afirma:

“A reflexão crítica sobre a prática se torna uma exigência da relação teoria/prática sem a qual a teoria pode ir virando blablablá e a prática, ativismo”.

Confesso que quando leio isso e lembro dos críticos de Paulo Freire, tenho o desejo de questionar: cara, você não consegue ver o quanto as ideias dele são sensatas?

Veja só, caro amigo, o primeiro aspecto que emerge dessa afirmação de Paulo Freire é que toda teoria sem aplicação prática é vazia. Note, qual é uma das constantes críticas feitas pelos alunos ao que acontece em sala de aula? O ensino da teoria sem a prática.

Muito do que se ensina na escola não é aprendido porque o aluno não consegue relacionar ao mundo da vida, ao que se experimenta nas práticas cotidianas. São teorias vazias. Ou, como diz Paulo Freire, uma teoria sem prática acaba virando blablablá.

Por outro, práticas sem teorias não passam de ativismo. Quando não existe uma teoria para embasar as práticas, corre-se o risco de fazer sempre as mesmas coisas sem desenvolvimento, sem crescimento. A teoria permite o repensar constante das práticas, levando à ações inovadoras.

Um terceiro e último aspecto da afirmação de Freire é que ele sustenta a necessidade de uma reflexão crítica nessa relação teoria/prática.

O que isso quer dizer? Quer dizer que, mesmo havendo a associação entre teoria e prática, é fundamental sustentar uma atitude crítica desse processo. Quando se reflete criticamente sobre teoria e prática, é possível notar os acertos e equívocos. Isso permite inclusive a revisão ou mesmo o abandono de determinadas teorias e práticas.

Afinal, a vida é movimento. E ensino e aprendizagem devem vincular-se ao mundo real, inclusive com suas contradições.

Aprendendo com Paulo Freire: não sou dono da verdade

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O professor Paulo Freire foi um educador brilhante. O mundo da educação segue aprendendo com seus ensinos. E não apenas o mundo da educação. Paulo Freire pensava a educação tendo como referência a própria pessoa e a sociedade em que ela vive. Por isso, quando lemos as obras desse grande professor, temos ensinos para a vida.

Ainda ontem, ao reler alguns de seus textos, encontrei um pensamento que compartilho por aqui. O educador sustentava a importância de marcarmos nossas posições, mas de respeitarmos as posições dos outros.

Disse ele:

Se de um lado não posso me adaptar ou me “converter” ao saber ingênuo dos grupos populares, de outro, não posso, se realmente progressista, impôr-lhes arrogantemente o meu saber como verdadeiro.

Lindo isso, né?

Paulo Freire sustenta aqui uma de suas práticas de vida. Afirma que não pode simplesmente se adaptar ou se converter a um tipo de saber que ele considera ingênuo, vazio, desconectado da realidade. Entretanto, o educador lembra que, se ele é realmente um sujeito progressista, não pode impor o saber dele como verdadeiro.

Essa é a essência do pensamento democrático progressista: marcar seu posicionamento, mas nunca impor o seu saber como sendo a verdade. É necessário respeitar o saber alheio, ainda que seja ingênuo ou se tenha provas que o outro esteja errado.

Noutras palavras, eu não devo me adaptar e nem me converter ao outro, mas não me porto como sendo o dono da verdade e nem obrigo a outra pessoa a aceitar o que eu penso.

Já pensou como seria maravilhoso se todos nós reproduzíssemos essa máxima de Paulo Freire? Nossas relações seriam pacíficas, baseadas no respeito e na tolerância.

A urgência do ensino da leitura

Tenho defendido a urgência do ensino da leitura, de práticas que permitam a alfabetização plena, o desenvolvimento de habilidades de interpretação de um texto.

Nenhum outro aprendizado ocorre de maneira efetiva sem que a pessoa tenha capacidade de plena de ler e interpretar um texto.

Vejamos… Se um tenho nas mãos um livro de História do Brasil e não sou um leitor proficiente, certamente não vou entender tudo que o autor ou a autora relataram. Não se trata de falta de inteligência; trata-se de falta de habilidade para compreender o texto.

Vale a mesma regra para textos da Geografia, Matemática, Biologia… E também da Literatura.

É fato que um texto científico reúne conceitos que, por vezes, são desconhecidos. Mesmo uma pessoa plenamente alfabetizada encontrará dificuldades para interpretá-lo de maneira adequada. Será necessária uma leitura atenta, talvez ler duas ou três vezes, buscar textos de apoio, de comentadores daquele autor, para que haja a compreensão.

Esse movimento de busca de compreensão de um texto científico é normal. Quando a gente não tem conhecimento prévio dos conceitos abordados na obra, é impossível ler uma única vez e já saber o que foi discutido.

Entretanto, as leituras cotidianas – uma reportagem, por exemplo – deveriam ser simples para a maioria de nós. E, lamentavelmente, muita gente até acha que leu e entendeu. Porém, quando você pergunta para a pessoa sobre o fato central ou a respeito das principais ideias, é possível perceber equívocos na leitura, erros de interpretação que motivam uma visão deturpada do que estava escrito.

Portanto, a urgência do ensino da leitura objetiva preparar pessoas que possam compreender plenamente os relatos mais variados e tenham a possibilidade de, efetivamente, interpretarem os acontecimentos do cotidiano e até mesmo acessarem o conhecimento teórico e científico sem leituras enviesadas. Afinal, o conhecimento só é possível se os parâmetros básicos para a leitura das informações estiverem corretos.

É preciso ensinar a ler

Ao longo dos anos, a qualidade da leitura tem sido uma de minhas preocupações. Não falo aqui da qualidade dos livros ou da literatura, embora eu seja apaixonado por livros e dedique diariamente um tempo a essa atividade tão importante. Falo, porém, da habilidade de interpretar adequadamente um texto.

Ainda ontem, relia os dados da última pesquisa sobre os níveis de analfabetismo no Brasil. De cada 10 brasileiros, três são analfabetos funcionais. São pessoas que não possuem as habilidades necessárias para interpretar corretamente uma única frase. Pior, parte dos analfabetos funcionais está nas universidades – ou seja, o sistema de ensino no país é tão precário que permitiu que essas pessoas chegassem ao ensino superior sem o domínio da leitura.

Mas o dado que mais me incomoda é saber que apenas 1 em cada 10 brasileiros é leitor proficiente – alguém que reúne o conhecimento necessário para ler, interpretar e fazer as conexões necessárias a partir do texto lido.

O nível do leitor não está relacionado à inteligência. Não tem a ver com a pessoa; tem a ver com o ambiente em que ela vive e o caráter da instrução recebida. A alfabetização plena, portanto, não é um ideal inalcançável.

Entretanto, no modelo atual de ensino, a leitura não é uma habilidade desenvolvida adequadamente.

Eu me surpreendo quando peço a leitura de um texto aos meus alunos na faculdade. Frequentemente, reclamam que o texto é difícil e que não conseguiram entendê-lo corretamente. Isso mostra a gravidade do problema. Note bem, sou professor na área de Comunicação, onde o domínio da leitura é requisito básico para o exercício profissional do Jornalismo e da Publicidade e Propaganda. Gente que tem dificuldades de interpretação de um texto terá problemas em comunicar uma mensagem de maneira eficiente e eficaz.

É urgente repensar as estratégias que estão sendo utilizadas na escola para preparar nossas crianças, adolescentes e jovens para a leitura.

Como eu disse, a alfabetização plena depende do caráter da instrução recebida e do ambiente em que a pessoa vive.

Isso quer dizer que é necessário estimular positivamente o aprendizado da leitura. E hoje mais que antes, porque o ambiente não é favorável ao desenvolvimento da interpretação do texto escrito.

Somos uma sociedade da imagem, do som… Uma sociedade de pessoas distraídas, de olhares superficiais. Além disso, ainda que existam muitos textos escritos nas redes sociais, são curtos, pobres de sentido e o leitor raramente é confrontado sobre a natureza do que está verbalizado. Noutras palavras, quase nunca o leitor tem seu entendimento confrontado a fim de que reconheça as fragilidades da interpretação.

Concluo dizendo: se desejamos melhorar a qualidade do ensino, temos que investir fortemente na aquisição dessa habilidade fundamental, a leitura. Sim, precisamos ensinar a ler a fim de capacitar as pessoas a interpretarem um texto. E ouso afirmar que essa tarefa deve começar da interpretação de cada frase, antes mesmo de entendê-la no contexto, na globalidade do texto.

Educar pelo exemplo

Não há nada mais poderoso no processo de educação que o exemplo – educar pelo exemplo.

As palavras são importantes. A disciplina é fundamental.

No entanto, é muito mais eficaz ensinar por meio das práticas de vida.

Quando orientamos uma criança, damos parâmetros sobre como agir. Mas o tempo todo somos observados por ela. Aquilo que fazemos molda de forma muito mais eficaz a conduta da criança.

Isto também acontece na escola.

O professor ensina os conteúdos dos livros, mas é por meio de seus exemplos que inspira a maneira da criança ver o mundo.

Qualquer um de nós terá dificuldade para lembrar de conteúdos específicos trabalhados em sala de aula. Mas certamente recordamos com facilidade de professores que tinham um jeito especial de falar, amor pelo que faziam, um cuidado natural com seus alunos.

Anos atrás, ao entrevistar um velho especialista em didática, ouvi dele uma frase que me fez compreender que a melhor pedagogia não é aquela ensinada nos livros; é aquela vivida nas práticas do professor em sala de aula e na relação com seus alunos.

Durante minha trajetória acadêmica, alguns professores foram fundamentais pra mim. Não pelo que falaram, mas pelo que demonstravam como seres humanos.

Por compreender isso, tenho defendido cada vez mais que tenhamos coerência entre aquilo que falamos e aquilo que fazemos. Afinal, aprende-se muito mais com o que é vivido do que com aquilo que é apenas falado.

Todo educador é um aprendiz

Ensinar implica em aprender. Todo educador é, primeiro, um aprendiz.

Quem está numa posição de liderança, que tem um grupo de pessoas sob sua responsabilidade, deve compreender que sua principal tarefa não é comandar, é estudar constantemente para ter sempre algo novo a oferecer às pessoas.

Essa atitude é, na prática, um dever ético. Deveria fazer parte da rotina diária de quem se atreve a se expor, aceita uma função importante na empresa, assume o púlpito de uma igreja, concorre a um cargo público, ou mesmo publica conteúdos nas redes sociais.

Ah… Incluo na lista toda e qualquer pessoa que deseja ter um filho. Não há nada mais nobre que educar uma criança. Porém, essa tarefa também requer estudos, necessita de um preparo especial.

Paulo Freire afirmava que “ensinar inexiste sem aprender”. Não existe validade alguma no ensino sem a constante aprendizagem.

Volto a dizer, trata-se de uma postura ética. Quando falo, devo compreender a responsabilidade que tenho pelas minhas palavras, pois afeto outras pessoas. E, muitas vezes, as pessoas que me ouvem dão valor ao que eu digo. Portanto, se meu dizer não for devidamente experimentado, testado, refletido, quem me escuta terá informações equivocadas, opiniões enviesadas, vazias.

O mestre Paulo Freire também sustentava que “não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino”. Ou seja, todo o ensino deve estar pautado em uma boa pesquisa. E, quando pesquiso, devo estar disposto a oferecer o saber que obtive para outras pessoas.

Deve fazer parte da nossa rotina diária a compreensão que se trata de um agir ético a busca por aprender para ensinar.

Quando eu publico nas redes sociais, falo na rádio ou dou uma aula, não posso falar do que acho; devo falar a partir das mais diversas leituras de mundo – da teologia, da filosofia, da sociologia e de outras ciências. Isso é oferecer às pessoas um saber crítico, reflexivo, aberto a novos saberes.

Quem despreza o aprendizado constante, despreza também a própria condição humana, de curiosidade critica, insatisfeita… Que nos permite a dúvida, a revisão, a retomada, a comparação, a contextualização.

O desastre do ensino no Brasil

O ministro da Educação, Rosseli Soares, declarou nessa quinta-feira que o Ensino Médio brasileiro está falido.

O ministro fez isso logo após a divulgação dos resultados do Saeb, o Sistema de Avaliação da Educação Básica.

O Saeb demonstrou que os estudantes brasileiros estão terminando o Ensino Médio sem ter domínio de português e matemática, que são essenciais para o aprendizado de todas as demais matérias e para lidar com as demandas práticas do dia a dia.

Sete de cada dez alunos não sabem o suficiente de português e matemática.

Os números são assustadores.

O Saeb estratifica o domínio desses conhecimentos. E aí, quando faz isso, o quadro fica ainda pior. Isso porque apenas 1,64% dos alunos têm domínio adequado, ou seja, são proficientes em português. Em matemática, esse índice é de 4,5%.

Após divulgar resultados tão desastrosos, o ministro sustentou que o Brasil precisa urgente implementar o novo modelo do Ensino Médio. Ele acredita que a proposta atual está levando a educação do país para o fundo do poço.

Eu não discordo totalmente do ministro. Mas, diferente do que o ministro diz, a falta de domínio de português e matemática não é culpa necessariamente do Ensino Médio. E nem será resolvido com o “novo ensino médio”.

O problema começa na base. Lá na educação infantil e nas primeiras séries do chamado Fundamental I. 

Em português, por exemplo, as práticas de ensino, que não valorizam o ensino das estruturas da linguagem, causam um desastre no aprendizado.

Já em matemática, a questão é ainda mais complexa. Quem ensina matemática às crianças nas primeiras séries? Uma pedagoga. Essa profissional pode ser muito preparada, porém, posso afirmar com convicção: poucas pedagogas têm domínio pleno da matemática – muito menos são apaixonadas pela matemática.

E como ensinar bem matemática se falta conhecimento pleno nessa matéria?

Claro, estou aqui mencionando dois pontos apenas. Eles não são os únicos responsáveis. Chega a ser simplista citar somente essas questões. Cito apenas como exemplos de que os problemas de domínio do português e da matemática no final do ensino médio não são culpa necessariamente do ensino médio.

O desastre começa muito mais cedo.

Isso quer dizer que o ensino médio não deve mudar? Claro que deve. É necessário! Contudo, não me parece que a reforma proposta, votada e sancionada pelo governo vai resolver o problema.

A base ainda não está sendo cuidada. A formação de professores também é muito falha.

E, para finalizar, o ensino médio, mesmo que seja renovado, ainda sofrerá os efeitos do sistema de acesso ao ensino superior.

Hoje, é inegável que os vestibulares são nefastos ao processo de ensino no nível médio. O ensino médio é conteudista – e muito disso em função do jeito que os vestibulares e o próprio ENEM são construídos.

Se as autoridades e os pesquisadores não conseguirem observar os problemas e propor mudanças em todos os níveis da educação, pouca coisa vai mudar nos próximos anos.