Os dois tipos de erro

Gente, de maneira até simplória, poderíamos dizer que existem dois grandes tipos de erro: o erro por negligência, displicência, certa preguiça em tentar compreender o contexto, a tarefa a ser executada, e o erro que se comete na tentativa de acertar, na busca por explorar, por tentar solucionar.

O primeiro tipo de erro deve ser combatido e, em algumas ocasiões, até punido – principalmente, quando se trata de uma prática recorrente e a pessoa já foi avisada, alertada.

O segundo tipo de erro deve ser valorizado – não porque o erro é bom, mas porque se trata da busca por soluções inovadoras.

E por que falo sobre isso?

O erro nos acompanha; em todos os ambientes cometem-se erros. Entretanto, a ausência de compreensão sobre a diferença entre esses dois tipos de erros pode comprometer o processo de desenvolvimento pessoal, profissional e até educacional.

Por exemplo, numa empresa, alguém que erra sempre por displicência, precisa ser punido – talvez, seja o caso até mesmo de ser demitido. Por outro lado, aquele colaborador ousado, que se empenha, busca soluções, faz propostas inovadoras, também vai errar, mas, se for punido ou constantemente repreendido, provavelmente vai se acomodar e deixará de contribuir para o crescimento da empresa.

Isso também vale em casa e na escola. Ambos ambientes são educativos. Uma criança que é preguiçosa e faz as tarefas solicitadas pela mãe ou pela professora de maneira displicente, precisa ser disciplinada; mas uma criança pró-ativa, questionadora, que toma iniciativa, cria projetos, que vai pra cozinha tentar suas receitas, ela precisa ser estimulada. Ela vai falhar, claro. Provavelmente, causará alguns prejuízos e estragos. Entretanto, se for reprimida, deixará de ser criativa e inovadora.

Gosto da frase de Brené Brown: quando errar não é uma opção, não existe aprendizado, criatividade ou inovação.

Portanto, compreenda que nem todo erro é um problema; há erros que refletem a ousadia das boas atitudes e que podem proporcionar desenvolvimento, mudanças, inovação.

Você já cometeu um erro muito grande?

Já fez uma besteira enorme? Como você se sentiu? Se arrependeu imediatamente? 

Outra coisa… e as consequências do seu erro? Você conseguiu evitar as consequências? Conseguiu reparar os erros? 

Eu poderia listar vários erros que cometi. Alguns deles não me causaram arrependimento na hora. Mesmo tendo causado estragos, fiquei desconfortável, triste, mas não necessariamente arrependido. O tempo, porém, foi me fazendo ver o que eu não tinha visto. E pouco a pouco, creio que pela ação do Espírito Santo, fui sendo profundamente tocado e meu coração ficou em pedaços. Me arrependi profundamente.

Mas… e aí… o que fazer?

A declaração de Davi, no Salmo 6, versos 1 e 2, reflete um pouco de como me senti: “Senhor, não me castigues na tua ira nem me disciplines no teu furor. Misericórdia, Senhor, pois vou desfalecendo! Cura-me, Senhor, pois os meus ossos tremem; todo o meu ser estremece”

Você conseguiu sentir a dor de Davi? Conseguiu notar o arrependimento de Davi? Davi clama por misericórdia. Todo o corpo dele dói. Os ossos estremecem. Davi está desfalecendo. E ele pede misericórdia. Pede que o Senhor não o castigue. Sabe, raramente nossos erros permanecem impunes.

Quando a gente erra feia, a gente colhe as consequências. Mas, se nos arrependemos, Deus nos perdoa. E o perdão de Deus é o que mais importa.

Ainda que nesta vida a gente colha as consequências dos erros que cometemos, ter acesso a misericórdia de Deus faz toda a diferença. E sabe por quê? Porque o perdão dele nos permite seguir a vida aqui em paz. Talvez a gente perca algumas coisas, mas podemos ser restaurados, reconstruídos e seguir em frente, em paz. E sabe por que seguimos em paz? Porque nenhuma perda terrena se assemelha a perda da salvação. Guarde essa palavra no coração! 

Tem como consertar nossos erros?

passado

Não sei se sou prático demais, mas não me agrada ficar lamentando os desastres da vida. Sejam eles grandes ou pequenos. Entretanto, tem gente que parece não ser capaz de seguir adiante. A pessoa comete um erro e para de olhar pra frente. Fica voltando ao passado. Ou melhor, não abandona o passado.

E é interessante como essa forma de encarar a vida se dá a partir das pequenas coisas.

Derramou o leite? A pessoa fica ali tentando achar uma justificativa para o leite derramado… Queimou a roupa? Fica irritada com o ferro que está velho demais, com o filho que distraiu ou com o marido que nunca ajuda… Bateu o carro na garagem? Reclama que o arquiteto fez um projeto ruim, o vizinho estacionou mal… A comida estragou na geladeira? Acha ruim que ninguém lembrou de comer, briga com quem comprou demais, quer saber quanto tempo faltava pra vencer o produto…

Eu prefiro viver de outra forma. Derramou leite? Limpa. Queimou a roupa? Fazer o quê… Já foi. Bateu o carro? Vamos tentar prestar mais atenção pra não acontecer de novo. A comida estragou? Joga fora e fica o alerta pra evitar desperdício.

Nos relacionamentos, na vida profissional ou acadêmica, a gente também falha. E fracassa. A gente magoa pessoas, decepciona, trai… Perde vendas, troca de emprego na hora errada… Atrapalha-se, não se dedica o suficiente e perde o ano de estudos… Essas coisas acontecem. E nem sempre por que houve uma intenção.

Quando erramos, temos duas alternativas: ficar lamentando os erros cometidos ou desculpar-se pela bobagem, assumir as consequências e seguir em frente. As vezes, as bobagens que cometemos cobram uma conta muito alta. As consequências são variadas. E machucam. Ainda assim, o que dá pra fazer? Tem como reparar os erros? Não tem. O passado é passado. Foi um tempo vivido, mas que não tem como ser mudado. Entretanto, o futuro… a gente escreve. Se a gente ficar chorando os erros de ontem, perderemos a chance de tratar das feridas hoje e voltar a sorrir amanhã.

O que é melhor pra mim?

o_melhor

 

Olhar para si mesmo, conhecer limites e potencialidades, ter domínio sobre as emoções, identificar as próprias expectativas são coisas que deveríamos praticar com bastante frequência. E isso para que nossas escolhas tivessem mínimas chances de nos satisfazerem ao longo da vida. Quando nos conhecemos pouco, erramos mais. Saber sobre si e sobre o mundo reduz as probabilidades de “quebrarmos a cara”.

Entretanto, ainda assim não há garantias de que nossas decisões nos farão felizes. Não são raras as vezes que o que achamos ser o melhor, na verdade, tem potencial para arruinar nosso futuro, tirar nossa paz.

Muita gente decide por caprichos pessoais. Acha que sabe, acha que tem o controle da vida. Entende que se não fizer isso ou aquilo será infeliz. Esse tipo de equívoco é mais cometido pelos jovens – mas muitos adultos ainda possuem o ímpeto dos jovens e cometem erros infantis. Não desenvolveram experiência; entendem que são auto-suficientes. São afoitos, possuem visão unilateral, enxergam apenas o que está aparente. Não desenvolveram a habilidade de racionalizar, de se distanciarem das emoções a fim de reconhecê-las e notar quando estão enganando a si mesmos.

Essas pessoas fazem isso na escolha de uma profissão, na mudança de emprego… E até na hora de lutar por um amor. Sem se conhecerem, lutam pela felicidade e encontram angústia, lágrimas, culpa.

Mas nem todo mundo decide assim. Muitos de nós passamos semanas, meses e até anos para escolher, para mudar. A caminhada de reflexão se torna dura, penosa. São avaliadas todas as possibilidades. A pergunta que norteia é:

– O que é melhor pra mim?

Por vezes, considera-se inclusive o impacto na vida de pessoas próximas. Há uma preocupação em ser justo, em fazer o correto, em sentir-se bem. Teme-se o arrependimento. Teme-se o risco de se magoar e até magoar os outros.

Acontece que, por mais que procuremos ser sábios, não há garantias de que nossas escolhas nos farão felizes. Não temos controle pleno sobre a vida. Não somos totalmente donos do nosso destino. O que eu escolho afeta minha vida, mas também muda a dinâmica do ambiente onde estou. Além disso, acontecimentos externos exercem influência sobre o que experimentamos, fazemos ou sentimos. Ninguém dá conta de prever a felicidade nem de escrever a melhor história.

Nunca saberemos de fato o que é melhor para nós. Não dá para viver angustiado com isso. Não controlamos os resultados de nossas escolhas. Podemos ser infelizes, mesmo após fazermos o que nos parecia ser o certo.

E então… o que nos resta? Reconhecer nossos limites e até nossa ignorância. Nossa história é escrita com erros e acertos. É necessário aprender a conviver com isso. E sofrer menos, porque, nunca teremos tudo que sonhamos.

Nem todos nossos sonhos são os melhores sonhos. E, mesmo conhecendo nossa alma, nem sempre saberemos o que é melhor para nós.

Meu erro

erroA revista Época tem uma seção curiosa no site. Tem o sugestivo título “Meu erro”. Nesse espaço, pessoas importantes, famosas contam um erro que cometeram na vida.

O desfile de erros é grande. O ator Alexandre Borges diz: “comecei a fumar”. O chef de cozinha Rodrigo Oliveira conta: “levei arroz cozido na mala do avião”. O médico David Uip revela: “entrei numa faculdade recém-criada”. E tem até o Galvão Bueno falando que certa ocasião errou ao anunciar do vencedor de um GP de Fórmula Um.

No entanto, há algo que me chama a atenção. São erros cotidianos. Coisas que não comprometem. Ou, se trazem algum tipo de consequência, geralmente confessá-los não significa uma grande revelação. São micos, histórias de prejuízos, pequenas precipitações ou falhas de julgamentos.

Mas o título da seção segue ali. E fico imaginando quais os verdadeiros erros. Os grandes erros. Aqueles que causaram decepções. Quem sabe, arrependimentos, culpas. Erros fazem parte de nós. Somos humanos; falhamos.

E esses erros… não compartilhamos. Na poesia, parece mais fácil. Na vida real, de alguma forma, poderiam comprometer nossa imagem. Vivemos da imagem que construímos. Admitir fracassos, contar coisas que nos envergonham não nos agrada. Fugimos disso. Por isso, escondemos. É uma atitude de preservação. Portanto, natural.

Entretanto, entendo que pensar em nossos erros seja uma forma de crescimento. Na verdade, será que erros existem? Bom, existir… existem. Porém, podemos ter um olhar diferente para eles. Afinal, o lugar onde estamos, o que somos são construções possibilitadas por acertos e erros. Talvez possamos nos envergonhar de verbalizar nossos fracassos. Mas deveríamos, ao menos, aceitá-los como oportunidades dadas pela vida de nos tornarmos pessoas melhores.

É mais fácil fazer o certo que corrigir o errado

Fazer a coisa certa nos liberta; também das culpas

Gente, como dá trabalho arrumar algo defeituoso. Você mexe de um lado, mexe do outro, tenta aqui, tenta ali… e, no final, nota que continua uma grande porcaria.

Errar… todo mundo erra. Mas tem coisas que dá pra evitar. E não estou falando aqui apenas de relacionamentos. Também não estou tratando de problemas do passado e nem de arrependimentos. Estou falando de coisas básicas. Escrever um texto, por exemplo. Consertar o chuveiro. Lavar o banheiro. Fazer o arroz. Coisas assim.

Dias atrás, fui fazer um creme de tomate. É uma receita da minha avó. Coisa de húngaros. Em casa, o creme é tradicional. É bom pra acompanhar arroz e carne de panela.

Mas vamos adiante… O blog não é de receitas.

Pois bem, tive a sorte de, na família, ser talvez o que consegue aproximar mais o sabor do bendito creme ao que minha avó fazia. Então, lá estava eu. Na beira do fogão.

Acontece que, naquele dia, estava meio perdido, desconcentrado, distraído, cabeça longe. Quem sabe até meio displicente.

Logo de cara, vi que não tinha um determinado tempero. Mas dava pra improvisar. Sem muita atenção, coloquei mais do que deveria.

O estrago estava só começando.

No meio do processo, exagerei no vinagre.

Quando vi, tinha diante de mim uma panela com um negócio horrível. Difícil de engolir.

Foi um “deus nos acuda” pra salvar o creme. Joguei metade fora. Refiz outro tanto. Enfim, saiu. Mas ficou muito longe do sabor que habitualmente ficaria.

Gastei mais produtos que gastaria. E fiquei o dobro de tempo na cozinha.

Tudo poderia ter sido evitado. Bastaria ter focado minha atenção no que estava fazendo. Ter sido mais cuidadoso.

Em tudo na vida é assim que funciona. Se a gente não se concentrar, não der o melhor de si, fazer as coisas apressadamente, vai dar errado. Consertar depois dá trabalho. Muito trabalho. E nunca fica igual.

Um texto escrito às pressas por um repórter pode motivar o editor a pedir para refazê-lo (talvez até renda um processo movido por uma das fontes, caso haja uma informação equivocada). Um armário mal instado na cozinha pode levar o dono a pedir uma indenização. Uma casa construída com materiais ruins pode resultar em rachaduras e brigas na Justiça. Um serviço mecânico mal feito pode ter de ser refeito e causar a perda do cliente.

Num relacionamento, a falta de atenção de hoje ao parceiro leva ao desinteresse, mágoas, traições e separações.

Portanto, se a gente tem que fazer algo – e se dispôs a fazer -, por que não se envolver e tentar o nosso melhor? Pelo menos, se der errado, vamos ter a convicção que não foi por negligência.