Escolher é perder

escolhas
E não escolher, também. Lembro de um ditado antigo que dizia:

– Se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come.

Nele, valia a tese: não tem saída. Pra onde for, há riscos. A vida é bem assim: por vezes, se impõe. Até parece injusta. Mas temos que escolher. Tomar uma decisão. Se decisões são difíceis por natureza, tornam-se ainda mais dolorosas porque geralmente significam abrir mão de alguma coisa.

Dias atrás conversava com uma pessoa que está sofrendo com o relacionamento. Está casada há 10 anos. Ama o parceiro. Entretanto, o casamento está por um fio. Depois de semanas tentando descobrir o que motivou o desgaste, chegou a uma conclusão: cometeu muitos erros. O maior deles: enganou-se. Achou que era possível levar pro relacionamento a mesma vida, os mesmos hábitos que tinha quando solteira. Esqueceu um princípio básico: a renúncia.

É… Não tem jeito. Quer casar? Perfeito. Mas tem que saber que algumas coisas vão mudar. Liberdades deixarão de existir. Decisões que se tomava sozinha passarão a ser divididas, compartilhadas. Novas atitudes serão requeridas.

Desculpem-me frustrá-los, mas não dá pra juntar as duas coisas: vida de solteiro com vida de casado. Nem mesmo vida de solteiro, com vida de quem tem um parceiro – que pode ser simplesmente um namorado/a.

A escolha de uma nova vida implica exatamente isto: experimentar e viver coisas novas; renunciar coisas “antigas”.

E talvez seja este um dos problemas dos relacionamentos. As pessoas querem coisas, mas não entendem que, para tê-las, terão de abandonar outras. Renunciar dói. Somos apegados a certos hábitos, comportamentos… e até mesmo a objetos. Queremos manter tudo.

Mas não é assim que funciona.

Vale até para aspectos mais simples. Emprego novo? Ok, mas tem que dar tchau para os colegas de trabalho, para o chefe, clientes… Roupas novas? Tem que abrir espaço no guarda-roupas… Talvez aquela blusinha que ganhou na mamãe há 10 anos vai ter que ir pro lixo.

O princípio básico de uma escolha é justamente este: tenho diante de mim duas ou mais opções. Optar por uma significa renunciar a outra – ou, as demais.

O problema é que muita gente não entende isso. Não admite perder. E pior… Tem quem escolhe agora, dá uma experimentadinha, se arrepende e quer pegar de volta o que deixou para trás. Às vezes, até dá certo. Porém, quando a gente escolhe tem que ter em mente que, ao se fazer uma opção, algo foi deixado, negado, rejeitado. Não dá para escolher e viver se lamentando pelo que perdeu. Isso não é viver. É sofrer constantemente pelo retorno ao vazio… ao nada.

Viver implica em saber viver. Quem escolhe, perde… Mas, se estiver bem resolvido com suas escolhas (mesmo que não tenham sido as melhores), segue em frente e acredita que também há beleza nos erros, pois nos permitem crescer.

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A graça ou desgraça nossa de cada dia

Ser feliz é uma escolha. A frase parece título de livro de auto-ajuda, mas traduz uma grande verdade. Não é a vida que a gente tem que determina se somos ou não felizes; é a maneira como a gente lida com os problemas que nos faz felizes ou infelizes.

É a forma como a gente vê as coisas que diz se a vida está a nos oferecer graças ou desgraças a cada dia.

Todo mundo tem problemas. Não dá pra escapar deles. E podem ser emocionais, físicos, espirituais… E outros tantos provocados por acontecimentos externos – um acidente com um filho, a perda do emprego, um assalto etc.

Ninguém passa pela vida sem enfrentar situações que nos tiram daquilo que entendemos ser a normalidade.

Não procuramos (alguns sim, mas este é assunto pra outro texto), porém os problemas fazem parte do cotidiano de todos.

Acontece que tem gente que alimenta a falsa ideia de que os problemas só acontecem na sua casa. O vizinho não tem problemas. Ele vê o vizinho sorrindo, feliz… E acha que o sujeito é o mais sortudo do planeta. E pior, começa a se incomodar porque a vida do vizinho é boa e a dele é uma droga.

Aí, quando olha pra dentro da própria casa, acha que o universo não lhe foi generoso. Deu tudo de bom pro vizinho e, as coisas ruins, sobraram pra ele. Quanta injustiça, né?

Esse tipo de gente acredita que o problema é a vida dele. O universo lhe teria reservado só desgraças. É como se fosse um carma. A pessoa estaria no mundo pra “pagar os pecados” de uma outra vida, de seus antepassados… enfim.

Sabe, não é assim que funciona. Se fosse, por que algumas pessoas, que vivem em condições miseráveis, consideram-se felizes?

Qualquer pesquisa sobre felicidade revela que não é a classe social, não é o nível de conhecimento, nem são as condições de saúde física que determinam o índice de satisfação da pessoa com a vida.

Conheci um senhorzinho de 92 anos, quase cego, com parte dos músculos atrofiados, vítima de derrame. Ele vivia melhor que muita gente jovem, saudável, sexualmente ativa. Esse vovô tinha um humor maravilhoso, conhecia as melhores piadas, divertia-se e, onde estivesse, tornava o ambiente muitíssimo agradável.

Aparentemente, não tinha motivos pra isso. Sempre teve uma vida difícil. Na juventude, foi lenhador. Parte dos problemas de saúde surgiu justamente pelo trabalho pesado. Entretanto, quem o conhecia dizia que nunca ouvira da boca desse senhor um único lamento. E quando falava de sua vida sempre sustentava ser um homem feliz.

Histórias como essa existem. E não são poucas. Acontece que os infelizes são barulhentos, reclamam mais e conseguem contagiar negativamente os espaços que ocupam. Também é verdade que é mais fácil lamentar do que ver a vida com olhar positivo, de gratidão.

Sabe, olhar positivamente a vida não é negar os problemas. É reconhecer que existem, admiti-los e enfrentá-los, mas sem se ver como coitadinho.

Rir dos próprios tropeços é coisa de poucos. Daqueles que sabem dar significado à existência. E são essas pessoas que conhecem a felicidade.

Quem espera uma vida sem problemas para ser feliz passará pela vida sem provar o seu sabor.

Decisões adiadas

Por que sabemos o que é preciso fazer e não fazemos? Por que adiamos algumas decisões? Por que demoramos para colocá-las em prática?

Não é fácil decidir. Grandes decisões exigem esforço. Por vezes, nos desgastam. Entretanto, em alguns momentos, concluímos sobre o que fazer. Depois de avaliar prós e contras, de muitas noites mal dormidas, “resolvemos” o problema. Pelo menos, do ponto de vista subjetivo. Porém, segue-se um novo drama: colocar em prática. Sim, porque toda decisão implica numa ação. Não adiantar sua cabeça decidir se suas ações seguem as mesmas.

Você sabe que precisa dar um novo rumo pra sua vida, mas não dá. Sabe inclusive o que tem que ser feito, como tem que ser feito, mas não faz. E não faz por quê? Porque toda decisão tem um custo. Um preço a pagar. E temos a impressão que, adiando, as coisas vão se resolver por si mesmas e não precisaremos nos envolver.

É uma opção covarde, perigosa. E, lá dentro de nós, sabemos disso. Porém, preferimos a ilusão de ir levando, tocando a vida, imaginando que aquilo que já decidimos em nossa mente vai acontecer – como num passe de mágica – sem que tenhamos que enfrentar realmente o problema, encará-lo e aceitar a perda.

Decisões doem. Doem enquanto estamos no processo de reflexão, de elaboração; e talvez causem ainda mais dor quando as colocarmos em prática. Entretanto, não agir é conviver com os problemas. É aceitar como normal a sobrevivência. É aceitar como normal o não viver. E não dá pra abdicar da vida. Vida é pra ser vivida. Temos uma só. E é passageira. Rápida, curta demais pra perdermos tempo.

Transformar uma decisão em ação tem custo, como eu disse. Talvez muitas lágrimas. Perdas importantes. Mas, se já avaliamos e concluímos que é o melhor a fazer, não dá pra adiar. Como escrevi dias atrás, dor se deixa doer. Não podemos fugir. Entretanto, depois de agir, algo novo nos espera. E ainda trará consigo o prazer de voltar a viver.

A escolha nem sempre é nossa

Alimentamos a ilusão de que somos donos de nossos destinos. Não, não somos. É verdade que fazemos escolhas. E podemos optar por qual caminho seguir. Entretanto, nem sempre decidimos por nós mesmos. Por vezes, outros escolhem por nós. Nem todos os caminhos são os nossos caminhos.

O que dizer daquele trabalho pelo qual é apaixonado, mas que, por uma dessas coisas que ninguém consegue entender, você é demitido?

E quando a mulher que você ama, por quem faria qualquer coisa, simplesmente te descarta?

Situações comuns, mas que revelam que nem sempre temos o controle de nossa vida. Podemos não aceitar que seja assim, mas nem todas decisões cabem a nós.

No caso de um emprego ou de um relacionamento, você pode investir todas suas energias. Ainda assim, não há garantias de que a sua vontade irá prevalecer.

Nessas horas percebemos o quanto é ruim ter a vida, o destino nas mãos de outra pessoa. É frustrante ver que seus sonhos podem se tornar pesadelos.

Entretanto, não há o que fazer. Faz parte da lógica da vida. Dependemos do outro. Não somos ilhas. Não dá para simplesmente dizer: “ninguém vai decidir por mim”.

Podemos até ter certo grau de independência, mas haverá situações que nos escapam. Alguém vai achar que não somos suficientemente bons; outros vão nos rejeitar, virar as costas e deixar-nos… Sempre existirá um amor não correspondido.

E por mais que saibamos que isso acontece com todo mundo, vai doer. Doer demais. Restará, porém, o consolo do tempo. E a esperança de um novo sonho… De um sonho e de um futuro bom.

Corrigir o passado? Nunca. O foco é sempre o presente e o futuro

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Um dos textos que escrevi (veja o post) e que gosto bastante fala sobre nossas escolhas. Acho fundamental pensar o que significa cada uma delas. Por isso, ao esbarrar numa coluna da Martha Mendonça, acabei desenvolvendo a discussão que trago aqui.

O texto da Martha trazia como chamada:

– Se você pudesse voltar no tempo, mudaria alguma coisa ou viveria tudo de novo?

O texto está aqui, pertinho… numa das abas do navegador. Porém, só vou ler depois. Primeiro, preciso refletir sozinho – ou melhor, falar alto, compartilhando com os amigos leitores.

A pergunta da Martha intriga. Tudo bem, é uma pergunta que você já deve ter ouvido. Ou ter feito pra você mesmo. Todos temos momentos de auto-avaliação. Impossível não se questionar: desperdicei meu tempo? Faria diferente?

No post anterior, terminei com os seguintes argumentos:

A vida é assim. Feita de escolhas. Todas permanentes. Nunca será possível voltar atrás. Quando erramos, o jeito é seguir em frente, encontrar um novo caminho. (…) É preciso olhar adiante – ainda que haja arrependimentos e culpas. É assim com todos nós. O que nos diferencia é a capacidade de lidar com as consequências de nossas escolhas, reconhecendo que não vamos acertar sempre. E que os erros são oportunidades de construirmos um amanhã melhor.

Logo, quando a Martha pergunta: “se você tivesse a chance de voltar atrás, mudaria alguma coisa?”, acredito que todos nós vamos encontrar deslizes em nossa trajetória. Situações que – hoje, com a experiência que temos – seriam evitadas.

Acontece que, lá atrás, quando fizemos nossas escolhas, achávamos que era o melhor. Ninguém escolhe o pior.

Fazemos as bobagens que fazemos porque entendemos que valiam ou valem a pena.

O que está por vir pode ser projetado, idealizado, mas pertence ao universo do imaginário. Só depois de embarcarmos em nossas escolhas é que vamos vivê-las. Com os acertos e erros decorrentes da construção diária que é nossa própria existência.

Por isso, parece-me que o melhor da vida é mesmo o conhecimento que adquirimos nessa jornada incrível que é a vida. Se mudássemos o que já vivemos, que garantias teríamos de que o presente seria melhor? O que teríamos aprendido?

Creio que nada é perdido. Nem as experiências mais desastrosas.

Dia desses encontrei uma educadora. Ela tem 60 anos. Num desses papos existenciais, ela confessou:

– Estou na minha melhor fase. Não trocaria a vida que tenho por nenhuma outra.

Ela comentou que foram os pecados cometidos ao longo de seus 60 anos que garantiram a sabedoria que hoje tem para saber aproveitar o que a vida tem de melhor.

Esse é o segredo: aprender. Aprender sempre. Principalmente com nossos erros.

Se tivéssemos a chance de mudar algo no nosso passado deixaríamos de ser quem somos. Que graça teria?

E para aqueles que não gostam do que são, fica a dica: a vida segue. O que somos hoje não precisa ser o que seremos amanhã. Sempre há tempo de mudar. Não no passado, que já não nos pertence; mas no futuro, que ainda está por vir.

PS- Veja aqui a coluna da Martha.

Nossas escolhas, nossa vida

É bom saber que podemos escolher. Sempre temos escolhas. Afinal, até quando só temos um caminho, podemos optar em seguir por ele ou simplesmente continuar onde estamos.

Porém, embora a decisão seja nossa, nada nos perturba mais que a dúvida: fizemos a coisa certa? E se eu tivesse feito diferente?

Quando fazemos uma escolha, abrimos mão das possibilidades que tínhamos naquele outro universo – que estava por ser construído. Por isso, sempre restará uma pontinha de insegurança. Teria sido melhor? Nunca saberemos. Até podemos embarcar na imaginação, desenhar possibilidades. Mas tudo não passará de imagens, projeções.

Para a maioria de nós, o critério básico de uma escolha é a segurança. O caminho já trilhado parece um risco menor. Sentimo-nos confortáveis nos ambientes conhecidos. Podem não ser os mais desejados. Mas sabemos lidar com cada uma das situações. Elas estão previstas. Haverá poucas surpresas. O novo, por mais especial que possa ser, representa o risco de perder o já existente. Então, gera insegurança. Em alguma ocasiões, até nos damos a chance de experimentar um pouco. Entretanto, se tivermos de abrir mão de tudo que construímos, poucos terão a coragem e a ousadia de romper com o presente e o passado e investir no futuro.

A vida é assim. Feita de escolhas. Todas permanentes. Nunca será possível voltar atrás. Quando erramos, o jeito é seguir em frente, encontrar um novo caminho. A opção que tivemos, não existirá mais. É preciso olhar adiante – ainda que haja arrependimentos e culpas.

É assim com todos nós. O que nos diferencia é a capacidade de lidar com as consequências de nossas escolhas, reconhecendo que não vamos acertar sempre. E que os erros são oportunidades de construirmos um amanhã melhor.

É difícil fazer escolhas

Estou preparando a pauta de uma entrevista que farei para o Questão de Classe. Entre outras coisas, vamos discutir a dificuldade que é escolher a profissão. Afinal, isto é feito na juventude, numa fase da vida em que tudo ainda é muito novo e falta experiência para decidir qual será o trabalho que vamos exercer até envelhecermos.

Particularmente, acho muito difícil fazer tal escolha. É verdade que alguns parecem nascer vocacionados para determinadas atividades. São pessoas dotadas de certas aptidões que, se não seguirem o “dom” que possuem, certamente serão infelizes – ou estarão perdendo uma grande chance. Ainda assim, os mesmos talentos podem ser destinados ao exercício de atividades diferentes. Por isso, nunca será fácil fazer essa escolha.

Na verdade, nenhuma escolha me parece simples. Tudo bem, tem gente que decide rápido. Pra mim, pelo menos no que diz respeito às questões pessoais, sempre sinto necessidade de pensar, pensar e pensar mais uma vez. Bate aquela ansiedade, uma preocupação enorme: vai dar certo? Tô fazendo a coisa certa?

Mas penso que isto acontece com todo mundo que consegue refletir, vislumbrar possíveis consequências… coisas do tipo. Uma psicóloga que conheço costuma dizer que o tempo, as experiências, a maturidade nos levam a pensar mais. Essa seria a razão para retardarmos nossas decisões. E até para sofrermos antes de tomá-las.

Acertar… é o que mais queremos. Sempre. Nem sempre será possível. A salvação nesses casos é não pensar muito no “como poderia ser se tivesse feito aquela escolha e não essa”. Do contrário, adoecemos. E perdemos a chance de seguir vivendo.

Descobrir as prioridades

A desistência de Orestes Quércia da disputa por uma vaga no Senado me fez pensar que há momentos em que descobrimos o que realmente vale a pena na vida. O ex-governador de São Paulo abre mão da corrida eleitoral por causa da saúde. Ele sabe o que é mais importante. Tratar-se do câncer, lutar para vencer a doença são suas prioridades. Nada mais importa.

Na nossa vida muitas vezes demoramos para descobrir quais são nossas prioridades. É comum arrastarmos por dias, meses e até anos determinadas situações que nos consomem. Simplesmente não tomamos uma decisão. As incertezas tiram o nosso foco e não conseguimos descobrir o que realmente é mais importante. Tem gente que chega ao final da vida sem ter vivido. E isto por não ter tido atitudes coerentes com seus sonhos, desejos, aspirações.

Na verdade, quem passa a vida sem se conhecer, chega ao final dela sem saber por que viveu.