Não quero te ouvir

atencao
Poucas vezes escrevi inspirado por uma imagem. Entretanto, algumas imagens reclamam sentidos. Pedem que a gente converse com elas.

Hoje, “trombei” com esta fotografia. Foi compartilhada no Facebook. Tinha uma legenda. Nem li. Apenas salvei. Queria dialogar com a foto. Sem a interferência de outros dizeres.

Enquanto contemplava a cena, pensei na maneira como temos vivido. Estamos ilhados. Não ouvimos mais ninguém.

somPara muita gente, a companhia é um som qualquer. Uma música, alguém falando no rádio. No ônibus, no carro, caminhando pelas calçadas, ou mesmo enquanto corre em volta do parque, pessoas de diferentes idades se isolam do mundo. Optam por nada ouvir. Nem mesmo a voz do coração. Roubam a oportunidade de se (re)conhecerem.

O barulho das ruas, o trânsito, o movimento. Ou o simples ruído que vem das árvores, dos pássaros… nada é ouvido. Nada é notado. De alguma maneira, o aparelho ajuda a nos fecharmos em nós e para nós mesmos.

Enquanto o fone está ali, mandamos um recado para quem se aproxima:

– Não quero te ouvir. Me deixe em paz!

Mais que se distanciar de tudo, quando não escutamos, deixamos de perceber, sentir, experimentar. Sentimentos, emoções; sorrisos ou lágrimas… Tudo é ignorado. O outro é rejeitado.

Na medida em que o volume aumenta, cresce o abismo entre nós e aqueles que nos cercam. Quem reclama nossa atenção, não basta chamar. Nem adianta apenas tocar. Conquistar a escuta de alguém é sonho de outros tempos. Talvez por isso tanta gente fale alto. É um grito interior, desejo de ser notado.