O trânsito revela muito do que somos

A dinâmica do trânsito das cidades é uma espécie de síntese de nossa sociedade, de nossa relação com o outro.

Respeito ao outro e às leis, ética, paciência, atenção aos mais fracos… Tudo que temos nas ruas e avenidas temos também nas casas, empresas, poder público, na convivência entre os mais fortes e os mais fracos.

E o trânsito diz muito sobre o que somos.

Furar os sinais, estacionar em lugares proibidos, danificar o carro alheio e abandonar o local sem procurar identificar o proprietário… Dirigir sem documentos, alcoolizado… Parar em fila dupla, ocupar duas vagas de estacionamento, não ter paciência enquanto alguém estaciona, xingar outros motoristas, desrespeitar pedestres, atropelar cachorro apenas porque o bichinho está na rua…

Essas atitudes todas não existem apenas no trânsito. O que acontece ali é reflexo do que somos como cidadãos.

Quem desrespeita as leis de trânsito é também uma pessoa que, se tiver oportunidade, vai driblar a legislação, deixar de pagar impostos, alterar dados no Imposto de Renda…

Quem ocupa duas vagas de estacionamento, para em fila dupla, dirige como se fosse a única pessoa a ocupar a via pública, é também alguém que não se importa com o vizinho, que não tem problema de consciência em furar fila no banco ou no supermercado…

Enfim, o que temos de melhor ou de pior, nossa civilidade ou falta de ética no trânsito, é o que temos de melhor ou de pior como cidadãos, como humanos.

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O que faz um líder eficaz?


A consultora de liderança e cientista organizacional, doutora Sunnie Giles, num artigo publicado na Harvard Business Review, apresentou algumas conclusões bastante interessantes.

Quero compartilhar por aqui algumas delas. Escolhi três características que me parecem relevantes não apenas para chefes, diretores de empresas, empresários… Mas também para quem ocupa outras tantas funções e têm o papel de conseguir o comprometimento, envolvimento das pessoas.

A doutora Sunnie, depois de realizar um estudo em 15 países, notou que os grandes líderes demonstram uma ética sólida, proporcionam sensação de segurança aos colaboradores e criam um ambiente favorável no tratamento de acertos e erros.

Segundo o estudo, um líder com altos padrões éticos transmite compromisso com a justiça, instigando a confiança das pessoas de que as regras do jogo serão respeitadas, de que não haverá surpresas no meio do caminho. Isso motiva a equipe a se dedicar mais pela empresa.

Além disso, ao comunicarem suas expectativas de maneira clara, demonstrando ética, os líderes não confundem as pessoas, não geram ruídos no ambiente corporativo e os colaboradores podem relaxar. Isso faz com que a equipe dedique mais energia, e capacidade do cérebro, ao engajamento social, a inovação, criatividade e desejo de crescimento pessoal e da empresa.

Outra conclusão do estudo realizado pela doutora Sunnie, e que chamou minha atenção, é que os bons líderes oferecem segurança aos colaboradores, mesmo quando eles cometem erros.

Gente disposta a dar o melhor de si não é nada fácil de encontrar. Entretanto, muitos colaboradores não se doam completamente porque, quando são inexperientes numa função, se preocupam com a avaliação dos chefes e diretores. Receiam ser censurados. Quando experientes, às vezes não se atrevem a dar o melhor de si, porque nem sempre querem correr o risco de contrariar as práticas já estabelecidas no ambiente.

Falhas são comuns em todos os processos produtivos. E o fracasso é necessário para o aprendizado. Porém, se isso não ficar claro para a equipe, a busca pelos resultados desejados pode desencorajar os funcionários a se arriscarem. Para resolver este conflito, os líderes devem criar uma cultura que suporte a tomada de riscos.

São características aparentemente simples, mas que demonstram que há necessidade de uma grande mudança na mentalidade de quem deseja ocupar funções de liderança.

O verdadeiro caráter se revela quando a pessoa tem poder

Dizem por aí que a melhor maneira de conhecer uma pessoa é dar poder a ela. O verdadeiro caráter se revela quando a pessoa está no topo, quando faz sucesso.

Eu acredito nisso!

Quando ocupa uma posição importante, a pessoa ganha mais visibilidade. Isso a obriga a se posicionar, a agir. E quanto mais se expõe falando, resolvendo problemas, fazendo negócios, estabelecendo relacionamentos… Quanto mais expõe, mais mostra quem de fato é.

Isso acontece nas empresas, na família da gente, entre os amigos… E até na política.

Entretanto, nem todo mundo tem, como acontece na política, uma rede de apoio – e até de marketing – que oriente sobre o momento de se calar, de cancelar compromissos, de evitar entrevistas.

Pessoas reais, como nós, nem sempre notam a repercussão de seus atos. Por isso, não estabelecem filtros em suas práticas. Com isso, o pior de nós é demonstrado quando temos algum tipo de influência, algum cargo importante ou mesmo certo poder.

Nessas ocasiões, revela-se a dificuldade em receber críticas, a resistência às mudanças, o temperamento, arrogância, o isolamento… Também os desvios éticos e morais, as alianças com pessoas ruins.

Por outro lado, também são nessas oportunidades, que descobrimos pessoas que não se deixam corromper pelo poder, que seguem dignas, verdadeiras, humildes e comprometidas em fazer o bem.

Nossas escolhas afetam outras pessoas

Nem sempre a gente se dá conta do quanto nossas escolhas afetam outras pessoas. Às vezes, em nome dos nossos gostos, dos nossos sonhos, fazemos o que entendemos ser o melhor para nós e ignoramos o efeito de nossas escolhas na vida de gente que amamos.

Não há nada de errado em lutar pelo que queremos. Porém, tenho aprendido que não estamos isolados do mundo. O que fazemos mexe com a vida dos outros.

Significa que, pelos outros, devemos deixar de buscar nossos objetivos? Não. Mas significa sim avaliar, primeiro, quais serão os impactos de nossas escolhas na vida de quem está por perto. Segundo, é preciso analisar se queremos que sofram os efeitos dessas decisões.

Em algumas situações, vale conversar com os possíveis afetados. Falar sobre seus sonhos, a importância deles e pedir o apoio. Noutros casos, talvez não seja possível antecipar, prever. Talvez seja necessário tomar a decisão sozinho/a. Mas ainda assim defendo que haja a consciência dos efeitos e de como é possível amenizá-los para que interfira menos, prejudique menos ou haja algum tipo de compensação. Isso é agir de maneira ética.

Atitudes assim mostram maturidade, amor ao próximo e, principalmente, compreensão de que não estamos sozinhos no mundo. E nossa felicidade não pode ser construída às custas das outras pessoas.

Golpe do bilhete premiado

golpe

Quem cai no golpe do bilhete premiado? Eu me surpreendo sempre quando vejo o noticiário e descubro os perfis das vítimas. É impressionante! Tem gente simples, mas tem gente supostamente esclarecida. E o que leva a pessoa a ser seduzida? Primeiro, a habilidade dos criminosos; segundo, a ganância.

Soube do caso de uma professora. Ela perdeu R$ 100 mil. E os golpistas não levaram mais, porque não quiseram. A vítima sacou o dinheiro, que era de uma casa que havia vendido, e só não deu outros R$ 100 mil porque os bandidos não esperaram pela grana.

É curioso ouvir o relato dos funcionários do banco. Eles a questionaram sobre o motivo do saque. Ela respondeu que aplicaria na compra de um sítio. Como estranharam o comportamento da cliente, insistiram que negócios não podem ser feitos de última hora, que poderia estar sofrendo um golpe. A professora sustentou que era esperta e ninguém ia passá-la para trás. As lágrimas de desespero, enquanto registrava a ocorrência na delegacia, demonstram que nem sempre dá para ser auto-confiante.

Sabe, eu nunca acreditei em dinheiro fácil. Nem apostas eu faço. Conheço gente que vez ou outra embarca em “novidades”, aquelas parecidas com pirâmides, e até faturam seus trocados. Existem inclusive alguns produtos que são vendidos dessa forma: você ganha pelo simples fato de alguém, que foi seu cliente, estar vendendo o tal objeto. Porém, pra mim, não dá. Talvez eu seja conservador demais, ou seguro demais.

Acho, porém, que a ganância tem norteado as escolhas de muita gente. O golpe do bilhete só seduz porque a pessoa vê ali uma oportunidade de ganhar dinheiro fácil. Pior, há uma motivação que vai para além da ganância. Enquanto o golpe se desenvolve, a vítima acredita que está se dando bem, que vai se dar bem cima do outro “tolo”. Ou seja, há um desejo desonesto. O estímulo, que faz funcionar o golpe, nasce da ganância combinada com certo “mau-caratismo”; não tem nada a ver com “vou ajudar o outro comprando o bilhete”.

Ou seja, se nossas motivações fossem virtuosas, éticas, o golpe nunca se efetivaria.

Qual é o nosso desejo?

brasil

Tempos atrás li uma frase que chamou minha atenção.

Um povo se define pela qualidade do seu desejo. E desejo só se qualifica com educação. (Eliane Brum)

Fiquei pensando nos sentidos que se constroem a partir do que disse a Eliane. Qual é o nosso desejo? Qual é a vontade do povo? Responder essas perguntas ajudaria a compreender o que queremos. E isso nos levaria a discutir a qualidade, os fundamentos do que queremos.

Por exemplo, as pessoas se manifestam, reclamam do governo, falam sobre escola, saúde, transporte, questionam os estádios construídos para a Copa… Mas, afinal, o que de fato querem? Sabem qual seu verdadeiro desejo?

Eu tenho dúvidas disso. Até vejo barulho, mas não ouço harmonia. A gente mal sabe em quem votou nas últimas eleições. A gente mal olha para as demandas do nosso bairro. Por exemplo, tenho um apartamento numa região da cidade que há cerca de dois anos sofreu uma mudança significativa pela instalação de um bar muito badalado. O movimento de pessoas, carros e motos é intenso. Incomoda. Inclusive de madrugada. O ruído é insuportável. Quem mora no prédio não tem paz. Entretanto, curiosamente, só tem interesse em questionar o desrespeito que se pratica no local quem é afetado diretamente pelo problema. Gente que mora a 500 metros, no lugar onde estava instalado o bar até então, está feliz da vida. Funciona a lógica “se não me incomoda, não é problema meu”.

E assim é com quase tudo. Olhamos para o próprio umbigo. Questionamos o governo, brigamos com a Dilma, mas não sabemos o que de fato queremos. Qual é nosso desejo para a educação? Uma educação de qualidade, diriam. Ok; então o que é uma educação de qualidade? O que você entende como educação de qualidade? Seria um prédio bonito? Desculpem-me, mas vamos ser sinceros: que educação de qualidade é essa se sequer respeitamos os professores? Basta o docente ser mais severo com um filho e lá vai o pai à escola ameaçando, pedindo a demissão do educador.

O que é mais contraditório é que, conforme resume a frase da jornalista Eliane Brum, o desejo só se qualifica pela educação. E, convenhamos, nossa educação é muito ruim. Não, não estou falando da educação que é dada na escola. Estou falando de formação, de cidadania. A gente joga lixo na rua, a gente não tem disposição para dar passagem ao pedestre, a gente para em fila dupla, a gente briga com o outro motorista que dá sinal de luz ou buzina para sairmos da frente, a gente fura fila no banco, a gente faz “gato” pra não pagar TV a cabo, a gente cola na prova, a gente pede favor a político, a gente liga o som alto e diz um “dane-se” pro sono do vizinho, a gente bebe e dirige, a gente corta a árvore quando atrapalha a fachada da loja, a gente não devolve o troco que é dado a mais pelo caixa do supermercado… E essa lista poderia se estender. E muito.

Nossa postura é tão duvidosa que, num evento como o da Copa, perdemos o foco, protestamos e achamos que as manifestações com “quebra-quebra” nas ruas são o verdadeiro exercício de cidadania. Não estou defendendo a passividade, nem o fim dos protestos; questiono a falta de “time”, questiono a falta de percepção do que é nosso desejo, da qualidade de nosso querer; questiono a ausência de auto-crítica, a ignorância… Será que sabemos o que realmente queremos? Qual o país que desejamos? Eu não acredito que são sábios os desejos de pessoas que desprezam os livros, que classificam as aulas como chatas (mas não se envolvem com a escola), que julgam antes de conhecer, que ouvem, dançam e cantam as músicas que tocam nas rádios (reproduzindo discursos machistas e de mulheres-objeto), que assistem e tornam seu assunto predileto os programas populares da tevê e os atores que estão na capa das revistas. Ou que reproduzem comportamentos como os que citei há pouco.

Não vejo nossa sociedade como madura. Nem disposta a amadurecer. Vejo nossos desejos verbalizados em críticas e manifestações mais como atos adolescentes, inconsequentes, fruto de um povo que ainda não sabe quem é e o que realmente quer ser.

Jeitinho corrupto

Um país justo se constrói com gente honesta, moral, ética
Um país justo se constrói com gente honesta, moral, ética

É difícil admitir que nossos pequenos atos marginais projetam comportamentos corruptos. Entretanto, é isso que prova um estudo realizado pelo Josephson Institute of Ethics. Baseado em quase 7 mil entrevistas, o relatório aponta que o “simples” ato de colar na escola significa maior possibilidade do sujeito ser desonesto. Pior, países que têm a prática do “jeitinho” são países mais corruptos.

Acho que isso explica muita coisa, né? E também sugere que a condição moral, o comportamento ética se aprende desde cedo.

Recordo que uma das discussões mais polêmicas que faço em sala de aula é justamente sobre a corrupção cotidiana. Costumo dizer que não somos melhores nem piores que os políticos; a diferença está apenas no tamanho dos benefícios pessoais que se tenta obter.

A cola na escola, por exemplo, é um ato de corrupção quase institucionalizado. O discurso estabelecido é bem conhecido: “quem não cola, não sai da escola”. Entretanto, quem trapaceia numa prova está corrompendo o sistema, está buscando uma vantagem pessoal. É verdade que, num primeiro momento, pode parecer apenas uma ação sem prejuízos. No entanto, revela o caráter, revela uma pré-disposição em romper com a “lei” em benefício próprio.

O relatório do Josephson Institute deixa isso muito claro: independente da idade, as pessoas que colaram (ou colam) na escola estão duas ou mais vezes mais propensas a serem desonestas. E os números são contundentes. Vejamos a comparação entre quem colou e quem não colou em situações bem específicas:

Três vezes mais propensos a mentir para um cliente (20% contra 6%) ou inflar uma reivindicação de seguro (6% versus 2%) e mais de duas vezes mais propensos a inflar um reembolso de despesas (10% contra 4%). Duas vezes mais propensos a mentir ou enganar seu chefe (20% vs 10%) ou mentir sobre seu endereço para colocar uma criança em uma escola melhor (29% vs 15%) e uma vez e meia a mais de probabilidades de mentir para o cônjuge ou outra pessoa significativa (35% vs 22%) ou trapacear nos impostos (18% vs 13%).

Na verdade, a corrupção na política, na administração pública e até mesmo nas grandes corporações nasce justamente nas frágeis bases éticas e morais de cada um de nós. A gente não quer pagar impostos, pirateia livros, músicas, filmes… Passa ser natural pagar um vereador para propor uma lei, pedir favor a fim de furar fila e conseguir primeiro uma consulta médica, mentir sobre a condição do motor do carro na hora da venda etc etc. Num patamar diferente, torna-se natural receber “incentivo” para aprovar um projeto, para conseguir recursos para uma obra pública… Quando dá, a gente fura até fila de banco!!!

Embora o estudo tenha sido realizado há alguns anos, um aspecto que se sobrepõe é a necessidade da educação para a formação de um sujeito ético. Os primeiros comportamentos marginais ocorrem na infância. E como as crianças aprendem na relação com o outro, a disciplina e o exemplo são fundamentais. Quando o baixinho tenta levar vantagem, precisa ser corrigido. Contudo, quando ele nota que o pai dá um jeitinho de escapar da multa de trânsito, ou mente que não está em casa quando o telefone toca, tudo que ele diz para o filho deixa de ter valor. Por isso, é preciso combinar orientação e modelo ético.

Dias atrás eu li uma charge:
– Se não reformarem os políticos, não adianta nada.

O discurso está equivocado. A questão não começa lá, começa aqui… entre nós. Se a gente quer um país melhor, não adianta apontar o dedo pra Dilma, pro Congresso… A gente precisa reconhecer os próprios limites – inclusive morais. E mudar. Um país tem políticos honestos quando tem um povo honesto. Um país muda quando a gente muda.

Exame da Ordem avalia a ética do advogado?

justica

Todas as vezes que vejo os resultados dos exames da OAB fico pensando numa questão que me incomoda profundamente:

Exame da Ordem avalia a ética do sujeito?

Acho interessante o sistema. Não acho que deveria ser abandonado. Entretanto, entendo que algumas coisas são questionáveis.

A lista preliminar do Exame de Ordem Unificado divulgada na última sexta-feira, 22, trouxe um dado assustador. De cada 10 participantes, nove foram reprovados. Foi o menor índice de aprovação desde a unificação (prova única para todo o país), ocorrida em 2009.

Será que o problema está na formação dos futuros advogados? As escolas é que são muito ruins ou a prova  não estaria em sintonia com a realidade das faculdades de Direito?

Para mim, os números apresentados após cada novo Exame não respondem essas questões.

Cá com meus botões, acho que o sistema criou um sistema paralelo de ensino, o dos cursinhos – um verdadeiro esquema “caça-níquel”. Quem não faz cursinho, não passa.

E a principal pergunta sequer tem a ver com o que se estuda em sala. Tem a ver com o compromisso do profissional com seu cliente, com a sociedade em que vive. 

Acho o trabalho do advogado importantíssimo. É ele quem ajuda a fazer justiça, a equilibrar relações desiguais. Porém, uma carteirinha da OAB não garante ética, mas coloca esse sujeito no mercado de trabalho.

PS – Não tenho respostas para estas questões. Entretanto, penso que o assunto merecia um amplo debate.