Aprendendo com Paulo Freire: educar pelo testemunho de decência e pureza

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Tenho insistido que o desconhecimento é um dos principais fatores que levam parte das pessoas a rejeitarem Paulo Freire. Por isso, sigo compartilhando por aqui algumas de suas ideias.

No texto de hoje, lembro uma das teses mais bonitas do educador. Para Paulo Freire, ensinar exige estética e ética.

O que isso quer dizer?

Quer dizer que “a prática educativa tem de ser, em si, um testemunho da decência e da pureza”.

Noutras palavras, quem educa deve viver e testemunhar um modo de vida coerente, digno, reto.

Recordo de uma entrevista com um professor experiente, com mais de 50 anos de sala de aula. Ao questionar sobre métodos de ensino, didática, ele me respondeu que o professor impacta a vida de um aluno na medida em que seu próprio modo de ser, a vida dele como educador e ser humano, inspira a vida do aluno.

Quantos de nós já ouvimos histórias, inclusive em reportagens, de pessoas que tiveram suas vidas mudadas pela influência de um professor? Alguém que lá atrás se importou, se interessou, amou aquele aluno a ponto de motivá-lo a desejar aprender mais, ter sonhos e lutar para torná-los realidade?

O que Paulo Freire defende é a presença de um educador que ensine, mas também inspire. Quando ele diz que a prática educativa deve ser um testemunho de decência e pureza, a ideia que emerge é de alguém que toque as pessoas pelo próprio exemplo.

Paulo Freire fala de decência, de pureza, características nobres e que parecem em falta nas escolas e na sociedade em geral.

Para ele, “transformar a experiência em puro treinamento técnico é amesquinhar o que de fundamentalmente existe de humano no exercício educativo: o seu caráter formador”.

Na perspectiva de Paulo Freire, educar é formar, formar para a vida, formar gente de caráter, contribuir para uma formação ética, e isso começa no testemunho vivo de decência e da pureza de um educador.

Ser ético é considerar o efeito de suas ações sobre as outras pessoas

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Uma conduta ética pressupõe agir com responsabilidade, considerando o impacto que nossas atitudes têm sobre a vida das outras pessoas. Muitas de nossas ações afetam as pessoas próximas. Entretanto, por vezes, em nome do nosso bem-estar ou das coisas que acreditamos serem as melhores, atropelamos quem está conosco.

Nos relacionamentos, isso é bastante comum. O marido, sonhando com sua ascensão profissional, assume compromissos sem consultar a esposa; deixa o romance de lado e parece ignorar que a parceira pode estar se sentindo abandonada.

Muitos pais fazem a mesma coisa com os filhos. Na tentativa de alcançarem o sucesso, deixam de investir na educação das crianças e no desenvolvimento emocional dos pequenos – parecem acreditar que a escola fará aquilo que deixaram de fazer. Quando notam o problema já é tarde demais. Os filhos estão distantes, com problemas na escola e, às vezes, até envolvidos com as drogas.

Agir de forma ética implica em lembrar-se do outro em minhas ações. É necessário me questionar: o que eu pretendo fazer pode prejudicar alguém? As minhas escolhas podem injustiçar alguém? Ou fazer uma pessoa infeliz?

A vida não se resume ao eu mundo. Nem mesmo aos meus sonhos, projetos ou incômodos.
Somos os principais interessados em nós mesmos. Em defender nossos planos, em promover nosso desenvolvimento e até em nós defendermos. Mas isso não significa que vivemos sozinhos, isolados, tampouco que não tenhamos responsabilidade pelos efeitos de nossas escolhas sobre as outras pessoas.

A chave para o fracasso

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Numa frase atribuída a Woody Allen, o ator e diretor norte-americano afirma desconhecer qual é a chave do sucesso, mas assegura saber o que determina o fracasso. Segundo ele, a vontade de agradar a todos leva ao fracasso. Logo, quem deseja o sucesso deve compreender que nem sempre agradará todas as pessoas.

É fundamental nos preocuparmos com quem está a nossa volta. Ressalto, inclusive, que nossas ações precisam considerar os efeitos sobre as pessoas próximas. Afinal, não me parece justo prejudicar alguém ou fazer uma pessoa infeliz em nome do nosso sucesso ou da nossa felicidade.

Entretanto, a tentativa de agradar a todos é insana. Não existe possibilidade alguma de sermos bem-sucedidos na busca por fazer com que todos estejam satisfeitos conosco.

Se estamos o tempo todo preocupados em agradar, permanecemos paralisados. Não saímos do lugar.

Por isso, segundo Woody Allen, a chave do fracasso é conhecida. Agradar a todos é impossível. Falhamos nisso até mesmo em coisas pequenas, em nosso cotidiano doméstico.

A busca por agradar a todos nos paralisa. Impede-nos de agir.

Por isso, precisamos de parâmetros éticos, de solidariedade, de responsabilidade para com os demais que referenciem nossas ações. Mas tendo esses parâmetros, é fundamental nos movermos, buscarmos nossos sonhos, realizarmos aquilo que acreditamos ser importante.

Do contrário, viveremos frustrados. Nossos sonhos seguirão encaixotados em nossas inseguranças e teremos uma vida patética. Na tentativa de agradarmos todas as pessoas, nossa existência será insignificante, inclusive para nós mesmos.

Só vive em paz quem faz o que precisa ser feito…

A frase que dá título a este texto é do professor Mário Sérgio Cortella. E ela nos serve de alerta, uma espécie de lembrete sobre nossas práticas cotidianas.

Quase todos nós, no fundo, sabemos o que precisa ser feito. Temos noção daquilo que nos cabe fazer – seja nos relacionamentos, no trabalho e até no que diz respeito ao desenvolvimento pessoal.

A quantidade de informações que recebemos diariamente aponta quais as práticas fundamentais: o exercício da ética, do respeito, da tolerância… A necessidade de alimentar os bons afetos nos relacionamentos, a importância de perdoar, a abertura e dedicação ao aprendizado constante…

Enfim, esses valores nos são ofertados diariamente e, por isso, quando você está numa situação específica, sabe o que precisa fazer. Numa sala de aula, por exemplo, o aluno sabe que deveria deixar o celular do lado e tentar prestar atenção na sala para aprender algo diferente. Na empresa, o funcionário sabe que faria bem para o crescimento profissional tomar a iniciativa e realizar tarefas que não parecem ser obrigação dele – o colaborador sabe que isso provavelmente seria bem visto pela chefia. Mas ainda assim, muita gente opta por não fazer.

Por isso, quando o prof Cortella diz: só vive em paz quem faz o que precisa ser feito, ele destaca que, ao não fazer o que precisamos fazer, permanece em nós o incômodo da consciência de nossas falhas, do fato de sermos responsáveis por alguns dos nossos fracassos. Talvez nem sempre queiramos admitir, mas, no fundo, sabemos que fomos parcialmente (ou totalmente) responsáveis pela perda daquele emprego, na nota baixa, no fracasso da formação escolar e até mesmo do fracasso do relacionamento.

Por outro lado, quando fazemos o que precisa ser feito, ainda que tudo dê errado, temos paz de espírito. Dentro de nós, permanece a convicção de que fizemos o nosso melhor.

Fazer o que precisa ser feito exige ação, exige uma atitude racional. Mas isso é possível. Afinal, a capacidade de racionalizar é uma das características que nos diferenciam dos animais.

Nem sempre é por querer; é por valor moral

Nem tudo que a gente faz, a gente faz por que quer fazer; faz, porque DEVE fazer. Este é um dos princípios morais mais importantes na história da ética.

O sentimento de dever é fundamental para o funcionamento da sociedade e para as relações sociais.

A compreensão do dever é que nos motiva a contrariar os desejos, pulsões e manter uma postura correta diante do outro e da sociedade.

A fidelidade numa relação amorosa, por exemplo, é resultado de um ato moral. Por vezes, o desejo é por alguém fora do relacionamento. Por que se preserva a fidelidade? Por moral. O corpo pode reclamar novas experiências. Mas a fidelidade é um compromisso moral assumido com a pessoa com quem se escolheu viver.

Vale o mesmo para inúmeras outras situações. Na empresa, mesmo passando por dificuldades financeiras e sendo mal remunerado, o profissional que trabalha no departamento financeiro talvez tenha a oportunidade de desviar algum dinheiro. Por que não faz? Pelo dever. Não mexer no dinheiro que não lhe pertence é a atitude correta.

Um parente doente, que precisa de cuidados, que nos obriga a perder dias de trabalho, alterar nossa rotina, gastar nossas reservas financeiras… Uma situação como essa não é desejada. Não cuidamos dessa pessoa por prazer; cuidamos por dever. É o certo a fazer.

Por que trato desse assunto hoje? Simples, porque vivemos um momento em que as escolhas são movidas pelas paixões, pelo que alegra. Muita gente opta pelo whatsapp até para colocar fim num relacionamento – tudo para evitar o desprazer do olho no olho.

Entretanto, viver não é apenas fazer o que se gosta. A moral nos orienta a fazer o que devemos fazer. Algumas práticas são necessárias, não por serem alegradoras individualmente, mas pela necessidade de preservar a boa convivência, o bom funcionamento das relações sociais.

Não podemos perder nossos valores

Nas relações de trabalho ou nas relações pessoais, não podemos perder nossos valores.

O que são os valores? Considero como as nossas grandes verdades, aquelas que balizam, referenciam nossas ações.

Os valores nos identificam. Fazem parte de nossa identidade.

Quando nossos valores são confrontados, é preciso ser fiel ao que consideramos essencial – ainda que paguemos um preço por isso.

Entendo que todos devemos estar abertos para nos questionarmos, para refletirmos a respeito de nossas práticas e até colocarmos em xeque algumas de nossas crenças.

Mas existe uma distância entre a abertura para o questionamento e a relativização constante dos valores.

A abertura para o questionamento é necessária para nosso desenvolvimento. Permite que avancemos! Ajuda a nos atualizarmos, nos capacita para viver bem o tempo presente.

a fidelidade aos valores é o que assegura nossa coerência. Se notamos que algo que considerávamos relevante não é tão relevante assim, abandonamos e assumimos outro referencial de conduta. Porém, isso não significa mudar de postura diante das primeiras pressões.

Gente que não é fiel aos seus valores é gente que se corrompe facilmente, que não tem direção, não sabe onde quer chegar… Ou seja, é gente que não tem credibilidade, porque hoje age de uma maneira e amanhã de outra.

Os valores referenciam nossas atitudes em qualquer circunstância – seja dentro de casa, na empresa, na escola, na igreja… Se estamos com as contas em dia ou com problemas financeiros.

Os valores são o conjunto de crenças que revela quem, de fato, somos. Permitem que sejamos notados como gente que sabe o quer, que tem posicionamento e não é influenciado por modismos nem por cara feia!

Pessoas boas estão condenadas à ruína

Às vezes a gente se depara com ideias ou mesmo premissas que incomodam profundamente. E incomodam, porque contrariam tudo aquilo que defendemos ou entendemos ser o certo.

Ainda ontem li uma citação de Nicolau Maquiavel que me machucou bastante. Diz:

O homem que tenta ser bom o tempo todo está fadado à ruína entre os inúmeros outros que não são bons.

Evidente que não sou perfeito. Nem reúno as qualidades que gostaria de ter. Mas uma de minhas lutas interiores é por ser uma pessoa boa. E por bom entendo a integridade, a honestidade, a sensatez, fidelidade, lealdade, a compreensão, o respeito à diversidade…

Entretanto, o desejo de ser bom parece não encontrar apoio no mundo em que vivemos. Semelhante ao lamento do rei Davi, que dizia não entender a prosperidade dos homens maus enquanto as pessoas boas sofriam, o mundo não premia quem busca ser correto, uma vida virtuosa.

Na verdade, fazer o certo agora parece ser errado; e o errado, o certo.

A recomendação de Maquiavel vai justamente nesta direção: quem deseja ter sucesso, ser próspero e respeitado pelo mundo, não pode ser bom. Num mundo em que as pessoas não são boas, quem é bom vai à ruína, segundo o filósofo.

Cá com meus botões, embora entenda que Maquiavel tem razão, ainda prefiro acreditar que vale a pena ter uma conduta digna, mesmo que a sociedade não garanta recompensas às boas pessoas.

Colar na escola…

Você sabia que tem até vídeo no Youtube ensinando técnicas para colar nas provas? O inocente aqui nunca tinha imaginado isso. E ainda tem uma série de posts em blogs, páginas especializadas nesse tipo de malandragem.

É difícil admitir que nossos pequenos atos marginais projetam comportamentos corruptos. Entretanto, é isso que prova um estudo realizado pelo Josephson Institute of Ethics. Baseado em quase 7 mil entrevistas, o relatório aponta que o “simples” ato de colar na escola significa maior possibilidade do sujeito ser desonesto. Detalhe, países que têm a prática do “jeitinho” são países mais corruptos.

A cola na escola é um ato de corrupção quase institucionalizado. O discurso do senso comum é bem conhecido: “quem não cola, não sai da escola”. Entretanto, quem trapaceia numa prova está corrompendo o sistema, está buscando uma vantagem pessoal. Num primeiro momento, pode parecer apenas uma ação sem prejuízos. No entanto, revela o caráter, revela uma pré-disposição em romper com a “lei” em benefício próprio.

O relatório do Josephson Institute deixa isso muito claro: independente da idade, as pessoas que colaram (ou colam) na escola estão duas ou mais vezes mais propensas a serem desonestas. E os números são contundentes.

Pessoas que colaram na escola estão três vezes mais propensas a mentir para um cliente; aumentar o valor de uma reivindicação de seguro; e duas vezes mais a inflar um reembolso de despesas. Duas vezes mais propensas a mentir ou enganar o chefe; também são pessoas com probabilidade de mentir para o cônjuge ou outra pessoa significativa; além de trapacear nos impostos.

Na verdade, a corrupção na política, na administração pública e até mesmo nas grandes corporações nasce justamente nas frágeis bases éticas e morais de cada um de nós.

Embora o estudo tenha sido realizado há alguns anos, um aspecto que se sobrepõe é a necessidade da educação para a formação de um sujeito ético. Os primeiros comportamentos marginais ocorrem na infância. E como as crianças aprendem na relação com os adultos, a disciplina e o exemplo são fundamentais. Quando o baixinho tenta levar vantagem, precisa ser corrigido. Contudo, quando ele nota que o pai dá um jeitinho de escapar da multa de trânsito, ou mente que não está em casa quando o telefone toca, tudo que ele diz para o filho deixa de ter valor. Por isso, é preciso combinar orientação com um forte modelo ético.