O que escondemos?

Vi algumas imagens curiosas do Palácio Jaburu. A residência de Michel Temer ganhou uma espécie de corredor verde para esconder os visitantes. O corredor encobriu boa parte da visão de fotógrafos e cinegrafistas que fazem plantão em frente à residência oficial. Ao que parece, a presidência não quer que as pessoas saibam quem circula pelo palácio e resolveu apostar numa forma, digamos, elegante de impedir que olhos curiosos espiem o que está acontecendo por ali.

Tem um ditado antigo que parece bastante verdadeiro: “quem não deve, não teme”. Por que a presidência precisa criar uma estratégia para que seus visitantes não sejam vistos? Talvez alguma coisa ali não pode ser vista, né?

Mas… E nós? O que queremos esconder? Ou, o que escondemos?

Eu não quero falar aqui de política. Quero falar de nós. Eu sei que muita gente costuma dizer: “ah… todo mundo esconde alguma coisa”. Essa afirmação não está completamente errada. Muitas vezes, fazemos coisas que não queremos que outras pessoas saibam. Temos comportamentos que não nos orgulham. E também construímos nossos “corredores verdes” para impedir que as pessoas vejam o que realmente somos ou fazemos.

Às vezes, nossa fachada bonita encanta, chama a atenção. A fachada é linda, perfeita. Porém, do outro lado, acontecem coisas que pouca gente pode saber.

Viver com transparência, revelando-se por inteiro é uma virtude de poucos. Queremos ocultar nossas falhas. E não deixa de ser normal que isso aconteça, pois desejamos ser aceitos, admirados, respeitados.

O problema é que quem se esconde atrás de uma fachada não vive por inteiro e nem consegue se esconder o tempo todo. A mentira que vivemos nos trai. Quando isso acontece, somos envergonhados e a reconstrução é muito mais difícil. É dolorosa, às vezes, demorada.

Por isso, ainda que pareça mais simples construir “corredores verdes” para esconder nossos atos, a escolha mais sábia é viver de forma verdadeira, transparente. Viver não tendo do que se envergonhar. Viver assim pode até não ter todo glamour que se deseja, mas certamente assegura a paz que tanto precisamos.

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Preferimos não ser sinceros

amizade

Você já notou como a gente tenta ser conveniente diante de situações que nem sempre nos agradam? Ou como muitas vezes até fingimos saber de algo que desconhecemos? Ou ainda demonstramos interesse por assuntos que não nos empolgam?

É um negócio meio maluco, é verdade. Mas a gente é assim.

Dias atrás, uma amiga me contava que passou vergonha ao conversar com dois conhecidos alemães. Eles perguntaram se ela já tinha assistido um determinado filme. Pra se mostrar interessada, respondeu que sim. Depois de uns dois minutos de conversa, os rapazes perceberam que tinha algo errado e começaram a fazer perguntas sobre o filme. Claro, ela não sabia nada e teve que confessar que desconhecia a obra.

O que essa minha amiga fez, eu já fiz. Também já disse conhecer livros que nunca li… E provavelmente você, caríssimo leitor, deve ter feito o mesmo.

Essa cultura de conveniência, porém, não fica restrita a essas situações. Tem muito mais. Quem já não aprovou o cabelo de uma amiga, mesmo achando que o corte ficou ridículo? Semana passada, lembro que minha filha perguntou sobre um penteado. O negócio tinha ficado esquisito… Para não chateá-la, eu disse:

– Está tudo bem, filha.

Ela olhou pra mim e preferiu a opinião do irmão. Ele olhou, riu e respondeu:

– Não vou nem comentar…

A Duda entendeu o recado. Estava feio. Bem feio. E mudou o penteado.

Quem é professor, como eu, já deve ter visto apresentações de alunos que são pavorosas. No entanto, a gente aprendeu que precisa incentivar, estimular. Então, a molecada faz um troço assustador, revela completa ignorância e a gente ainda diz:

– Gente, valeu pela iniciativa. Foi legal o esforço de todos vocês.

O aluno, que é um pouco mais atento, sabe que o professor optou por não magoar. Outros sentem que, de alguma forma, está tudo certo… E não há mesmo o que fazer. Ficam com a impressão que trabalhos escolares são mesmo uma grande porcaria, uma perda de tempo. Enfim, eles seguem fingindo que fazem e nós, educadores, fingimos que ensinamos.

Sabe, esse é um traço de nossa cultura. A gente tem isso. Eu costumo dizer que faz parte das nossas máscaras para convivência social. Afinal, se expressamos a verdade, criamos desconforto. Tornamo-nos os chatos, críticos, arrogantes, prepotentes… Os “sabe-tudo”. No colégio ou na faculdade, ninguém gosta do professor que aponta o erro, que mostra a incompetência, o relaxo, a displicência.

O brasileiro prefere uma mentira que conforte a uma verdade que revele sua incompetência.

E nessa tentativa de agradar, de manter as relações, a gente preserva um hábito que paralisa. Sim, porque quando os problemas não são apontados, eles se perpetuam.

Por exemplo, se meu filho não ironizasse o cabelo da irmã dele, ela teria saído com um penteado ridículo… Vale o mesmo pra escola, pro trabalho, para as diferentes dinâmicas dos relacionamentos.

O professor que não aponta o erro, perde a chance de ensinar; o marido que não fala que a comida da esposa está salgada, não ajuda que ela note o mau hábito…. Se a gente não corrige o pedreiro que colocou uma lajota fora do prumo, a gente aceita que a parede fique torta depois de pronta. Ou seja, ao tolerar as falhas, nós as aceitamos como condições naturais, como parte do que é normal. E isso nos impede de crescer. Ninguém muda se não notar seus erros. E o humano, por si mesmo, nem sempre dá conta de saber o que precisa mudar.

Queremos parecer melhores do que somos

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Anos atrás descobri uma nova síndrome. Trata-se da “síndrome da aprovação”. Primeiro preciso explicar: não se trata de nenhum transtorno psicológico. Também não é nenhuma uma doença. Mas certamente é algo que rouba a nossa vida e nos faz sofrer.

Vamos aos sintomas… Quando vai falar com alguém, você se preocupa com as impressões que a outra pessoa tem a respeito de você? Será você nunca se pegou falando algo do tipo: “Veja bem, eu não assisto muito televisão, mas ontem vi tal programa…”. Ou ainda, ao participar de um almoço na casa de alguém: “Olha eu não sou de comer muito, mas essa comida está tão gostosa que preciso repetir…”.

Se você se identificou, é muito provável o diagnóstico: você sofre da síndrome da aprovação. Eu vou mais longe. Quase todos nós sofremos dessa síndrome. Estamos sempre nos ocupando de controlar a imagem que os outros têm de nós. É por isso que nos justificamos tanto. Queremos sempre parecer mais simpáticos do realmente somos; queremos dizer que somos humildes; queremos parecer mais éticos, mais morais, mais cristãos… Enfim, queremos esconder nossas fragilidades. Temos medo de nossos defeitos. Por isso, fazemos um esforço enorme para que as pessoas próximas nos vejam como gostaríamos de ser.

O problema é que essa necessidade de ser aprovado pelos outros tira de nós a essência de nossa personalidade. Passamos a vida inteira ocupados em controlar o que as pessoas pensam a nosso respeito e deixamos de ser originais, autênticos.

Preste atenção, quase sempre nos vestimos imaginando a reação dos outros. Por isso, fazemos contas enormes, até quando não podemos, a fim de comprar um traje novo para ir a um casamento. Estamos preocupados em evitar a imagem de que só temos roupas velhas… Afinal, não queremos que ninguém nos veja com a roupa que estivemos na ultima cerimônia.

A gente tem que falar com alguém e até ensaia as palavras imaginando a reação. Se é algo mais complicado, se precisamos dizer “não” a um convite, ficamos projetando qual o tipo de reação da pessoa. Por conta disso, por vezes, mentimos.

A síndrome da aprovação está presente em quase todos os nossos atos. Quem vive debaixo da ditadura da imagem, só consegue ser autêntico quando está sozinho. Mas, como a gente passa a maior parte do tempo se relacionando com os outros, vive-se mais ocupado em justificar-se que experimentando e aceitando os verdadeiros limites.

Na verdade, por conta da necessidade de sermos aprovados, usamos uma máscara social praticamente o tempo todo. Isto nos faz mal. E tem aqui um outro detalhe muito importante:  quem passa a vida se justificando e tentando controlar sua imagem, perde a chance de realmente ser amado. Não vale a pena ser amado pelo que a gente aparenta ser… É bom ser admirado, desejado, querido pelo que a gente realmente é.

Ser autêntico, verdadeiro consigo mesmo, permite que a pessoa saiba quem são seus amigos. Ninguém gosta de conviver apenas com a miragem.

Por que não te calas?

Nossas palavras deveriam promover o bem
Nossas palavras deveriam promover o bem

Conheço gente que tem a capacidade de fazer mal para os outros. Parece ter uma energia negativa. E nem se toca. Não faz nada pra mudar. Na maioria das vezes, essas pessoas ferem porque não sabem usar as palavras. Falam o que pensam num tom que atropela o bom senso e ignora os sentimentos alheios.

Dias atrás, encontrei uma amiga arrasada. Vi lágrimas em seus olhos. Minutos antes, uma colega tinha acabado com sua autoestima. Mal tinham se encontrado, e a outra saiu disparando:

– Que blusa horrorosa. Não tem outra para vestir não? Como você sai de casa sem passar maquiagem, batom? Está largada, é isso?

Além da grosseria, ignorou que nem sempre as coisas são o que parecem ser. Minha amiga tinha tido um dia difícil. Passou a manhã fora de casa, mal teve tempo para almoçar, teve problemas com a mãe na hora do almoço, foi obrigada a escolher entre tomar um banho e comer, e sequer teve tempo de se olhar no espelho. Com a correria, pegou a bolsa e nem lembrou do batom.

Naquele dia, estava triste. Tinha tido problemas. E ainda estava achando-se desleixada. Com vergonha de si mesma. Para piorar, no fim da tarde, encontrou essa colega que a fez sentir-se ainda pior.

Sabe, tem gente que parece ter prazer em fazer o outro sofrer. Alguém aí acha que uma mulher desconhece o estrago que vai causar ao comentar sobre a imagem de uma amiga?

Criticar cabelo, maquiagem, roupas… Ou falar de peso…

– Você engordou um pouquinho?

Deveriam ser assuntos proibidos entre as mulheres. É maldade. Ou inveja. E quem deu autoridade para dizer o que é bonito ou feio? Se a roupa veste ou não veste bem? Se o cabelo está ou não bem arrumado? 

E nem me venha com aquela história de “boa intenção”. Até pode haver o desejo de ajudar. Reconheço que há ocasiões em que nossos amigos precisam de um “chacoalhão”. Entretanto, tem coisas que a gente não fala. E, se precisa dizer, tem que encontrar o jeito certo.

Mentir não faz bem. Mas há verdades que é melhor serem silenciadas. Ou, se forem necessárias, carecem de estratégia para serem verbalizadas. Sem contar que muitas vezes a gente conclui coisas e julga sem saber o contexto que envolve o outro. Por isso, toda palavra que dirigimos ao outro deveria passar antes pelo filtro do amor. Quem ama faz bem. Não transforma palavras em feridas.

Em quem você confia?

O ser humano nunca foi plenamente confiável

Este talvez seja um dos nossos grandes dilemas. Em quem confiar? Pai? Mãe? Esposa? Amigo? O chefe?

Quem é digno de nossa confiança? Quem é capaz de guardar um segredo? Entre as pessoas próximas, existe alguém que não fala mal de você quando você não está por perto?

O ser humano nunca foi plenamente confiável. Tem natureza má. Dos animais, provavelmente seja o mais perigoso. É capaz de sorrir, apertar sua mão, abraçar – dividir a mesma casa com você – e ainda assim, quando vira as costas, diz inverdades, cria factóides, faz comentários maliciosos. Prefere dizer ao outro a confrontar diretamente, recomendar, orientar… quem sabe, corrigir.

Por inocência, imprudência ou sei lá o quê, por vezes, as pessoas deixam suas vidas nas mãos de outros. Confessam segredos, dividem fofocas e, no dia seguinte, frustram-se ao descobrir que o melhor amigo traiu sua confiança.

As relações humanas são mesmo confusas; complexas, diria. E, como tenho dito, não somos ilhas; precisamos do outro. No trabalho, dividimos tarefas. O sucesso se garante por um trabalho de equipe. Na faculdade, não é diferente. Na família, também. Carecemos de afeto e os amigos são fundamentais.

Porém, falar dos outros, contar as falhas alheias nos dá prazer. Por isso, é cada vez mais raro encontrar alguém digno de confiança. Entre os nossos são poucos os que ainda são capazes de silenciar, evitar falar de pessoas e apenas discutir ideias.

Não deveria ser assim. No entanto, entre os humanos são raros os que se apóiam, se protegem, que amam de verdade. De alguma maneira, mesmo vítimas do falatório alheio, não aprendemos e optamos por seguir a multidão – mesmo quando justificamos que “não fofocamos, apenas retratamos a verdade”.

A pergunta que não consigo responder diante desse nosso hábito é muito objetiva: a quem interessa?

Enquanto não encontramos explicações, seguimos vivendo… e sem segurança, pois onde está aquele em quem se pode confiar?

De gente boazinha demais, desconfie

Tenho medo de gente boazinha demais, gentil demais… Daquelas pessoas que sempre têm nos lábios um elogio, um sorriso, mesmo quando você sabe que não está merecendo.

Não se trata de uma regra, mas pessoas assim quase sempre são aduladoras de plantão. E todo adulador é um falso em potencial. Um amigo pronto para ser seu inimigo. Ou daqueles que te enchem de elogios, mas, longe de você, podem falar mal e até “puxar seu tapete”.

O mundo está cheio de gente assim. Infelizmente. Pode ser um companheiro de trabalho, um colega de faculdade ou mesmo alguém de sua família. Em geral, com o tempo, a máscara cai e você descobre que está diante de um “amigo da onça”.

O problema é que, carentes como somos, por vezes nos deixamos enganar. E por tempo suficiente para que o sujeito faça um tremendo estrago – emocional e, por vezes, até financeiro (se for alguém que atrapalha uma promoção no trabalho ou te tira um cliente etc).

Os aduladores de plantão quase sempre são movidos por dois sentimentos: inveja e insegurança. Por isso, conviver com gente assim é aceitar viver perigosamente. Afinal, invejosos quase sempre querem o que é seu e, se não podem ter, vão desejar que você também não tenha. E os inseguros, além de não aceitarem que você consiga certas coisas e eles não, necessitam provar que você também é tão frágil quanto eles.

Por isso, todo elogio, toda gentileza pode esconder uma certa hostilidade.

Como a gente gosta de ouvir palavras bonitas, gestos “nobres”, somos todos candidatos a vítimas dessa categoria de pessoas. Não existem muitos mecanismos preventivos. Até porque, se nos protegermos de todo mundo que se aproxima, vamos viver numa ilha. E gente precisa de gentes. Somos seres sociais, sociáveis. Entretanto, um pouquinho de prudência e de desconfiança não faz mal a ninguém. Como dizia minha mãe: “tudo que é demais, sobra”. Então, de pessoas boazinhas demais, que nunca te criticam, desconfie.

Quem é o outro pra mim?

O que eu espero dele?
O que busco nele?
Que função tem na minha vida?
Afinal, pra quê serve?

Talvez essa discussão seja um pouco negativa. Quem sabe, pessimista pelos questionamentos dos valores humanos. Entretanto, egoístas que somos, o outro quase sempre é objeto de nosso desejo se ocupa algum papel. Papel que nós projetamos e que o outro desempenha.

No post anterior, propus refletirmos sobre por que o outro é quem precisa mudar. Nunca reconhecemos que também carecemos de mudanças. E isto acontece porque nem sempre somos capazes de reconhecer que o mundo não gira em torno de nós.

O outro existe. O outro tem sentimentos. O outro é como nós. É um de nós.

Portanto, por que vejo no outro alguém que deva servir aos meus interesses?

É verdade que num planeta que superou os 7 bilhões de habitantes, posso me sentir no direito de me relacionar com pessoas com as quais simpatizo, com as quais tenho afinidades e os mesmos ideais.

Porém, não é assim que funciona. Quase sempre, nossas escolhas não se dão apenas por conta de simpatia, afinidades ou projetos. Escolhemos nos relacionar com aqueles que se prestam a atender as nossas necessidades.

Ao longo dos anos, aprendi no convívio com uma dessas pessoas raras, únicas, que as relações não devem se basear na utilidade. Não devo tratar bem apenas porque a pessoa me é útil.

Lembro de diálogos do tipo:
– Por que ele você trata bem? Não seria por que precisa ou vai precisar de um favor?

Ou ainda:
– Você notou que só dá atenção para as pessoas quando elas são importantes?

A gente faz isso. E com muita frequência. Usamos nossas habilidades para nos fazer queridos pelos que podem nos ajudar hoje ou amanhã. Ou quando queremos conquistar alguém. Depois da conquista, revelamos todas nossas contradições, mal humor, desapego… nosso egoísmo.

Sabe, tenho uma certa birra do tal de networking. A rede de contatos profissionais, por vezes, é baseada em relações falsas, hipócritas. O sujeito busca tornar-se próximo de pessoas tão somente pelas possibilidades profissionais que podem ser abertas a partir desses contatos. É algo necessário? Sim, mas, convenhamos, é a institucionalização da falsidade. Muita gente faz caras e bocas pra pessoas com as quais sequer trocaria uma única palavra não fossem as posições que ocupam. Trata-se de um jogo de interesses em que não há inocentes. Porém, não deixa de ser um “toma-lá-dá-cá”.

Não creio que deixaremos de ser assim. Faz parte da natureza da sociedade contemporânea. As relações são baseadas em interesses. No profissional e no afetivo. Porém, é uma pena que sejamos tão mesquinhos. Afinal, a grandeza do homem está justamente na capacidade de reconhecer no outro qualidades, virtudes e contradições também presentes em si mesmo.

Whitney Houston e a fama que consome e faz sofrer

Não sou famoso. Nem tenho a pretensão de ser. Entretanto, imagino que a vida de um famoso seja cheia de contradições. É verdade que a bajulação e o dinheiro garantidos pelo sucesso fazem um bem enorme, principalmente para o ego. Entretanto, a vida sob os holofotes também tem um custo elevado.

Há muitas perdas. A primeiras delas é da privacidade. Embora milhares de pessoas façam tudo para aparecer e ter seus 15 minutos de fama, ter a vida vasculhada não é divertido. Se a pessoa vai à praia, será fotografada, filmada; se vai ao restaurante, idem; se beija alguém, sai na capa da revista… Isso pode até ser agradável por algum tempo. Mas não o tempo todo.

A liberdade é um dos bens mais preciosos. É bom não sentir-se pressionado e poder ir ao supermercado de chinelo e camiseta velha ou sem nenhuma maquiagem.

Também se perdem amigos e até a família fica distante. A maioria dos famosos teve uma vida antes de tornar-se estrela. Tinha amigos, gente que não estava ali por causa da fama do sujeito. Ainda no último domingo falava sobre o preço do sucesso para Michel Teló. O casamento dele acabou. Teló perdeu a esposa. Outros perdem a namorada, o marido… O contato com os pais, irmãos, tios, primos fica cada vez mais restrito. E, por vezes, a família passa a ser uma lembrança no porta-retratos. Ou serve para aparecer naqueles depoimentos chorosos nos programas dominicais da televisão.

Nem todos estão preparados para isso. Por isso, a mesma fama que causa deslumbramento e leva à glória pode roubar a alegria de viver.

Não sei se foi este o caso de Whitney Houston. Entretanto, não faltam exemplos de artistas – nomes da música, do cinema e da televisão – consumidos por um grande vazio existencial. Todo o sucesso, o dinheiro e os aplausos que receberam não foram suficientes para garantir felicidade. Muitos tentaram acalmar o coração no sexo fácil, no uso de medicamentos, álcool e drogas.

E é fácil entendê-los. As perdas que o sucesso impõe são grandes demais para alguns. As exigências e as cobranças, também.

Quem chega ao topo sente-se na obrigação de ali permanecer. O mundo não tolera o fracasso. Um filme ruim de bilheteria, um disco que não vende, um show que não atrai multidões são suficientes para tirar o artista das capas de revista. Desaparecem os convites para festas, os contratos publicitários vão minguando e o mesmo que aplaudia é aquele que ignora, critica e abraça uma outra celebridade que desponta.

Também deve ser difícil conviver com pessoas que te elogiam o tempo todo. Os erros são silenciados. Porém, quem estaria ali dizendo a verdade? Verdadeiro e falso se confundem e o sujeito atrás do personagem (o artista) talvez viva a solidão. Tem tudo o que precisa, todos estão a sua volta, mas não sabe se é amado.

Não, não estou dizendo que é ruim ser famoso. Apenas que todos eles são pessoas. E pessoas sofrem, perdem-se em seus próprios sentimentos e emoções – mesmo tendo a glória que o sucesso pode garantir.