Os problemas da casa não podem recair sobre uma única pessoa

sobrecargaOs relacionamentos, por vezes, assumem dinâmicas que, com o tempo, resultam em desgastes, desconfortos para os parceiros – ou pelo menos para um deles. Não significa que há uma intenção. Apenas acontece.

Por exemplo, quando uma das partes se torna uma espécie de servidor da casa. Ou seja, a pessoa é a única demandada para resolver os problemas cotidianos. Tem um filho doente? É o servidor que resolve. Tem um problema na prefeitura que precisa de atenção? O servidor é acionado.

Costumo dizer que, neste mundo, temos que ter disposição para sermos servos. Porém, é perigoso quando todos os problemas de uma casa recaem sempre sobre uma única pessoa.

Às vezes, isso acaba acontecendo porque essa pessoa tem algumas habilidades específicas, é a única que dirige, ou simplesmente porque tem mais tempo… Ainda assim, o desgaste gerado é grande. Acaba resultando em estresse e até mesmo desencantamento da relação ou da própria vida.

Conheço situações em que, se acontecer algo com a mulher/mãe, a família desmorona, perde o rumo. Todos estão tão condicionados a depender unicamente dela que, se a mulher ficar uma semana de cama, doente, o negócio desanda. Ela é quem faz as compras, ela é quem vai à farmácia, ela é quem leva o marido no médico, ela é quem providencia os exames da filha… Dependência total.

Como eu disse, esse tipo de dinâmica se instala e nem sempre de forma consciente. Quando a família se dá conta, alguém está sobrecarregado.

Isso não é nada bom. Gera estresse, esgotamento. Sem contar que, com frequência, a pessoa que está servindo todas as demais, sente não ter vida própria. Às vezes, sequer consegue cuidar de si mesma, de sua saúde.

Sabe, é muito difícil mudar essa realidade. É cômodo para quem está sendo servido. E quem está atarefado com as demandas da casa também não consegue vislumbrar saída. Qualquer ruptura com o “modelo” requer enfrentamento da situação. E as pessoas nem sempre percebem que alguém está fazendo mais pela relação, pela família que os demais membros da casa.

Uma dica para resolver isso? Muito diálogo. E com sutileza, sabedoria. Enquanto os envolvidos não tiverem consciência de uma pessoa está “carregando o piano” sozinha, dificilmente a dinâmica vai mudar.

Relações egoístas

Uma das coisas que me incomodam profundamente é a falta de respeito pelo outro. A gente vive uma época delicada… Muitas pessoas parecem incapazes de ter empatia, de enxergar além do próprio umbigo. É como se o mundo se resumisse a elas mesmas, ao que acham certo e o outro estivesse ali apenas para atendê-los. E isso, mais que um ato de desrespeito, é um ato de agressão, de falta de amor.

Infelizmente, esse tipo de comportamento acontece nas diferentes dinâmicas de convivência mútua.

Na empresa, pode ser aquele chefe que olha para o colaborador como se fosse alguém que precisa estar 24 horas à disposição, uma pessoa que não tem família, não precisa almoçar… É como se o colaborador vivesse apenas para aquilo. Isso o obriga a ter uma vida que gira em torno da empresa.

Isso também acontece na escola. Conheço educadores que parecem desconhecer que seus alunos possuem outras disciplinas, atividades de outros professores que também precisam ser realizadas. Embora eu entenda que possam ter boa intenção, e mais dedicação seja fundamental no processo de aprendizagem, é preciso compreender as especificidades das relações e as próprias limitações que as circunstâncias impõem.

Na vida a dois, essa incapacidade de ver o outro se torna ainda pior. Defendo a importância de se doar pelo parceiro, pela parceira. Porém, também defendo que o outro seja visto. E essa atitude significa notar quando a pessoa amada não dá conta de atender você. Tem gente que, em nome de suas carências, atropela as carências do/a companheiro/a, cobra uma atenção que a outra pessoa naquele momento está impossibilitada de dar. Talvez por esgotamento físico, mental…

Quando não vemos o outro, as necessidades e impossibilidades do outro, estamos sendo egoístas. Estamos resumindo a vida aos nossos desejos. E relacionamentos pautados em motivações egoístas não são satisfatórios, produtivos e felizes.

O que fazer quando família dele(a) não gosta de mim?

É necessário reconhecer que a felicidade no relacionamento não depende apenas do casal
É necessário reconhecer que a felicidade no relacionamento não depende apenas do casal

Nem sempre as pessoas gostam da família do parceiro/parceira. Porém, não são raros os casos em que é a família do outro que não gosta da gente. Todo mundo conhece alguém que o sogro “não vai com a cara”, que a sogra vive “pegando no pé”… Há casos, porém, em que a rejeição é completa. E esse enredo é conhecido há muito tempo. A história clássica é a de Romeu e Julieta.

É bom ser amado, admirado. Ser bem recebido, ter a aprovação da família do outro, faz bem pro coração. É uma delícia quando se é o “queridinho” da sogra, quando se tem o sogro como parceiro, quando a cunhada está sempre ali pra dar uma força… Porém, fica tudo muito difícil quando a família rejeita. E até persegue.

Por isso, uma amiga perguntou: e daí, o que fazer?

Não existe manual para essas situações. Na verdade, tudo que envolve relacionamento depende muito da dinâmica, das circunstâncias. E, se houver perseguição, tem que considerar a dimensão que isso pode tomar. Ainda assim, algumas coisas, porém, podem servir de balizadores para enfrentar esse tipo de problema.

Primeira coisa, é preciso reparar como o parceiro lida com esse cenário. Ele percebe a rejeição da família ou acha que tudo é coisa da sua cabeça? Se o outro não nota, a luta está perdida. Esquece e vá viver sua vida. Não vai dar certo. Se percebe que você é rejeitado, como administra isso? Se a pessoa que diz te amar se sente insegura, a chance de dar errado também é grande. Porém, se está do seu lado, fechado contigo, dá pra apostar no futuro da relação.

Segunda questão, tendo como premissa que o parceiro reconhece que a família não gosta de você, mas ainda assim reafirma confiança e faz planos de viver contigo, a dinâmica desse relacionamento passa a depender muito de como vão lidar com isso. Principalmente, você. Porque, se agir com retaliação, enfrentamento ou mesmo ignorá-los, vai alimentar todos argumentos ruins que já utilizam contra você. Quando a família do outro não gosta da gente, só nos resta mostrar que não somos o que eles pensam. Agir com gentileza, educação, respeito e tolerância é fundamental. Isso não significa perder a autenticidade; significa ser alguém de bem, alguém que exercita a bondade, sem se preocupar com o que vai receber em troca.

Essa atitude com a família do parceiro é investimento no romance. Trata-se de preservação do próprio relacionamento. Isso porque, por mais que o companheiro saiba da rejeição, ele provavelmente deseja viver em paz contigo. Se você entra em confronto com a família dele, o romance vira um inferno. O casal vai sofrer tanta pressão que vai chegar um momento que uma das partes não vai resistir.

É por isso que eu digo: quando a família do parceiro não gosta da gente, é necessário ter, primeiro, o outro ao seu lado. Tem que ser alguém disposto a te preservar, a te defender. E com forças pra fazer isso. A briga, nesse caso, é dele com a família; e não sua. É ele quem tem que administrar a situação. Seu papel é não dar lado para as acusações que vai sofrer.

Por fim, e talvez o mais importante, é: você está disposto/a a viver isso? Afinal, não existe garantia alguma que um dia vai conquistá-los. O amor de sua vida também tem consciência disso? Ele também acha que dá conta de administrar a situação e ser feliz, mesmo assumindo uma relação que contraria a família?

Essas são perguntas que, individualmente, o casal precisa responder. Um relacionamento é muito maior que as duas pessoas diretamente envolvidas. Não dá para ignorar o impacto que o ambiente, inclusive familiar, tem na felicidade do casal.

Você gosta da família dele?

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O título também poderia ser “você gosta da família dela?”… Afinal, quando amamos alguém, a relação não se resume ao outro; inclui um pacote: a família.

E, olha, esse negócio é bem complexo e nada fácil de aceitar. A gente gosta é da pessoa, por que tem que gostar da sogra?

Quando a família do parceiro é pequena, talvez seja mais fácil. É menos gente pra tolerar, né? Mas se a família é grande, a situação é tensa.

Sabe aquele cunhado que tem uma mania que você odeia, mas seu namorado (que é irmão dele) acha o máximo? E aquele hábito da sogra de comentar se a camisa está ou não bem passada (sendo que foi você quem passou)?

Pois é… Na convivência com a família do parceiro, embora sejam atitudes aparentemente isoladas, muitas vezes se tornam insuportáveis. E, lamentavelmente, há quadros muito mais complexos. Porque uma coisa é você não gostar de determinadas atitudes; outra bem diferente é não gostar das pessoas.

Por mais que o princípio bíblico seja para “amar nossos inimigos”, esse ensinamento também reconhece: tem pessoas que não nos fazem bem. E às vezes essas pessoas fazem parte da família do parceiro, da parceira. Conheço casos em que uma das partes não tem admiração alguma pela família dos companheiros. Desaprovam os hábitos alimentares, as roupas que usam, a mania de fofocarem entre si, até o jeito de interferirem um na vida do outro.

E aí, como fazer? Posso garantir que, no relacionamento, quando você não gosta da família do outro, o romance tem grande chance de entrar em conflito. Primeiro, porque uma razão óbvia: é a família dele/dela. Talvez naquele momento de paixão, de envolvimento pleno dos primeiros meses, ele/ela até aceite algumas críticas que você faz à mãe, ao pai… Porém, há uma história que precede a história de vocês. Enquanto as críticas forem divertidas, as coisas vão fluindo… Mas no momento que se criar a impressão de que não gosta da família, o romance pode desandar.

Um segundo aspecto, e o mais importante, é que família a gente não escolhe; família a gente tem. Essa família que você não gosta é a dele. E isso não vai mudar. Seu parceiro, sua parceira pode até se afastar durante um tempo dessas pessoas que você não gosta (quem sabe até por alguns anos), mas a vida cobra as reaproximações. E você, que contribuiu para o afastamento, pode não sair ileso dessa história. Podem surgir mágoas no relacionamento que criarão brechas para uma separação.

Portanto, se não gosta da família da pessoa que você ama, vale considerar até que ponto dá conta de conviver com eles. E, principalmente, compreender que afastá-la do convívio familiar nunca é a melhor saída. Quando amamos alguém, precisamos saber que o pacote vem junto – gostando ou não.

Pais não são amigos dos filhos

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Confesso que muitas vezes me sinto tentado a confidenciar certas coisas aos meus filhos. Num tempo em que a gente praticamente não tem amigos, não consegue confiar nas pessoas, os filhos parecem ser “o ouvido” ideal.

Mas não são. Filhos são filhos. Não são amigos.

Na verdade, é um erro mudar a dinâmica do relacionamento pais e filhos. Pais são referência, são exemplo, não são amigos. Com amigo, temos outro tipo de relacionamento. Sei que muita gente usa o argumento “seu pai é seu melhor amigo” ou “sua mãe é sua melhor amiga”, mas, quando isso acontece, perdem os pais, perdem os filhos.

A situação é muito problemática na infância, adolescência e juventude. No entanto, na fase adulta, também há prejuízos.

Antes da maturidade, quando os filhos são feitos confidentes dos pais, atropela-se o bom senso… Eles desconhecem o universo adulto. Não possuem experiência suficiente para ajudar os pais. E o desenvolvimento emocional deles fica comprometido, porque criam expectativas distorcidas do que é a vida adulta. Além disso, esse tipo de dinâmica, aprisiona os filhos. Impede-os de ter novas experiências.

Lamentavelmente, as confidências muitas vezes estão voltadas para o que acontece entre o pai e a mãe. O pai fala da mãe para o filho… A mãe fala do pai… E a criança fica no meio das frustrações do casal. O filho acaba ocupando o papel que seria do cônjuge, de um amigo, de um terapeuta. E sabe o que é pior? Muitas vezes, o filho toma partido de um deles e desenvolve sentimentos negativos. Outra consequência se dá quando o filho cresce e vai ter seu próprio relacionamento… O namorado, a namorada passam a ser referenciados pelas experiências vividas no casamento dos pais.

Os pais podem e devem falar dos seus problemas com os filhos. Se está triste, se anda com dificuldades no trabalho… Mas não dá para pedir colo. As conversas precisam ser numa perspectiva educativa. Até para mostrar que também falham, fracassam, se frustram.

Filhos também carecem de liberdade para falar com os pais. Contar seus dilemas, pedir orientação. Os pais podem ser bacanas, divertidos… Entretanto, os pais estão ali para acolher, disciplinar, conter. O papel de amigo é um; o de pai e mãe, é outro. Quando os papeis se confundem, a hierarquia é quebrada. Pode se perder o respeito e a autoridade.

A relação entre pais e filhos deve ter muito afeto, aceitação, perdão. Mas amizade é uma relação entre iguais. Presume-se mais que confidências. Entre amigos, a gente desabafa, compartilha coisas, faz coisas juntos, fala bobagem… Com amigo, a gente “peca” junto, acerta junto… Amigo interfere sim na vida da gente, mas não determina, não disciplina.

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E mesmo na fase adulta, quando a relação se torna de “amigos”, tudo se confunde. Não demora para a filha estar falando do marido para a mãe… Depois, faz as pazes, se ajeita… Mas os pais acabam ficando “ariscos” com o genro. O inverso também acontece com a nora. Sem contar os casos em que se perdem os limites. Pais, filhos, netos se misturam a tal ponto que começa a faltar respeito. Ninguém cresce.

Numa conversa com a psicóloga Adrina Furlan, ela disse que pais que fazem de amigos os filhos revelam que são incapazes de ter seus próprios amigos. Assim, acabam por “escravizá-los” neste tipo de relação.

Os filhos também se tornam inseguros. É como se os pais se tornassem um “ego externo”. Como não se desenvolveram, não possuem autonomia. Não sabem julgar o que é bom ou ruim para a vida, sempre precisando do aval ou parecer dos “amigos pais” para tudo. E é obvio que isso se torna um grande desastre para a vida.

Aos pais, também não é bom, pois agindo assim nunca verão os filhos como seres separados, independentes, adultos. Passam a vida inteira considerando-os crianças, incapazes de tomar as próprias decisões.

Enfim, por mais que alguns não queiram admitir, os papéis devem estar bem definidos. A Psicologia tem mostrado que a natureza humana reclama esses limites. Entre pais e filhos, há regras, posições distintas. Para o bem de todos e desenvolvimento emocional saudável, pais devem ser só pais.