Pais ausentes formam filhos frágeis

Nas últimas semanas, muitas pessoas manifestaram suas preocupações com um jogo que circula nas redes sociais. A tal da Baleia Azul gerou inclusive um monte de memes, de piadas… E, claro, certo pânico na rede, com a divulgação de muitas informações falsas.

Algumas pessoas me perguntaram o que eu pensava a respeito jogo. Respondo: não vi o jogo, desconheço os 50 passos. Só sei que culminaria com o suicídio.

Sabe, jogos como esse não me preocupariam nenhum pouco se os pais estivessem presentes na vida de seus filhos.

Sejamos sinceros… Vamos romper com a hipocrisia: nossas crianças, nossos adolescentes estão emocionalmente frágeis. E estão frágeis, quase sempre, porque nós, pais, temos abandonado nossos filhos, não conhecemos nossos filhos.

Amamos sim, mas amamos de um jeito torto. Porque amor bom é amor prático. É amor vivido, experimentado, sentido e manifestado em atitudes.

A adolescência, principalmente, é um tempo de incertezas, de necessidade de auto-afirmação. É um período de transformação. E é um período difícil pra molecada.

A sociedade em que vivemos não é nada fácil. Essa sociedade oferece imagens estereotipadas sobre a vida, sobre o que é ser feliz, sobre o que é ser bem-sucedido, sobre como ter alegrias… Isso tudo confunde, angustia.

E essa garotada (que vive num cenário pouco favorável ao desenvolvimento da saúde mental) ainda tem que enfrentar a ausência dos pais. Não estão ausentes fisicamente, necessariamente. Às vezes até estão ali perto. Porém, sequer conhecem os amigos de seus filhos, sequer sabem o que fazem na internet.

Jogos como a Baleia Azul só preocupam porque os pais não têm sido pais, não têm sido educadores, não têm amado em atitudes.

Muitos pais dizem: “ah… mas eu falo com meus filhos”.
Fala o quê? Fala sobre o quê? Você conversa com eles ou dá sermões?

Conversar implica ouvir. Conversar é dialogar. É conhecer e se dar a conhecer.

E conversar com nossos filhos nem sempre é um ato prazeroso. Muitas vezes temos que engolir sapos. Muitas vezes o que nossos filhos falam machucam nosso coração. Mas conversar é estabelecer um diálogo no mesmo nível. Não é uma fala de cima pra baixo… Em que a gente se posiciona cheio de verdades e impõe tudo aos nossos filhos.

Quem ama não pode ser omisso. Pais de verdade monitoram os filhos sim. Monitoram o que fazem na escola, quem são seus amigos, o que fazem na internet… E também disciplinam. São firmes. Possuem regras e aplicam as regras.

Também conheço pais que acham que amar é dar tudo, é proteger. E ainda tem aqueles que possuem uma imagem distorcida de suas crianças, de seus adolescentes. Acham que são sempre incríveis, maravilhosos… Que tudo que acontece de ruim é culpa dos outros. Por conta disso, brigam com professores, com os amigos de seus filhos… Criam filhos frágeis emocionalmente.

Pais assim não preparam seus filhos para o mundo.

São esses meninos e meninas que podem ser atraídos por jogos como a Baleia Azul. São esses meninos e meninas que se mutilam, que se agridem e agridem outros…

Pais presentes, pais que vivem um amor prático podem ter filhos com crises emocionais. Mas certamente esses filhos e esses pais dificilmente serão vítimas dessas ondas assustadoras que vez ou outra circulam pela internet.

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Os problemas da casa não podem recair sobre uma única pessoa

sobrecargaOs relacionamentos, por vezes, assumem dinâmicas que, com o tempo, resultam em desgastes, desconfortos para os parceiros – ou pelo menos para um deles. Não significa que há uma intenção. Apenas acontece.

Por exemplo, quando uma das partes se torna uma espécie de servidor da casa. Ou seja, a pessoa é a única demandada para resolver os problemas cotidianos. Tem um filho doente? É o servidor que resolve. Tem um problema na prefeitura que precisa de atenção? O servidor é acionado.

Costumo dizer que, neste mundo, temos que ter disposição para sermos servos. Porém, é perigoso quando todos os problemas de uma casa recaem sempre sobre uma única pessoa.

Às vezes, isso acaba acontecendo porque essa pessoa tem algumas habilidades específicas, é a única que dirige, ou simplesmente porque tem mais tempo… Ainda assim, o desgaste gerado é grande. Acaba resultando em estresse e até mesmo desencantamento da relação ou da própria vida.

Conheço situações em que, se acontecer algo com a mulher/mãe, a família desmorona, perde o rumo. Todos estão tão condicionados a depender unicamente dela que, se a mulher ficar uma semana de cama, doente, o negócio desanda. Ela é quem faz as compras, ela é quem vai à farmácia, ela é quem leva o marido no médico, ela é quem providencia os exames da filha… Dependência total.

Como eu disse, esse tipo de dinâmica se instala e nem sempre de forma consciente. Quando a família se dá conta, alguém está sobrecarregado.

Isso não é nada bom. Gera estresse, esgotamento. Sem contar que, com frequência, a pessoa que está servindo todas as demais, sente não ter vida própria. Às vezes, sequer consegue cuidar de si mesma, de sua saúde.

Sabe, é muito difícil mudar essa realidade. É cômodo para quem está sendo servido. E quem está atarefado com as demandas da casa também não consegue vislumbrar saída. Qualquer ruptura com o “modelo” requer enfrentamento da situação. E as pessoas nem sempre percebem que alguém está fazendo mais pela relação, pela família que os demais membros da casa.

Uma dica para resolver isso? Muito diálogo. E com sutileza, sabedoria. Enquanto os envolvidos não tiverem consciência de uma pessoa está “carregando o piano” sozinha, dificilmente a dinâmica vai mudar.

Relações egoístas

Uma das coisas que me incomodam profundamente é a falta de respeito pelo outro. A gente vive uma época delicada… Muitas pessoas parecem incapazes de ter empatia, de enxergar além do próprio umbigo. É como se o mundo se resumisse a elas mesmas, ao que acham certo e o outro estivesse ali apenas para atendê-los. E isso, mais que um ato de desrespeito, é um ato de agressão, de falta de amor.

Infelizmente, esse tipo de comportamento acontece nas diferentes dinâmicas de convivência mútua.

Na empresa, pode ser aquele chefe que olha para o colaborador como se fosse alguém que precisa estar 24 horas à disposição, uma pessoa que não tem família, não precisa almoçar… É como se o colaborador vivesse apenas para aquilo. Isso o obriga a ter uma vida que gira em torno da empresa.

Isso também acontece na escola. Conheço educadores que parecem desconhecer que seus alunos possuem outras disciplinas, atividades de outros professores que também precisam ser realizadas. Embora eu entenda que possam ter boa intenção, e mais dedicação seja fundamental no processo de aprendizagem, é preciso compreender as especificidades das relações e as próprias limitações que as circunstâncias impõem.

Na vida a dois, essa incapacidade de ver o outro se torna ainda pior. Defendo a importância de se doar pelo parceiro, pela parceira. Porém, também defendo que o outro seja visto. E essa atitude significa notar quando a pessoa amada não dá conta de atender você. Tem gente que, em nome de suas carências, atropela as carências do/a companheiro/a, cobra uma atenção que a outra pessoa naquele momento está impossibilitada de dar. Talvez por esgotamento físico, mental…

Quando não vemos o outro, as necessidades e impossibilidades do outro, estamos sendo egoístas. Estamos resumindo a vida aos nossos desejos. E relacionamentos pautados em motivações egoístas não são satisfatórios, produtivos e felizes.

O que fazer quando família dele(a) não gosta de mim?

É necessário reconhecer que a felicidade no relacionamento não depende apenas do casal
É necessário reconhecer que a felicidade no relacionamento não depende apenas do casal

Nem sempre as pessoas gostam da família do parceiro, da parceira. Por outro lado, não são raros os casos em que é a família do outro que não gosta da gente. Todo mundo conhece alguém que o sogro “não vai com a cara”, que a sogra vive “pegando no pé”… Há casos, inclusive, em que a rejeição é completa. E esse enredo é conhecido há muito tempo. A história clássica é a de Romeu e Julieta.

É bom ser amado, admirado. Ser bem recebido, ter a aprovação da família do outro, faz bem pro coração. É uma delícia quando se é o “queridinho” da sogra, quando se tem o sogro como parceiro, quando a cunhada está sempre ali pra dar uma força… Porém, fica tudo muito difícil quando a família rejeita. E até persegue.

Por isso, uma amiga perguntou: e daí, o que fazer?

Não existe manual para essas situações. Na verdade, tudo que envolve relacionamento depende muito da dinâmica, das circunstâncias. E, se houver perseguição, tem que considerar a dimensão que isso pode tomar. Ainda assim, algumas coisas, porém, podem servir de balizadores para enfrentar esse tipo de problema.

Primeira coisa, é preciso reparar como o parceiro lida com esse cenário. Ele percebe a rejeição da família ou acha que tudo é coisa da sua cabeça? Se o outro não nota, a luta está perdida. Esquece e vá viver sua vida. Não vai dar certo. Se percebe que você é rejeitado, como administra isso? Se a pessoa que diz te amar se sente insegura, a chance de dar errado também é grande. Porém, se está do seu lado, fechado contigo, dá pra apostar no futuro da relação.

Segunda questão, tendo como premissa que o parceiro reconhece que a família não gosta de você, mas ainda assim reafirma confiança e faz planos de viver contigo, a dinâmica desse relacionamento passa a depender muito de como vão lidar com isso. Principalmente, você. Porque, se agir com retaliação, enfrentamento ou mesmo ignorá-los, vai alimentar todos argumentos ruins que já utilizam contra você. Quando a família do outro não gosta da gente, só nos resta mostrar que não somos o que eles pensam. Agir com gentileza, educação, respeito e tolerância é fundamental. Isso não significa perder a autenticidade; significa ser alguém de bem, alguém que exercita a bondade, sem se preocupar com o que vai receber em troca.

Essa atitude com a família do parceiro é investimento no romance. Trata-se de preservação do próprio relacionamento. Isso porque, por mais que o companheiro saiba da rejeição, ele provavelmente deseja viver em paz contigo. Se você entra em confronto com a família dele, o romance vira um inferno. O casal vai sofrer tanta pressão que vai chegar um momento que uma das partes não vai resistir.

É por isso que eu digo: quando a família do parceiro não gosta da gente, é necessário ter, primeiro, o outro ao seu lado. Tem que ser alguém disposto a te preservar, a te defender. E com forças pra fazer isso. A briga, nesse caso, é dele com a família; e não sua. É ele quem tem que administrar a situação. Seu papel é não dar lado para as acusações que vai sofrer.

Por fim, e talvez o mais importante, é: você está disposto/a a viver isso? Afinal, não existe garantia alguma que um dia vai conquistá-los. O amor de sua vida também tem consciência disso? Ele também acha que dá conta de administrar a situação e ser feliz, mesmo assumindo uma relação que contraria a família?

É fundamental entender que talvez as coisas nunca mudem nessa relação. Estariam dispostos a pagar o preço? Querem viver em “pé-de-guerra”? Desejam se isolar deles “pra sempre”?

Essas são perguntas que, individualmente, o casal precisa responder. Um relacionamento é muito maior que as duas pessoas diretamente envolvidas. Não dá para ignorar o impacto que o ambiente, inclusive familiar, tem na felicidade do casal.

Você gosta da família dele?

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O título também poderia ser “você gosta da família dela?”… Afinal, quando amamos alguém, a relação não se resume ao outro; inclui um pacote: a família.

E, olha, esse negócio é bem complexo e nada fácil de aceitar. A gente gosta é da pessoa, por que tem que gostar da sogra?

Quando a família do parceiro é pequena, talvez seja mais fácil. É menos gente pra tolerar, né? Mas se a família é grande, a situação é tensa.

Sabe aquele cunhado que tem uma mania que você odeia, mas seu namorado (que é irmão dele) acha o máximo? E aquele hábito da sogra de comentar se a camisa está ou não bem passada (sendo que foi você quem passou)?

Pois é… Na convivência com a família do parceiro, embora sejam atitudes aparentemente isoladas, muitas vezes se tornam insuportáveis. E, lamentavelmente, há quadros muito mais complexos. Porque uma coisa é você não gostar de determinadas atitudes; outra bem diferente é não gostar das pessoas.

Por mais que o princípio bíblico seja para “amar nossos inimigos”, esse ensinamento também reconhece: tem pessoas que não nos fazem bem. E às vezes essas pessoas fazem parte da família do parceiro, da parceira. Conheço casos em que uma das partes não tem admiração alguma pela família dos companheiros. Desaprovam os hábitos alimentares, as roupas que usam, a mania de fofocarem entre si, até o jeito de interferirem um na vida do outro.

E aí, como fazer? Posso garantir que, no relacionamento, quando você não gosta da família do outro, o romance tem grande chance de entrar em conflito. Primeiro, porque uma razão óbvia: é a família dele/dela. Talvez naquele momento de paixão, de envolvimento pleno dos primeiros meses, ele/ela até aceite algumas críticas que você faz à mãe, ao pai… Porém, há uma história que precede a história de vocês. Enquanto as críticas forem divertidas, as coisas vão fluindo… Mas no momento que se criar a impressão de que não gosta da família, o romance pode desandar.

Um segundo aspecto, e o mais importante, é que família a gente não escolhe; família a gente tem. Essa família que você não gosta é a dele. E isso não vai mudar. Seu parceiro, sua parceira pode até se afastar durante um tempo dessas pessoas que você não gosta (quem sabe até por alguns anos), mas a vida cobra as reaproximações. E você, que contribuiu para o afastamento, pode não sair ileso dessa história. Podem surgir mágoas no relacionamento que criarão brechas para uma separação.

Portanto, se não gosta da família da pessoa que você ama, vale considerar até que ponto dá conta de conviver com eles. E, principalmente, compreender que afastá-la do convívio familiar nunca é a melhor saída. Quando amamos alguém, precisamos saber que o pacote vem junto – gostando ou não.

Pais não são amigos dos filhos

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Confesso que muitas vezes me sinto tentado a confidenciar certas coisas aos meus filhos. Num tempo em que a gente praticamente não tem amigos, não consegue confiar nas pessoas, os filhos parecem ser “o ouvido” ideal.

Mas não são. Filhos são filhos. Não são amigos.

Na verdade, é um erro mudar a dinâmica do relacionamento pais e filhos. Pais são referência, são exemplo, não são amigos. Com amigo, temos outro tipo de relacionamento. Sei que muita gente usa o argumento “seu pai é seu melhor amigo” ou “sua mãe é sua melhor amiga”, mas, quando isso acontece, perdem os pais, perdem os filhos.

A situação é muito problemática na infância, adolescência e juventude. No entanto, na fase adulta, também há prejuízos.

Antes da maturidade, quando os filhos são feitos confidentes dos pais, atropela-se o bom senso… Eles desconhecem o universo adulto. Não possuem experiência suficiente para ajudar os pais. E o desenvolvimento emocional deles fica comprometido, porque criam expectativas distorcidas do que é a vida adulta. Além disso, esse tipo de dinâmica, aprisiona os filhos. Impede-os de ter novas experiências.

Lamentavelmente, as confidências muitas vezes estão voltadas para o que acontece entre o pai e a mãe. O pai fala da mãe para o filho… A mãe fala do pai… E a criança fica no meio das frustrações do casal. O filho acaba ocupando o papel que seria do cônjuge, de um amigo, de um terapeuta. E sabe o que é pior? Muitas vezes, o filho toma partido de um deles e desenvolve sentimentos negativos. Outra consequência se dá quando o filho cresce e vai ter seu próprio relacionamento… O namorado, a namorada passam a ser referenciados pelas experiências vividas no casamento dos pais.

Os pais podem e devem falar dos seus problemas com os filhos. Se está triste, se anda com dificuldades no trabalho… Mas não dá para pedir colo. As conversas precisam ser numa perspectiva educativa. Até para mostrar que também falham, fracassam, se frustram.

Filhos também carecem de liberdade para falar com os pais. Contar seus dilemas, pedir orientação. Os pais podem ser bacanas, divertidos… Entretanto, os pais estão ali para acolher, disciplinar, conter. O papel de amigo é um; o de pai e mãe, é outro. Quando os papeis se confundem, a hierarquia é quebrada. Pode se perder o respeito e a autoridade.

A relação entre pais e filhos deve ter muito afeto, aceitação, perdão. Mas amizade é uma relação entre iguais. Presume-se mais que confidências. Entre amigos, a gente desabafa, compartilha coisas, faz coisas juntos, fala bobagem… Com amigo, a gente “peca” junto, acerta junto… Amigo interfere sim na vida da gente, mas não determina, não disciplina.

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E mesmo na fase adulta, quando a relação se torna de “amigos”, tudo se confunde. Não demora para a filha estar falando do marido para a mãe… Depois, faz as pazes, se ajeita… Mas os pais acabam ficando “ariscos” com o genro. O inverso também acontece com a nora. Sem contar os casos em que se perdem os limites. Pais, filhos, netos se misturam a tal ponto que começa a faltar respeito. Ninguém cresce.

Numa conversa com a psicóloga Adrina Furlan, ela disse que pais que fazem de amigos os filhos revelam que são incapazes de ter seus próprios amigos. Assim, acabam por “escravizá-los” neste tipo de relação.

Os filhos também se tornam inseguros. É como se os pais se tornassem um “ego externo”. Como não se desenvolveram, não possuem autonomia. Não sabem julgar o que é bom ou ruim para a vida, sempre precisando do aval ou parecer dos “amigos pais” para tudo. E é obvio que isso se torna um grande desastre para a vida.

Aos pais, também não é bom, pois agindo assim nunca verão os filhos como seres separados, independentes, adultos. Passam a vida inteira considerando-os crianças, incapazes de tomar as próprias decisões.

Enfim, por mais que alguns não queiram admitir, os papéis devem estar bem definidos. A Psicologia tem mostrado que a natureza humana reclama esses limites. Entre pais e filhos, há regras, posições distintas. Para o bem de todos e desenvolvimento emocional saudável, pais devem ser só pais.

Sobre o que lemos; sobre o que nos interessa

internetQual assunto chama mais sua atenção? Quando você navega na internet, o que te “pega”?

Eu não tenho dados, estatísticas. No universo dos livros, existem algumas pesquisas interessantes. Porém, entre os blogs, pelo que estive observando, fazem sucesso os textos que trazem fofocas sobre celebridades, bastidores e polêmicas do esporte, comportamento e sexo, fatos bizarros… Também existe um público que acompanha política, cultura, música… Entretanto, assuntos como educação, família, filhos etc geralmente ganham bem pouca atenção.

Na verdade, quando a gente fala desses três últimos temas, parece que todo mundo já sabe. Curiosamente, as pessoas têm opinião sobre essas questões, mas os estudos revelam que vivemos uma crise sem precedentes nessas áreas específicas: educação, família e filhos.

Se pensarmos na educação formal, aquela que acontece na escola, os indicadores de qualidade assustam. Claro, se você perguntar pra qualquer pessoa o que acontece, ela vai ter uma resposta. Simplória, mas vai ter. E por parte das autoridades políticas, será sempre um setor que, no discurso, aparece como prioritário.

Quando o assunto é família, os problemas são inúmeros. Vão desde as crises entre marido e mulher, até dificuldades no trato com sogro, sogra… tios, cunhados… É uma loucura. As pessoas acham saber o jeito certo de viver em família, mas estão infelizes. Na verdade, viver mal, ter um relacionamento ruim entre familiares se tornou natural. O discurso é mais ou menos este: “família é mesmo assim”. “É família, né?”.

a dinâmica entre pais e filhos é uma das que mais me preocupa. A gente nota que os papeis estão invertidos… Tem filho que manda no pai; tem mãe que só sabe educar no “grito”… Tem avó que briga com a filha, porque esta disciplina o neto dela… Tem pais que não deixam os filhos crescerem (o rapaz está com 20 anos e o pai é quem ainda vai na faculdade brigar com o professor por causa de uma nota baixa)…

Mas o que essas coisas têm a ver com o assunto primeiro, a leitura? Porque a gente vive uma crise nessas áreas e não se interessa efetivamente por elas. Eu costumo dizer que a gente se prepara para tudo na vida (estuda feito um maluco pra passar num concurso, em um vestibular etc), porém não busca informações para ser pai, para lidar com relacionamentos familiares… E muito menos se preocupa com a qualidade da educação (se ela formar para o trabalho, pronto… está valendo). A gente acha que sabe, mas, na verdade, desconhece a própria ignorância. Pior, não tenta mudar a situação.

Noto que a maioria das pessoas acha perda de tempo ler (ou tem preguiça), por exemplo, sobre educação dos filhos. Aí quando o moleque está da showzinho no supermercado aos três anos de idade, ainda diz que a criança é “terrível”.

– Ah… esse menino não tem jeito.

Quem parece não ter jeito é esse pai, essa mãe que optaram por improvisar na educação do filho.

A gente deveria se ocupar mais daquilo que realmente importa. E ler mais sobre esses temas ajuda muito. Saber ser um ser humano melhor, saber ser um ser humano melhor para os outros deveriam ser nossa primeira preocupação. E isso a gente aprende (aprende lendo, inclusive). Não nasce em nós. Não nascemos “programados” para saber lidar com sogra, cunhado… Nem com filhos. Já as nossas escolas refletem o que somos, a sociedade que construímos. A culpa não é do professor, do diretor, nem da estrutura. É de todos nós que abandonamos esse espaço e apenas apontamos problemas, mas nada fazemos para transformá-lo.

Pais que ferem filhos; filhos que perdoam pais

Nem sempre a relação entre pais e filhos é harmônica
Nem sempre a relação entre pais e filhos é harmônica

Eles cuidam, protegem… Querem o bem. Sonham dar o melhor para os filhos. Mas erram. E muito. Machucam, ferem. E, por vezes, plantam mágoas que criam abismos. Existem exceções, claro, mas os pais não fazem por mal. Na tentativa de ajudar, afastam os filhos.

Dias atrás, ao conversar com uma mãe, ela se mostrava irredutível. Dizia que faria tudo para afastar o filho de uma garota. Brigaria, ameaçaria, usaria de chantagem… Estava nervosa, irritada. O filho, segundo ela, estava cego. O rapaz não podia ficar com a menina. Ela não prestava. O moço já havia dito que preferia se afastar da mãe a deixar a namorada. Então tentei mostrar para essa mulher que estava escolhendo a pior estratégia para lidar com o problema.

É verdade que são raros, mas ainda existem “casos Romeu e Julieta”. E a confusão está armada na família, inclusive com perdas irreparáveis nos relacionamentos.

Entretanto, nem sempre as mágoas são construídas por impedimentos que se cria de um namoro na adolescência. Há outras situações. Muitas delas por meio de palavras, que são ditas que ferem a ponto de não ser esquecidas. Tem repressões, xingamentos, surras. Há coisas aparentemente pequenas, mas que, no mundo da infância são significativas demais. Por exemplo, uma coleção de figurinhas que o pai joga fora num momento de raiva pode criar uma ferida que ele desconhece, mas que persistirá no coração do filho. Uma humilhação após o resultado de uma prova… Um brinquedo jogado no chão após uma resposta desrespeitosa da criança… O tapa na mãozinha onde está a boneca favorita e que a faz cair desmontada no chão… O contato deletado no skype daquele “primeiro amor” que nasceu na escola…

Os pais não percebem, mas fazem os filhos chorar lágrimas eternas. Às vezes até reconhecem que exageram na dose, mas como minimizam a atitude, não se desculpam de verdade, não conversam sobre o que aconteceu, acabam por gerar um distanciamento que se aprofunda na juventude e na fase adulta. Por isso, não são raros os filhos que guardam mágoas dos pais. Contam as horas para sair de casa e, quando saem, as ligações tornam-se raras e as visitas acontecem apenas em datas especiais. Conheço casos de famílias que não se reúnem há anos. Já idosos, os pais lamentam a ausência dos filhos, mas estes parecem criar estratégias para evitar encontrá-los.

Muitos têm a chance de reconhecer que erraram e pedir perdão. Conseguem restabelecer a convivência e aproveitar os filhos como não o fizeram durante a infância e adolescência. Outros simplesmente ignoram o que motivou o afastamento. Passam a vida chorando a perda. Ou dizendo frases do tipo:

– Ele é um frio. Dei tudo. Paguei faculdade, fiz festa de casamento e ele nem liga no Natal.
– Ah… ela casou e nem traz os netos para passar férias em casa. Parece esconder os meninos de mim.

Sabe, faz mal viver essa realidade. Por isso, tentar entender o que houve, humilhar-se é a melhor forma de promover o reencontro. Entretanto, até por muitas vezes desconhecerem que foram os responsáveis por plantar as mágoas, cá com meus botões, acredito que, por mais duro que seja, os filhos devem aprender a perdoar os pais. Perdoar não é esquecer, mas é uma atitude, uma forma de aceitar e compreender o outro. E restabelecer os laços é fundamental para se viver bem, em paz. Ninguém é completo, ninguém se sente pleno carregando uma relação mal resolvida com a mãe, com o pai… Não é fácil. Há feridas que parecem tão profundas que nunca irão cicatrizar. Porém, vale a pena tentar. Dói dar o primeiro passo, dói atropelar o orgulho, o amor próprio. Mas vale a pena. Punir o outro com rancor consome a gente mesmo, tira a paz e realimenta emoções negativas.