A vida é uma sucessão de perdas…

Dias atrás, ouvi um filósofo dizer uma frase que me intrigou… Ele afirmou que, ao longo da vida, nosso maior desafio é aprender a perder.

Embora frequentemente eu fale sobre perdas, nunca havia parado pra pensar na perspectiva que a vida seja uma sucessão de perdas. Perdemos a juventude, a vitalidade, a beleza… Esse filósofo, ainda na adolescência, teve que lidar com a perda de uma perna. Depois veio o câncer… Enfim, ele e todos nós perdemos o tempo todo!

Depois de digerir a ideia, ela fez muito sentido pra mim. Por isso, quero compartilhar com você.

Como eu disse, as perdas fazem parte da existência. E até aí não há muita novidade. A gente não gosta de perder, é fato. Mas você já havia parado pra pensar que basta nascer para que a gente comece a perder?

A primeira grande perda acontece no momento que nascemos. Somos desligados de nossa mãe. A proteção do útero da mamãe é perdida. Estávamos ligados a nossa mãe inclusive por um cordão umbilical. Esse cordão também é cortado quando nascemos.

A partir daí iniciam-se várias experiências de perdas. Se nos primeiros meses de vida, somos alimentados, banhados, trocados, perfumados, não demora muito tempo para que esses cuidados sejam perdidos. Temos que aprender a nos alimentar sozinhos, cuidar de nossa própria higiene, escolher nossas roupas…

Não demora muito tempo para que comecemos a perder pessoas que estavam em nossa vida. É um tio que morre, um pai que vai embora… O emprego perdido pela mãe e a descoberta das dificuldades financeiras…

Depois vem a juventude e toda a beleza ingênua que a cerca… Mas isso também vai embora em pouco tempo.

Sim, meu caro amigo… A vida é uma sucessão de perdas. Perdemos a juventude, a beleza, a energia… E a grande perca, que quase sempre ignoramos, é da própria vida. Afinal, ao nascermos, começamos um processo de morte. Cada dia a mais é um dia a menos.

Isso parece um tanto depressivo, não é?

Na verdade, nos entristecemos porque temos dificuldade para aceitar as perdas. Curiosamente, desde os primeiros anos de vida, as crianças que não conseguiram administrar essas perdas ou foram muito protegidas, são as que não crescem como ser humano. Seguem infantilizadas, carentes…

As perdas são naturais e parte de nosso amadurecimento. A primeira e mais significativa perda, quando somos desligados de nossa mãe, significa o primeiro grande desafio da existência: somos convidados a ter autonomia, a crescer, a nos desenvolvermos. Sem a separação, não há vida.

E embora seja doloroso perder a juventude, a beleza inclusive física de um corpo jovem, são os anos que se acumulam, as experiências vividas que nos garantem a oportunidade de amadurecermos.

Portanto, embora as perdas possam causar dor, separação, são parte de um processo contínuo de crescimento e que podem nos assegurar a sabedoria para aproveitar o melhor da vida.

Nem sempre é por querer; é por valor moral

Nem tudo que a gente faz, a gente faz por que quer fazer; faz, porque DEVE fazer. Este é um dos princípios morais mais importantes na história da ética.

O sentimento de dever é fundamental para o funcionamento da sociedade e para as relações sociais.

A compreensão do dever é que nos motiva a contrariar os desejos, pulsões e manter uma postura correta diante do outro e da sociedade.

A fidelidade numa relação amorosa, por exemplo, é resultado de um ato moral. Por vezes, o desejo é por alguém fora do relacionamento. Por que se preserva a fidelidade? Por moral. O corpo pode reclamar novas experiências. Mas a fidelidade é um compromisso moral assumido com a pessoa com quem se escolheu viver.

Vale o mesmo para inúmeras outras situações. Na empresa, mesmo passando por dificuldades financeiras e sendo mal remunerado, o profissional que trabalha no departamento financeiro talvez tenha a oportunidade de desviar algum dinheiro. Por que não faz? Pelo dever. Não mexer no dinheiro que não lhe pertence é a atitude correta.

Um parente doente, que precisa de cuidados, que nos obriga a perder dias de trabalho, alterar nossa rotina, gastar nossas reservas financeiras… Uma situação como essa não é desejada. Não cuidamos dessa pessoa por prazer; cuidamos por dever. É o certo a fazer.

Por que trato desse assunto hoje? Simples, porque vivemos um momento em que as escolhas são movidas pelas paixões, pelo que alegra. Muita gente opta pelo whatsapp até para colocar fim num relacionamento – tudo para evitar o desprazer do olho no olho.

Entretanto, viver não é apenas fazer o que se gosta. A moral nos orienta a fazer o que devemos fazer. Algumas práticas são necessárias, não por serem alegradoras individualmente, mas pela necessidade de preservar a boa convivência, o bom funcionamento das relações sociais.

Pessoas boas estão condenadas à ruína

Às vezes a gente se depara com ideias ou mesmo premissas que incomodam profundamente. E incomodam, porque contrariam tudo aquilo que defendemos ou entendemos ser o certo.

Ainda ontem li uma citação de Nicolau Maquiavel que me machucou bastante. Diz:

O homem que tenta ser bom o tempo todo está fadado à ruína entre os inúmeros outros que não são bons.

Evidente que não sou perfeito. Nem reúno as qualidades que gostaria de ter. Mas uma de minhas lutas interiores é por ser uma pessoa boa. E por bom entendo a integridade, a honestidade, a sensatez, fidelidade, lealdade, a compreensão, o respeito à diversidade…

Entretanto, o desejo de ser bom parece não encontrar apoio no mundo em que vivemos. Semelhante ao lamento do rei Davi, que dizia não entender a prosperidade dos homens maus enquanto as pessoas boas sofriam, o mundo não premia quem busca ser correto, uma vida virtuosa.

Na verdade, fazer o certo agora parece ser errado; e o errado, o certo.

A recomendação de Maquiavel vai justamente nesta direção: quem deseja ter sucesso, ser próspero e respeitado pelo mundo, não pode ser bom. Num mundo em que as pessoas não são boas, quem é bom vai à ruína, segundo o filósofo.

Cá com meus botões, embora entenda que Maquiavel tem razão, ainda prefiro acreditar que vale a pena ter uma conduta digna, mesmo que a sociedade não garanta recompensas às boas pessoas.

Para que nascemos?

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Acho que uma das grandes inquietações do homem é a razão de sua existência. Por que nascemos? Por que vivemos? Qual o sentido da vida? Por meio da religião, muitos parecem se encontrar e aquietar o coração. Outros tantos simplesmente não pensam; optaram por viver anestesiados. Divertem-se como se a vida se explicasse tão somente pelo prazer que se pode ter.

Eu também não tenho uma resposta. Todas que conheço permitem ser questionadas. Entretanto, gosto da ideia de que nossa existência se justifica coletivamente. Ou seja, pode até não explicar por que nascemos, mas ao menos aponta uma razão para a vida valer a pena. O premiado escritor americano Ernest Hemingway, na obra “Por quem os sinos dobram”, traz na fala de uma de suas personagens um pouco dessa beleza. Após ouvir o relato de um jovenzinho que teria perdido toda a família e seu lamento por expor tanta dor ao grupo de amigos, ela diz:

– Para que nascemos se não para nos ajudarmos uns aos outros?

O jovem estava constrangido por falar de mortes, de perdas para um grupo de amigos que também carregava consigo decepções, frustrações e familiares mortos na guerra. Todos ali tinham uma história de dor. Parecia que ninguém tinha o direito de chorar seus dramas. Afinal, o choro de um parecia não se justificar diante de sofrimentos supostamente ainda maiores vividos por outros. Ainda assim, a personagem de Hemingway sustenta: existimos para nos apoiar, para ajudar uns aos outros.

E, diante da incapacidade que muitas vezes temos de dizer alguma coisa, ela completa:

– E ouvir sem dizer nada é o menos que se pode fazer.

Sabe, relacionar-se não é fácil. Entretanto, é isso que nos faz humanos. Eu costumo dizer que não somos dependentes de um amor (ter alguém com quem dividir a cama) pra vivermos felizes. Mas precisamos de gente. Não é bom viver sozinho. E não se trata de ter alguém com quem dividir uma festa ou uma bebida. Trata-se de ser capaz de ajudar e ser ajudado, abraçar e ser abraçado… em todos os momentos. Algo dentro de nós reclama a presença do outro. A gente é mais feliz quando faz alguém feliz – ou está ali para enxugar uma lágrima, provocar um sorriso… 

Quando a gente vai no velório de alguém, dá pra perceber se a existência daquela pessoa valeu ou não a pena pelos depoimentos que se ouve. Não se trata de apenas escutar coisas do tipo “ele era tão bom”. Trata-se de perceber o quanto aquela pessoa se doou pelos outros. Familiares, filhos, amigos, colegas de trabalho, conhecidos e até desconhecidos circulam por ali com lágrimas nos olhos e lamento real pela perda de alguém que fez a diferença. Pessoas assim, quando se despedem da vida, parecem ter deixado marcas; marcas na vida de outras pessoas. Escrevem uma história que se estende para além delas. Não vivem isoladas do mundo; elas são o próprio mundo.

Acredito que gente assim pode até não ter entendido por que nasceu, mas certamente soube como e por que viver.

De ilusão também se vive

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Por que as pessoas pagam por objetos usados por seus ídolos?

Marx sustentava que o trabalhador é alienado, pois é separado do seu trabalho. Ele vende a mão-de-obra, mas o produto que produz não lhe pertence. Pelo contrário, se desejar acessá-lo, terá de pagar por isso. Isto transforma em mercadoria tanto o trabalhador quando o resultado de seu trabalho – ambos possuem um preço.

Bom, não pretende teorizar aqui. Apenas pensava no assunto ao ler uma coluna do Cony. Ele discutia o preço das coisas – ou, “o preço de cada um”. Falava, por exemplo, do quanto as pessoas pagam para ter um “dente do John Lennon”, um quadro do Van Gogh… Enfim.

O cronista dizia que não pagaria nem cinco reais pelo dente do músico e cantor; muito menos milhões pela tela do pintor.

Eu concordo com ele. Entretanto, a cultura da época é capitalista. E o capital norteia nossa forma de pensar. Por isso, tudo pode tornar-se produto. Uma foto autografada de um artista, uma peça de roupas… Transformam-se em objeto de desejo. As pessoas pagam por isso. E o preço é dado pelo grau de visibilidade que o sujeito tem na mídia.

Sinceramente, não sei bem por que as pessoas pagam por certas coisas. O próprio acesso ao que os críticos denominam de “boa cultura” tem um custo estranho… Estranho ao artista e ao público. A definição do valor a ser cobrado tem critérios que a razão nem sempre explica. Por que a peça de teatro feita pelo grupo local tem entrada franca e a outra com a atriz da novela das nove cobra-se 150 reais?

Por que o trabalhador que recolhe o lixo em frente a nossa casa recebe 800 reais/mês e um cirurgião plástico pede 10 mil por uma lipoescultura? Seria a atividade do primeiro menos importante que a do segundo? Não, não estou questionando os anos de estudo de um profissional… Apenas propondo que pensemos sobre os valores que atribuímos a certas atividades, produtos etc.

Uma vez, conversando com um “artista de fim de semana”, ele falava sobre suas peças (pequenas esculturas). Dizia que não as colocava a venda, pois não dava para quantificar em moeda o significado de cada uma delas.

Fico pensando: como definir o valor do conhecimento, da habilidade, do talento? Por outro lado, que tipo de função ocupam objetos simbólicos – como a cueca de um cantor, a guitarra de um músico, o vestido de uma atriz – a ponto de atraírem gente disposta a pagar por isso?

Não tenho respostas. Essas questões apenas me incomodam, fazem-me refletir na relação do homem com seu trabalho… Ao mesmo tempo penso no prazer que se tem na procura por esses objetos, nas viagens caras para assistir mega shows, com ingressos de centenas de reais… Qual a motivação? Seria apenas uma ilusão criada por um mercado que sequer damos conta de identificar?

Mundo caótico…

Numa de minhas aulas, ontem à noite, falava sobre a visão de Kant a respeito da sociedade. Entre outras coisas, o filósofo alemão retratou que vivemos numa sociedade caótica. Enquanto aplicava os conceitos de Kant aos dias atuais, uma aluna pediu para eu explicar o que significa uma sociedade caótica.

Achei muito interessante o questionamento. Não necessariamente em função da chance de aprofundar os conceitos filosóficos. Mas principalmente por que noto que estamos tão acostumados com as contradições sociais que já não conseguimos notá-las. Perdemos a sensibilidade. Estamos tão concentrados em nossos próprios problemas que não notamos a realidade alheia.

Pense por alguns instantes… O que dizer dessa sociedade onde um pai e uma madrasta são capazes de jogar uma garotinha do sexto andar de um prédio? O que dizer dessa sociedade capaz de aceitar que adolescentes e jovens consumidores de drogas fiquem sem tratamento para dependentes químicos? Como explicar que envolvidos num acidente de trânsito que matou uma garotinha ainda estejam impunes, mesmo a morte tendo sido causada por um racha que disputavam dentro da área urbana?

Dá para entender como não caótica uma sociedade que obriga cidadãos pagadores de seus impostos a contratarem planos de saúde para terem atendimento médico? Ou a colocarem seus filhos numa escola particular, pois o Estado, mantido pelos cidadãos, não consegue dar conta de oferecer um ensino de qualidade?

Nossa sociedade é caótica, porque afasta os cidadãos, é injusta e tornou os sujeitos em indivíduos – no sentido de serem egoístas, pouco comprometidos com o bem comum. Além disso, temos o caos natural provocado pelas mudanças climáticas, geográficas e desrespeito ao nosso corpo, que também tem suas leis naturais. E tudo causado pelos próprios homens em suas relações desastrosas com a economia, meio ambiente e sociedade.

Há chance de tornar esse mundo harmonioso? O filósofo alemão Immanuel Kant parece acreditar nisso. Mas para romper com o caos o cidadão tem de desejar isso. Precisa empregar suas forças, energias e, principalmente, conhecimento para mudar o ambiente em que vive e se relaciona. Há necessidade de superar os interesses individuais, reconhecer o outro como parte nossa, parte de uma mesma estrutura social – no qual todos nós estamos inseridos. Essa sociedade melhor se constrói com valores comuns, éticos e morais.

Sociologia e Filosofia tornam-se obrigatórias

O governo federal sancionou a lei que torna obrigatório o ensino das disciplinas de Sociologia e Filosofia nas escolas públicas e privadas. A nova lei deve ter os primeiros reflexos nas instituições de ensino no ano que vem. Este ano será reservado para ajustes.

A idéia é considerada por muitos como um avanço considerável na formação dos alunos. Entretanto, podem haver dificuldades para a inserção de duas novas disciplinas na grade curricular. Muitos educadores apontam que será necessário reduzir o número de aulas de outras disciplinas. Há ainda quem defenda a ampliação do Ensino Médio para quatro anos (hoje, são três).

No Paraná, já existe a previsão do ensino da Sociologia e da Filosofia em pelo menos um ano do Ensino Médio. Contudo, com a lei federal, o ensino será obrigatório ao longo dos três anos em que o aluno fizer o curso.

Dificuldades à parte, considero a obrigatoriedade uma conquista e tanto. Nossos alunos têm uma formação crítica muito rasa. Filosofia e Sociologia podem até parecer bobagem pra muitos deles, mas certamente vai estimular a moçada a se tornarem cidadãos pensantes. É obvio que pra tudo isso funcionar precisamos de bons professores. Mas essa é uma outra história…