A síndrome do pensamento mágico

Um dos grandes problemas do brasileiro é manter uma espécie de pensamento mágico. A gente acredita que, no final, as coisas se ajeitam.

Você anda sem o documento do carro e acredita que, se for parado numa blitz, por alguma mágica, o veículo não será retido. E se for retido, a gente conhece alguém que pode dar um jeito é liberar o carro.

Você vai fazer uma prova e não estuda tudo que precisaria estudar. O aluno brasileiro acredita que, de alguma maneira, vai tirar a nota. E se não tirar, ainda assim existirá alguma maneira de resolver o problema.

A gente faz isso em quase todas as esferas da vida. Inclusive na política. A gente vota acreditando em alguma mágica, num ser que possa resolver todos os problemas. E, se não funcionar, sempre haverá um amanhã para tentarmos de novo.

Esta forma de pensar tem muito a ver com o que convencionamos chamar de “jeitinho brasileiro”. Acreditamos sempre que é possível dar um jeito e tudo vai ficar bem. E se não ficar, a gente ri da desgraça e segue em frente porque “a vida é assim mesmo”.

Mas, olha só, não é assim. Não pode ser assim. Um prédio grandioso não se constrói sem planejamento, sem contar com os melhores profissionais, materiais de excelente qualidade… A vida da gente não será bem sucedida se não for orientada por bons princípios, por cuidados, responsabilidade, comprometimento… O mesmo vale para uma carreira… O mesmo vale para um país.

Não existe mágica para o sucesso. Não é com jeitinho que se faz algo de qualidade. O jeitinho é só o quebra-galho. Mas o quebra-galho nunca é realmente satisfatório. Não é digno de elogios. Muito menos é capaz de mudar a vida das pessoas.

Falta de planejamento compromete o futuro do Brasil

Nenhum país muda sem ter um planejamento de futuro. Trocar deputados, senadores, governadores e presidente da República pode até ajudar na reformulação de determinadas práticas, inclusive com novas políticas públicas. Mas não ocorrerão avanços significativos.

Fazer planejamento tem a ver com a cultura de um povo. Não é da cultura do brasileiro planejar. A gente não faz isso na casa da gente. Não faz na empresabasta notar a quantidade de empresas que fecham por não ter pensado todas as estratégias de curto, médio e longo prazos. E a gente não faz planejamento na política.

A Coreia do Sul há pouco mais de 60 anos era um território arrasado pela guerra. Um país pobre.

Muita gente atribui o sucesso econômico e científico da Coreia ao investimento na educação. É verdade que a educação fez e ainda faz a diferença por lá. Porém, a educação não foi a chave do sucesso. O segredo da Coreia do Sul foi planejamento. A educação fez parte das estratégias utilizadas para colocar o país na rota do desenvolvimento econômico e científico.

No Brasil, não damos valor a isso. A ausência de uma cultura de planejamento faz com que as ações iniciadas num governo sejam interrompidas no outro. Cada político pensa no seu mandato e em medidas que possam lhe render capital político, votos. Um governo inicia um programa de incentivo ao ensino superior, financiando bolsas de estudo… Um novo governo reduz a verba para o programa e dá início a outra ideia.

Um prefeito começa uma obra, não consegue concluí-la e, quando outro é eleito, entende que existem coisas mais urgentes e a obra fica parada.

Políticas precisam ser pensadas não para estancar um problema agora, mas para criar uma condição de vida melhor para as pessoas daqui a 20, 30… 50 anos.

Com uma mentalidade de planejamento, as pessoas compreenderiam que não existem soluções mágicas. É preciso muito trabalho, esforço, disciplina e tempo para dar conta de demandas históricas.

A Coreia do Sul não se tornou uma potência tecnológica, uma força na indústria automobilística mundial de um dia para o outro. Os resultados começaram a aparecer depois de quase 40 anos.

Mas veja só… O Brasil nunca foi arrasado por uma guerra, nunca sofreu com grandes catástrofes naturais, mas não sai do lugar. Nossos problemas de hoje não são diferentes dos problemas que tínhamos no passado. A gente sonha com o Brasil do futuro, mas o futuro nunca chega… E não chega porque a gente não planeja o futuro.

Isso só reforça o que estou dizendo: não existe um messias político para colocar o país nos trilhos. Se não houver uma mudança de mentalidade, a criação de uma nova cultura, a gente pode ter uma certeza: tudo vai continuar dando errado.

População envelhece e o futuro é cada vez mais incerto

Um estudo divulgado esta semana pelo IBGE confirmou o que já vem se falando há bastante tempo: o Brasil está envelhecendo. Atualmente, 9% da população são idosos; em 2060, cerca de 25,5% das pessoas terão mais de 65 anos. Detalhe, já em 2039, deveremos ter mais pessoas idosas do que crianças de até 14 anos.

Os dados do IBGE, divulgados no estudo Projeção de População, mostram que o país tem, hoje, uma população de 208 milhões de habitantes. E seguirá crescendo até 2047, quando deveremos chegar a 233 milhões. Porém, depois desse ano, a tendência é de queda. Em 2060, deveremos ser cerca de 228 milhões.

Outro número me chamou atenção: as pessoas consideradas dependentes – aquelas que têm menos de 15 anos e mais de 65 – representam, atualmente, 44% da população; em 2060, serão 67,2%. Na prática, 32,8% da população será responsável por cuidar dos outros 67,2%. 

Esses números mostram para aqueles que ainda estão em fase produtiva – ou seja, pessoas que ainda estão trabalhando -, que olhar para o futuro e se preparar para ele é fundamental.

A primeira grande questão é: se o número de dependentes (crianças e velhos) será maior que aquelas que cuidam, que podem amparar, auxiliar, apoiar, levar pro médico etc etc, os dependentes vão representar um grande peso para a população adulta. Não vai ser fácil. Teremos menos gente com condições de cuidar do que gente precisando ser cuidada.

Outra questão – e que está relacionada com a primeira -, teremos bem menos contribuintes da Previdência. Logo, pensar estratégias para a aposentadoria futura é fundamental. Não vai dar pra contar com o Estado provedor e nem com familiares, pois estarão sobrecarregados. Ter uma boa aposentadoria será garantia de qualidade de vida e até mesmo de amparo – ainda que por instituições especializadas no cuidado de idosos.

E terceiro ponto, idosos precisam de um sistema de saúde especializado, eficiente. Mais velhos significa mais demandas na saúde. Se hoje o sistema público já é falho, imagina só com mais demandas. Isso indica a necessidade de ter bons planos de saúde, que também deverão ficar cada vez mais caros. Ou seja, na prática, os velhos pobres estarão condenados – caso nada comece a ser feito agora.

Percebe por que as eleições presidenciais se tornam cada vez mais estratégicas para o país? O futuro é incerto, amigos.