Quando se confunde o Estado com a igreja

igrejaQue homem tem direito de interferir na escolha de outro homem? O Estado tem o direito de proibir uma pessoa de fazer algo que não prejudica a ninguém?

Vamos ao ponto: o Estado tem o direito de me proibir de me casar, no papel, com outra pessoa do mesmo sexo? Essa união não deveria ser um problema meu?

Sou hétero. E nenhum pouco interessado em relações homossexuais. Mais que isso, tenho uma história religiosa cristã. No entanto, para mim, as coisas são muito claras: as pessoas escolhem o que querem viver. Só existe uma lei: liberdade com responsabilidade. Somos livres para agir dentro dos limites da responsabilidade. Se minha ação não afeta a coletividade, não deveria ser regulada pelo Estado. O Estado tem o dever de preservar o equilíbrio entre as relações, o respeito. O Estado tem a obrigação de proteger, não de coibir ou interferir na vida privada.

Como cidadão, fico constrangido ao notar que a sociedade ainda media suas leis com base nas crenças religiosas. Acho que o próprio Deus se sentiria constrangido. Ele, que deixou-nos a liberdade como princípio norteador da existência, não me parece que aprovaria muitos dos debates que hoje a sociedade faz. A prática religiosa e o respeito às leis divinas são uma escolha do próprio homem. Um ato de fé e amor. Entretanto, não é porque acredito em algo que isso serve de regra de vida para o outro. Posso até tentar convencê-lo dos meus valores, mas não posso obrigá-lo a viver como eu vivo.

Portanto, se a pessoa quer casar com alguém do mesmo sexo, esse não é um problema meu. Mesmo do ponto de vista religioso cristão, trata-se de uma escolha da pessoa. E, segundo a Bíblia, cada um prestará contas de seus atos a Deus. Então por que o Estado tem que proibir?

Ou, como quer a  Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados, por que fazer um plebiscito para tratar disso?

É ridículo.

A CDHM também se presta a ações injustas. Um projeto de lei, prevendo que companheiros homossexuais de funcionários públicos e beneficiários do INSS fossem considerados dependentes destes, foi rejeitado. O texto garantiria, por exemplo, que recebessem pensão.

Como disse, as motivações que resultam nessas ações políticas são quase sempre baseadas em valores religiosos. Marco Feliciano e cia confundem Estado com igreja, confundem a individualidade com o que pensam sobre salvação (céu). Lamentável!

Por que o outro não pode ser diferente?

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Deveríamos nos dedicar em promover a paz, a igualdade na diversidade

Não entendo a intolerância. A resistência ao outro. Não compreendo o prazer em humilhar o diferente. Enquanto navegava na rede, encontrei uma notícia sobre homossexuais agredidos por jovens russos. Os atos foram publicados na internet. Os rapazes gays foram, inclusive, obrigados a beber urina. Tudo filmado e colocado na rede.

Claro, houve reação em vários lugares aos atos de humilhação. Muita gente pede punição aos agressores.

Crimes como esses – e outros tantos cometidos contra homossexuais, prostitutas, negros, mendigos etc – não podem ficar impunes. A pena contribui para conter um pouco os impulsos criminosos. Evita a manutenção daquela sensação de que “pode fazer, porque nada vai acontecer”.

Mas o que me incomoda é a motivação. A punição não elimina o desejo de fazer mal.

Por que o outro não pode ser diferente de mim? Por que não posso aceitá-lo? Se não consigo amá-lo, por que não dou conta de pelo menos respeitá-lo? Por que preciso fazê-lo sofrer por não ser o que eu entendo como normal?

Na história da humanidade, esse tipo de comportamento sempre existiu. A nossa natureza má que se materializa em ações contra o outro. Quem é diferente nada fez contra a sociedade, mas o fato de ser diferente, parece uma afronta. Por isso, há o desejo de atacá-lo, até eliminá-lo.

Nessas horas, dá vergonha de ser gente.

Não é raro ouvir em rodinhas de amigos um e outro ridicularizando um colega de trabalho gay. A garota que é lésbica. O menino que fala errado. Se a piada já é um ato de pura maldade, torna-se incompreensível quando existe ódio. E o ódio transparece em ações como desses jovens russos. Também é declarado nos assassinatos de homossexuais que acontecem todos os dias no Brasil.

Eu não entendo isso. Não entendo o prazer em humilhar, o prazer em agredir, a vontade de extirpar. As vítimas são pessoas. Gente como a gente. Talvez não se encaixem no padrão da maioria. Mas e daí? Qual o problema?

Se me incomoda, se não combina com minhas crenças… preciso “convertê-lo”, mudá-lo, fazê-lo sofrer, eliminá-lo?

Cá com meus botões, resumo isso tudo como insegurança, medo, medo do diferente, intolerância, ausência de amor. Essas pessoas se colocam no lugar de um Deus, se acham justas e superiores a ponto de estarem revestidas do direito de “limpar” a Terra. Limpar do quê? Deveriam lutar por mais respeito, dignidade, aceitação, igualdade na diversidade.

Silas Malafaia e os homossexuais: ele tem direito de falar o que pensa?

Bom seria se as pessoas  aceitassem que a vida pode ser simples
Bom seria se as pessoas aceitassem que a vida pode ser simples

Ele é um chato. Um chato típico. Enquadra-se perfeitamente no perfil que retratei no blog. Muitas vezes, fala bobagem. Há muito, deixou de ser essencialmente um pastor. Virou celebridade. Mas ainda assim, ele tem direito de dizer o que pensa.

No país do “politicamente correto”, tem gente pedindo a cassação do registro de psicólogo de Silas Malafaia. Até uma campanha foi criada na internet. Tudo por que o líder da Igreja Assembléia de Deus diz que pode “reorientar” homossexuais e ajudá-los a se tornarem heterossexuais.

A briga do pastor com os gays é antiga. Malafaia é tido como homofóbico.

Cá com meus botões, não gosto do enfrentamento feito pelo pastor. Acho que ele só produz espetáculo. A postura de Malafaia não ajuda os evangélicos (cria ainda mais preconceito), não esclarece o público cristão sobre as questões de gênero e muito menos aproxima homossexuais da fé cristã.

Entretanto, por mais questionáveis que sejam as atitudes desse líder religioso, ninguém pode negar a ele o direito de dizer o que pensa. Um dos princípios democráticos é a liberdade de expressão. Por mais agressivo que seja, Malafaia não incita à violência. Sua agressividade é verbal. É focada no comportamento e na religião. Ele defende seus princípios e crenças. Faz isso, na minha opinião, de maneira torta, até discriminatória. Entretanto, tem direito de expressar-se. Como tem o dever de responder judicialmente caso extrapole os limites do respeito ao outro.

Homossexualidade, intolerância e mortes

Eu não entendo a intolerância. Não aceito a ausência de humanidade, de respeito ao outro, ao desejo do outro. Como pode existir gente (sim, dizem ser gente) que mata pelo simples fato de o outro ser diferente? E diferente no quê? No desejo. Desejo por alguém do mesmo sexo. Não dá para compreender a motivação dessas pessoas que sentem necessidade de eliminar outro ser humano por discordar de sua orientação sexual.

Fiquei assustado na última sexta-feira quando vi a estatística. Talvez não reproduza números exatos. Mas, segundo a ONG GGB (Grupo Gay da Bahia), foram 165 mortes de homossexuais neste ano só no primeiro semestre – janeiro a junho de 2012. Isso representa mais de 27 mortes por mês. Quase uma por dia. E, detalhe, na comparação com o ano passado, um acréscimo de 28% nesse tipo de crime.

Nada justifica. E não é um crime como outro qualquer. Assemelha-se sim com assassinatos de negros, judeus e outras etnias. Mas, do ponto de vista penal, não dá para punir como se pune um homicídio ocorrido numa briga de bar. Nem dá pra comparar com aquele que acontece na tensão de um assalto.

Quem mata homossexuais parece inseguro da própria sexualidade. Afinal, o que motiva tal crime? Qual a razão? Será que essas pessoas acham que eliminar o diferente vai “purificar” a sociedade? Eles são sujos? São indignos? Esses criminosos acreditam que quem tem desejo pelo mesmo sexo é passivo de morte? Que tipo de prazer mórbido é este que se dá na morte de um homossexual?

Não, o problema não está em quem é homossexual. Está naquele que não consegue tolerar o diferente. Ninguém precisa gostar de ninguém. Precisa, porém, respeitar. É a orientação sexual do outro. Pronto. Nada mais que isso. É a vida do outro. Não é a minha. Não é a sua.

Mas… seria medo? Medo do quê? Sabe, o homossexual é como eu. A diferença está apenas no desejo. Eu desejo o sexo oposto; ele, não. E se um gay gostar de mim? Simples. Da mesma forma que posso dizer “não” a uma mulher por quem não esteja apaixonado, digo “não” para outro homem. Simples assim. E se ele me perseguir? Bom, quem garante que uma mulher também não seria capaz disso?

Mesmo uma sociedade, que tentasse sustentar seus argumentos contra os homossexuais sob o ponto de vista religioso, não teria como justificar bani-los de seu convívio. Os escritos bíblicos apresentam o desejo por pessoas do mesmo sexo como pecado, mas Cristo em nenhum momento foi intolerante com pecadores. Logo, nem usando a Bíblia alguém poderia rejeitá-los.

Dias atrás, disse aqui que muitas vezes as pessoas escolhem não gostar de nós. Rejeitam sem conhecer. Tenho a impressão que, no caso de homossexuais, negros, judeus etc, também é uma escolha. Essas pessoas escolheram rejeitar. Sentem prazer nisso. Prefiram bloquear suas mentes a tolerar o diferente. Um diferente que nem é diferente de si, apenas tem um desejo que não se assemelha ao que se convencionou como o certo. Gente assim se faz pequeno e mostra o quanto a humanidade, por vezes, é mais ignorante que os próprios animais.

Racismo, preconceito e o politicamente correto

Tenho acompanhado a uma certa distância esses casos de racismo envolvendo jogadores que estão na Europa. O último caso badalado teve como protagonista o atacante Neymar. No jogo contra a Escócia, ele “ganhou” uma banana. Seria uma forma de chamá-lo de macaco.

Embora o fato esteja sendo questionado – se houve ou não uma atitude racista contra o atleta -, vejo essas manifestações com muita preocupação.

Por um lado, acho que há um exagero. Tudo agora é racismo, preconceito… Esta semana, por exemplo, enquanto explicava um assunto mandei um:

– “Então o neguinho acha que…”

Não estava falando de nenhum negro. Foi só uma forma de expressão. Poderia ser substituído por outro termo. Algo do tipo: “o sujeito”, “o camarada” etc etc.

Ao terminar a frase, notei alguns alunos trocando olhares como se estivessem dizendo: “o professor tem preconceito” ou “ele não gosta de negros”. Afinal, sou branco, classe média… Fica fácil dizer que minha atitude foi discriminatória.

Nessas horas é que entendo existir exagero. Tudo tem que ser politicamente correto. Por isso mesmo, andaram querendo até banir livros do Monteiro Lobato. Loucura!

Mas, retomando… Essas manifestações de racismo me preocupam. Muita coisa tem melhorado, é verdade. Principalmente porque as leis são cada vez mais severas. Então, se o sujeito é racista, precisa calar-se. Do contrário, pode ter problemas. Contudo, noto que, a busca por estabelecer o respeito e a igualdade, tem levado alguns a ter ainda mais ódio pelos negros, homossexuais e outras minorias. É como se tal luta ferisse essas pessoas, levando-as a reagir com mais violência.

Cá com meus botões fico pensando se isso não poderá criar uma sociedade ainda mais dividida. Afinal, a harmonia, o afeto, a amizade não nascem por meio de leis. Essas são necessárias para proteger as minorias. Mas não criam um sentimento de respeito. Em alguns lugares (Europa, por exemplo), o que temos observado é uma separação e rivalidade ainda maiores. O que é lamentável.