Pessoas boas estão condenadas à ruína

Às vezes a gente se depara com ideias ou mesmo premissas que incomodam profundamente. E incomodam, porque contrariam tudo aquilo que defendemos ou entendemos ser o certo.

Ainda ontem li uma citação de Nicolau Maquiavel que me machucou bastante. Diz:

O homem que tenta ser bom o tempo todo está fadado à ruína entre os inúmeros outros que não são bons.

Evidente que não sou perfeito. Nem reúno as qualidades que gostaria de ter. Mas uma de minhas lutas interiores é por ser uma pessoa boa. E por bom entendo a integridade, a honestidade, a sensatez, fidelidade, lealdade, a compreensão, o respeito à diversidade…

Entretanto, o desejo de ser bom parece não encontrar apoio no mundo em que vivemos. Semelhante ao lamento do rei Davi, que dizia não entender a prosperidade dos homens maus enquanto as pessoas boas sofriam, o mundo não premia quem busca ser correto, uma vida virtuosa.

Na verdade, fazer o certo agora parece ser errado; e o errado, o certo.

A recomendação de Maquiavel vai justamente nesta direção: quem deseja ter sucesso, ser próspero e respeitado pelo mundo, não pode ser bom. Num mundo em que as pessoas não são boas, quem é bom vai à ruína, segundo o filósofo.

Cá com meus botões, embora entenda que Maquiavel tem razão, ainda prefiro acreditar que vale a pena ter uma conduta digna, mesmo que a sociedade não garanta recompensas às boas pessoas.

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Ser honesto consigo mesmo

A honestidade é uma das qualidades mais apreciáveis numa pessoa. E não é fácil encontrar gente honesta – principalmente na política.

O Brasil vive uma séria crise de honestidade. Os homens públicos não são confiáveis.

É fato que a escassez de gente honesta não é um problema apenas da vida pública. Faltam homens e mulheres honestos em todos os ambientes. Às vezes, até na casa da gente.

Mas sabe de uma coisa? Às vezes, a honestidade é algo que falta em nós na relação que temos com nós mesmos.

Não são raras as ocasiões em que mentimos pra nós mesmos. Vivemos uma vida fingida sem encarar nossas fraquezas ou preferimos não olhar para as nossas imperfeições de caráter.

O relacionamento fracassa? A culpa é do outro. Perdemos o emprego? O problema foi o chefe que não conseguia ver nosso valor. Tiramos uma nota ruim? É o professor que nos persegue.

Ser honesto consigo mesmo é olhar pra si e ser capaz de avaliar qual foi a sua responsabilidade no fracasso, na perda, no desempenho ruim.

Parece que gostamos dos espelhos para nos embelezar, maquiar nossa aparência, construirmos uma versão melhor de nós mesmos. Não queremos espelhos para olharmos quem somos de fato.

Entretanto, a honestidade consigo mesmo é talvez o primeiro grande passo para nos tornarmos pessoas melhores, profissionais melhores, cônjuges melhores, pais e filhos melhores.

Golpe do bilhete premiado

golpe

Quem cai no golpe do bilhete premiado? Eu me surpreendo sempre quando vejo o noticiário e descubro os perfis das vítimas. É impressionante! Tem gente simples, mas tem gente supostamente esclarecida. E o que leva a pessoa a ser seduzida? Primeiro, a habilidade dos criminosos; segundo, a ganância.

Soube do caso de uma professora. Ela perdeu R$ 100 mil. E os golpistas não levaram mais, porque não quiseram. A vítima sacou o dinheiro, que era de uma casa que havia vendido, e só não deu outros R$ 100 mil porque os bandidos não esperaram pela grana.

É curioso ouvir o relato dos funcionários do banco. Eles a questionaram sobre o motivo do saque. Ela respondeu que aplicaria na compra de um sítio. Como estranharam o comportamento da cliente, insistiram que negócios não podem ser feitos de última hora, que poderia estar sofrendo um golpe. A professora sustentou que era esperta e ninguém ia passá-la para trás. As lágrimas de desespero, enquanto registrava a ocorrência na delegacia, demonstram que nem sempre dá para ser auto-confiante.

Sabe, eu nunca acreditei em dinheiro fácil. Nem apostas eu faço. Conheço gente que vez ou outra embarca em “novidades”, aquelas parecidas com pirâmides, e até faturam seus trocados. Existem inclusive alguns produtos que são vendidos dessa forma: você ganha pelo simples fato de alguém, que foi seu cliente, estar vendendo o tal objeto. Porém, pra mim, não dá. Talvez eu seja conservador demais, ou seguro demais.

Acho, porém, que a ganância tem norteado as escolhas de muita gente. O golpe do bilhete só seduz porque a pessoa vê ali uma oportunidade de ganhar dinheiro fácil. Pior, há uma motivação que vai para além da ganância. Enquanto o golpe se desenvolve, a vítima acredita que está se dando bem, que vai se dar bem cima do outro “tolo”. Ou seja, há um desejo desonesto. O estímulo, que faz funcionar o golpe, nasce da ganância combinada com certo “mau-caratismo”; não tem nada a ver com “vou ajudar o outro comprando o bilhete”.

Ou seja, se nossas motivações fossem virtuosas, éticas, o golpe nunca se efetivaria.

Mais que apenas uma outra briga

A sinceridade é uma das bases do relacionamento
A sinceridade é uma das bases do relacionamento

Uma briguinha à toa nem sempre é só isso: uma briguinha. Por vezes, refletem problemas silenciados que estão ali, acumulados. São coisas que foram guardadas, porque, naquele outro momento, não pareceram tão importantes. Ou simplesmente a gente achou que o melhor era calar.

Relacionamentos são complexos. Nem tudo acontece como a gente gostaria. Num momento você deixa de falar algo; noutro, descobre que aquilo se juntou a outras pequenas questões. Agora, está sendo consumido por todas elas.

A briga pela xícara favorita que ele quebrou te faz lembrar até da noite de casamento e do vestido que usou apenas porque foi a mãe dele que escolheu e você não quis contrariá-la. Mas você nunca disse para a sogra que não gostou. Muito menos para ele. Achou que não valia a pena. Porém, agora está aí… envolvida pelas lembranças. E profundamente magoada.

A reação é natural. Acontece sempre que a pessoa silenciou suas vontades, mas não conseguiu sublimar suas escolhas.

Os relacionamentos têm uma dinâmica própria. Por vezes, surpreendente. E incontrolável. Por isso mesmo, motivam todo tipo de problema.

Para quem é jovem, ainda pouco experiente, algumas coisas parecem não fazer sentido. No entanto, o tempo revela que atitudes “inocentes” resultam em distanciamento, tristeza e até vontade de desistir. E o outro se torna culpado de tudo aquilo que a gente, na verdade, não soube administrar.

Talvez durante muito tempo você sonhou com uma carreira de sucesso, especialização no exterior… Mas aí conheceu o “amor de sua vida”. Para estar com ele, abriu mão de tudo. Quando foram se casar, sentindo vergonha dos próprios pais, de seus hábitos, deixou que a família dele escolhesse quase tudo – o modelo do convite, os docinhos, o cardápio do jantar. Teve também a casa, a mobília do apartamento – até o porta-retratos com a foto do casal foi a irmã dele quem te deu (você acharia mais bonito um modelo de madeira, mas ela trouxe um de prata, lindo, perfeito… mas que não tem nada a ver com você).

Você preferia ter filhos depois de dez anos de relacionamento. Mas ele sonhava tanto ser pai que você resolveu dar esse presente a ele: uma criança menos de três anos depois de estarem juntos.

Agora, quando ele quebrou a xícara e apenas disse:

– Desculpa. Eu compro outra pra você.

Você lembra de tudo isso. Sente raiva dele. Recorda até daquele ex-namorado que dias antes do casamento te ligou e perguntou se estava tudo bem. Questiona-se: será que ele não queria tentar de novo? E chega a pensar:

– Podia ter perguntado o que ele desejava. Quem sabe, ter dado uma chance.

Sabe, certas coisas a gente não silencia. Não se trata de despejar tudo. Porém, é preciso garantir que as nossas emoções estejam equilibradas. Quando a xícara quebra e você lembra de tudo, não adianta simplesmente dizer:

– Está tudo bem, amor. Está desculpado.

Provavelmente, ele vai sorrir, te dar um beijo. Quem sabe, dizer “eu te amo”… Mas suas frustrações seguirão aí, corroendo.

E quer saber de uma coisa? Ele não tem culpa de nada que você está sentindo. Talvez ele nem saiba. Afinal, você nunca contou pra ele.

Contou pra ele que não gostou daquele vestido?
Contou pra ele que preferia outro porta-retrato?
Contou pra ele que se sentiria melhor num apartamento menor?
Contou pra ele que optaria por móveis mais baratos, mas que fossem escolhidos por vocês e não pela mãe dele?
Contou que ficaria mais feliz se tivessem passado o fim de semana em casa que ter ido naquele jantar na casa da sua cunhada com gente que não combina com você?

São coisas aparentemente pequenas, mas que vão se acumulando. Quando “a xícara quebra”, perde-se o controle. Tudo vem à tona. E já não há como juntar mais os pedaços de uma história de amor que teve seu fim decretado quando ainda sonhavam que seriam felizes por toda a vida.

Moradores de rua devolvem dinheiro e viram notícia: quando ser honesto se torna a exceção

Acho que muita gente viu a notícia do casal de andarilhos que achou R$ 20 mil e devolveu. Bom, é provável que você leu, assistiu… Sei lá. A informação está na rede. E o casal, na televisão.

Falei sobre isso na CBN tão logo vi a notícia. Usei-a no comentário com o Gilson nesta terça-feira. Papo leve, agradável e muito elogiado pelos ouvintes. Tudo muito bom.

Mas o que pouca gente percebe é o lado ruim da notícia. Sim, tem um lado ruim. Sabe por quê? Porque o fato não deveria ser destaque na mídia.

É verdade. Esse tipo de coisa chama a atenção, recebe nossos aplausos… A gente diz: “oh, que casal honesto. Que belo exemplo”. Porém, nada disso deveria ser incomum.

O fato desperta o interesse porque não somos honestos. É isso que esta notícia revela. O incomum mostra o que é comum: o normal seria não devolver o dinheiro. E tenho vergonha disso. Não deveria ser assim. Não deveríamos ter no noticiário esse tipo de informação. Deveríamos nos assustar quando o dinheiro some, quando verba é roubada, desviada e não aparece. Infelizmente, o crime, a desonestidade, a falta de ética, o “jeitinho” viraram regra. O ser honesto é a exceção.