O noticiário que faz mal

Distanciar-se do noticiário a fim de manter certa sanidade mental pode ser a escolha de algumas pessoas. Eu, por vezes, faço isso. Mesmo sendo jornalista, sendo professor de jornalismo, admito que, em vários momentos, procuro não acompanhar tudo que é noticiado. E isso não tem nada a ver com a qualidade do conteúdo informativo; tem a ver com minha busca pessoal por não me irritar com determinadas notícias, evitar perder a esperança no país e, principalmente, minha fé nas pessoas.

Esse tipo de atitude não representa alienação. Também não significa ignorar os acontecimentos. Muito menos se trata de um desconhecimento do que está acontecendo. Trata-se apenas de uma escolha para não alimentar sentimentos negativos que podem fazer mal.

Quando a gente acompanha o noticiário, é possível ver repetidas vezes o mesmo assunto. E abordado de diferentes maneiras, com inúmeros comentários e repercussões do fato.

É como um pênalti não marcado pelo juiz num jogo de futebol. Você viu o que aconteceu… Ouviu a versão do juiz e dos jogadores. Mas o jogo já acabou.

O que você pode fazer? Ver e rever o lance por horas, ouvir diferentes comentaristas especularem sobre o que ocorreu e até começar a semana discutindo o assunto com os amigos – inclusive no grupo do whatsapp. Ou pode simplesmente ir fazer outra coisa, ignorar os programas esportivos, silenciar os comentários que são publicados nas redes sociais. Enfim, seguir a vida.

De certa maneira, todo fato impactante produz efeito semelhante: ele é repercutido por horas, dias… Narrado de inúmeras maneiras. E, dependendo do acontecimento, pode fazer com que a gente fique pensando naquilo, se aborrecendo, se entristecendo e até brigando com pessoas em função de algo que a pessoa disse, ou de como reagiu.

Com frequência, as pessoas são passionais. Tomam partido. As redes sociais, em função da lógica dos algoritmos, potencializou a repetição de temas e versões que se assemelham; por outro lado, promoveu o silenciamento da diversidade. Isso faz com que o consumo de informação, ao invés de esclarecer, cegue as pessoas.

Por isso, certo distanciamento é produtivo: mantém a sanidade mental e a isenção para um julgamento mais equilibrado do que ocorre no cotidiano. Torna-se possível pautar nossa vida sem a lente do exagero, da repetição enganosa e das inúmeras versões que, na prática, são apenas isso: versões.

O blogueiro/youtuber é quem sabe tudo?

Nestes dias, retomei o estudo da obra de Darcy Ribeiro. O antropólogo, escritor e político brasileiro foi um dos maiores pesquisadores da identidade de nossa gente. Educador, homem comprometido com o ensino e responsável por reformas universitárias em vários países da América, Darcy Ribeiro deixou-nos vários livros que deveriam ser leitura obrigatória.

Ontem, enquanto relia alguns dos argumentos de Darcy Ribeiro, pensava em como estudos com tamanha profundidade são, hoje, descartados facilmente e desconstruídos com base em meia dúzia de frases de qualquer blogueiro ou youtuber que está alinhado a algum movimento político.

Por exemplo, se, para embasar alguns argumentos, eu retomasse as discussões feitas pelo antropólogo, certamente apareceria alguém para desqualificar Darcy Ribeiro.

Lamentavelmente, esse movimento tem sido recorrente. Especialistas e pesquisas respeitáveis, credibilidades têm sido colocadas em xeque por gente ignorante, que despreza o saber e desqualifica o conhecimento produzido em estudos sérios, profundos.

Um dos maiores educadores brasileiros, Paulo Freire, tem sido visto como nefasto para a educação do país. E a ignorância é tanta que essa gente sequer sabe que, infelizmente, a escola brasileira tem quase nada de Paulo Freire – se tivesse, talvez seria muito melhor.

Eu confesso que ando assustado com esse movimento: para rebater um argumento, pesquisadores são desqualificados. E o movimento se estende também ao universo informativo proposto pela imprensa profissional.

Se é publicada uma reportagem contundente, uma denúncia, por exemplo, e essa informação incomoda algum grupo político, rapidamente aparecem blogueiros, youtubers desqualificando o veículo de comunicação e até o jornalista.

Há uma indisposição para ouvir o contraditório – ainda que apresentado por uma pessoa séria, que passou anos se dedicando à pesquisa ou que tem um currículo invejável.

Durante a campanha eleitoral deste ano, vi isso várias vezes. Você pega duas ou três análises econômicas, feitas por doutores em economia, em gestão pública, manda pra uma pessoa e ela rebate tudo aquilo que está ali tomando como referência um argumento tosco usado por alguma figura que está na internet, às vezes, simpatizando de político ou ideologia política.

Isso é simplesmente assustador. E é assustador porque perpetua a ignorância, o desconhecimento… Porque há uma valorização do senso comum, do argumento raso, do mito em lugar da ciência.

E isso só confirma o que Darcy Ribeiro já dizia há quase 50 anos… No Brasil, parece haver certo conforto na ignorância.

A TV que a gente não deveria ver

televisao

Um dos temas mais controversos envolvendo a mídia é o que trata da regulamentação dos veículos de comunicação. Confusão comum é entendê-la como censura. Ou seja, um mecanismo que limite a liberdade das emissoras de rádio e televisão, principalmente.

A questão sempre volta à tona quando gente, como o governador do Rio Grande do Sul Tarso Genro, cita aspectos da Constituição Brasileira e faz questionamentos do tipo:

Se esses artigos fossem aplicados de maneira séria, provavelmente mais de 80% dos programas que estão nas rádios e principalmente nas televisões teriam de sair do ar.

Cá com meus botões, não entendo que uma regulamentação seja necessariamente censura. Ela pode conter elementos que permitam a censura (e isso sim é preciso evitar). Mas não significa que a regulação da mídia impeça a liberdade de imprensa ou de expressão.

E Tarso Genro tem razão quando aponta que muita coisa poderia sair do ar.

São programas que ou transformam a mercadoria em notícia ideologizada ou promovem a violência, o sexismo e a discriminação.

O princípio de que o público deve escolher o que assistir/ouvir é muito bonito na teoria. Na prática, funciona pouco. Infelizmente, por falhas na educação, as pessoas não sabem selecionar. E embora tenham o controle nas mãos, optam pelo lixo. Como consequência, a programação piora cada vez mais.

Acho normal que televisão e rádio ofereçam diversão ao público. Mas qual a qualidade da diversão? Violência e sexo norteiam boa parte dos produtos midiáticos. E as notícias raramente contribuem para a formação da opinião pública (pelo contrário, distorcem a visão dos fatos). A gente assiste/ouve e fica com uma pergunta: “e daí?”. As notícias geralmente mostram um problema, mas raramente abrem possibilidades de reflexão sobre o assunto – e nunca apontam soluções. Na verdade, a notícia só publiciza o drama, mas não transforma, não provoca mudanças.

E existem outros problemas. Veja o caso dos domingos na TV aberta. À tarde, não há opções. Só existem programas de auditório. Escolher entre um e outro apresentador não é garantir diversidade. Oferecer opções é ter num canal programa de auditório; noutro, filme; no terceiro, talk-show; no quarto, programação infantil… E isso não existe no país. Quando num canal tem telejornal, nos demais quase sempre encontramos algo parecido. Se passa novela na Globo, passa na Record.

As temáticas abordadas por vários programas desrespeitam o público. “Vende-se” o sexo fácil, o desrespeito nos relacionamentos, a infidelidade, o desapego, o egoísmo… Associa-se felicidade ao consumo. Os modelos de beleza midiático atropelam a realidade e apresentam um ideal de corpo inatingível – como consequência, milhares de mulheres vivem frustradas e não gostam do que vêem no espelho. Crianças aprendem desde cedo que comprar é o que abre a porta do prazer; e muito novas são despertadas para o sexo, tornam-se vaidosas e, as meninas principalmente, adotam saltos, maquiagem e, na adolescência, já frequentam as salas de cirurgia plástica.

A regulamentação dos veículos de comunicação poderia qualificar a programação das emissoras. Embora pareça uma ação que desrespeita o direito do cidadão, entendo que somos obrigados a reconhecer que o público brasileiro ainda não dá conta de decidir por si só o que ver/ouvir. O que preocupa, porém, num quadro de regulação é quem vai julgar o conteúdo e quais serão os critérios. Afinal, deixar isso nas mãos do governo não me parece nenhum pouco recomendável. Mas este é assunto para um outro post.

A Veja e o silêncio sobre o Mensalão

Às vezes me pego pensando: ou eu sou muito chato ou tem muita gente por aí que simplesmente não consegue ver um palmo além do nariz. É impressionante. Desde ontem estou “trombando” com essa imagem divulgada no Facebook:

Tem outras variações dela. Trata-se da capa da Veja desta semana acompanhada de algumas frases de crítica à revista.

Eu, sinceramente, queria entender o que motiva as pessoas a fazerem esse tipo de coisa. Sim, eu queria entender, porque não dou conta. Acho que meu raciocínio é curto demais. Tá… tudo bem. Eu até sei a motivação de quem produz esse tipo de imagem (mas este não é o assunto deste post). O que não entendo, na verdade, é o que gente, aparentemente informada, faz ao reproduzir, compartilhar esse pseudo-conteúdo.

Desculpa aí, mas, se compartilhou, de duas uma: ou você é ignorante ou muito ingênuo. Dá uma espiadinha na capa da Veja da semana passada.

Qual é o tema principal? Mensalão.

Não é? Você acha que é o José Dirceu? Ok, digamos que é o Dirceu. Mas… o petista não era o suposto chefão do esquema?

Ok, digamos que o fato de apresentar o Dirceu na capa justifique o argumento de que a revista não tratou do Mensalão. Então, diga-me, e essa capa aqui?

Ao que parece, é sobre o Mensalão. Estou certo? E, diga-se de passagem, foi publicada em 18 de abril deste ano.

Convenhamos, caríssimos, não dá pra criticar a Veja por não dar capa ao Mensalão nesta semana. Não mesmo. A revista não manchetou na edição atual, mas o fez na semana anterior. E 15 dias atrás, também tinha reportagem sobre o assunto. Basta dar uma espiada na revista.

Sabe, eu não estou aqui pra defender a Veja. Não mesmo. Estou aqui em defesa da razão, da análise isenta, distanciada, da ruptura com o estado de ignorância. Sou crítico da revista desde meus tempos de faculdade. Foi tema de minha monografia, foi estudo de pós-graduaçao… Eu sei bem que interesses são defendidos pela revista. Por isso mesmo, posso garantir que, se há algo a criticar, talvez seja o posicionamento, por vezes, exagerado da Veja na cobertura do Mensalão. Desde o início do escândalo, a revista nunca poupou o PT e o Governo Lula. Nunca deu o direito da dúvida. Pelo contrário, pode-se até especular que julgou e condenou os envolvidos muito antes da justiça. Por isso, chegou a ser acusada por petistas e simpatizantes como um veículo que estaria a serviço da oposição.

Então, diga-me: se estaria a serviço da tucanada, por que a Veja, justamente agora, ocultaria o julgamento do Mensalão?

Caríssimos, o que a revista fez foi antecipar-se. Estrategicamente. Antes das demais publicações semanais, pautou o tema na capa e, por isso mesmo, muita gente – principalmente a oposição – tem circulado com a edição da semana passada nas mãos para atacar petistas e aliados (vi isso inclusive na Câmara de Maringá).

E aí alguém pode espernear:

– Ah… mas e a capa da vingança? Onde já se viu falar de Carminha e Nina na capa de uma revista tida como séria?

Eu devolvo: se até no Senado, Cachoeira e a mulher são comparados, por Kátia Abreu, aos vilões de Avenida Brasil, por que a Veja não pode estampar a novela na capa?

Peraí, né? Este é o assunto do momento. Julgamento do Mensalão é tema jurídico e político. Importante sim. Mas quem pauta a imprensa também é o público. A imprensa é o termômetro da vontade popular. E os recordes de audiência da novela são fatos sociais. Só um tolo ignoraria que o Brasil tem parado pra ver Carminha, Nina e cia ltda.

Acho que a crítica é válida (e é necessária), mas não pode ser feita de forma vazia. Falar da capa desta semana como se a revista estivesse silenciando o assunto é raso demais, é ignorar o todo, esquecer o contexto. Sugiro pra essas pessoas darem uma espiada na página especial que a revista lançou no site com todo o histórico de sua cobertura a respeito do tema. Vale observar, por exemplo, alguns “exageros” da Veja, inclusive a sugestiva capa reclamando o impeachment de Lula.

O que a Xuxa não disse

O Brasil amanheceu comovido nesta segunda-feira. O depoimento de Xuxa ao Fantástico deu ao programa recorde de audiência e sensibilizou muita gente. Em qualquer página da web, encontramos algum tipo comentário sobre a entrevista. Claro, o assunto que mais tocou o público foi o fato de a apresentadora global ter sido vítima de abuso sexual na infância e na adolescência.

Semelhante a todos que gostam de Xuxa, ou têm o mínimo de humanidade, também fiquei triste pelo drama vivido pela ex-modelo. A violência sofrida, como ela admite, está gravada na memória e ainda a influência, atingindo principalmente sua autoestima.

Entretanto, não vou discutir o depoimento corajoso de Xuxa. Vou na contramão, como tenho me proposto a fazer por aqui.

Ressalto que, o que ela fez em rede nacional, foi um ato digno. Nunca precisaria se expor. Mas fez isso pelas causas que defende, pelo que acredita. E só isso já seria suficiente para aplaudi-la.

Xuxa não disse o que disse para aparecer. Talvez tenha sido um tanto ingênua (diria que foi), mas foi movida pelas coisas em que acredita.

Porém, entre a entrevista concedida e o que a apresentadora pretendia, penso, há uma grande distância. Basta olhar a repercussão.

Alguém viu alguma discussão sobre os problemas reais apontados por Xuxa?

Vamos relembrar:
– Quando criança e adolescente, Xuxa foi vítima de abuso sexual, e mais de uma vez;
– Os criminosos eram conhecidos da família;
– Ela não teve coragem de contar para os pais;
– Os pais não notaram o que estava acontecendo.

O que aconteceu com Xuxa há quase 40 anos é o mesmo que acontece todos os dias, silenciosamente, com centenas de crianças e adolescentes. Parece até haver um script. Criminosos e vítimas repetem esse lamentável roteiro: crime, intimidação, medo, silêncio e impunidade.

Por medo, Xuxa não denunciou. Por medo, crianças e adolescentes não denunciam. E o que acontece? Nada. O que o depoimento da apresentadora trouxe de novo? Apenas a admissão de que as vítimas são indefesas e, geralmente, nem os próprios pais acreditam nelas.

Ontem, no Fantástico, hoje, nas redes sociais, blogs e na imprensa, ninguém discutiu e nem está discutindo como romper com a lógica cruel desse tipo de crime. Xuxa não tinha por que mostrar o caminho para mudar esse cenário. Mas o Fantástico podia fazer isso. A imprensa poderia estar fazendo isso. No entanto, o que temos? Apenas o show, o espetáculo com o passado dramático da mulher mais famosa do Brasil.

A audiência do Fantástico bombou. Quem está reproduzindo, e até fazendo piada de outros temas levantados pela Xuxa, também está aproveitando-se do que impacto do que ela disse.

E o que mais dá para ver? Gente que diz:

– Coitadinha da Xuxa.
– Que triste isso, né?
– Tá explicado por que a Xuxa nunca casou.
– Que mulher de fibra é a Xuxa.
– Que coragem a Xuxa teve de admitir…

Para além disso, o que há? Nada.

Não sei se era isso o que a Xuxa desejava ao falar ao Fantástico. Não creio que ela esperasse que seus fãs sentissem pena dela. Acho que a apresentadora sonhou que sua declaração pudesse provocar comoção, mas que a violência, o abuso sexual contra crianças e adolescentes pudessem entrar na pauta cotidiana da sociedade.

Pelo menos por enquanto, não é este o efeito da entrevista. Até o momento, a declaração serviu para emocionar, fazer chorar, fazer rir. Lamentável. Reflexo de um país onde imprensa e sociedade ainda não parecem maduras para transformar dramas em busca de respostas, em soluções para os problemas que afligem não apenas alguns indivíduos, mas milhares de pessoas.

PS- Ainda há tempo para discutir de maneira séria o assunto. Não o crime contra a Xuxa, que ficou no passado. Mas o que fazer para pôr fim ao que acontece com outras tantas vítimas anônimas, diariamente.

Millôr Fernandes: quase uma filosofia de vida

Eu não tenho muita coisa a dizer. Faço parte de uma outra geração. Por aí, sabem muito mais dele do que eu. Cada texto que encontro sobre o Millôr mostra uma pessoa ainda mais incrível – do ponto de vista humano, cidadão, profissional.

Ou seja, falar que o escritor, dramaturgo, humorista, cartunista etc etc era alguém sensacional, não vai tornar meu texto significativo nesse universo de lembranças e homenagens a esse brasileiro, motivo de orgulho para nossa gente.

Então por que também falo dele aqui?

Porque um sujeito que tenha dito uma frase como esta merece, hoje, ocupar um espaço de destaque na “estante” de todos os jornalistas que valorizam a profissão e sabem do seu papel social. Veja:

Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados

Não, não se trata de ser do contra. Não se trata de achar tudo ruim. No entanto, é preciso questionar, duvidar sempre. Devemos reconhecer o que é bem feito, mas nosso papel principal é cobrar, cobrar… Ocupamos uma posição privilegiada, pois estamos mais próximos dos fatos, dos acontecimentos. Portanto, se nos silenciarmos, qual será nosso valor?

É… Os últimos dias não estão bons. Perdemos o Chico… Agora é a vez do Millôr. Nossa geração terá ícones, referências tão ricas como eles foram para nós?

Distante do 11 de Setembro

Uma das primeiras imagens que vi naquele 11 de Setembro
O fim de semana é para falar do 11 de Setembro. Não há um único veículo de comunicação que deixará a data “passar em branco”. Todos vão fazer alguma coisa. Os chamados grandes – tvs, jornais, revistas etc – já oferecem espaços especializados para lembrar do fato histórico. Afinal, dez anos se passaram do maior atentado terrorista sofrido pelos Estados Unidos.

A data é mesmo significativa. Podemos dizer que temos os EUA antes do 11 de Setembro e um outro país depois da explosão e queda das torres gêmeas. Acabou a imagem de imbatível. Mais que isso, o orgulho americano foi ferido e o tempo ainda não cicatrizou as marcas deixadas.

Entretanto, não apenas os Estados Unidos mudaram. O mundo não é o mesmo. Diferentes nações vivem o medo do terrorismo. Embora poucos admitam, sabe-se que ninguém é realmente capaz de evitar os ataques. Sempre existirão terroristas – homens dispostos a dar a vida a uma causa sem causa. Ninguém pode prever se haverá um novo atentado. Nem quando e onde será.

Quanto ao que estamos e estaremos assistindo e lendo neste fim de semana, não sei se estou interessado. É provável que uma ou outra coisa acabe vendo. Porém, os “especiais” me cansam. Há uma exploração exagerada do fato. Encontrei há pouco uma matéria que revela bem o tom que a imprensa acaba dando a esse tipo de acontecimento. Algo do tipo:

– Brasileiro deu aula de inglês para terrorista.

Vi o título e parei nele. Impossível não perguntar: e daí? O terrorista sabia inglês, aprendeu com alguém. Podia ser qualquer um. O professor poderia ser americano, inglês, italino, japonês… A nacionalidade pouco importa. Entretanto, na lógica da imprensa, o fato de dar aula para um sujeito que era terrorista faz o brasileiro tornar-se personagem nesse fim de semana em que a data é lembrada.

Por isso, acho que vou deixar a tv desligada. Vou escolher algum filme e ocupar o tempo que sobrar com leituras. Passado o fim de semana, o fato voltará a ser silenciado… Pra voltar num outro 11 de setembro. E enquanto o silêncio permanecer, livre das emoções e das lágrimas exploradas, seleciono o que foi apresentado como realmente significativo para ler, ver ou ouvir. Afinal, conhecer é nosso melhor bem. Mas isto se faz com distanciamento. Distanciamento e controle das emoções.

A Pippa usou o mesmo vestido. E daí?

O título da matéria é este:

Pippa Middleton usa o mesmo vestido por dois dias seguidos

No primeiro, saiu para fazer compras. No segundo, foi a um jogo de tênis. Vestido vermelho, básico, bonito. Não entendo tanto assim de moda, mas me parecia bem vestida.

Agora, diga-me, qual o problema em repetir o vestido? Tudo bem, há quem diga que deve-se evitar, principalmente por tê-lo usado em dias seguidos. Até nós, que não somos celebridades midiáticas, procuramos não sair de casa dois dias seguidos com as mesmas roupas. Mas, se o fizermos, deixamos de ter bom gosto? Ou somos relaxados? Cometemos um “crime”?

Já que ontem e hoje questionei a mídia, vou fazer outra perguntinha básica:

– Por que o fato (a Pippa usar o mesmo vestido) é notícia?

Alguém pode me responder?

Ah… e por que a cunhada do príncipe é notícia mesmo?

Vamos deixar de bobagem. Temos mais o que fazer, né?