Pais ausentes formam filhos frágeis

Nas últimas semanas, muitas pessoas manifestaram suas preocupações com um jogo que circula nas redes sociais. A tal da Baleia Azul gerou inclusive um monte de memes, de piadas… E, claro, certo pânico na rede, com a divulgação de muitas informações falsas.

Algumas pessoas me perguntaram o que eu pensava a respeito jogo. Respondo: não vi o jogo, desconheço os 50 passos. Só sei que culminaria com o suicídio.

Sabe, jogos como esse não me preocupariam nenhum pouco se os pais estivessem presentes na vida de seus filhos.

Sejamos sinceros… Vamos romper com a hipocrisia: nossas crianças, nossos adolescentes estão emocionalmente frágeis. E estão frágeis, quase sempre, porque nós, pais, temos abandonado nossos filhos, não conhecemos nossos filhos.

Amamos sim, mas amamos de um jeito torto. Porque amor bom é amor prático. É amor vivido, experimentado, sentido e manifestado em atitudes.

A adolescência, principalmente, é um tempo de incertezas, de necessidade de auto-afirmação. É um período de transformação. E é um período difícil pra molecada.

A sociedade em que vivemos não é nada fácil. Essa sociedade oferece imagens estereotipadas sobre a vida, sobre o que é ser feliz, sobre o que é ser bem-sucedido, sobre como ter alegrias… Isso tudo confunde, angustia.

E essa garotada (que vive num cenário pouco favorável ao desenvolvimento da saúde mental) ainda tem que enfrentar a ausência dos pais. Não estão ausentes fisicamente, necessariamente. Às vezes até estão ali perto. Porém, sequer conhecem os amigos de seus filhos, sequer sabem o que fazem na internet.

Jogos como a Baleia Azul só preocupam porque os pais não têm sido pais, não têm sido educadores, não têm amado em atitudes.

Muitos pais dizem: “ah… mas eu falo com meus filhos”.
Fala o quê? Fala sobre o quê? Você conversa com eles ou dá sermões?

Conversar implica ouvir. Conversar é dialogar. É conhecer e se dar a conhecer.

E conversar com nossos filhos nem sempre é um ato prazeroso. Muitas vezes temos que engolir sapos. Muitas vezes o que nossos filhos falam machucam nosso coração. Mas conversar é estabelecer um diálogo no mesmo nível. Não é uma fala de cima pra baixo… Em que a gente se posiciona cheio de verdades e impõe tudo aos nossos filhos.

Quem ama não pode ser omisso. Pais de verdade monitoram os filhos sim. Monitoram o que fazem na escola, quem são seus amigos, o que fazem na internet… E também disciplinam. São firmes. Possuem regras e aplicam as regras.

Também conheço pais que acham que amar é dar tudo, é proteger. E ainda tem aqueles que possuem uma imagem distorcida de suas crianças, de seus adolescentes. Acham que são sempre incríveis, maravilhosos… Que tudo que acontece de ruim é culpa dos outros. Por conta disso, brigam com professores, com os amigos de seus filhos… Criam filhos frágeis emocionalmente.

Pais assim não preparam seus filhos para o mundo.

São esses meninos e meninas que podem ser atraídos por jogos como a Baleia Azul. São esses meninos e meninas que se mutilam, que se agridem e agridem outros…

Pais presentes, pais que vivem um amor prático podem ter filhos com crises emocionais. Mas certamente esses filhos e esses pais dificilmente serão vítimas dessas ondas assustadoras que vez ou outra circulam pela internet.

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Lugar de criança é na escola?

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É certo colocar a molecadinha para estudar desde os primeiros anos de vida? Faz bem para o desenvolvimento deles? Sinceramente, não sei. Existem defensores da educação obrigatória desde o pré-escolar e outros que defendem os seis ou sete anos como a idade ideal para colocar a criança na escola. Minha avaliação, porém, é muito mais pessoal que baseada em qualquer estudo.

No Brasil, começa a vigorar a obrigatoriedade do ensino a partir dos 4 anos. Os baixinhos têm que ir à escola. Mais que isso, devem frequentar no mínimo 60% das aulas. É lei.

Eu tenho pena deles. Acho que os primeiros anos de vida deveriam ser sob cuidado dos pais. É verdade que as mães estão fora de casa cada vez mais. Estão distantes dos filhos. E a pré-escola garante o cuidado que elas não podem ter pelos baixinhos. Entretanto, cá com meus botões, entendo que filho precisa mais dos pais que de escola nos primeiros anos de vida.

A rotina escolar também é cansativa. Por mais que sejam oferecidas brincadeiras e o ambiente proporcione socialização etc etc, ter uma agenda, horário de entrada e saída, atividades programadas e determinadas (a criança praticamente não escolhe o que faz), a instituição de ensino, por melhor e mais moderna que seja, não é nada estimulante. Acredito que mais canse a criança do que a desenvolva. Prepara para a vida acadêmica e profissional, mas não garante as experiências necessárias de uma infância livre, sem formalidades.

Talvez eu esteja errado, mas sinto que começar estudar antes dos seis ou sete anos é apenas uma maneira de encolher a infância, a fase da “irresponsabilidade”… transformando muito cedo nossas crianças em servidores do mercado e do consumo.

Maioridade penal: é preciso romper com o reducionismo

Faltam políticas públicas que contemplem a infância e a adolescência
Faltam políticas públicas que contemplem a infância e a adolescência

Repensar e rever conceitos não é vergonha alguma. É sinal de grandeza. Ou, pelo menos de disposição para mudar. E quem muda acompanha o ciclo da vida, pois o hoje nunca se repete; cada momento é único e surpreendente.

 

Digo isso porque aqui mesmo, no blog, já defendi a redução da maioridade penal. Entretanto, hoje, não entendo que o combate aos crimes envolvendo menores se resuma a tirá-los das ruas e colocá-los na cadeia.

Não vou teorizar sobre o tema. Dias atrás, a premiada jornalista e escritora Eliane Brum fez isso (recomendo a leitura, principalmente para quem defende a mudança na lei) com mais habilidade e argumentos. Muito do que ela publicou em sua coluna na Época me surpreendeu. Então, não tenho por que me aventurar nessa tarefa.

O que me incomoda é a ignorância que povoa esse debate. Procura-se até comparar o Brasil inclusive com países em que a idade penal é menor, caso dos Estados Unidos – comparação injusta, dadas as condições tão contraditórias de promoção ao ser humano entre essas nações.

O assunto tem ganhado corpo e virado arma nas mãos de quem é opositor ao governo Dilma. E, consequentemente, como a presidenta é contra a redução, vira uma questão partidária. Muita gente faz isso como se os problemas da segurança pública tivessem origem nos menores infratores.

Não, caríssimos, a gente precisa ir além das aparências. Um governo não pode ser julgado por uma única ação – ou ausência dela. É necessário romper com o reducionismo, deixar de ser simplórios e jogar no colo da presidente uma questão (reduzir a idade penal) que reclama um debate muito mais amplo.

Por exemplo, alguém aí que defende a mudança na lei pode me dizer qual o percentual de crimes cometidos pelos menores?

Seriam 50%? Quem sabe, 20%? Ou… seriam 10%?

Da população total de adolescentes apenas 0,09% cumpre alguma medida sócio-educativa. Isso significa que nem 1% dos menores comete crimes. E sabe quais os crimes mais recorrentes entre eles? Furtos. Motivo? Precisam de dinheiro para comprar drogas. E para terem acesso a alguns “privilégios” das classes mais ricas.

Essa molecada é excluída pela mesma sociedade que ignora que eles carecem mesmo é de escolas de verdade, ensino integral, atividades culturais, programas de formação para o trabalho. E, principalmente, de investimento social nas famílias desestruturadas que acabam motivando crianças e adolescentes a viverem nas ruas.

Já que a gente quer resolver as coisas de forma simplista, com uma canetada (sob a crença equivocada de que “reduz a maioridade, reduzem os crimes), por que a gente não muda o enfoque e não fala em reduzir a idade para acesso dos menores ao trabalho?

Não acreditamos na máxima de que “o trabalho dignifica o homem”?

Convenhamos, a gente precisa ir além das aparências. Deixar de reproduzir discursos prontos e entender os problemas com profundidade antes de sair acreditando na primeira bobagem compartilhada nos meios de comunicação – sejam eles os tradicionais ou no mundo digital.

Você é feia!

Ouvi a frase da boca de uma mãe. Foi dita com ênfase, após uma garotinha de, no máximo, dois anos insistir em mexer no rádio do carro. Presenciei a cena quando retornava do almoço. Fiquei incomodado. Afinal, por que rotular tão cedo uma criança? E… o que tem a ver a “arte” da menina com a aparência dela? Criança teimosa é feia? Ou é a teimosia um ato feio?

Sabe, uma das coisas que mais me entristece no processo de educação familiar são justamente essas bobagens cometidas pelos pais. Na tentativa de corrigir os filhos, eles têm reações imbecis, despropositadas, desmedidas. Não raras vezes já vi pais xingarem os filhos. E, em muitos casos, de maneira depreciativa – até do ponto de vista do caráter.

Diga-me, como vai crescer uma criança que ouve dos pais frases do tipo:

– Você não presta!
– Você é um vagabundo!
– Você não vale nada!
– Você é uma sem vergonha!

A referência que temos a respeito de nós mesmos é dada em grande medida pelo outro. E é na infância que formamos a imagem que temos do mundo, do que é certo e do que é errado… e também aprendemos quem somos. Portanto, uma mãe que diz pra filha que ela é feia, vai se desenvolver acreditando nisso. A mãe é sua primeira referência. Certamente, terá problema de autoestima. Vai ter dificuldade em se olhar no espelho e achar que é uma pessoa bonita.

Vale o mesmo para as outras frases.

Lembro de uma garota que, certa vez, foi abordada pela mãe quando provava uma calcinha. A menina tinha colocado uma dessas pequeninhas. Moralista, a mãe surtou. Xingou a filha de vagabunda, sugeriu que estava virando puta… Coisas do tipo. A garota cresceu, se tornou uma bela mulher, mas guardou o trauma. E sempre teve dificuldades para usar até uma lingerie mais ousada para o marido.

Defendo a disciplina. Acho melhor, inclusive, pecar pelo excesso (rigor) que pela falta. Penso que pais devem ser pais, não bananas. Entretanto, existe uma diferença entre disciplinar e agredir. Filhos que ouvem dos próprios pais frases como essas estão sendo agredidos emocionalmente. Vão crescer como uma imagem distorcida de si mesmos. Terão traumas e podem desenvolver traços de personalidade que se assemelham com aquilo que foi ouviram durante toda a infância e adolescência. O “não presta” de hoje, dito num momento de raiva como resposta a uma teimosia da criança (um brinquedo quebrado, às vezes), pode se transformar de fato num “não presta” na fase adulta.

Conheço gente que escutou o tempo todo “você é egoísta” e passou a agir como tal. Para se livrar do rótulo e do comportamento egoísta, teve que vencer muita coisa – superar até mesmo a imagem que tinha de si. Afinal, a pessoa chega numa fase que, quando tem uma atitude, ela mesma simplifica: “ah… eu sempre fui egoísta; minha mãe sempre disse que eu era egoísta”. E se conforma com isso.

A gente precisa entender que as palavras têm força. E, na infância, são determinantes para definir o que seremos como pessoas, como seres humanos.

Não sabemos amar como criança

Acho que ando carente de boas notícias. Hoje, fui “pego” por esta notícia:

Menina americana corta próprio cabelo para doar a amiga com câncer

Fiquei emocionado, confesso. Sei, não é nada tão extraordinário. Há centenas de outros gestos de bondade. Mas fiquei emocionado. Pronto.

A menina só tem nove anos. A amiguinha, oito. Ela foi lá, cortou os cabelos e doou pra fazer uma peruca, porque a amiga estava indo para a escola de chapéu.

A atitude dela é de amor. Sem interesse. Não está preocupada com projeção, com o que os outros vão pensar, se vai virar notícia, sair na coluna social. Nada. É só amor.

Nós, adultos – a maioria, pelo menos -, agimos por conveniência. Temos nossas motivações. Perdemos a inocência e o desapego da infância. Uma pena.

Talvez por isso seja tão singelo ver a atitude dessa garotinha. Apenas me entristeço por saber que não voltaremos aos tempos da infância. O mundo nos endureceu, já não sabemos amar como criança.