A competição por curtidas nas redes sociais revela nossa insegurança

​Quase todos nós somos competitivos. Parece ser da nossa natureza. Isso não é de todo ruim. Na verdade, os benefícios são enormes. A competitividade nos mantêm alertas, desperta a criatividade, promove o desenvolvimento. Noutras palavras, sem o espírito competitivo, Steve Jobs, da Apple, teria lançado o iPhone e os poderosos da Samsung, Motorola e outras gigantes da tecnologia nada teriam feito. A competição não apenas por mercado, mas por ser e fazer melhor que o outro resulta em soluções inovadoras, em produtos melhores. E, na vida individual, gera crescimento pessoal, investimento em formação, tentativa de melhorar os relacionamentos etc.

Entretanto, a competição que nos move também causa ansiedade, comparação, estresse e outras emoções nocivas.

No ambiente digital, diversos estudos provam que as pessoas não estão felizes, que as redes deprimem. O espaço das redes sociais, que deveria promover o relacionamento, é referenciado pelas imagens projetadas naquele ambiente. Ali quase todo mundo quer se mostrar mais feliz, mais bem sucedido, mais amado, mais descolado… E não para por aí: a quantidade de curtidas, comentários, compartilhamento funciona como medidas do sucesso nas redes.

Se você publica uma selfie e recebe 20 curtidas e uma amiga, 200, a sensação é de total fracasso. Até de rejeição.

Justamente por isso, numa tentativa de prestigiar as relações e não a competição, o Instagram começou a ocultar o número de curtidas.

Vai resolver o problema? Evidentemente, não. O que gera esse tipo de comparação nociva são nossas inseguranças. O fato de termos coisas mal resolvidas dentro de nós, nossas carências, desejo de nos sentirmos amados… São essas coisas que nos levam a carecer das curtidas para colocar um pouco de alegria em nosso dia.

Reféns de uma imagem idealizada

As redes sociais na internet potencializaram os jogos de aparência. Muitos de nós criamos personagens de nós mesmos. Uma imagem falsa de si, mas que se sobrepõe ao que de fato a pessoa é.

Projeta-se algo e vive-se o que foi projetado. Nas redes.

A pessoa vira refém da imagem. É necessário se mostrar bem-sucedida, com vida amorosa bem resolvida, bons relacionamentos, amizades… Uma vida social invejável.

Na vida real, todo mundo tem problema. Mau humor, fracassos profissionais, desencontros afetivos… Contas pra pagar, viagens horríveis – ou até a impossibilidade de fazer um passeio bacana. Isso tudo faz parte do cotidiano das pessoas.

Li recentemente uma observação feita por um autor: problemas financeiros todo mundo tem; até o homem mais rico do planeta. E é fato. Os problemas com dinheiro, do todo-poderoso da Amazon, Jeff Bezos, são diferentes dos nossos, mas certamente ele tem que enfrentar problemas para lidar com investimentos, com empresas concorrentes, gente querendo a grana dele… E até o recente divórcio, que deve fazer com que metade da fortuna dele fique com a ex-esposa. Dividir o patrimônio bilionário não será algo divertido para ele.

Ninguém gosta de expor seus fracassos. Nem a rotina pouco empolgante do dia a dia. A gente quer mostrar nossa melhor face. É preciso mostrar-se feliz.

E, particularmente, não vejo nada de mal nisso. Eu mesmo exponho muito pouco da minha vida, das coisas que faço… Apresento apenas um recorte. Não é ruim. Passaria a ser um problema se a imagem que as pessoas fazem de mim nas redes pautasse minhas decisões diárias, minhas escolhas.

Precisamos ser quem de fato somos. Autênticos. Sem exageros. Sem amarras. Apenas verdadeiros – não por causa dos outros; mas em respeito a nós mesmos, a nossa identidade.