Toda história tem mais de um lado

A internet não inaugurou a versão única dos fatos. Não foi responsável pelo rompimento da dialética. Entretanto, principalmente após o advento das redes sociais, com a oportunidade de todos se pronunciarem, o espaço público virtual potencializou versões nem sempre verificáveis.

Noutras palavras, a gente tem a chance de dizer o que pensa, mas silencia outras formas de pensar. E isso faz com que seja apresentado um único lado da história, o nosso.

Isso é ruim? Não necessariamente.

Torna-se negativo porque outras pessoas, que simpatizam com a versão contada, compram-na como única possibilidade da verdade e replicam a história.

Isso, muitas vezes, torna verdade uma mentira. Ou, pelo menos, torna verdadeiro aquilo que seria apenas uma das perspectivas de um fato ou acontecimento.

Há muito tempo, os filósofos nos mostraram que nunca teremos acesso a verdade em sua completude. Sempre teremos acesso apenas aos fragmentos. A própria ciência é incapaz de dar conta de todas as variáveis de um único fato ou fenômeno.

Um dos maiores filósofos de todos os tempos, o alemão Immanuel Kant, num texto clássico, “O que é o esclarecimento?”, afirma que parte significativa da humanidade optou por ser menor, porque é cômodo ser menor.

Ser esclarecido, segundo Kant, implica numa atitude ativa na qual não assumo um posicionamento apenas porque já existe um texto escrito sobre um tema ou qualquer coisa do tipo. O filósofo ressalta que há uma espécie de preguiça mental nas pessoas que as leva a não refletirem, a reproduzirem preconceitos, visões estereotipadas… Numa condição de minoridade, na qual abro mão de pensar e descobrir por mim mesmo.

Sabe, a compreensão disso deveria nos tornar um pouco mais céticos em relação às versões narradas nos livros, nos jornais e, principalmente, na internet.

A rede, que é um espaço caracterizado pelas manifestações mais emocionais, parece-me que dificilmente se tornará um ambiente equilibrado, moderado, racional.

Justamente por isso deveríamos consumir cada conteúdo publicado nas redes sociais com certo cuidado, alimentando a interrogação, a dúvida. Principalmente, antes de assumirmos a versão do outro como se fosse a única possível.

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Fake news: as pessoas acreditam no que querem acreditar

Nos últimos meses, várias agências de checagem de notícias foram criadas. Ainda hoje pela manhã, li sobre o lançamento de uma nova agência, ligada a um dos maiores grupos de comunicação do país. A proposta é investigar se são fatos ou fakes algumas notícias que circulam na rede.

Esse movimento me parece bastante relevante. A quantidade de notícias falsas é assustadora. Mas o que mais me preocupa é o comportamento das pessoas.

Ainda dias atrás, uma jovem que conheço, pessoa que considero, debateu comigo a respeito de uma informação que outra colega havia compartilhado. Eu argumentei, com base numa agência de checagem de informações, que a notícia era falsa. Ela rebateu questionando os interesses da agência. Em outras palavras, colocou em dúvida a agência e, de alguma forma, sustentou que a notícia, que eu entendo como falsa, era verdadeira.

Enfim… É justamente isso que me preocupa. Tenho a impressão que, quando algumas pessoas tomam um conteúdo como verdadeiro, nem mesmo a checagem de sua veracidade é suficiente para desmenti-lo. As pessoas acreditam no que querem acreditar. E aí usam como argumento qualquer coisa, inclusive ideias de conspiração.

Alguns candidatos e políticos fazem isso (Donald Trump é um “belo” exemplo). Movimentos como o MBL, idem. Quando são confrontados, quando a gente diz: “é mentira o que vocês estão dizendo”, preferem desqualificar as fontes de informação e até rebatem dizendo que a checagem é que é falsa.

Isso só reforça a certeza que o problema na qualidade da informação na rede, nos grupos de whatsapp, vai para além dos interesses envolvidos, da superficialidade ou mesmo da pressa em passar uma informação adiante; o problema está na qualidade da formação cultural das pessoas ou, em alguns casos, até mesmo na ausência de ética e caráter.

Facebook desativa páginas de fake news

O Facebook retirou do ar quase 200 páginas e 87 contas foram desativadas. Muitas delas estavam ligadas ao MBL, Movimento Brasil Livre.

Essas páginas saíram do ar porque, segundo o Facebook, tratava-se de uma rede coordenada que se ocultava com o uso de contas falsas no Facebook, e escondia das pessoas a natureza e a origem de seu conteúdo com o propósito de gerar divisão e espalhar desinformação. Ou seja, essas páginas espalhavam fake news.

Assim que li a notícia completa, comemorei. Comemorei porque as redes sociais têm servido de suporte para a divulgação de conteúdo duvidoso e muita gente tem formado opinião e até tomado decisões tendo como base mentiras espalhadas na internet.

Foi assim no Reino Unido, que culminou com a saída da União Europeia; foi assim com a eleição de Donald Trump, ele mesmo um especialista em mentiras no Twitter.

O MBL não gostou nenhum pouco da ação do Facebook. Alegou que se trata de censura. Vi várias pessoas comentando na rede e concordando com essa tese.

Não, gente, não se trata de censura.

Censura é um ato de repressão, de impedimento na divulgação de fatos concretos. Quando alguém tem uma informação e é proibida de divulgá-la, temos censura. Mentiras ou conteúdos duvidosos, se são impedidos de serem divulgados, o que temos efetivamente é prudência, cautela. Poderíamos até dizer que se trata de um ato ético, responsável.

Pense comigo: se você ouviu dizer algo ruim sobre uma pessoa, mas não tem certeza daquilo, qual é a atitude correta? Espalhar o que ouviu ou silenciar-se para não ser injusto?

Tirar do ar páginas que constantemente divulgavam notícias falsas é sim um ato de prudência, de respeito ao público, que nem sempre tem condições de checar a veracidade do conteúdo.

E, por fim, há um outro aspecto que o MBL e seus apoiadores parecem ignorar: o Facebook não é um órgão de comunicação, não é imprensa. O Facebook é um site que permite o relacionamento entre pessoas, e entre pessoas e empresas. O Facebook não produz conteúdo. O negócio do Facebook não é produção ou divulgação de notícias.

O Facebook não foi criado com o propósito de que as pessoas entrassem ali para consumir notícias. Isso a gente faz num site de notícias, ouvindo rádio, assistindo televisão… Então quando o relacionamento é prejudicado por conta do mau uso da rede, o Facebook tem todo direito de disciplinar o processo, de punir e até banir.

Ou seja, se pessoas ou alguns grupos usam esse espaço de forma questionável, inclusive por motivações políticas, a empresa pode e deve intervir a fim de assegurar que os usuários não sejam afetados negativamente e o negócio dela, da empresa, não seja prejudicado.

Informação não é conhecimento

A gente vive um período singular na história. Nunca tivemos tanta informação disponível.

Há alguns anos, acreditávamos que a sociedade da informação seria sinônimo de sociedade do conhecimento. Hoje, sabemos que não é assim que funciona. Talvez nunca será dessa maneira. Somos como peixes no mar… Há tanta água em torno do peixe que ele sequer percebe todo o universo que o rodeia e, principalmente, o que realmente importa.

Pesquisadores observam que o excesso de informação pode dificultar o conhecimento. Afinal, informação não é conhecimento. Informação proporciona conhecimento à medida que sabemos o que fazer com as informações que estão disponíveis.

Para que a informação se transforme em conhecimento, é necessário realizar algumas operações. Duas delas são fundamentais: a) capacidade de atenção; b) insistência para desenvolver e manter a atenção.

O que tem valor e terá cada vez mais valor é a capacidade de selecionar a informação oportuna e investir nossa atenção para compreendê-la. Para isso, temos que ter critérios, sabermos filtrar o que é o que não é relevante; além disso, desenvolvermos a habilidade de nos mantermos atentos. Sim, porque nos distraímos muito facilmente.

Nossa mente é vagabunda… Gosta de novidades. Nossa atenção muda o foco rapidamente em busca de coisas aparentemente mais interessantes, que nos proporcionem algum tipo de recompensa – geralmente, coisas que nos entretém, nos divertem…

E o universo informacional é tão grande que a gente se move de um lugar para o outro, vendo fotos, memes, vídeos… Mas nada disso constrói efetivamente um conhecimento. É só passatempo.

Por isso, a capacidade de atenção é o grande capital da pós-modernidade. A atenção, a capacidade de se manter atento, focado em algo, é o que assegura chegar ao conhecimento.

Algumas pessoas – poucas, infelizmente – ao perceberem que estão se distraindo, voltam-se rapidamente para o que estavam fazendo. Outras se deixam levar, perdem horas e horas. E nada aprendem.

Para lidar com todo o universo informacional, é preciso priorizar. Saber o que quer aprender e investir energias em busca de formar um conhecimento. Deixar-se levar pelo que está disponível nos torna vazios. Vemos tudo, lemos tudo, mas não aprendemos nada.
Podcast da Band News FM.

Crescem casos de cyberbullyng no Brasil

A internet me encanta. Desde a década de 1990, quando a conexão ainda era discada, eu já achava tudo incrível. E não é diferente hoje.

A possibilidade de, num clique, ter acesso a um universo de informações, é demais!

Entretanto, a mesma rede que possibilita aprender sobre tudo, interagir com gente do mundo inteiro, produzir conteúdo rompendo com o monopólio da imprensa… Essa mesma internet também potencializa a agressão. E o Brasil tem se tornado uma referência negativa quando o assunto é cyberbullyng.

De acordo com um levantamento realizado pelo Instituto Ipsos, 29% dos pais entrevistados relataram que os filhos já sofreram algum tipo de violência online.

O que é pior é que esse número não para de crescer. Em 2016, a mesma pesquisa trazia um índice de 19%. Ou seja, aumentaram as situações de violência virtual contra crianças, adolescentes e jovens.

Atualmente, o Brasil só fica atrás da Índia no ranking de cyberbullyng. A média mundial é de 16%. Na prática, a violência online por aqui é quase duas vezes maior que a média global.

O levantamento mostra que algumas ações precisam ser tomadas por todos nós. A primeira delas: é fundamental denunciar. O silêncio perpetua o problema.

A segunda medida cabe aos pais: monitorem o que seus filhos fazem na rede. Eles podem ser vítimas ou até mesmo agressores. O que talvez pareça brincadeira de criança, na verdade, pode estar magoando, ferindo o colega.

A terceira medida envolve educadores, escola: temos que insistir em práticas educativas de orientação. É fundamental que nossos alunos saibam usar a rede de maneira produtiva.

Ouça o podcast da Band News. 

Operadoras querem acabar com internet ilimitada

As operadoras de telecomunicações seguem empenhadas em mudar o sistema de cobrança pelos serviços de internet. Atualmente, na casa da gente – ou na empresa -, a gente paga pela velocidade. Você pode ter uma banda larga de 15GB de velocidade, de 30GB, 50GB, 100GB… Isso não limita a quantidade de dados usados. Você pode acordar pela manhã, ligar a televisão no Netflix e passar o dia vendo séries e filmes. Seu filho pode abrir o Youtube e assistir quantos vídeos quiser…

As operadoras querem acabar com isso. Insistem em pôr fim à internet ilimitada. Desejam um modelo semelhante ao que temos nos celulares. Passaríamos a comprar um pacote de dados. Na prática, dependendo do uso, podemos ficar sem internet na metade do mês.

A alegação das operadoras é que uma internet sem limite de dados causa algum tipo de escassez na rede.

O argumento é uma enganação. Na prática, as operadoras querem um sistema que permita cobrar mais dos usuários e ter um controle no fluxo de dados, pois quanto mais usamos a internet, mais investimentos são necessários para manter o funcionamento estável da rede.

A internet tem uma lógica diferente de outros serviços que compramos. Por exemplo, a água tratada é um bem limitado. Quanto mais usamos, mais problemas de abastecimento podemos ter, pois há um limite no fornecimento de água.

Veja o que acontece com a internet… Quando você assiste um vídeo no Youtube, você esgota o vídeo? Faz diferença uma pessoa assistir ou 100 milhões assistirem? Não. O vídeo continuará na rede.

O que faz diferença então?

Se você tem 10GB de internet em casa e uma só pessoa está usando a rede, a qualidade de conexão é uma… Se dez pessoas usam simultaneamente seu wifi, a qualidade de conexão cai. Mas o que está no Netflix, no Facebook… as informações não deixam de existir na rede por conta do número de pessoas que acessa.

Ou seja, o que faz diferença é o número de pessoas que assiste simultaneamente. Isso pode afetar a velocidade de reprodução. Por isso, não faz sentido as operadoras limitarem o uso de dados. O sistema precisa permanecer sendo o controle da velocidade.

E por que trato disso por aqui? Porque estamos em ano eleitoral. E este é um assunto que PRECISA estar na pauta dos candidatos. A gente tem que saber o que eles pensam a respeito da legislação que trata da internet. Nos Estados Unidos, a vitória do Donald Trump significou o fim da chamada neutralidade da rede. Quer dizer, quem a gente eleger pode ter um projeto diferente do que gostaríamos para a internet.

Este assunto não é de menor importância. Faz parte do nosso cotidiano, das nossas necessidades diárias. Deve estar na pauta de nossas preocupações.

Onde circulam as fake news?

A internet potencializou a divulgação de notícias falsas. As chamadas fake news possuem características muito peculiares. Quase sempre partem de fatos verídicos e os distorcem criando uma outra informação. As pessoas – ingenuidade, ignorância ou mesmo má fé – fazem circular esses conteúdos, compartilham, criando novas verdades.

Neste vídeo, apresento algumas orientações para que você não seja engado por notícias falsas.