Justiça de conveniência

Os brasileiros gostam que as regras sejam aplicadas. Explico, as regras que lhes são convenientes. Sim, a justiça, para a nossa gente, é relativa. Tudo depende de quem vai ser punido, quais as circunstâncias e quais as pessoas envolvidas.

Se o jogador derrubado na área for do meu time, torço para que o juiz não veja. Se o jogador é do time adversário e o pênalti não foi marcado, o juiz é ladrão. Sobra até pra mãe do juiz.

Na empresa, se o amigo quebrou as regras, desobedeceu claramente uma orientação da chefia e até causou prejuízos… Se é meu amigo, fico revoltado com a punição, tomo as dores. Se trata-se de alguém que não gosto, acho até que a demissão demorou demais.

Se um motorista furar o sinal vermelho e machucar alguém, ficamos indignados. Mas se sou eu no volante, é porque estava com pressa, não vi fechar, foi um minuto de bobeira…

Essa é a justiça de conveniência. É a que nós, brasileiros, efetivamente gostamos.

Tem a ver com a identidade da nossa gente. Somos o povo do jeitinho.

Quando viajamos para fora do Brasil, admiramos a organização, a eficiência de japoneses, alemães, franceses, americanos, e até desqualificamos tudo que temos no Brasil. Porém, quando se trata de adotar as práticas e a objetividade das ações – e até das punições -, a gente tenta achar um jeito brasileiro de operacionalizar as relações.

Na verdade, não gostamos de ambientes que levam tudo a sério. Não aceitamos bem as cobranças de pontualidade, de respeito aos prazos, de não uso do celular no ambiente da empresa ou da escola, de postura no que diz respeito ao que vestimos, ao que falamos, ao que escrevemos na internet…

As regras são para os outros. Quando afetam as coisas que defendemos, as regras devem ser relativizadas. Aí o chefe é intolerante, a empresa pratica censura, o professor é autoritário…

A gente quer um país melhor, mas este melhor tem que ter a minha cara, a cara dos meus amigos. Tem que ser construído com os meus valores – valores que são relativizados e flexibilizados de acordo com as circunstâncias.

Eu confesso a você que não acredito num país melhor se as regras não forem claras, não forem cumpridas e as pessoas não forem responsabilizadas por seus atos.

Sim, isso, por vezes, incomoda. Mas torna o jogo transparente, faz as relações funcionarem, as pessoas se respeitarem e a convivência social ser possível.

A síndrome do pensamento mágico

Um dos grandes problemas do brasileiro é manter uma espécie de pensamento mágico. A gente acredita que, no final, as coisas se ajeitam.

Você anda sem o documento do carro e acredita que, se for parado numa blitz, por alguma mágica, o veículo não será retido. E se for retido, a gente conhece alguém que pode dar um jeito é liberar o carro.

Você vai fazer uma prova e não estuda tudo que precisaria estudar. O aluno brasileiro acredita que, de alguma maneira, vai tirar a nota. E se não tirar, ainda assim existirá alguma maneira de resolver o problema.

A gente faz isso em quase todas as esferas da vida. Inclusive na política. A gente vota acreditando em alguma mágica, num ser que possa resolver todos os problemas. E, se não funcionar, sempre haverá um amanhã para tentarmos de novo.

Esta forma de pensar tem muito a ver com o que convencionamos chamar de “jeitinho brasileiro”. Acreditamos sempre que é possível dar um jeito e tudo vai ficar bem. E se não ficar, a gente ri da desgraça e segue em frente porque “a vida é assim mesmo”.

Mas, olha só, não é assim. Não pode ser assim. Um prédio grandioso não se constrói sem planejamento, sem contar com os melhores profissionais, materiais de excelente qualidade… A vida da gente não será bem sucedida se não for orientada por bons princípios, por cuidados, responsabilidade, comprometimento… O mesmo vale para uma carreira… O mesmo vale para um país.

Não existe mágica para o sucesso. Não é com jeitinho que se faz algo de qualidade. O jeitinho é só o quebra-galho. Mas o quebra-galho nunca é realmente satisfatório. Não é digno de elogios. Muito menos é capaz de mudar a vida das pessoas.

Brasileiros: não somos otimistas; somos alienados

A Época desta semana traz o título:

Brasil, o país do otimismo

Gostei da capa. Verdinha. Uma espécie de bandeira do Brasil estilizada. Tem até uma carinha sorridente.

A reportagem é baseada numa pesquisa que trata das expectativas das pessoas com o país. Ainda não li a matéria. Optei por escrever antes de ler. Afinal, minha proposta não é discutir a reportagem e nem o estudo. Quero apenas “pensar alto” sobre o que entendo a respeito de nosso otimismo.

Cá com meus botões, tenho impressão que o brasileiro não é otimista; é alienado. Nosso povo está “se lixando” para o país. Quer mesmo é levar a sua vida, cuidar de si mesmo. O negócio é garantir “o meu”.

– Dane-se se o Orlando Silva é corrupto. Político é assim mesmo. Todo político é corrupto. O que importa é que estou empregado, ganho meu dinheiro, faço meu churrasco nos fins de semana, saio com os amigos, tomo minha cerveja…

Não é mais ou menos assim que somos?

Importa é que as coisas dêem certo para nós.

Até queremos um país desenvolvido, rico, uma potência mundial. Porém, não queremos nos envolver. Envolvimento dá trabalho. Requer esforço, comprometimento e espírito coletivo.

Vivemos sob a crença de que assistir os telejornais, ver uma ou outra notícia na internet já nos torna cidadãos.

Preferimos simplificar as coisas. Não queremos entendê-las.

Se tem buraco na rua, a culpa é do prefeito. Se faltam médicos nos postos de saúde, idem. Se o pedágio sobe, o problema é do governador. Se os aeroportos estão lotados, a presidente é incompetente.

O resumo simplista do problema pode até trazer uma parte da verdade. No entanto, não é só uma questão de culpa ou responsabilidade. As coisas vão além disso. E lamentavelmente, passam pelos nossos valores. Porque se as ruas pelas quais trafego estivessem devidamente asfaltadas e bem cuidadas, não estaria nenhum pouco preocupado com as centenas de pessoas que vivem em moradias de risco. O vereador é safado, mas se for meu amigo/conhecido e conseguir um emprego para o meu filho, estou feliz da vida.

Nosso otimismo cego faz cerca de 90% dos pais brasileiros acreditarem que as escolas de seus filhos são boas. É o que revelou uma pesquisa recente publicada na Veja. Para eles, importa ter um lugar para deixar a molecada enquanto trabalham. Escola é abrigo e espaço para ensinar a ler, escrever e garantir um diploma a fim de ter um bom emprego e ganhar muito dinheiro.

Por isso, não gosto desse otimismo. Temos sim que acreditar no país. Mas entender que o Brasil é feito por pessoas. E nossa alienação pouco colabora. Continuamos guiados pelos Sarney’s da vida, Maluf’s etc etc. Sintoma claro de que otimismo sem ação e uso da razão e do conhecimento são pouco producentes.

Nosso silêncio, nossos males

Revirando minhas coisas encontrei uma antiga edição da revista Época. Uma das reportagens me chamou atenção. O título já era bastante sugestivo: “Por que o brasileiro não reclama?”.

Curioso, não? Afinal, temos a impressão que reclamar de tudo é o que o brasileiro melhor faz. Entretanto, a gente resmunga muito, mas estamos longe de reclamar numa perspectiva questionadora, transformadora. Segundo a Época, nós não reclamamos porque a gente acredita que, se ninguém reage, é melhor a gente também não reagir.

Observe um exemplo curioso. Mulheres grávidas têm o direito a um assento especial no transporte coletivo. Isso é lei. E a garantia de assentos especiais vale também para mulheres com bebê no colo, idosos e pessoas com deficiência.

Agora, me diga uma coisa: quantas vezes você já viu mulheres grávidas, com bebê no colo ou ainda idosos espremidos dentro do ônibus do transporte coletivo? Quantas vezes você viu essas pessoas reclamando o direito assegurado por lei? Na verdade, tenho a impressão que muitos sequer conhecem tal direito.

E não se trata de um problema exclusivo do transporte coletivo. O brasileiro não tem mesmo o hábito de protestar. A corrupção dos políticos, o aumento de impostos, o descaso nos hospitais, as filas imensas nos bancos e a violência diária só levam a população às ruas em circunstâncias excepcionais.

Mas, por que isso acontece? A resposta a tanta passividade pode estar em um estudo de Fábio Iglesias, doutor em Psicologia e pesquisador da Universidade de Brasília (UnB). Segundo ele, o brasileiro age de acordo com aquilo que os outros pensam, e não por aquilo que ele acha correto fazer. Essas pessoas pensam assim: se o outro não faz, por que eu vou fazer?

O problema é que, se ninguém diz nada e conseqüentemente nada é feito, o desejo coletivo é sufocado.

Curioso é que esse nosso hábito de silenciar-se diante da injustiça aparece até mesmo quando a gente sofre prejuízos. Tem gente que compra um produto, o produto vem com defeito, a pessoa tenta trocar, não consegue e fica por isso mesmo… Ela reclama com o vizinho, mas é incapaz de fazer valer seus direitos.

Essa lógica vale até mesmo para produtos de consumo. Um pão, por exemplo. Você vai na padaria, compra o pão, ele vem embolorado e você fica com vergonha de pedir a troca. Prefere jogar fora o produto a voltar na empresa.

Conforme esse estudo, a crença de que “não-vai-dar-em-nada” é o discurso comum entre os “não-reclamantes”. É uma mistura de vergonha, medo e falta de credibilidade nas autoridades.

O antropólogo Roberto DaMatta diz que não se pode dissociar esse comportamento omisso dos brasileiros da prática do “jeitinho”. Para ele, o fato de o povo não lutar por seus direitos, em maior ou menor grau, também pode ser explicado pelas pequenas infrações que a maioria comete no dia-a-dia. “Molhar a mão” do guarda para fugir da multa, estacionar nas vagas para deficientes ou driblar o engarrafamento ao usar o acostamento das estradas são práticas comuns e fazem o brasileiro achar que não tem moral para reclamar do político corrupto.

Portanto, se você é uma pessoa que reclama, protesta, faz valer o seu direito, saiba que é exceção no Brasil. Todos os estudos feitos sobre o comportamento do brasileiro apontam numa mesma direção: somos passivos. Só que essa passividade nos faz mal e ajuda a manter o país do jeito que está.

Cultura política desastrosa…

Reportagem da CBN aponta que na Ciretran de Maringá falta pessoal. São 20 funcionários para atender cerca de 300 pessoas/dia. Isto estaria causando atrasos nos processos. Novecentos processos estão atrasados na Ciretran de Maringá.

Pensando sobre isto, fiz algumas considerações…

A ausência de pessoal nas diferentes esferas do poder público é uma realidade.

Falta gente no departamento de trânsito. Faltam policiais civis e militares. Faltam juízes e promotores… Em todas as esferas, falta pessoal.

Nós já falamos aqui sobre a falta de agentes de trânsito em Maringá. A cada turno, trabalham cerca de seis guardas. Isto prejudica a fiscalização e sustenta a sensação de impunidade de motoristas infratores.

Na esfera federal, o ministro Carlos Minc falou esta semana que o Ibama não tem capacidade de fiscalizar e punir os crimes ambientais. Motivo? Falta pessoal.

Por outro lado, a máquina pública está inchada. Mas está inchada é de gente que faz nada.

Basta notar que não são raras as denúncias de funcionários fantasmas. Em câmaras municipais, existem tantos funcionários que, se todos trabalhassem ao mesmo tempo, faltaria espaço para circular entre gabinetes e corredores estariam lotados.

Ou seja, gasta-se o dinheiro público para atender aos interesses políticos de pessoas que, durante as campanhas, comprometem-se com cabos eleitorais e, depois, precisam pagar a conta. Na prática, a máquina pública vira um cabidão de empregos para beneficiar gente desqualificada e que, em alguns casos, sequer aparece para bater o cartão.

É o cenário do jeito brasileiro de lidar com a coisa pública. Fruto de uma cultura política paternalista e marginal. Resultado da falta de transparência e da nossa pouca disposição em cobrar dos agentes públicos um pouco mais de responsabilidade nos gastos do dinheiro do povo.