Hierarquia de conhecimentos

Na sociedade da informação, muita gente acredita que possui saber, conhecimento sobre tudo. As redes sociais, ao possibilitarem que todos se manifestem, parecem ter criado a sensação de que todos possuem autoridade para falar/escrever sobre qualquer coisa.

Acho fantástica a democratização do processo de produção de conteúdo. Não existe mais um monopólio do ato de informar. Qualquer pessoa, em sua própria rede, tem a chance de dizer o que sente, o que pensa… Isso tem gerado uma verdadeira revolução nos sistemas de informação. Todos os canais tradicionais podem estar fechados para uma pessoa e ainda assim ela consegue se comunicar com gente conhecida e desconhecida, gente de perto e de longe.

Entretanto, a sociedade da informação parece ignorar algo fundamental: existe sim uma hierarquia de conhecimento. Muitas pessoas não aceitam isso. Ou sequer pensam sobre o assunto. Na prática, nossa sociedade tem a sensação de que informação é formação. E não é.

Ter todo conhecimento do mundo disponível a um clique não torna ninguém conhecedor. O conhecimento é resultado de um processo longo, demorado, exaustivo, que implica no esforço disciplinado de horas de estudo sobre um determinado tema ou assunto.

Por exemplo, sou jornalista de formação, professor da área há 12 anos e transito pela comunicação desde 1989. São esses anos todos de aprendizado prático, de leitura e ensino que asseguram minha formação na área. E certamente não sei muita coisa. Por vezes, reluto avaliar uma estratégia comunicacional ou mesmo a abordagem feita por uma reportagem, porque seria prepotente da minha parte dizer “isso está errado”. Afinal, o próprio fazer jornalístico está em constante mudança – sem contar que sofre influência de cada cultura.

Porém, curiosamente, vejo diariamente pessoas criticando jornalistas e empresas de comunicação dizendo: “isso não é jornalismo”. São pessoas que sentem-se autorizadas a classificar uma atividade profissional sem nunca terem vivido o dia a dia de uma empresa de comunicação, sem nunca terem lido um único manual de redação, sem sequer conhecerem um livro que trata sobre a prática jornalística.

Outro exemplo… Em meio a uma série de polêmicas envolvendo a arte, o que não faltam/faltaram são pessoas que batem/bateram na mesa e dizem/disseram “isso não é arte”. Ou, “pedofilia não é arte”. Fico pensando: será que sabem definir, juridicamente, o que é pedofilia? Que formação possuem para conceituar arte? O que essas pessoas sabem a respeito de/da arte?

No Brasil, a arte é de domínio de poucos. De uma minoria, na verdade. A maior parte das escolas públicas tem um ensino sofrível sobre arte. E isso se estende também a um percentual considerável das particulares. O país tem poucas bibliotecas, um percentual pequeno de leitores… A quantidade de museus, teatros é quase insignificante (pouca gente frequenta esses espaços; menos de um milhão de pessoas foram a um museu em 2016)… Nosso olhar para o cinema é quase todo mediado pelos interesses de mercado (gostamos mesmo é de filmes produzidos em Hollywood). Nosso entendimento a respeito de música pode ser notado claramente nos gêneros mais consumidos atualmente… Não conseguimos compreender por que pintores como Rembrant, Van Gogh, Renoir, Monet, entre outros, são considerados gênios… E o que dizer de “malucos” como Pollock?

Existe sim uma hierarquia de conhecimentos. Não sabemos sobre tudo (na verdade, mesmo quem estuda muito, ainda sabe muito pouco). E é justamente por não dominarmos todos os assuntos que deveríamos ser mais cautelosos ao falar, ao opinar. Talvez seja possível dizer “eu não gosto”, “isso me desagrada”, “me incomoda”. Afinal, o gosto – embora construído socialmente – manifesta-se individualmente. Porém, gostos individuais não podem ser regras sociais e tampouco são saberes que definem o que existe e se faz no mundo.

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Jornalismo descartável

A quantidade de informações disponível ao público atualmente gera uma angústia constante: o que é, de fato, relevante? E problema vai para além disso. O que se publica, divulga etc. quase sempre é descartável.

É comum abrir as páginas dos jornais, folheá-las e ter a impressão que nada ali é interessante. Vale o mesmo para os telejornais, emissoras de rádio e sites na internet. A gente espia, ouve, assiste e “vai do nada para lugar nenhum”. Nada ali parece ser realmente significativo. Eu experimento essa angústia diária e, com frequência, chego à conclusão que boa parte dos noticiários são descartáveis. Não fazem diferença alguma se deixarem de existir.

Nos noticiários locais e regionais, a situação é ainda mais visível. Com exceção do noticiário policial (que não aprecio, mas chama a atenção de parte expressiva da população) e, vez ou outra, alguma polêmica política, o que existe de informação que vale a pena ser consumida? Quase nada!

Resultado da saturação? Em parte, sim. A pseudo necessidade de gerar muito conteúdo atualizado resulta numa espécie de esgotamento do público. Afinal, o que é novidade? O que é diferente? Mas existe um outro problema. Os veículos de comunicação têm levado pouco em consideração o desejo das pessoas. Oferta-se conteúdo, mas não se planeja o que será disponibilizado. A notícia então torna apenas mais um produto na prateleira, sem utilidade alguma.

O que valorizar na formação do jornalista?

Embora possa parecer um assunto mais restrito, creio ser fundamental pensar a formação do jornalista. A gente vive um momento em que se deseja muito o saber técnico – o como fazer. Valoriza-se pouco o chamado conhecimento teórico.

Quem vai fazer jornalista quer aparecer diante da câmera, saber como falar… Quer aprender relatar os fatos. Porém, esquece que isso qualquer pessoa hoje pode fazer.

É sobre isso que falo neste meu novo vídeo. Afinal, pra que serve jornalista que só narra os fatos?

Em defesa de Bonner

entrevista boner
William Bonner está sendo vítima de agressões e xingamentos por fazer bom jornalismo. Sim, o âncora do principal telejornal do Brasil tem sido questionado por aliados e eleitores dos candidatos à presidência da República por cumprir uma das funções mais básicas do jornalismo: questionar.

O Jornal Nacional abriu a rodada de entrevistas com os candidatos ouvindo Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB). E os apresentadores foram contundentes. Fizeram perguntas que colocaram os presidenciáveis em situações, no mínimo, desconfortáveis. No entanto, nenhuma delas estava desprovida de embasamento. Ficou nítido que Bonner e Patrícia Poeta estavam preparados para questionar os candidatos. Mas isso incomodou muita gente. O âncora, principalmente, foi alvo de agressões e xingamentos.

O assunto, que ganhou repercussão inclusive na internet, também apareceu em minhas aulas. Alunos trouxeram depoimentos de familiares e amigos que disseram que os apresentadores do JN estão vendidos ao PT. Algumas pessoas acharam deselegante o tom firme de Bonner e Poeta. Entendem que deveriam ser mais gentis, “generosos” com os candidatos.

Sinceramente, fico assustado com tanta bobagem. Na minha opinião, mostra o tamanho da imaturidade política do país. E o completo desprezo ao bom jornalismo.

Na verdade, historicamente, o Brasil sempre teve um jornalismo pequeno, pobre, acanhado, publicista, vítima de alinhamentos com o poder e/ou com grupos econômicos. O jornalismo no país pouco contribui para o debate democrático. Apresenta-se como imparcial, isento, responsável, porém, geralmente se dobra diante de interesses nem sempre republicanos. Quando o assunto é política, sabe-se que por vezes falta aos jornalistas liberdade para atuar como gostariam. Há uma “regra silenciosa” – que não se ouve, mas sabe-se que existe – de que o melhor é estar “de bem” com todo mundo.

Talvez por isso cause estranhamento que Bonner, no comando do JN, assuma uma postura crítica, firme diante de candidatos à presidência. Talvez também seja nosso desconhecimento da verdadeira prática jornalística. Talvez não estejamos acostumados a questionar o poder.

Não vou discutir aqui a entrevista de Eduardo Campos, vítima de acidente aéreo na quarta-feira, 13. Porém, a participação de Aécio Neves, na terça-feira, 12, é reveladora. Não mostra um Bonner e uma Patrícia dispostos a destruírem a candidatura do tucano. Aponta sim para o exercício justo do jornalismo, que ao longo dos anos ganhou status de mediador entre os fatos e a sociedade. Por isso, Aécio tem sim que explicar as contradições de seu discurso. Como terá que fazer Dilma Rousseff e os demais candidatos.

No horário eleitoral, nos palanques… os candidatos dizem o que querem. O discurso é efeito. E nele a realidade é a que se pode construir no imaginário popular. Aos jornalistas, cabe observar as contradições, problematizá-las e, sempre que possível, colocá-las em evidência. O público precisa conhecer o que está para além da aparência dos presidenciáveis. O marketing político, é claro, fará o possível para apresentar apenas o que é bonito de ver. Entretanto, a escolha do eleitor não deve ser baseada numa imagem.

E, sejamos sinceros, mesmo com toda contundência de Bonner e Poeta, ainda não temos todas as explicações. No caso de Aécio, ele assegura que fará um governo de “previsibilidade” e transparência. Porém, se é de previsibilidade, não deveríamos saber que cortes serão feitos, quais ministérios serão fechados? Apesar da insistência dos jornalistas globais, essa questão ficou aberta, sem resposta. E o sítio da família de Aécio valorizou ou não com o aeroporto? Tudo bem que a propriedade é da família há mais de 100 anos e não há interesse em vendê-la, mas custava responder a pergunta de Bonner? E se a saúde foi modelo em Minas, porém com dinheiro do governo federal, não poderia admitir isso e dizer que a diferença dele foi a eficiência?

Além do mais, ética e eficiência não seriam pressupostos básicos de todo governante? Como isso pode ser prioridade? Falta ao candidato planos para educação, saúde, segurança?

Enfim, o que quero mostrar é simples: William Bonner, ao lado de Poeta, estão apenas fazendo jornalismo. Talvez nossos políticos, e até nossa sociedade, não saibam muito bem o que é isso. Cá com meus botões, porém, fico contente por ver que, aos poucos, a mesma Globo, tão criticada por ser conivente e até partidária em muitos momentos da história, apresenta amadurecimento na prática jornalística e assegura certa liberdade aos seus jornalistas.

A neutralidade no Jornalismo

jornalismo
Ouvir as diferentes versões de uma mesma história é um dos princípios jornalísticos. A gente chama isso de “entrevistar os dois lados”. Afinal, se você tem alguém que reclama, do outro lado deve haver alguém pra se defender. Numa greve, existem as versões dos empregados e dos patrões. Num acidente, envolvidos e até testemunhas. Na política, situação e oposição… E assim por diante.

Entretanto, há algo nessa dinâmica do jornalismo que pouca gente nota. Quando o assunto carece de uma interpretação, entrevista-se um especialista. Esse expert explica o acontecimento, as implicações do fato. E a visão desse profissional não se questiona.

Por exemplo, quando ocorrem atos de violência nos morros do Rio de Janeiro, moradores são ouvidos, a polícia é ouvida. E, com frequência, um único especialista é convidado para explicar o confronto. Essa pessoa problematiza as questões envolvidas e as interpreta para os ouvintes, telespectadores, leitores etc.

Essa lógica da imprensa funciona basicamente para todos os assuntos. Do meio ambiente à economia. Os lados são ouvidos. E, pra concluir a “reportagem”, também um especialista, que deve interpretar os acontecimentos.

O que pouca gente questiona é a neutralidade desse especialista. Será não há visões diferentes entre pesquisadores do mesmo tema? Será que um expert reúne toda a verdade? Será que um especialista não se posiciona de um determinado lugar, inclusive ideológico? É claro que sim.

A Ciência não é um todo homogêneo. Todos os fenômenos sociais possuem diferentes interpretações. Um mestre, um doutor – ou mesmo pós-doutor – faz suas pesquisas partindo de uma linha teórica. Isso se reflete na forma como analisa os fatos. Por exemplo, um especialista adepto de uma linha teórica mais liberal vai criticar as intervenções no Estado na economia; outro pode entender que a presença do governo interferindo no mercado é uma necessidade para que se reduzam as desigualdades sociais.

A questão, portanto, é bastante complexa. E é complexa porque raramente a gente reclama da imprensa por trazer apenas um especialista (ou uma vertente ideológica) nas explicações de um determinado fato. O Brasil, por exemplo, supostamente vive um momento delicado. Parece não dar conta de controlar o crescimento da inflação e, ao mesmo tempo, não consegue expandir a economia. Entretanto, temos visto na mídia diferentes interpretações dos movimentos econômicos? Tenho impressão que o discurso dominante é de total crítica ao governo. Mas será que não há visões contraditórias? Todos concordam? Não há ninguém com analise de outra maneira? Estaríamos vivendo um momento em que todos pensam igual? Ou será que quem pensa diferente não estaria sendo ouvido?

Um autor americano que respeito, Roberto Darnton, ressalta que:

Os jornais devem ser lidos em busca de informações a respeito de como os acontecimentos eram interpretados pelas pessoas da época, em vez de representarem fontes confiáveis dos acontecimentos em si.

E o motivo é muito simples: o jornal – o jornalismo em si – interpreta a realidade. Não significa que mente, manipula ou pretende aliar o público. Apenas não reproduz a realidade em sua totalidade. Ela faz um recorte. Por isso, decidir nossa vida pelo que sai na imprensa pode ser bastante arriscado.

O prazer de educar

Ano quase acabando e as atividades da faculdade do ano estão praticamente concluídas. A paixão pela sala de aula me faz sentir saudades de vir para o computador e preparar ou revisar a programação da semana. Afinal, domingo, pelo menos na vida deste professor aqui, é dia de trabalho. Faço isso há muitos anos. E com muita satisfação. Acho que não sei mais ficar à toa nesse dia da semana.

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Durante uma das bancas de monografia

Quando olho pro ano que passou, sempre me cobro bastante. Penso em tudo que ofereci aos meus alunos e é impossível ignorar os erros. E sempre encontro vários deles. Mas com os erros a gente tenta aprender. Não adianta ficar lamentando. Já foi. É reparar os problemas e focar no que vem por aí.

Entretanto, teve muita coisa legal acontecendo. Como trabalho com futuros jornalistas, em algumas disciplinas, a missão é prepará-los para o mercado profissional. E este ano fizemos muito. Produzimos várias revistas, vídeos criativos para a web, jornais para a internet, fizemos a cobertura dos protestos de junho em Maringá, mantivemos blogs de conteúdos alternativos, recuperamos a produção musical e cinematográfica das últimas décadas, viajamos pelas obras de pintores consagrados, descobrimos ações sociais que transformam a vida de pessoas fazem uso de manifestações artísticas… Foi show! Fico orgulhoso de cada ação que meus alunos desenvolveram.

E, para encerrar o ano, tive o privilégio de levar os acadêmicos Cínthia Carla, Elizabeth Pinheiro e Fábio Carlucci para às bancas dos Trabalhos de Conclusão de Curso com monografias elogiadas pelos avaliadores e reconhecidas com a nota máxima. Impossível não ficar orgulhoso deles, pois apenas os orientei. A produção foi deles, a nota foi mérito deles. Apenas procurei encaminhá-los da forma que acredito ser a correta: metodologia correta, distribuição adequada dos fundamentos teóricos e diálogo com a análise e/ou peça produzida. Deu certo mais uma vez.

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Elizabeth Pinheiro e Fábio Carlucci
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Cínthia Carla

Após todas experiências vividas ao longo de 2013, é impossível não ficar cheio de expectativas para o próximo ano. Quem serão os novos alunos? Que resultados vamos obter? E os erros cometidos, vamos conseguir evitá-los? Embora existam várias perguntas ainda sem respostas, o desejo sempre será o mesmo: fazer o melhor. Nem sempre é possível, mas não faltará disposição para tentar.

Dedico este texto a todos meus alunos, aqueles que já passaram por minhas aulas e a todos que amam a vida acadêmica. Obrigado por me ajudarem a crescer e me ensinarem tanto.

O JN não me faz falta

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Teve uma época que a programação da televisão era referência para a programação diária dos brasileiros. A pessoa saia de casa, mas fazia as coisas de tal forma a não perder os programas favoritos. Entre eles, estavam as novelas e o Jornal Nacional. Nas duas últimas décadas, isso começou a mudar. E sobrou até para o principal telejornal brasileiro. Segundo dados recentes do Ibope, o JN teve o pior ano de sua história. A audiência não para de cair.

Faz muito tempo que não vejo o Jornal Nacional. Trabalho à noite e não dá para ver televisão. Entretanto, mesmo quando estou em casa, não sinto falta. O resumo dos fatos trazidos pelo JN não me atrai. Quase tudo já está na internet. Com a vantagem que dá pra selecionar o que quero ver, não tem intervalo comercial e ainda encontro opinião. O telejornal da Globo é sem graça. Apenas noticia, não informa.

Não sei se é assim que se sentem os telespectadores que abandonaram o Jornal Nacional. Entretanto, cá com meus botões, tenho a impressão que muita gente deixou de se sentir dependente da televisão para saber o que está acontecendo no Brasil e no mundo. Tudo está na rede. Além disso, para ver o programa, precisa sentar o bumbum no sofá naquele horário determinado pela emissora. É como se tivesse um compromisso com a TV; tem que fazer parte da agenda diária. E quem tem disposição pra isso hoje? Cada vez menos gente quer ficar refém de horários. Já bastam as obrigações com o trabalho.

No caso do JN, ainda tem o fato de o jornal ter se tornado chato. O modelo envelheceu. E, pra emissora, mudar é arriscar, correr riscos. Basta ver o que aconteceu com a apresentação. A aposta na jornalista Patrícia Poeta, uma cara jovem e simpática, foi extremamente equivocada. Poeta mais parece uma bonequinha que faz caras e bocas diante das câmeras. Desde a estreia dela, a audiência só caiu. Pior, ainda conseguiu deixar o William Bonner completamente insosso. Os apresentadores já não são referência para o público. Tanto faz ser um ou outro apresentador/a na bancada do JN. A gente não sente falta.

Quanto ao que vai acontecer com o principal telejornal do país, não dá para saber. Eu só sei que apenas um milagre me faria voltar a gastar tempo vendo o Jornal Nacional.

O que é cultura?

cultura
A cultura transcende as artes; ela manifesta os hábitos, comportamentos e rituais de um povo

Defini-la conceitualmente não é tarefa simples. Há mais de 160 definições de cultura. Trata-se, como diz Edgar Morin, de uma palavra mítica, traiçoeira, tenta ser mágica, reunir tudo e, também por isso, confunde. Entretanto, não é por confundir que estamos autorizados a nos equivocar. Há coisas que cultura não é. Por exemplo, não dá para confundir arte e cultura. A arte manifesta as expressões de uma determinada cultura. Entretanto, cultura não se resume às manifestações artísticas.

Por que digo isso? Porque ainda vejo muita gente, inclusive dentro da academia, falando bobagem. Há pessoas que acham que cultura é música, teatro, cinema. Isso é arte – que pode mostrar valores culturais de uma época. Mas o conceito vai muito além disso.

O historiador, pesquisador e imortal Alfredo Bosi explica cultura como “conjunto de modos de ser, viver, pensar e falar de uma dada formação social”. O antropólogo inglês Edward Barnett Tylor, ainda em 1871, apresentou-a como “o conjunto de conhecimentos, crenças, artes, leis, costumes e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro de uma sociedade”.

Ou seja, os atos de uma pessoa são baseados em suas crenças e estas são culturais. O ritmo de vida, horários de trabalho, para almoçar, jantar, o que comemos (se arroz, feijão, cachorro quente etc), as músicas que ouvimos etc são manifestações de uma cultura. Até mesmo o conjunto de leis que um povo possui tem relação direta com a sua cultura.

Desde o nascimento, somos inseridos em uma cultura. Comportamento, crenças, civilização são ditados pela sociedade. A cultura, portanto, é transmitida coletivamente.

Talvez um dos principais equívocos que se comete ao falar sobre cultura é entendê-la como sinônimo de “ser culto”. Transfere-se ao conceito algo que ele não busca ser. Há um intelectualismo, um elitismo ao tratar do tema. Desta forma, cultura passa a ser algo quase inatingível, de um público específico – como se cultura fosse produzida e consumida apenas por cultos e intelectuais. Ignora-se cultura se faz e se refaz no cotidiano, no interior, na vida ativa de uma sociedade.

No jornalismo, se eu falo de moda, falo de cultura; se falo de comida, falo de cultura; se falo de arquitetura, falo de cultura; se falo do trânsito, falo de cultura. Essas questões, é claro, se modulam noutras expressões – comportamento, gastronomia, sociedade, por exemplo. O hábito de tomar café com leite e pão pela manhã é manifestação de uma cultura. E mais… Por exemplo, essa onda de “pegação”, “amor livre” pode ser classificada como comportamento, mas o comportamento é uma manifestação da cultura de um povo numa determinada época. E ainda falando sobre o fazer jornalístico, até mesmo o entretenimento de um povo revela uma cultura – os senhorzinhos que se reúnem para jogar cartas em algumas praças de Maringá sugerem uma manifestação cultural.

Quando penso em literatura, teatro como cultura, não apenas confundo com arte, mas também com o erudito. E esta é uma construção conceitual, numa perspectiva crítica, que exclui a população como produtora de cultura. Os pesquisadores brasileiros Antonio Carlos Brandão e Milton Fernandes Duarte dizem que essa “cultura elitizada” se distancia do povo, ignora que nosso agir é cultural.

A cultura popular é produzida espontaneamente e em qualquer lugar. No trabalho, na rua, em bares, clube, dentro de casa, igreja, sem lugar específico para surgir. Ela ocorre quase sempre a produção anônima, de domínio público, também sendo uma criação coletiva.

Insistir na ideia de que cultura é só teatro, dança, ópera, orquestra, música etc é perpetuar uma tese equivocada. É silenciar o povo como autor de sua história.

Educadores, formadores de opinião precisam romper com esse valor equivocado do que é cultura. É necessário entender e fazer entender que andar em volta do parque também é um hábito cultural. Como diz a pesquisadora Isaura Botelho, o conceito não é reducionista. A maneira como povo elabora sua forma de pensar, de sentir, constrói seus valores, maneja suas identidades e diferenças e estabelece suas rotinas é manifestação cultural. Por isso, podemos resumir:

As relações familiares, as relações de vizinhança e a sociabilidade num sentido amplo, a organização dos diversos espaços por onde se circula habitualmente, o trabalho, o uso do tempo livre, etc. Dito de outra forma, a cultura é tudo que o ser humano elabora e produz, simbólica e materialmente falando.