Livros: o universo do desconhecido

Eu gosto de ler. É verdade que leio bem menos do que gostaria. Um pouco por causa do tempo, ocupado pelo trabalho e tarefas do doutorado; mas também por me distrair com aplicativos e redes sociais (sim, eu também me pego jogando tempo fora indo do nada pro lugar nenhum).

Então me culpo por não ler mais. E me sinto muito mal quando vejo o universo tão rico de livros que nunca vou acessar. Afinal, ainda que aumente significativamente minha rotina de leitura, certamente não vou ler mais que outros mil e poucos livros até o fim da minha vida.

Bom, enquanto me pego pensando em livros, noto que a maioria das pessoas lê muito pouco. Na verdade, segundo o último relatório Retratos da Leitura no Brasil, 44% da população não tinham sequer chegado perto de um livro nos três meses anteriores à pesquisa. Isso é grave, porque um povo que não lê é também um povo de pensamento estreito e pobreza cultural.

Ler – e é claro que não se trata de ler qualquer bobagem – ajuda no vocabulário, melhora a argumentação e, principalmente, leva a gente para mundos não conhecidos. Isso é fundamental para nos tornarmos pessoas mais sábias.

Quando a gente lê, a gente dá um passo adiante, porque nos apropriamos de um saber que outra pessoa teve trabalho para construir. Isso nos coloca em vantagem, pois, na prática, eu somo a minha relação com o mundo com a relação do outro (escritor) com o mundo dele. Em mim, passam a habitar universos que até então eu desconhecia. E isso me faz ver mais longe.

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Brasil vende mais livros, mas não há nada a comemorar

O Painel das Vendas de Livros registrou um aumento de 5,24% entre janeiro e 15 de julho deste ano. Foram vendidos pouco mais de 24 milhões de livros.

O faturamento também cresceu. Chegou a um bilhão e 70 milhões de reais.

Os dados parecem positivos. Porém, na prática, não significam muita coisa. Basta notar que, na contabilidade das editoras, está o álbum de figurinhas da copa do mundo – que, por sinal, foi um dos três livros mais vendidos no período.

Na verdade, a situação é preocupante no setor editorial. As grandes editoras estão em crise. E não se trata de um problema causado diretamente pelas tecnologias digitais. Ou seja, não tem a ver necessariamente com o risco do fim do livro impresso.

Tem a ver diretamente com os hábitos de leitura do brasileiro e a crise econômica. O mercado editorial brasileiro é bastante tímido. Vende-se pouco. Por outro lado, sem dinheiro, muita gente deixa de comprar livros e, pior, várias livrarias estão com dificuldades financeiras – estão inadimplentes e não ampliam seus estoques.

Ou seja, o crescimento registrado no mercado de livros neste ano não dá para comemorar. Na prática, não havia muito espaço para redução ainda maior no faturamento e nem nos números de livros vendidos. Os analistas dizem que este mercado já estava no fundo do poço. Não tinha como ser pior.

Tudo isso é muito triste. Um país de não leitores é um país onde reina a ignorância.

Três em cada 10 brasileiros são analfabetos funcionais

Três em cada dez brasileiros são analfabetos funcionais. Talvez você não consiga achar isso um absurdo. Mas eu acho. Significa que três em cada dez pessoas que leem este texto não conseguem compreendê-lo plenamente.

O analfabetismo funcional é caracterizado pela grande dificuldade de entender e se expressar por meio de letras e números em situações cotidianas. Eu escrevo e a pessoa não entende o que eu quis dizer. Eu falo, mas a pessoa não dá conta de compreender o que eu falei.

Analfabetos funcionais têm uma leitura rudimentar. São pessoas que frequentaram a escola, conhecem o código escrito, mas não reúnem as habilidades necessárias para entender um texto.

No Brasil, 38 milhões de jovens e adultos estão nessas condições. Pessoas entre 15 e 64 anos.

A pesquisa é deste ano. Trata-se de uma iniciativa da ONG Ação Educativa e Instituto Paulo Montenegro. A pesquisa foi realizada pelo Ibope Inteligência e compõe o Indicador do Alfabetismo Funcional 2018.

Para chegar a essa conclusão, os entrevistadores visitaram domicílios, aplicaram testes específicos, com questões que envolviam leitura e interpretação de textos do cotidiano – tipo bilhetes, notícias, anúncios, mapas, entre outros.

Detalhe, desde 2009, o Brasil não melhora esse indicador. Ou seja, o domínio de leitura do brasileiro é praticamente a mesma há 10 anos.

Tem mais um dado assustador. Apesar de a população brasileira ter cada vez mais estudo, mais anos na escola, o índice das pessoas que são plenamente capazes de se comunicar pela linguagem – o índice daqueles que são chamados de leitores proficientes, que é o mais alto – é de apenas 12% da população.

Agora, me diga: como pedir que as pessoas consigam analisar de forma racional os discursos dos candidatos? Impossível! Sem grandes habilidades de leitura, as pessoas são facilmente manipuladas por notícias falsas e pelas frases de efeito, cheias de apelo emocional, de políticos habilidosos.

Qual é o perfil do leitor de hoje?

O maior filósofo vivo da atualidade, o alemão Jürgen Habermas, disse, em recente entrevista ao jornal El Pais, que o leitor de hoje está muito distante do que desejado. Afinal, quando a gente escreve por aqui, por exemplo, tudo que deseja é que exista alguém que compreenda de maneira plena a reflexão proposta.

Habermas afirmou que “não pode haver intelectuais se não há leitores”.

Acontece que esse tipo de texto, ou de vídeo com conteúdo um pouco mais elaborado (ou intelectual intelectual, digamos) atinge pouca gente. As pessoas, acostumadas com o universo das redes, gostam mesmo é das frases feitas, dos clichês, dos gritos, das agressões, xingamentos… Nada muito elaborado. Apenas um texto de efeito, não de conteúdo complexo.

Eu confesso que as observações do filósofo Habermas me entristeceram um pouco. Eu não gostaria de acreditar que as pessoas preferem consumir conteúdos do estilo que elegeram Donald Trump, nos Estados Unidos. Afinal, não acho que em pleno século 21 a gente mereça uma sociedade de pensamento tão simplista.

Apenas 8% dos brasileiros sabem ler

Levantamento realizado pelo Instituto Paulo Montenegro trouxe alguns dados assustadores sobre as condições de leitura do brasileiro.

De acordo com a pesquisa, realizada em parceria com a ONG Ação Educativa, apenas 8% das pessoas entre 15 e 64 anos são proficientes em leitura. Ou seja, sabem ler e interpretar textos, tabelas, dados estatísticos etc. Em contrapartida, o percentual dos analfabetos funcionais é de 27% da população. Quem são os analfabetos funcionais? Aqueles incapazes de compreender, de interpretar textos simples.

Fiquei extremamente incomodado quando vi os dados da pesquisa. Afinal, na prática, apenas oito de cada 100 pessoas são plenamente capazes de ler, fazer inferências, contextualizações… As demais, em graus variados, possuem algum tipo de limitação na leitura – mesmo tendo sido alfabetizadas.

E o que isso acaba resultando na prática? Incapacidade de leitura do mundo. Sim, porque o grande problema não é ter dificuldade para compreender um texto escrito. O desastre é maior porque as pessoas significam o mundo de forma distorcida. Pior: acham que estão certas.

Gente com dificuldade de leitura é gente que ignora e que tem potencial de se tornar ignorante, no sentido pejorativo da palavra.

Responsabilidade da escola? Também! Mas não apenas da escola. Na verdade, a escola quase sempre é tão vítima quanto as pessoas que não dominam a leitura. Políticas públicas inadequadas criam um ambiente ruim para o desenvolvimento de boas práticas educacionais. E fazem mais: colaboram para manutenção de uma cultura presunçosa e preguiçosa, que leva as pessoas a não terem prazer no conhecimento. O efeito prático é a ausência de esforço na busca pelo saber.

Ps. Certamente, a pesquisa ajuda a explicar inclusive o que acontece no Facebook e demais redes sociais: esse universo de desencontro de ideias, ódio, agressões…

Ps2. A pesquisa foi divulgada em fevereiro de 2016.

Os sábios e os que levam pessoas à justiça

Às vezes, a gente lê um texto (ou imagem) e não consegue notar sua incrível beleza ou profundidade. Alguém precisa fazer isso por nós… Precisa chamar nossa atenção.

Foi o que aconteceu comigo ontem. Um historiador mencionou o livro de Daniel, capítulo 12, verso 3, ao falar de uma educadora que morreu na última semana. Abri o texto bíblico, que havia lido algumas vezes, mas nunca tinha me chamado atenção. Agora, as palavras saltavam aos olhos:

“Aqueles que são sábios reluzirão como o fulgor do céu, e aqueles que conduzem muitos à justiça serão como as estrelas, para todo o sempre.”

Uau! Lindo demais!! Que belas palavras… Que bela promessa! Os sábios sempre brilharão. E brilharão intensamente; possuem luz própria, encanto próprio. O que é o céu? O céu é imenso, misterioso e, ao mesmo tempo, revelador. Quanto mais olhamos, mais admiramos, mais descobrimos. Se observamos mais de perto (telescópios nos ajudam bastante), imagens ainda mais incríveis surgem diante de nossos olhos.

aqueles que levam as pessoas à justiça, serão lembrados… Serão as verdadeiras estrelas. Não uma estrela efêmera, dessas que conquistam “sucesso” com seus corpos, com as banalidades que falam, com o dinheiro que ganham… Não serão as estrelas cultuadas por valores transitórios. Serão estrelas, possuirão brilho eterno, porque terão feito a diferença na vida de outras pessoas. E isso é o que realmente vale a pena.

Bibliotecas e livros: condenados?

livros

Amo as bibliotecas. Não necessariamente as que temos… Cheias de mofo. Essas daí precisam ser modernizadas. Mas ninguém parece muito interessado em fazer isso. Apenas universidades e grandes centros de ensino recebem investimentos nesses espaços de conhecimento. As bibliotecas da cidade geralmente mal são contempladas por recursos para compra de livros.

As instituições de ensino gastam com infra-estrutura e obras porque as bibliotecas fazem parte dos critérios de avaliação feita Ministério da Educação. Além disso, não se faz educação sem livros. Mas o povo mesmo não é contemplado por bibliotecas modernas, equipadas e com bom acervo. E isso não acontece basicamente por um motivo: as pessoas não se interessam por elas. Em 2012, a pesquisa Retratos da Leituras no Brasil revelou que mais de 70% da população sabe onde estão localizadas, mas não frequenta as bibliotecas. Como os programas eleitorais apresentados pelos nossos governantes levam em conta as principais reclamações da população, as bibliotecas raramente são ou serão contempladas.

Entretanto, mais que a questão de infra-estrutura e acervo, atualmente outra questão envolve as bibliotecas: o futuro dos livros. Vão deixar de existir? E ao se questionar o futuro do livro, há governantes que preferem deixar as bibliotecas abandonadas.

Cá com meus botões, não acredito que os livros deixarão de existir. Talvez o códice possa estar em risco. Principalmente porque as tecnologias para acesso ao texto na tela começam a tornar a leitura mais agradável. No entanto, sempre existirão livros (talvez não um povo brasileiro que se torne leitor pleno). Da mesma forma que a música gravada ganhou suportes diferentes (hoje não passa de um arquivo digital), mas não deixou de existir, os livros continuarão existindo.

E até mesmo o livro, no formato que conhecemos, ainda vai resistir durante muitos anos. Isto porque os ebooks não contemplam prazeres que parecem essenciais para os leitores: emprestar o livro, por exemplo. Além disso, a fim de evitar a pirataria, há uma série de outras restrições. E o que dizer dos custos para atualização? E se o equipamento é danificado? A gente também pode perder um livro (de papel). Mas a perda de um aparelho pode significar a perda de uma “biblioteca” (nos formatos digitais).

Mas… voltando à biblioteca. Trata-se de um equívoco pensar que esse é um espaço condenado, atropelado pelas tecnologias. Biblioteca não é um depósito de livros. Nunca foi. Biblioteca é um local de promoção do saber. O livro não é a finalidade da biblioteca, mas sim o conhecimento. E este é o fundamento da construção de uma vida melhor, como disse Thomas Jefferson:

Encaro a difusão da luz e da educação como o recurso mais confiável para melhorar as condições que promovem a virtude e aumentam a felicidade do homem.

As palavras do ex-presidente dos Estados Unidos estão gravadas em letras douradas na parede da Trustees’ Room da Biblioteca Pública de Nova York. Elas servem até hoje de inspiração. E apontam para o futuro: a gente se desenvolve, cresce à medida que tem acesso ao conhecimento. Por isso, livros e bibliotecas não vão morrer. Se deixarem de existir, morreremos juntos.