A urgência do ensino da leitura

Tenho defendido a urgência do ensino da leitura, de práticas que permitam a alfabetização plena, o desenvolvimento de habilidades de interpretação de um texto.

Nenhum outro aprendizado ocorre de maneira efetiva sem que a pessoa tenha capacidade de plena de ler e interpretar um texto.

Vejamos… Se um tenho nas mãos um livro de História do Brasil e não sou um leitor proficiente, certamente não vou entender tudo que o autor ou a autora relataram. Não se trata de falta de inteligência; trata-se de falta de habilidade para compreender o texto.

Vale a mesma regra para textos da Geografia, Matemática, Biologia… E também da Literatura.

É fato que um texto científico reúne conceitos que, por vezes, são desconhecidos. Mesmo uma pessoa plenamente alfabetizada encontrará dificuldades para interpretá-lo de maneira adequada. Será necessária uma leitura atenta, talvez ler duas ou três vezes, buscar textos de apoio, de comentadores daquele autor, para que haja a compreensão.

Esse movimento de busca de compreensão de um texto científico é normal. Quando a gente não tem conhecimento prévio dos conceitos abordados na obra, é impossível ler uma única vez e já saber o que foi discutido.

Entretanto, as leituras cotidianas – uma reportagem, por exemplo – deveriam ser simples para a maioria de nós. E, lamentavelmente, muita gente até acha que leu e entendeu. Porém, quando você pergunta para a pessoa sobre o fato central ou a respeito das principais ideias, é possível perceber equívocos na leitura, erros de interpretação que motivam uma visão deturpada do que estava escrito.

Portanto, a urgência do ensino da leitura objetiva preparar pessoas que possam compreender plenamente os relatos mais variados e tenham a possibilidade de, efetivamente, interpretarem os acontecimentos do cotidiano e até mesmo acessarem o conhecimento teórico e científico sem leituras enviesadas. Afinal, o conhecimento só é possível se os parâmetros básicos para a leitura das informações estiverem corretos.

É preciso ensinar a ler

Ao longo dos anos, a qualidade da leitura tem sido uma de minhas preocupações. Não falo aqui da qualidade dos livros ou da literatura, embora eu seja apaixonado por livros e dedique diariamente um tempo a essa atividade tão importante. Falo, porém, da habilidade de interpretar adequadamente um texto.

Ainda ontem, relia os dados da última pesquisa sobre os níveis de analfabetismo no Brasil. De cada 10 brasileiros, três são analfabetos funcionais. São pessoas que não possuem as habilidades necessárias para interpretar corretamente uma única frase. Pior, parte dos analfabetos funcionais está nas universidades – ou seja, o sistema de ensino no país é tão precário que permitiu que essas pessoas chegassem ao ensino superior sem o domínio da leitura.

Mas o dado que mais me incomoda é saber que apenas 1 em cada 10 brasileiros é leitor proficiente – alguém que reúne o conhecimento necessário para ler, interpretar e fazer as conexões necessárias a partir do texto lido.

O nível do leitor não está relacionado à inteligência. Não tem a ver com a pessoa; tem a ver com o ambiente em que ela vive e o caráter da instrução recebida. A alfabetização plena, portanto, não é um ideal inalcançável.

Entretanto, no modelo atual de ensino, a leitura não é uma habilidade desenvolvida adequadamente.

Eu me surpreendo quando peço a leitura de um texto aos meus alunos na faculdade. Frequentemente, reclamam que o texto é difícil e que não conseguiram entendê-lo corretamente. Isso mostra a gravidade do problema. Note bem, sou professor na área de Comunicação, onde o domínio da leitura é requisito básico para o exercício profissional do Jornalismo e da Publicidade e Propaganda. Gente que tem dificuldades de interpretação de um texto terá problemas em comunicar uma mensagem de maneira eficiente e eficaz.

É urgente repensar as estratégias que estão sendo utilizadas na escola para preparar nossas crianças, adolescentes e jovens para a leitura.

Como eu disse, a alfabetização plena depende do caráter da instrução recebida e do ambiente em que a pessoa vive.

Isso quer dizer que é necessário estimular positivamente o aprendizado da leitura. E hoje mais que antes, porque o ambiente não é favorável ao desenvolvimento da interpretação do texto escrito.

Somos uma sociedade da imagem, do som… Uma sociedade de pessoas distraídas, de olhares superficiais. Além disso, ainda que existam muitos textos escritos nas redes sociais, são curtos, pobres de sentido e o leitor raramente é confrontado sobre a natureza do que está verbalizado. Noutras palavras, quase nunca o leitor tem seu entendimento confrontado a fim de que reconheça as fragilidades da interpretação.

Concluo dizendo: se desejamos melhorar a qualidade do ensino, temos que investir fortemente na aquisição dessa habilidade fundamental, a leitura. Sim, precisamos ensinar a ler a fim de capacitar as pessoas a interpretarem um texto. E ouso afirmar que essa tarefa deve começar da interpretação de cada frase, antes mesmo de entendê-la no contexto, na globalidade do texto.

A leitura nos liberta da ignorância

Esbarrei horas atrás com um breve texto do amigo Nailor Marques Jr sobre a leitura. Ele dizia:

“Por que ler é importante? Porque, na verdade, é o único diferencial competitivo. […] A leitura profunda e de qualidade coloca o ser humano de encontro com ele mesmo de um jeito único”.

E o professor completa:

“A pessoa reaprende a pensar, a emitir opinião… […] a se calar”.

Eu tenho sustentado que existe sim uma hierarquia de conhecimentos. Existem pessoas (algumas poucas) que possuem conhecimento e outras que apenas possuem opiniões vazias (a maioria) e as que defendem como se fossem verdades.

O que ajuda as pessoas a efetivamente ter opiniões fundamentadas é a boa leitura. E quando falo de boa leitura, falo de leituras em profundidade. Não de textos fakes que circulam no whatsapp, videozinhos, compartilhamentos de sites/blogs duvidosos que rolam por aqui no Facebook.

Sim, caríssimos/as, a leitura nos liberta da ignorância.

Livros: o universo do desconhecido

Eu gosto de ler. É verdade que leio bem menos do que gostaria. Um pouco por causa do tempo, ocupado pelo trabalho e tarefas do doutorado; mas também por me distrair com aplicativos e redes sociais (sim, eu também me pego jogando tempo fora indo do nada pro lugar nenhum).

Então me culpo por não ler mais. E me sinto muito mal quando vejo o universo tão rico de livros que nunca vou acessar. Afinal, ainda que aumente significativamente minha rotina de leitura, certamente não vou ler mais que outros mil e poucos livros até o fim da minha vida.

Bom, enquanto me pego pensando em livros, noto que a maioria das pessoas lê muito pouco. Na verdade, segundo o último relatório Retratos da Leitura no Brasil, 44% da população não tinham sequer chegado perto de um livro nos três meses anteriores à pesquisa. Isso é grave, porque um povo que não lê é também um povo de pensamento estreito e pobreza cultural.

Ler – e é claro que não se trata de ler qualquer bobagem – ajuda no vocabulário, melhora a argumentação e, principalmente, leva a gente para mundos não conhecidos. Isso é fundamental para nos tornarmos pessoas mais sábias.

Quando a gente lê, a gente dá um passo adiante, porque nos apropriamos de um saber que outra pessoa teve trabalho para construir. Isso nos coloca em vantagem, pois, na prática, eu somo a minha relação com o mundo com a relação do outro (escritor) com o mundo dele. Em mim, passam a habitar universos que até então eu desconhecia. E isso me faz ver mais longe.

Brasil vende mais livros, mas não há nada a comemorar

O Painel das Vendas de Livros registrou um aumento de 5,24% entre janeiro e 15 de julho deste ano. Foram vendidos pouco mais de 24 milhões de livros.

O faturamento também cresceu. Chegou a um bilhão e 70 milhões de reais.

Os dados parecem positivos. Porém, na prática, não significam muita coisa. Basta notar que, na contabilidade das editoras, está o álbum de figurinhas da copa do mundo – que, por sinal, foi um dos três livros mais vendidos no período.

Na verdade, a situação é preocupante no setor editorial. As grandes editoras estão em crise. E não se trata de um problema causado diretamente pelas tecnologias digitais. Ou seja, não tem a ver necessariamente com o risco do fim do livro impresso.

Tem a ver diretamente com os hábitos de leitura do brasileiro e a crise econômica. O mercado editorial brasileiro é bastante tímido. Vende-se pouco. Por outro lado, sem dinheiro, muita gente deixa de comprar livros e, pior, várias livrarias estão com dificuldades financeiras – estão inadimplentes e não ampliam seus estoques.

Ou seja, o crescimento registrado no mercado de livros neste ano não dá para comemorar. Na prática, não havia muito espaço para redução ainda maior no faturamento e nem nos números de livros vendidos. Os analistas dizem que este mercado já estava no fundo do poço. Não tinha como ser pior.

Tudo isso é muito triste. Um país de não leitores é um país onde reina a ignorância.

Três em cada 10 brasileiros são analfabetos funcionais

Três em cada dez brasileiros são analfabetos funcionais. Talvez você não consiga achar isso um absurdo. Mas eu acho. Significa que três em cada dez pessoas que leem este texto não conseguem compreendê-lo plenamente.

O analfabetismo funcional é caracterizado pela grande dificuldade de entender e se expressar por meio de letras e números em situações cotidianas. Eu escrevo e a pessoa não entende o que eu quis dizer. Eu falo, mas a pessoa não dá conta de compreender o que eu falei.

Analfabetos funcionais têm uma leitura rudimentar. São pessoas que frequentaram a escola, conhecem o código escrito, mas não reúnem as habilidades necessárias para entender um texto.

No Brasil, 38 milhões de jovens e adultos estão nessas condições. Pessoas entre 15 e 64 anos.

A pesquisa é deste ano. Trata-se de uma iniciativa da ONG Ação Educativa e Instituto Paulo Montenegro. A pesquisa foi realizada pelo Ibope Inteligência e compõe o Indicador do Alfabetismo Funcional 2018.

Para chegar a essa conclusão, os entrevistadores visitaram domicílios, aplicaram testes específicos, com questões que envolviam leitura e interpretação de textos do cotidiano – tipo bilhetes, notícias, anúncios, mapas, entre outros.

Detalhe, desde 2009, o Brasil não melhora esse indicador. Ou seja, o domínio de leitura do brasileiro é praticamente a mesma há 10 anos.

Tem mais um dado assustador. Apesar de a população brasileira ter cada vez mais estudo, mais anos na escola, o índice das pessoas que são plenamente capazes de se comunicar pela linguagem – o índice daqueles que são chamados de leitores proficientes, que é o mais alto – é de apenas 12% da população.

Agora, me diga: como pedir que as pessoas consigam analisar de forma racional os discursos dos candidatos? Impossível! Sem grandes habilidades de leitura, as pessoas são facilmente manipuladas por notícias falsas e pelas frases de efeito, cheias de apelo emocional, de políticos habilidosos.

Qual é o perfil do leitor de hoje?

O maior filósofo vivo da atualidade, o alemão Jürgen Habermas, disse, em recente entrevista ao jornal El Pais, que o leitor de hoje está muito distante do que desejado. Afinal, quando a gente escreve por aqui, por exemplo, tudo que deseja é que exista alguém que compreenda de maneira plena a reflexão proposta.

Habermas afirmou que “não pode haver intelectuais se não há leitores”.

Acontece que esse tipo de texto, ou de vídeo com conteúdo um pouco mais elaborado (ou intelectual intelectual, digamos) atinge pouca gente. As pessoas, acostumadas com o universo das redes, gostam mesmo é das frases feitas, dos clichês, dos gritos, das agressões, xingamentos… Nada muito elaborado. Apenas um texto de efeito, não de conteúdo complexo.

Eu confesso que as observações do filósofo Habermas me entristeceram um pouco. Eu não gostaria de acreditar que as pessoas preferem consumir conteúdos do estilo que elegeram Donald Trump, nos Estados Unidos. Afinal, não acho que em pleno século 21 a gente mereça uma sociedade de pensamento tão simplista.