Aprendendo com Paulo Freire: somos condicionados, mas não determinados

Ouça a versão em podcast!

A leitura de Paulo Freire nos leva a sonhar com a liberdade, com a autonomia, com a possibilidade de cada pessoa escrever sua própria história.

Paulo Freire não propôs uma educação para atender o mundo das máquinas, das tecnologias, para levar as pessoas a ganharem dinheiro. O propósito dele era fazer da educação uma ferramenta de desenvolvimento do ser.

A educação para a liberdade… A educação para a felicidade.

Tem uma frase dele que é maravilhosa. Ele disse que “somos seres condicionados mas não determinados”.

Freire afirma isso em oposição a ideia de que a genética, a cultura, as condições sociais e econômicas, a história determinariam quem somos.

Na opinião de Paulo Freire, é evidente que todos esses elementos condicionam nossa vida. Ou seja, participam de nossa formação e criam barreiras que podem impedir nosso desenvolvimento.

Entretanto, condicionar não é determinar. Não significa que, se nasci num certo ambiente, serei exatamente igual as pessoas que ali estão. Tampouco significa que minha genética vai determinar quem serei.

Todos estamos submetidos aos condicionamentos genéticos, culturais e sociais. Mas ainda assim podemos escrever nossa própria história. E a educação é a ferramenta mais poderosa para abrir novos caminhos, novas possibilidades de ser.

Paulo Freire afirma: “a história é um tempo de possibilidades e não de determinismo”. O futuro está aberto… Nós podemos construí-lo.

Em Paulo Freire, não há lugar para o fatalismo, para a desesperança. E a educação é este lugar de construção dos sonhos, de superação das ideologias que nos apequenam, que nos tornam meras peças de um jogo em que o final já está decidido.

Somos livres?

A liberdade talvez seja um dos nossos maiores valores. Mas somos livres?

Ainda ontem vi uma postagem feita por uma amiga com o seguinte questionamento: “se sou livre, por que tantas amarras?”.

Não, nós não somos livres. Nós gozamos de uma liberdade limitada. E vigiada.

Desejamos a liberdade, mas ela não é plena.

Para viver em segurança, é necessário abrir mão da liberdade.

Se queremos um trabalho, não podemos fazer tudo que desejamos. Ainda que nosso emprego seja o emprego dos sonhos, temos responsabilidades. E as responsabilidades limitam nosso ir e vir, condicionam o uso do tempo…

Se queremos uma moradia, assumimos o cuidado com esse espaço. Cuidamos da limpeza, pagamento de impostos, tarifas de serviços como água, luz, internet… Não podemos simplesmente morar. Nem mesmo fazer tudo que desejamos na casa. Afinal, existem vizinhos e impedimentos que tratam de ruídos, cuidado com o ambiente…

Se queremos o desenvolvimento pessoal, necessitamos investir anos e anos nos estudos. Isso significa ler o que não desejaríamos ler, manter uma rotina diária escolar, universitária… Nosso tempo é consumido. E se queremos fazer apenas as coisas que gostamos, somos punidos. Punidos com uma nota ruim, punidos com uma reprovação…

Porém, o condicionamento da liberdade não diz respeito apenas às formalidades da vida. Diz respeito também à convivência. Relacionamentos impõem limitações à liberdade. O convívio com outras pessoas exige o estabelecimento de regras. Isso se chama civilização.

Pra eu conviver com você, são necessários certos limites. Do contrário, eu invadiria sua individualidade. Além disso, também deixamos de viver livremente em função das expectativas alheias.

O olhar do outro é julgador, até mesmo punitivo. Se eu não entender isso, terei problemas nos relacionamentos, serei impedido de viver algumas coisas, de estar em determinados ambientes.

Esses condicionamentos da liberdade, por vezes, incomodam. Entretanto, não há outra maneira de ser gente. A nossa liberdade não é incondicional; é apenas uma utopia.

O mito da liberdade de escolha

A modernidade parece oferecer inúmeras possibilidades de escolha. Se quero uma camisa nova, a quantidade de opções é tão grande que, por vezes, não sei o que levar para casa. Vale o mesmo na hora de comprar um esmalte, um smartphone ou até mesmo um carro.

Entretanto, é ilusória a sensação de que temos a chance de escolher o que queremos.

Podemos sim escolher, desde que esteja no “cardápio” das coisas socialmente aceitas. E vai para além disso. Podemos escolher, desde que as coisas a serem escolhidas devam ser escolhidas.

Deixa eu explicar de outra forma. Você pode sim escolher qual imagem postar no seu perfil do Facebook e até sobre o que vai escrever em sua rede pessoal. Porém, você pode optar por não ter uma conta no Facebook? Talvez você responda que sim. Mas qual será a reação do mundo ao seu redor? Será que não haverá reação alguma?

Você pode escolher entre inúmeros modelos de smartphone. Mas é preciso ter um aparelho. Atualizado, moderno. Do contrário, sequer roda boa parte dos aplicativos “necessários”.

E o que dizer dos corpos? Uma pesquisa divulgada em 2016 revelou que 9 em cada 10 mulheres não se sentem plenamente satisfeitas com seus corpos. Motivo? Não possuem os corpos que gostariam (vale dizer que parte dessa insatisfação deve-se aos modelos estéticos impostos pela sociedade). Então onde está a tal liberdade? Se não dou conta sequer de ter o corpo que gostaria de ter, que liberdade possuo?

A ideia de que podemos escolher também se aplica ao sucesso educacional e profissional. E essa é outra grande mentira.

Pobre tem escolha? Escolhe emprego? Pode efetivamente decidir qual e como será sua moradia? A escola do filho?

A sociedade impõe modelos. Cria condições restritivas que impedem as pessoas de viverem plenamente.

A solidão, o abandono, a falta de moradia, a hostilidade dos vizinhos, o desaparecimento dos amigos… Nada disso ocorre por escolha. Talvez para alguns até seja efeito de erros cometidos ao longo da vida. Porém, na maioria dos casos, são condições impostas pelo modelo que temos de sociedade.

A tese da possibilidade de termos qualidade de vida (nos parâmetros dados pela sociedade capitalista) também é falsa. John Reader, num estudo, provou que, se vivêssemos com todo conforto que supostamente merecemos (semelhante a parte das famílias norte-americanas, por exemplo), precisaríamos de três planetas semelhantes ao nosso para suprir as necessidades de todas as pessoas.

Ter liberdade de escolha é um privilégio de poucos, muito poucos.

Para muitos, a liberdade de escolha, como ressalta Zigmunt Bauman, é semelhante a do ciclista que está em movimento: se parar de pedalar, para, cai. A vida acaba sendo um destino sem escolha.

Para que serve a escola?

Existe um descompasso entre qual deveria ser o papel da escola e qual ela cumpre.

Na sociedade capitalista, a escola não tem função libertadora. Embora muito seja falado sobre humanização, respeito, formação para a vida, na prática, o Estado e o mercado possuem outras expectativas. E isso se reflete na proposta pedagógica, já que as estruturas condicionam o sistema educacional.

O movimento recente no Brasil promovido pelo Escola Sem Partido apenas reafirma esse propósito: tornar a escola um espaço desprovido de reflexão, debate, questionamento. O que se espera da escola, na visão desse movimento e de boa parte da elite econômica, é que prepare as pessoas para o mercado de trabalho. Formar mão de obra, este é o objetivo.

Na Europa, autoridades ligadas à educação têm verbalizado ao longo dos anos que espera-se da educação que seja capaz de aumentar as taxas de crescimento econômico e ajude os países na competição com parceiros europeus.

Essa mentalidade não é diferente noutros países capitalistas. No Brasil, inclusive. Aqui, o único problema é que nem para isso Estado e mercado conseguem ser competentes. Falham inclusive na formação do homem-máquina.

Essa forma de pensar é dominante. Para a maioria dos estudantes – e dos pais -, educação é porta de entrada para o mercado. Acredita-se que seja uma passagem para o crescimento/desenvolvimento profissional. Mede-se inclusive a qualidade da escola pelos índices de aprovação em vestibulares, etc – nunca pelos valores éticos.

Qual o problema dessa forma de pensar? A educação torna-se um lugar de reafirmação dos valores do capital. Não promove a liberdade das pessoas. As pessoas se tornam reféns do consumo, do desejo de consumir, de trabalhar para ganhar, ganhar para consumir. E deixam efetivamente de viver. Tornam-se máquinas. Trabalham horas e horas diariamente, sacrificam família, filhos… tudo por roupas melhores, carros melhores, celulares melhores…

Está errado desejar (e lutar por) uma vida mais confortável? Não! Mas essa não pode ser a medida de todas as coisas. Temos perdido a humanidade, a capacidade de nos relacionarmos. A ética tem sido relativizada. A saúde é preterida em nome da produtividade. Parece-me que educação deveria ser bem mais que isso.

Meu direito termina onde começa o do outro

flor

Vivemos numa sociedade individualista. E que prega a liberdade do indivíduo como bem maior. Acontece que individualidade e liberdade nem sempre produzem bons resultados. Na verdade, somadas, podem fazer muito mal.

Dias atrás, enquanto desenvolvia alguns argumentos teóricos numa de minhas aulas, entramos num tema muito delicado: a relação que temos com nossos vizinhos. Pode ser algo bastante prazeroso, mas também provocar dores de cabeça.

Uma aluna contava que, domingo passado, um vizinho resolveu fazer churrasco na calçada da casa dele. Som ligado, gente bebendo, rindo, falando alto, fumaça da churrasqueira invadindo todos os espaços… Incômodo total para quem queria um domingo mais tranquilo, para quem desejava estudar, ver televisão.

Outra acadêmica comentou que, no prédio dela, uma das vizinhas deixa os filhos brincarem nos corredores, entre as portas de entrada dos demais apartamentos. Os baixinhos espalham brinquedos e outros objetos por todo o espaço. As crianças gritam, riem, brigam… E quando alguém precisa sair ou chegar, tem que desviar daquelas coisinhas todas.

Eu tenho uma vizinha que chega em casa quase sempre de madrugada. Dificilmente antes das 3h da madrugada. Está frequentemente de salto. E tem o hábito de arrastar os móveis. É rara a noite que não acordamos com o barulho dela. Na frente do apartamento, tem um dos bares mais badalados da cidade. As pessoas deixam o local muito tarde da noite. Entretanto, não sabem fazer isso sem ligar o som alto, acelerar forte e “cantar” os pneus do carro. Elas se divertem. Entendem ser o direito delas. Respeitar quem está dormindo parece significar um cerceamento à liberdade delas. 

Em todas essas situações, a gente pode pedir para as pessoas fazerem diferente. A chance de a pessoa aceitar de bom grado a reclamação é pequena. Quem age dessa maneira quase sempre acha ter direito de “ser assim”, “fazer assim”. Entende estar no direito dela. Atender pedido do outro é sentido como uma agressão a sua liberdade. Esse tipo de gente tem dificuldade para respeitar o vizinho, porque está centrada em si mesma. É a tal da individualidade em ação. 

Não gosto desse tipo de liberdade. Liberdade boa é liberdade com responsabilidade. E não apenas na relação com o vizinho. Mas em todas as práticas diárias. Quando a gente pensa no outro, se sente responsável por ele. Não vai fazer churrasco na calçada e nem ligar o som em alto volume, porque o vizinho pode estar cansado, ter tido uma noite ruim ou mesmo querer simplesmente assistir sossegado o Faustão. Quem pensa no outro, entra no apartamento em silêncio de madrugada para não acordar os vizinhos. Nem coloca os filhos para brincarem no corredor.

Quem tem responsabilidade com o coletivo, não bebe antes de dirigir. Não é só ele que corre risco, alguém inocente, que respeita as leis, pode ser vítima de sua “liberdade de escolha”. Liberdade boa é encontrar uma carteira com dinheiro na rua e tentar achar o dono para devolvê-la. É não jogar papel na rua… É usar o banheiro e facilitar o trabalho do zelador.

Cá com meus botões, entendo que tem algo errado, distorcido na visão de liberdade. Certos usos da liberdade representam uma escolha por ser melhor, por ser superior – como se pudéssemos nos “presentear” com alguns privilégios. Ser livre é ser igual sim, mas no sentido de reconhecer o outro como digno de meu respeito. É meu semelhante, é igual a mim como humano, mas diferente em escolhas, gostos, comportamentos. E isso requer que o aceite e o acolha em sua diferença. 

A sociedade precisa de chatos

Dá trabalho ir contra a maioria
Dá trabalho ir contra a maioria

Costumo brincar que sou rabugento, implicante… um chato mesmo. E penso que muita gente que passa pelo blog deve concordar. Afinal, o tempo me ensinou que devo ter minhas próprias ideias. E contrariar a maioria pode não ser a melhor coisa do mundo, mas provoca. Faz pensar.

A sociedade caminha pela homogeneidade. Há um desejo inconsciente de imitar. Basta observar o que acontece no mundo da moda. Chega-se ao ponto de usar coisas, adotar visuais que antes se abominava pela necessidade de sentir-se parte do grupo, ser aceito.

Até essa loucura toda da falta de tempo, essa correria que nos consome, é culpa desse ambiente social que exige produtividade. Se o sujeito optar por trabalhar pouco, ter uma vida mais simples, logo é taxado de vagabundo, preguiçoso.

Até os gostos musicais são impostos. Repete-se tanto uma música no rádio e na televisão que logo passa a fazer parte de nós.

O problema é que a unanimidade é burra. É irracional. Na multidão, vive-se a onda, o momento. Não se sabe muito bem por que se está lá. Entretanto, há um desejo, uma vontade de não contrariar. A pessoa passa a gostar de coisas, mas nem sabe por quê. Simplesmente faz o que a maioria faz.

Curiosamente, isso começa desde muito cedo. Ainda na infância. Não raras vezes escuto meus filhos argumentarem:

– Ah… mas o fulano faz isso.

Tá. Se o fulano faz, você tem que fazer? 

Historicamente, são os que contrariam a maioria que dão certo equilíbrio as ações coletivas. Ajudam a colocar um pouco de razão nesse mundo de emoções confusas. Vez ou outra, alguém olha pra si mesmo e consegue notar que deixou de pensar, de escrever a própria história. E dá conta de mudar de rumo porque foi provocado. Assim, desperta para uma outra vida, independente, autônoma, autêntica.

Chatos incomodam, chatos criticam, chatos nos fazem argumentar. E quando argumentamos, somos obrigados a pensar. Temos que sair de nosso estado cômodo, abandonar a passividade, deixar nossa tolice de lado. Ou expô-la. E ao nos expor, muitas vezes, descobrimos a fragilidade de nossas crenças. Notamos que nem são nossas. São apropriações de discursos alheios, mas sem origem definida.

E, sabe de uma coisa? A gente só muda de verdade, quando sai da zona de conforto, quando se confronta e rompe com a maioria.

Quem são as pessoas que mais admiramos? Aquelas que se diferenciam. Por que se diferenciam? Porque são livres, autônomas, autênticas. 

Os chatos podem não ser admirados, mas colocam nossos hábitos em xeque. Ajudam a nos descobrirmos como pessoas. E que há outras formas de viver.

Eu faço o que quero?

liberdade
Você faz? Tudo, tudinho? Aquilo que dá vontade de fazer… você faz? Sente-se livre pra fazer? Ou faz escondido? Tem que pensar duas vezes? Tem que prestar contas depois?

O conceito de liberdade é muito amplo. Ao mesmo tempo, contraditório. Somos livres, mas não totalmente. Há regras, convenções. Nem tudo que queremos, fazemos (ninguém anda nu pelas ruas, ainda que tenha muita vontade de fazer isso). E outras vezes, para fazer, é preciso dar um “jeitinho”.

Viver em sociedade é abrir mão de ser você. As regras sociais afetam nossas escolhas. A gente pode não gostar, mas elas são fundamentais. Do contrário, teríamos um verdadeiro caos. Para que as coisas funcionem nem tudo é possível experimentar. Ou, se há vontade, vive-se, mas… às escondidas.

O sujeito sente vontade de tirar o dia de folga. Não pode. Porém, inventa um desculpa e garante as horas de lazer. Contudo, o coração fica a mil, porque sabe que burlou as regras. Se for visto, está enrolado. Pode até perder o emprego.

A garota está louca para sair sábado à noite com as amigas. Mas, se falar pra mãe, não terá autorização. Então, diz que vai dormir na casa de uma delas, cria um álibi, e faz o que estava com vontade. No entanto, proíbe todo mundo de postar fotos no Facebook. Se a mãe encontrar a foto, acaba a farsa.

Em ambas situações, os desejos foram realizados. Talvez até com certo prazer. Teve aquela adrenalina, o coração palpitando… E isso dá uma sensação gostosa. Porém, permanece o sentimento de “não podia”. Atropelam-se as regras, mas fica o medo da descoberta. O prazer é pela metade, pois sempre há o risco de a “conta” ser cobrada.

Por falar em medo, o medo de ser visto, descoberto… é o principal sintoma de que ninguém é plenamente livre. Vive-se por um sistema. Quem viola o sistema, é marginalizado. É excluído do grupo. E a gente não quer isso. Então, nem que seja necessário viver de aparências, faz-se o que for preciso para permanecer no círculo social.

Por isso, de alguma maneira, somos hipócritas – uns mais, outros menos, mas todos são. Escondemos os desejos, silenciamos ou os realizamos às escondidas. E, pior, também cobramos do outro os mesmos comportamentos. Afinal, quando chegamos por aqui, disseram pra nós que há um jeito de viver. É preciso encaixar-se.

Isso vai mudar? Óbvio que não. Talvez nem seja interessante que mude. Porém, a humanidade seguirá vivendo entre dois mundos – o que é passível de mostrar e o que carece esconder. E a frustração pelos desejos não realizados, parte da natureza do próprio homem.

Ser solteiro? Ter filhos? Escolha não se questiona, respeita-se

Quem disse que é preciso ter alguém pra ser feliz?

As pessoas estão cada vez mais independentes. E não é ruim que vivam assim. Todas têm seus projetos, seus planos. E nem sempre incluem casamento, filhos… compromissos.

Dias atrás, escrevi aqui que não dá pra priorizar amor e carreira. Ou uma coisa ou outra. Dá pra trabalhar e ser feliz no emprego. Porém, se o relacionamento for o mais importante, é preciso abrir mão de muita coisa – às vezes, até de uma promoção – para fazer o romance dar certo.

Entretanto, tem gente que tem outros planos. Prioriza os estudos, o trabalho… Ou, simplesmente, não encontra a pessoa certa.

Mas sabe o que é curioso? Em função de um modelo maluco que a sociedade criou, quem é diferente sofre pressão. É até é vítima de preconceito.

Descobri, por exemplo, que uma amiga está ficando quase maluca. Já não sabe mais o que fazer. Motivo? Ela é solteira. E passou dos 30.

Não, ela não está correndo atrás de um casamento. Nem está ansiosa por um namorado. A razão é outra: as pessoas vivem questionando… Querem saber quando ela vai arrumar alguém.

As pessoas comentam pelos cantos:

– Tá vendo fulana??? Ela não consegue ninguém. Já virou titia.

Peraí!!! Quem disse que ela precisa ter uma pessoa pra ser feliz? Qual a razão pra ela ter um parceiro?

Não entendo essas coisas. As pessoas são obrigadas a terem um relacionamento? Se não tem, são anormais?

Sem contar que existe um detalhe… Se a pessoa está solteira, mas nem é por uma escolha, digamos assim… ela já sofre internamente com a situação. Aí vem o amigo, cobra; vem outro, faz uma piadinha… Pronto! A autoestima, que já não é das melhores, simplesmente desaparece. Vai pro negativo.

É verdade que crescemos dentro de uma lógica cultural. Nascemos, crescemos… tornamo-nos adultos, casamos, temos filhos… Enfim. Entretanto, não existe nenhuma lei que obrigue as pessoas a serem assim, a viverem dessa maneira.

Se a pessoa quer ser solteira, seja solteira. Quer casar? Case. Simples assim. E ninguém tem nada a ver com isso.

Vale o mesmo para filhos. A mulher que não tem filhos é vista como se não pudesse se realizar sem tornar-se mãe. Há uma imposição, inclusive de outras mulheres, para que fique grávida.

Mas a situação não para por aí… Quando tem um só, o povo fala; se tem dois, pergunta por que não foi só; e se são três… “Que maluca!!! Três filhos??? Onde já se viu?”.

Liberdade. Todo mundo adora essa palavra, mas gosta dela pra defender-se, nunca para praticá-la na relação com o outro. As pessoas têm direito de viverem como bem entendem… Escolher é um direito. É o exercício da liberdade. A forma de viver das pessoas – solteira, com filhos ou sem eles, casada ou apenas morando juntos – não tem a ver com caráter; tem a ver com individualidade. E isso a gente não questiona, respeita.