Perdoar é uma escolha dos fortes

É muito difícil perdoar. Às vezes, somos magoados de maneira tão profunda que a simples lembrança traz sentimentos horríveis e nossa vontade é encontrar uma forma de vingar-se da outra pessoa.

Entretanto, por mais que o desejo de vingança seja a reação natural diante de algo que nos feriu tanto, o que nos diferencia como humanos é justamente a capacidade de perdoar.

Perdoar é uma escolha dos fortes. É preciso decidir perdoar. Apenas quem conta com forças superiores dá conta de perdoar. E perdoar liberta. Liberta da mágoa, da ferida e nos ajuda a seguir vivendo.

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Ciúmes do que não vê

Na distância, o ciúme cria imagens, fantasmas

É horrível estar distante dela. Não saber como está, com quem está, o que está fazendo. Estaria falando com alguém? E como estará vestida? Será que está atraindo os olhares de alguém? Teria alguém a paquerando?

Relacionamentos são mesmo complicados. Estando perto ou distante, nem sempre é possível controlar certos sentimentos. O ciúme é um deles. Às vezes, nem é um ciúme exagerado, possessivo. Mas acaba machucando.

E, pra quem tem, a ausência é uma das situações mais complicadas. Na distância, falta controle. Não há o que fazer. Perde-se a referência. E a mente começa a girar. Cria imagens de todas as formas. Em alguns momentos, até fantasmas.

Enquanto as horas passam, a boca seca, o coração fica acelerado. Aparecem aqueles “tiques nervosos” do tipo mexer os pés sem parar, não conseguir manter-se muito tempo no mesmo lugar, tamborilar os dedos… O corpo transpira. Falta concentração.

O que fazer?

O negócio é mais complicado do que parece.

Costumo brincar que só resta mergulhar nos próprios sentimentos, experimentar a angústia ou enfrentá-la. Não é simples, é claro. Sentimentos assim estão dentro da gente. Não se diz: fique bem, fique em paz. Porém, é preciso entender que não faz bem para o coração. E pode desgastar o relacionamento.

Se fica só com a pessoa, incomoda, mas machuca um só. Se é transformado em cobranças, ligações a cada minuto, causa irritação e mágoa.

Acho sim que vale conversar com o outro. Tentar entender o cenário em que o parceiro ou parceira vai estar. Negociar pequenos comportamentos que desagradam e tentar manter uma certa proximidade, mesmo na distância. Entretanto, a melhor saída ainda amar a si mesmo e desenvolver um relacionamento de confiança, cumplicidade e compromisso mútuo.

Não acredito em relacionamentos remendados

Podem até sobreviver, mas as chances são poucas. Cá com meus botões, entendo que é preciso mais que disposição para fazer dar certo; há necessidade quase de um toque divino para restaurar um relacionamento ferido, machucado, cheio de mágoa.

Quando se trata de amizade, a situação é mais tranquila. Dá pra resolver. No entanto, um relacionamento amoroso com problemas dificilmente será o mesmo, mesmo que o casal tenha decidido “arrumar a casa” e continuar.

O problema todo está na memória. Perdoa-se, mas não se esquece.

Sabe, conflitos todo mundo tem. Uma relação sem confronto não é uma relação. Quem diz que não tem problema no relacionamento provavelmente não tem um relacionamento. Alguém está se anulando e ambos estão fingindo. Mentem duas vezes: para si e para o outro.

Entretanto, casais maduros não deixam de amar por causa de conflitos. Não abrem mão do relacionamento pelos desencontros cotidianos. Na verdade, o romance fica em xeque quando uma situação se instala em função de comportamentos cotidianos que desgastam e minam o amor.

Conheço gente que perdeu o relacionamento porque nunca respeitou o parceiro. Desmerecia, rebaixava.

Conheço gente que prometia algo e, minutos depois, fazia completamente diferente. Aceitava atender o parceiro e, em seguida, confrontava o combinado. Aos poucos, a confiança foi perdida.

Conheço gente que tinha ao lado a pessoa mais apaixonada, envolvida, entregue ao romance. Porém, durante meses ou anos, devolveu insegurança, gestos que fizeram sofrer, causaram dor.

Há ainda aqueles relacionamentos que passaram por uma decepção, uma traição…

Essas e outras situações acabam com o relacionamento. É como um vaso que se quebra. Não é incomum que as pessoas queiram tentar mais uma vez. E é justo que tentem. Mas o vaso quebrou. E uma vez quebrado, pode até voltar a ser usado. Porém, será um vaso remendado. Ou seja, será um relacionamento remendado.

Uma segunda oportunidade não virá isenta de lembranças, desconfianças, dúvidas. Tem que haver completa entrega pra fazer dar certo. E de ambas as partes. Não adianta só um se esforçar. O detalhe é que quase sempre os problemas que quebraram o laço que unia o casal também roubam as forças principalmente da pessoa que foi vítima. E esta já não consegue se colocar inteira pra lutar pela relação. Nesses casos, o fim parece ter data marcada. Só mesmo um milagre pode transformar água em vinho, renovando sentimentos e fazendo nascer disposição no deserto de um coração que se tornou árido por lágrimas que já não se pode contar.

Romper com o passado é ser livre para viver


Da mesma forma que lembranças nos fazem viajar no tempo, colocam um brilho em nossos olhos, podem consumir nossos dias, roubar nossa paz, tirar nossa alegria. A vida é para ser vivida; não revivida.

Acontece que muita gente não dá conta disso. Se deixa consumir pelo passado.

Vez ou outra falo sobre esse tema por aqui. E faço isso porque o passado é intrometido. Não pede licença. Vai chegando, tomando conta, fazendo sofrer.

Todos os dias relacionamentos são destruídos pelo passado. Na tentativa de seguir juntos, fazer o namoro ou o casamento funcionar – ou até mesmo uma amizade -, as pessoas tentam perdoar, esquecer coisas que provocaram e provocam muita dor. Acontece que não conseguem fazer isso e passam a viver em função do fato que machucou.

Relacionamentos são firmados no conflito. Ninguém está isento deles. Por conta disso, as diferenças surgem, os descompassos que interrompem a trajetória planejada. Brigas, palavras ásperas, mentiras ou até traições. Tudo pode acontecer entre duas pessoas.

Por amor ou conveniência, tentam seguir juntas. Mas as lembranças estão lá. O fato passou, mas segue vivo na memória.

Sabe, o passado não se esquece; perdoa-se. A gente não aperta um botão e apaga tudo. Não existe delete das memórias. Mas temos sim a chance de escolher sofrer pelo passado ou sublimar o passado.

Quando se visita o passado, o passado se faz presente. Temos que olhar pra ele e entender: passou. Machucou? Sim. Doeu? Sim. Feriu? Sim. Mas dá pra fazer alguma coisa? Não. Dá pra voltar lá e arrumar, fazer diferente? Não. Não dá.

Então, é preciso perdoar. E perdoar não significa aceitar, tolerar. Se a mágoa é profunda demais a ponto de impedir a manutenção do relacionamento, é justo rompê-lo. Porém, se as pessoas escolheram seguir juntas, não podem fazer do presente um eterno reviver do passado. Do contrário, nunca mais serão felizes.

E o perdão não deve ocorrer pelo outro. Não se perdoa por dó, pena ou favor ao outro. É necessário sublimar a mágoa sofrida por nós mesmos. Quando perdoamos, deixamos de ser escravos do outro, das lembranças, do passado. Ficamos livres. Livres para viver o momento. Livres para construir o futuro.

Quem vive sob o jugo do passado, sofre, chora, desconfia, perde a autoestima, desenvolve rancor, ódio, desejo de vingança, torna-se ansioso e até depressivo. Ou seja, não vive para si, vive em função do outro.

A vida é única. E curta demais. Não pode ser consumida por erros que nunca são serão reparados.